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Cinema ao Ar Livre 2017 – Programação

 

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas 4ªs feiras de Julho e Agosto.

A programação será a seguinte:

12/07 – La La Land, de Damien Chazelle

19/07 – Top Hat (Chapéu Alto), de Mark Sandrich, com Fred Astaire e Ginger Rogers

26/07 – Lion – A Longa Estrada para Casa, de Garth Davis

2/08 – Deusas em Fúria, de Pan Nalin

9/08 – Políticos não se Confessam, de Roberto Andò

16/08 – Hell or High Water – Custe o que Custar!, de David Mackenzie, com Jeff Bridges

23/08 – Hidden Figures (Elementos Secretos), de Theodore Melfi

30/08 – Jackie, de Pablo Larraín, com Natalie Portman

Crianças e Sócios – 1 €

Adultos – 2€

 

28 de Junho, 19h: Três filmes de Manuel Mozos

28 de Junho 19h | “Cinzas e Brasas”

                               “A Glória de Fazer Cinema em Portugal”

                                  “Ruínas”

Realização: Manuel Mozos

“Cinzas e Brasas”

 

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Intérpretes: Ana Ribeiro, Gustavo Sumpta, Isabel Ruth

Portugal 2015 | Ficção | 21’ | M/12

Dulce (Isabel Ruth) é uma escritora que vive isolada no campo. Algures no tempo Dulce (Ana Ribeiro) conheceu Rui (Gustavo Sumpta), detido por um qualquer crime e sobre quem quis escrever um romance.

Agora, largos anos depois de terem perdido contacto Rui, já em liberdade, volta para encontrar Dulce… por quem ainda tem uma tórrida atracção.

O argumento de Luís Lopes leva o espectador a uma estranha viagem sobre a solidão, o desejo, a beleza, a loucura e os excessos. A “Dulce” interpretada por Ana Ribeiro aparenta ser uma mulher ambiciosa, alguém capaz e disposta a tudo para que os seus objectivos mais primários sejam satisfeitos e, no seu caso, estes prendem-se com a vontade extrema em alcançar fama e sucesso. Por sua vez a mesma “Dulce”, agora interpretada por Isabel Ruth, é uma mulher por quem o tempo passou, alguém que nunca conseguiu – ou quis – estabelecer qualquer tipo de relação mais pessoal e que passou pela vida sem realmente a viver apenas cumprindo objectivos de interesses concretos.

Agora que a vida parece dissipar-se muito rapidamente, “Dulce” regista uma solidão incomparável; vive só e não contacta com ninguém até que “Rui” surge novamente na sua vida, mas enquanto que os anos claramente passaram por ela e o envelhecimento seja notório, “Rui” é um homem com o mesmo olhar intenso pelo qual os anos não parecem ter surtido qualquer tipo de efeito.

Entre as brasas – o desejo ardente – e as cinzas – o apagar de uma vida – “Dulce” vive nas margens de uma lagoa como que numa espera de uma vida que não tem e de uma morte que será incerta, qual purgatório.

Isabel Ruth é, para quem ainda tinha dúvida, uma força. A confiança com que agarra as suas personagens não tem limites e desde o primeiro instante percebemos que aquela mulher que interpreta é maior do que a própria vida – independentemente de concordarmos ou não com a forma como a vive. Despojada – ao que percebemos – voluntariamente de qualquer tipo e laços e ligações em nome de um sucesso obtido graças ao(s) seu(s) romance(s), a sua “Dulce” é uma mulher que vive numa margem entre o desejo e a amargura. Alguém que pode eventualmente ter sentido a necessidade de partilhar a sua vida com alguém mas que, ao mesmo tempo, percebe que ao fazê-lo iria “condenar” a sua total liberdade e objectivos. Intensa e sedutora, a curta-metragem Cinzas e Brasas é um firme e criativo regresso de Manuel Mozos à direcção de uma obra de ficção e mais um excelente marco representativo de uma diva do cinema nacional como o é Isabel Ruth.

Excerto do texto publicado por Paulo Peralta no dia 29 de Abril de 2015 no sítio Cineuphoria. (http://cineuphoria09.blogspot.pt/)

 

“A Glória de Fazer Cinema em Portugal”

 

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Intérpretes: António Salgueiro, Cidália Moreira, Filipe Lito, Filomena Filipe, João Pontes, José Nobre, Maria Adelaide Maio, Maria das Dores Arteiro, Pedro Cardoso, Ricardo Leite, Samuel Mira, Sérgio Costa

Portugal 2015 | Ficção | 16’ | M/12

O título é todo um programa: A Glória de Fazer Cinema em Portugal.

Vem de uma carta endereçada pelo escritor José Régio ao seu amigo Alberto de Serpa, e define também a mais recente curta-metragem de Manuel Mozos, na forma de uma investigação sobre a origem de uma misteriosa bobina de filme mudo descoberta em casa de um habitante de Vila do Conde. Essa bobina corresponderia à estreia por trás da câmara de Régio, que manifestara na tal carta a intenção de fundar um grupo de cinéfilos dispostos a introduzir em Portugal o cinema artístico. A bobina, cuja existência nunca teria sido confirmada, teria sido o único resultado prático dessa ambição, visto que daí para a frente o escritor apenas surgiria ligado ao cinema através da crítica que escrevia na lendária revista Presença, ou em adaptações cinematográficas de obras suas – várias delas (como O Meu CasoBenilde ou a Virgem Mãe) assinadas por um grande amigo e companheiro seu de tertúlia chamado Manoel de Oliveira.

Duas semanas após a estreia de Glória de Fazer Cinema em Portugal no Curtas Vila do Conde, que produziu o filme, Manuel Mozos, sentado numa pastelaria lisboeta, ri-se ao recordar a reacção de uma espectadora à saída da sala. “Uma rapariga, lá de Vila do Conde, disse-me: ‘você a mim não me engana! Eu compro peixe todos os dias a uma daquelas senhoras!'”

A reacção da espectadora confirma a definição que Mozos faz desta curta-metragem encomendada pelo festival, que é, na verdade, uma invenção à volta de factos e pessoas reais. “É um divertimento,” explica, “e foi essa a intenção que tivemos.” O projecto inicial era muito mais documental, centrado na ligação do escritor ao cinema. “Fizemos uma investigação, junto de pessoas ligadas ao Régio e ao Oliveira, e deparámos no Centro de Memória de Vila do Conde com a carta, que existe realmente. A ideia de não nos cingirmos a uma coisa exclusivamente documental partiu do Miguel Dias”, um dos directores do Curtas e produtor do filme. E com a entrada em cena do investigador e artista vimaranense Eduardo Brito, que trabalhou o argumento, o filme descolou “cada vez mais em direcção à ficção”. “Mas sempre com a intenção de deixar uma coisa um pouco dúbia: até que ponto seria uma ficção ou se haveria aqui um lado verídico…”

É em parte isso que explica as constantes piscadelas de olho cinéfilas, cúmplices, de A Glória de Fazer Cinema em Portugal, que é dedicado a Manoel de Oliveira, e a outro dos elementos da tertúlia regular de Régio, o padre João Marques (1929-2015), que foi director do Centro de Estudos Regianos. Mozos reconhece a presença tutelar de Oliveira, embora o lendário cineasta portuense não tenha estado envolvido no projecto: “A Glória acaba por ter a ver com um certo humor do Manoel, particularmente em alguns filmes mais próximos da memória dele e da sua relação com o norte do país. Mas não foi uma coisa pensada. O filme foi delineado em 2014, ainda ele era vivo, mas a questão de se falar com ele durante o processo de produção estava um bocadinho posta de parte, devido ao seu estado de saúde.”

Jorge Mourinha 

“Ruínas”

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Portugal 2009| Documentário | 60’ | M/12

O cineasta Manuel Mozos filmou edifícios em decadência e ofereceu-lhes histórias. Nesse cruzamento de imagens e de textos fala-se, em “Ruínas”, de um país mais de misérias do que de grandezas. Isto é Portugal. “De grandes esperanças mas, ao mesmo tempo, de uma certa mesquinhez, uma coisa de remediado”. Belíssimo.

Há quanto tempo ninguém andava por aqui? Quem se lembra ainda do que aqui se passou?
Manuel Mozos tem por hábito ir anotando num caderno coisas destas: lugares, uma notícia que leu numa revista, uma referência de um texto. O que queria fazer em “Ruínas” – o filme, uma produção de O Som e a Fúria – era cruzar essas coisas. Queria filmar os espaços vazios, sim, mas queria povoá-los, dar-lhes vozes, sons, fazê-los habitar por fantasmas que, se calhar, não eram os fantasmas desses espaços – eram outros, que obrigaram os primeiros a chegar-se para o lado e a deixá-los instalar-se também.

“Ruínas” é uma sucessão de imagens de espaços que o país deixou para trás, que esqueceu, mas que não desapareceram. Muitos permanecem, de pé, numa dignidade silenciosa, abandonados mas não vencidos. Ninguém passa por eles, mas eles ainda ali estão.
“O que me interessa, quer nos espaços quer nos outros materiais que utilizo no filme, é serem coisas que acho interessantes e que se diluem, se perdem. Achava importante dar-lhes alguma vida, tentar que não desaparecessem completamente”, diz o realizador. Não se trata de um olhar nostálgico ou saudosista, sublinha. “Mas são sítios que têm um lado poético, de coisas que existiram, que fizeram parte de histórias deste país.”

Inicialmente pensou usar excertos de filmes antigos, postais, ou até encontrar pessoas que pudessem contar histórias sobre aqueles sítios. Pensou, inclusivamente, em alargar o filme a outras coisas que estavam a desaparecer, “profissões, jardins, matas, falar da transformação de certas coisas, da construção de campos de golfe ou do efeito das auto-estradas nos percursos dos animais”, não numa perspectiva sociológica mas apenas como uma constatação de que é assim. Mas à medida que ia filmando foi abandonando essa ideia. O filme foi-se tornando cada vez mais depurado até chegar ao essencial: espaços vazios e sons.

Alexandra Prado Coelho (Jornal Público)

 Manuel Mozos nasceu em Lisboa, em 1959. Tem o Diploma da Escola Superior de Teatro e Cinema, especialização em Montagem, área principal em que desenvolveu a sua actividade enquanto técnico. Trabalha no ANIM – Cinemateca Portuguesa, Museu do Cinema.

Filmografia resumida, enquanto realizador: Cinzas e Brasas [2015] • A Glória de Fazer Cinema em Portugal [2015] • João Benard Da Costa – Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei [2014] • Ruínas [2009] • 4 Copas [2008] • Aldina Duarte: Princesa Prometida [2008] • Xavier [1991-2002] • …QuandoTroveja [1998] • Cinema Português…? Diálogos Com João Benard Da Costa [1996] • Lisboa No Cinema – Um Ponto De Vista [1994] •

Um Passo, Outro Passo E Depois… [1990]

Cinema ao Ar Livre – Programação

SPOTLIGHT, l-r: Rachel McAdams, Michael Keaton, Mark Ruffalo, Liev Schreiber, Brian D'arcy James, 2015. ©Open Road Pictures

À semelhança dos dois últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do Parque de Campismo), todas as 4ªs feiras de Julho e Agosto.

A programação será a seguinte:

06/07 – O Caso Spotlight, de Tom McCarthy (Óscar de Melhor Filme do Ano) Adiado para dia 21 de Julho, à mesma hora (21.30h)

13/07 – Truman, de Cesc Gay

20/07 – O Físico, de Philipp Stölzl

27/07 – Brigadoon: A Lenda dos Beijos Perdidos, de Vincent Minnelli

03/08 – Shun Li e o Poeta, de Andrea Segre

10/08 – Bus Stop, de Joshua Logan (com Marilyn Monroe)

17/08 – Sideways, de Alexander Payne

24/08 – Ruth & Alex, de Richard Loncraine (com Morgan Freeman e Diane Keaton)

31/08 – Sabrina, de Billy Wilder (com Audrey Hepburn e  Humphrey Bogart)

PREÇO ÚNICO – 1 €

 

21 de Junho, 19h: “A Casa das Mães”

 

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Realização: Philippe Constantini

Portugal 2015 | 131’ | M/12

 

Numa das minhas frequentes estadias em Lisboa conheci por acaso a Casa de Santo António e confesso que este lugar e o seu objectivo me fascinaram logo: uma casa que recebe adolescentes grávidas ou jovens mães, pré- ou recém-mamãs, e as tenta preparar para o futuro. Nos meus filmes procuro o encontro e testemunho de uma relação de confiança estabelecida ao longo do tempo e sobretudo uma cumplicidade com as pessoas filmadas. Durante dois anos, partilhei a vida destas jovens mães em plena adolescência, algumas só com 14 anos, assolada por conflitos pessoais e familiares decorrentes da sua nova situação. A regra que estabeleci para mim mesmo ao longo destas filmagens foi apenas a de acompanhar ao longo do tempo um grupo de pessoas, observar sem preconceitos os seus comportamentos para tentar entender a lenta e subtil transformação do seu ser. No vai e vem entre a aprendizagem individual do “tornar-se mãe” e a participação numa forma de vida colectiva surge uma transformação radical do comportamento e sobretudo da visão do mundo. É certo que nem tudo pode ser cor-de-rosa neste universo fechado, e inúmeras tensões e rivalidades surgem inevitavelmente. Como é que uma jovem mãe (ou futura mãe) enfrenta este novo estado com o qual é subitamente confrontada? Acabadas de sair da adolescência, estas jovens têm de bruscamente tornar-se adultas, mesmo antes de terem alcançado uma certa maturidade. Trata-se de enfrentar o maior desafio com a maior das responsabilidades: assegurar o bemestar e a segurança de uma criança. Como é que se instala essa noção de responsabilidade maternal e de amor por uma criança que, na maioria dos casos, não foi desejada? Como é que, ao longo de alguns meses, se adquire os valores ensinados pelos responsáveis que as rodeiam? Como é que se projeta o futuro?

Philippe Constantini

 

Philippe Costantini é um realizador francês especialmente ligado a Portugal, país onde viveu vários anos. Conheceu e trabalhou com alguns cineastas e técnicos portugueses (entre os quais António Reis, Fernando Matos Silva, Rui Simões, Alberto Seixas Santos, Acácio de Almeida…) e realizou vários documentários (uma trilogia sobre a aldeia de Vilar de Perdizes, rodada entre 1976 e 1988, com os filmes: Terra de Abril, Os Primos da América e Pedras da Saudade). Actualmente, regressa a Portugal várias vezes, onde permanece algum tempo. Philippe Costantini trabalhou muitos anos como director de fotografia nomeadamente nos filmes de Jean Rouch

 

 

14 de Junho, 19h: “Axilas”

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Realização: José Fonseca e Costa

Portugal | 2016, 97′, M/16

Para quem teve o privilégio de conhecer Fonseca e Costa e trabalhar com ele, dar os primeiros passos no mundo do cinema português acompanhado por um mestre, conviver com o realizador e também com o ser humano que olhava em redor e via o mundo a seu modo, com uma realidade acutilante que lhe despertava massivas críticas e que o inspirava nas suas obras, pode sentir ter sido bafejado pela sorte num mundo em que boa parte das pessoas são cobardes por não quererem enfrentar as realidades que passam em cortejo à nossa volta.

Na obra que José Fonseca e Costa nos legou quase tudo isso está lá. O importante são as pessoas, as de coragem e as cobardes. Ali não existem bons nem maus, somente pessoas e o resultado em imagens e sons apreendidos no gizar da obra que se formava peça a peça, frame a frame, no imenso cinecérebro do criativo Fonseca e Costa.

Foi fazer “fitas” para outro lado e deixou-nos este Axilas – não como um ponto final mas sim como garantia de continuidade. Talvez que agora o passem a conhecer e dar o devido valor. Para onde foi deverá ser muito mais e devidamente bem considerado. Mais e melhor do que aqui neste Portugal pequenino, abafante, de compadrios, onde um tão grande do cinema não cabia. Liberdade, enfim, Zé. (MM / PG)

Sinopse de Axilas

Lázaro de Jesus é o filho adoptado de uma senhora rica de Lisboa, a quem chama Avó. É ela que o apresenta ao Padrinho, um grande empresário que o toma como seu protegido, e a Angelina, a mulher com quem a Avó pretende que ele se case. Mas Lázaro tem outros interesses ocultos, o mais importante dos quais é uma fixação obsessiva pelas axilas femininas. Quando vê a violinista Maria Pia a tocar, Lázaro apaixona-se de imediato e passa a viver em função dela, o que irá precipitar um final absolutamente imprevisível.

Perante o enigma do feminino

Foi o filme final de José Fonseca e Costa (1933-2015): “Axilas”, baseado num conto de Rubem Fonseca, faz o balanço de uma temática centrada na relação entre o desejo masculino e o carácter insondável das personagens femininas.

Filme paradoxal, sem dúvida, este “Axilas”. Desde logo, porque sabemos que será, para sempre, um objecto marcado por uma ausência: José Fonseca e Costa faleceu em Novembro de 2015 e já não o pôde concluir — num trabalho de invulgar paciência e dedicação, Paulo MilHomens rodou as cenas que faltavam e organizou a montagem.

Depois, porque mesmo reconhecendo que “Axilas” nem sempre encontra o equilíbrio necessário entre um dramatismo demasiado “simbólico” e uma ironia algo bizarra, à beira do burlesco, talvez seja inevitável reconhecer também que estamos perante um objecto eminentemente pessoal — dir-se-ia que Fonseca e Costa quis sistematizar o tema (nuclear no seu universo) da relação entre o desejo masculino e o carácter insondável das personagens femininas.

Nesta perspectiva, creio que se pode considerar que “Axilas”, baseado num conto de Rubem Fonseca, estabelece uma relação muito directa com “Os Cornos de Cronos” (1991). Em ambos encontramos uma personagem masculina à deriva que enfrenta o enigma do universo feminino num misto de atracção e distanciação.

A personagem de Lázaro de Jesus, a que Pedro Lacerda procura emprestar uma calculada ambivalência dramática e moral, surge, assim, como uma espécie de herói sem heroísmo, uma marioneta da sua própria imaginação. Com todas as suas fragilidades (por exemplo, na desigual performance dos elementos do elenco), “Axilas” fica como um testamento imperfeito de um cineasta que sempre perseguiu uma ideia de perfeição.

Crítica de João Lopes, RTP, em Cinemax

 

7 de Junho, 19h: “John From”

 

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Portugal 2015|100’|M/12

Realização: João Nicolau

Intérpretes: Júlia Palha Clara Riedenstein Filipe Vargas Leonor Silveira Adriano Luz

O filme de Verão, das férias grandes, das tardes intermináveis, do tépido tédio entorpecedor, é um dos “géneros” mais marcantes do cinema português. Como se o sol e o calor, a luz brilhante e a languidez dos movimentos, aquecessem, rejuvenescessem esta cinematografia algo morna, um tanto cansada. Se o “género” não é recorrente – e, nesse ponto, João Nicolau tem razão: o nosso cinema é tão raro que nada é propriamente recorrente -, traz consigo gratas recordações, que talvez o façam parecer mais importante do que realmente é. As do azulíssimo mar algarvio de À Flor de Mar (1986), no qual César Monteiro deixou afogar a verrina habitual, as da branquíssima localidade costeira de Uma Pedra no Bolso (1988), onde Joaquim Pinto punha o protagonista no mais luminoso “castigo” de que há memória, entre tantos (vá, alguns) outros exemplos.

John From (2015) destaca-se desta linhagem (a que não quer pertencer), por ser um filme de Verão citadino. Exceptuando um brevíssimo interlúdio balnear, toda a acção decorre em Telheiras, um dos bairros mais recentes de Lisboa. Como lembra Nicolau, é dos poucos construídos e pensados de raiz: a sua arquitectura é rectilínea, espaçosa, moderna. E colorida – o elevador, centro nevrálgico do edifício meio brutalista onde habitam as personagens principais (no qual as miúdas deixam bilhetinhos uma à outra), é muito azul por fora e vermelho vivo por dentro -, bem ao contrário do centro da capital, mais escuro, mais vetusto, de uma fotogenia de postal. É uma geografia pouco vista no cinema português, e menos vista ainda nos referidos filmes de Verão, quase sempre filmados à beira-mar, longe do rebuliço urbano.

Só que não há qualquer rebuliço em Lisboa no mês de Agosto. É uma cidade fantasma, onde nada se faz, de maneiras mais ou menos inventivas. Enche-se a varanda de água e apanha-se banhos de sol. Vai-se à junta de freguesia tocar órgão, bebe-se um café, dá-se uma volta ao bilhar grande e volta-se para casa. Meia-dúzia de rituais para preencher o tempo. É este o dia-a-dia de duas miúdas dos seus quinze anos, Rita e Sara (fabulosas Júlia Palha e Clara Riedenstein, de uma desarmante naturalidade), cúmplices nesta errância prazeirosa, a lembrar outros pares do cinema, particularmente o formado por Enid e Rebecca em Ghost World (Mundo Fantasma, 2001). A falta de atrito é tanta que Rita, um pouco por desfastio, decide apaixonar-se por um homem mais velho.

Não se pense que John From segue pelos caminhos do drama (no sentido de conflito) ou vai abordar a pedofilia ou algo semelhante. O filme foge como o diabo da cruz de qualquer questão “importante”. Os problemas das personagens são muito comezinhos: uma certa desatenção dos pais (Adriano Luz e Leonor Silveira, descontraidíssimos), o namorado de que não se gosta muito, o que vestir para a festa de logo à noite, o metro que passa na estação sem parar. Ou melhor, são tão grandes como uma paixão adolescente. E para provar quão poderosa esta pode ser, o filme, às tantas, tranforma-se nela, “é” a própria paixão adolescente. O universo perfeitamente naturalista dos primeiros momentos vai sendo contaminado, aos poucos (os papéis voadores, o carro-fantasma, o nevoeiro), pela fantasia de Rita, representada no seu interesse obsessivo pela Melanésia – conjunto de ilhas do Pacífico, sobre o qual o seu amado, um repórter fotográfico, faz uma exposição – até ser completamente invadido no final.

É um exotismo de trazer por casa – muito distante do turismo cinematográfico, cada vez mais reprovável -, cheio de pinturas faciais, música etnográfica, bichos perigosos, humanos monossílabicos, vegetação luxuriante e óbvios efeitos especiais (incluem CGI manhoso). É tudo meio a brincar, feito pelo prazer infantil (primitivo) de colorir, às vezes por fora das linhas. No entanto, e não sei o João Nicolau gostaria muito da comparação, o realizador português parece ter aprendido a lição de Apichatpong Weerasethakul: o lado maravilhoso/maravilhado da fantasia revela a sofreguidão e a angústia subjacentes. Ou seja, se John From é um filme em estado de graça, não desconhece a desgraça. E é para ser levado a sério.

João Lameiras

31 de Maio, 19h: “Irmãos”

 

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Realização: Pedro Magano

Portugal | 2015 | 77’ | M/12

Uma ilha prostrada à fé destes homens. Um ritual único de esperança e de partilha.

Uma tradição com mais de 500 anos.

 

Rodado nos Açores, em Março de 2015, o documentário “Irmãos” é realizado por Pedro Magano, tem produção da Pixbee e conta com o apoio da Secretaria Regional da Educação e Cultura dos Açores e da Associação de Municípios da Ilha de São Miguel.

Ao longo de 71 minutos, o documentário mostra esta tradição secular e toda a grandiosidade da natureza da ilha e dá-nos a conhecer sobretudo pessoas, irmãos, a comunidade de São Miguel, e não apenas o que é a romaria. Ao longo do filme vamos perceber a união que existe entre estes irmãos, de diferentes gerações, e como cada um deles vive a sua romaria. Patrício é o mais novo do grupo que, com apenas 12 anos, carrega a cruz e conduz os 53 homens do Rancho de Ponta Garça, que acompanhámos durante uma semana.

Mas neste filme não há só homens de fé e momentos de oração. Há brincadeiras, há abraços, há emoção, há cansaço, há almoços oferecidos pela comunidade que acolhe estes irmãos cada noite, em casas diferentes. Convidamos o público a descobrir uma tradição única, personagens cativantes, uma comunidade que se verga aos pés destes irmãos, durante toda a quaresma e fica em romaria, tal como eles.

“Irmãos” pretende imortalizar esta tradição, que acontece há mais de 500 anos, e que é ainda desconhecida um pouco por todo o mundo, incluindo nós portugueses. Quer retratar este evento que acontece todos os anos, juntando centenas de homens e crianças que caminham mais de 300 quilómetros, alinhados, pelas estradas e trilhos da ilha de São Miguel, rezando por eles e pelos seus.

O documentário “Irmãos” venceu o Grande Prémio Portugal Sou Eu e Prémio de Melhor Montagem no 21º Festival Caminhos do Cinema Português, estando ainda em fase de seleção para outros festivais internacionais de cinema.