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30 de Outubro, 19h: “Ramiro”

ramiro

Realização: Manuel Mozos

Intérpretes: António Mortágua, Madalena Almeida, Fernanda Neves

Port, 2017, 99′, M/12

Ramiro, uma comédia lisboeta, com certeza!

Momento feliz do cinema português com o regresso de Manuel Mozos à ficção. “Ramiro” é uma comédia lisboeta sem bloqueios.

Pomo-nos a jeito. Ficarmos ao lado de uma personagem rabugenta, porta–estandarte de uma Lisboa onde ainda era possível encontrar tascas e pedir minis. Este Ramiro, alfarrabista trintão, está a ficar cada vez mais rezingão. Os dias passam e nem o cão e nem os amigos do bairro são capazes de lhe matar uma frustração que não passa. A dada altura, alguém entra de repente na sua vida e a tal pirueta concretiza-se. O nosso Ramiro vai aprender que é preciso olharmos para o mundo, vermos melhor a vida dos vizinhos e respirarmos, de preferência, bem fundo. A poesia está ali ao lado…

O novo filme de Manuel Mozos, cineasta maior do cinema português contemporâneo, é o seu filme mais off. Uma “comédia delicada” que é sobretudo uma adoção de humor subtil, não sendo por acaso que o argumento venha das canetas de Mariana Ricardo e Telmo Churro, habituais argumentistas de Miguel Gomes.

Mas a proeza maior deste Ramiro é nunca resvalar para outros tipos de cinema. Melhor, sente-se que há uma fortíssima ressonância autobiográfica, mesmo quando não se desvia num centímetro do conceito de estudo de personagem, neste caso uma grande personagem, Ramiro, símbolo de um urbano-depressivo que era tão fácil encontrar na Lisboa antes da Lisboa dos turistas (lá bem pelo meio, outro dos temas aqui é a Lisboa que se vai…). Mas, para além da “fofura” do conto do urbano-depressivo, Ramiro vale também pelo rosto magoado de António Mortágua, ator-revelação que prova que o cinema português pode confiar de braços abertos no teatro português.

O Sr. Ramiro é um poeta que vê a vida dos outros. Nós olhamos para ele com olhos de cinema e saímos encantados. Ajuda também tudo isto ser ao som da música de Bruno Pernardas.

Escrito por Rui Pedro Tendinha para Diário de Notícias.

 

 

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23 de Outubro, 19h: “Cabaret Maxime”

Cabaret

Realização: Bruno de Almeida

Intérpretes: Michael Imperioli, Ana Padrão e David Proval

Port, 2018, 94′, M/16

“Existe uma beleza triste na derrota”, Fernando Lopes numa das suas viradas a ator, neste caso, em uma presença num dos filmes de Bruno de Almeida [The Lovebirds], condensou toda uma obra a um singelo e sentido reparo. Foi nas recordações ao seu Belarmino que Lopes, envergado a personagem-tributo, falou-nos do boxe com uma “vivaça melancolia”, um fado essencial, mas destruidor da alma humana. Não é preciso ser pugilista para encarar o boxe como o mais romantizado dos desportos no cinema e Bruno de Almeida guardou para si tais signos para impor a sua investigação no projeto seguinte – Bobby Cassidy – um documentário por si vergado em melancolia e compaixão a Belarmino.

De boxe e pugilistas o seu novo filme nada tem, mas o desporto de “murraças” e “ganchos” é somente uma aura metaforizada neste Cabaret Maxime, o tango entre dois e o pesar do derrotado, não pelo ringue, mas pela vida, mais precisamente, as mudanças que o atingem. Porém, foi no exato filme que Fernando Lopes debitou tal citação, que Michael Imperioli, entre o quotidiano lisboeta, é encantado por uma das sereias da cidade, Ana Padrão. O encontro dos dois levará ao desfecho do filme-mosaico de 2007. O casal reencontra-se, ou diríamos antes, nós o reencontramos, agora envelhecidos e cansados. Ele, Imperioli, o gerente de um cabaret em vias de extinção mas que resiste arduamente às “modernizações” da noite hedonista. Ela, Padrão, é agora uma “velha” estrela de palco, Stella (“que significa estrela”), perdida e sem norte, por entre o passado glorioso e o futuro incerto.

O casal “brilhante” de The Lovebirds é transformado agora em dois seres autodestrutivos que deambulam por entre um Cais Sodré convertido a “não-lugar”. Atmosférico e sobretudo fascinado pelo seu próprio universo, Almeida assume-se como naufrago nestas andanças noturnas, por entre o veludo vermelho que compõe o pano do seu espetáculo e pelos novos freaks que se pavoneiam em iluminações-holofotes. São os circos dos novos tempos … correção … dos tempos passados. Se existe em Cabaret Maxime a apetência de recriar um biótopo que nos agarre enquanto espectadores, sem esquecer pelo meio as menções do cinema narrativa (storyteller como muitos gostam de “estrangeirar”), existe também uma melancolia derrotista que nos confronta, mais do que confortar (apesar de desejarmos que a nossa vida contenha as intervenções de John Ventimiglia). É deixar para trás os vestígios de épocas expiradas para prevalecer o modernismo ou o modismo de ocasião, temática que parece afrontar as divagações de Imperioli por entre a montra de bares e danceterias.

O grande senão destes convites irresistíveis por ambientes povoados de criaturas fora de horas é o fascínio em demasia de Bruno de Almeida na sua criação cénica – não continuando, sobretudo, essa experimentação sensorial sem cortes nem espaços para acolher a dita narrativa, completamente enfaixada em finais fáceis. Porque tal como acontece nos contos da noite, o fácil não é propriamente a palavra que nos acompanha nestas ruas da “amargura”.

Escrito por Hugo Gomes

 

 

 

 

 

 

16 de Outubro, 19h: “A Casa”

 

A Casa

Realização: Rui Simões

Intérpretes: Rute Batalha Pires, Leandro Pires, Reinaldo Colombo

Port, 2017, 80′, M/12

Documentário de Rui Simões sobre a Casa dos Estudantes do Império, criada por Salazar em 1944 e encerrada em 1965

Nascida no Estado Novo para controlar os estudantes ultramarinos, a Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa e com delegações em Coimbra e Porto, foi fundamental nas lutas de independência das colónias portuguesas. Por aquele ponto de encontro passaram futuros líderes dos movimentos de libertação como Agostinho Neto e Amílcar Cabral.
O documentário A Casa recupera memórias de testemunhos dos sobreviventes da Casa, ficcionalizando paralelamente excertos de “A Geração da Utopia”, de Pepetela.

09 de Outubro, 19h: “Aparição”

Aparição

Realização: Fernando Vendrell

Intérpretes: Jaime Freitas, Victoria Guerra e Rita Martins

Port, 2018, 115′, M/12

Esta sessão contará com a presença do Realizador.

“Aparição”: Fernando Vendrell fala de história de amor e morte na Évora dos anos 50

A adaptação da obra de Vergílio Ferreira mergulha na vida de Évora dos anos 50, abordando a vida de um jovem professor idealista cujo destino cruza-se com o de três irmãs dentro de um ambiente repressivo e conservador.

O SAPO Mag conversou com o realizador, Fernando Vendrell, sobre a sorte de ter Victória Guerra como o vulcão feminino que provoca o descontrole do protagonista (vivido por Jaime Freitas, protagonista de outro trabalho recém-estreado, “Amor Amor”), as muitas questões agradavelmente filosóficas propostas pelo material de origem e até alguns episódios caricatos, como “um obsessivo grafiteiro de Évora” que andou a atrapalhar a produção…

RECUO NO TEMPO E NO ESPAÇO

“Este filme representa uma rutura na minha carreira”, diz Vendrell.

“As minhas três primeiras longas-metragens [“Fintar o Destino”, 1998; “O Gotejar da Luz”,  2002; “Pele”, 2006] fecham entre si um ciclo africano, que abordava questões de identidade e colonialismo”, recorda.

A preocupação de estar a adaptar uma obra que pudesse parecer fora de tempo ao espectador atual esteve presente desde o início.

“Nós fizemos um esforço para ser contemporâneo. No início havia essa ideia de estar a adaptar um romance datado, de estar a produzir um filme que as pessoas veriam por obrigação – até por ser muito difícil para os atores falarem da forma como os diálogos estavam no livro”, explica o realizador.

Com esse sentimento em mente, o guião inicial, que reproduzia vários diálogos do próprio livro, foi sendo reescrito.

“Hoje pode-se perceber no filme que existe um grande diálogo com a contemporaneidade – de uma forma diversa há muitos temas que permanecem. Hoje não há censura, castração, repressão, mas ainda existem sistemas na sociedade que não nos obrigam a pensar, dificultam a afirmação da diferença e não capitalizam da melhor forma as valências e energias próprias da juventude”, observa.

DO HUMANISMO AO INDIVIDUALISMO

Sem atirar-se de uma forma cega no “fait-divers”, “Aparição” não descura os elementos filosóficos. Nos anos 50, o humanismo e a fé no futuro iam cedendo terreno a outros valores e a própria obra de Vergílio Ferreira trata essa transição.

Como analisa o cineasta, “essa obra é em si já um momento de mudança na carreira do escritor, que caminha em direção ao neorrealismo, onde havia questões humanísticas de alguma forma ligadas a questões sociais de igualdade, solidárias. E passou para um conteúdo muito mais filosófico, mais ligado ao individualismo, à sua maneira de ser e ao significado da vida”.

Assim, “no romance ele auto ironiza-se, pois projeta-se, para além do protagonista, em personagens de pendor neorrealista que acham um absurdo ele estar com essas preocupações idiossincráticas e filosóficas, quando o que é importante é que o homem tenha pão para comer, tenha orgulho próprio”.

AMOR E MORTE

Há romance e morte.

Antes do amor, “Aparição” apresenta uma aguda perceção do protagonista masculino acerca de sua transitoriedade.

Explica Vendrell: “Há essa ideia da experimentação da morte, de confrontação, no sentido de descobrir um lado irascível para se sentir vivo. O que ele chama de ‘aparição’ é um ato filosófico, de dissociação entre ele a realidade que o cerca, entre ele e a sua vida”.

E então há a paixão, particularmente personificado por Victória Guerra a fazer de Sofia, uma de três irmãs que, de certa forma, vão interferir na vida do professor.

“A Sofia é uma força brutal do livro. Ela dá uma mancha muito forte na vida dele através da sua imprevisibilidade, da sua incapacidade de controlo. Ela representa paixão, carnalidade, espírito vivo”, detalha o realizador.

Certamente cabe aqui também à atriz, um dos jovens talentos da produção audiovisual portuguesa, dar vida de forma intensa à essa personagem explosiva.

“A Victoria Guerra foi uma ‘aparição’”, brinca o realizador. E acrescenta: “Foi uma sorte ter conseguido conciliar a agenda para fazer o filme, pois ela própria tem uma força pessoal enorme que certamente ajudou na caracterização da personagem”.

O GRAFITEIRO DE ÉVORA

Para a escolha de Évora numa fase muito inicial do projeto contou o fascínio da arquitetura local.

“Ela tem aquele exotismo, mas não é uma cidade mediterrânica típica, uma vez que apresenta também alguma monumentalidade ligado ao classicismo. Fui escolhendo os ‘décors’ em função de uma cidade imaginária, como se estivesse perdido num labirinto arquitetónico”, lembra Vendrell.

Se a arquitetura já lá estava, utilizá-la não foi assim tão simples, apesar de alguns “golpes de sorte”: o icónico café Arcádia, por exemplo, está muito modificado e a cena onde ele entra foi filmada em Montemor. Há o turismo endémico, automóveis, marcas no chão e… um grafiteiro – compondo um episódio desagradavelmente anedótico da produção.

“Tivemos apoio da Câmara para limpar as paredes, mas quando chegávamos para filmar no dia seguinte as superfícies estavam pintadas outra vez! Havia um grafiteiro obsessivo em Évora!” [risos], conclui.

In Sapo Mag

 

 

02 de Outubro, 19h: “Fátima”

 

Fátima

Realização: João Canijo

Intérpretes: Anabela Moreira, Rita Blanco, Cleia Almeida

Port, 2017, 153′, M/12

O caminho para Fátima não é bonito. João Canijo filmou-o sem filtros

 

João Canijo coloca a natureza humana e a beatitude da devoção no mesmo plano e o resultado é, como a vida, complexo e contraditório. “Fátima” convida cada espectador a construir o seu próprio quadro.

Quando as luzes do cinema se apagam, somos convidados a transformar-nos numa pequena mosca. Pelo menos, é assim que Anabela Moreira gosta de imaginar o espectador de “Fátima“, um filme que a levou até ao limite. “Foi uma prova de superação das mais difíceis em 41 anos de vida.” A actriz acredita que quem nunca fez o caminho não pode ter ideia do que é uma peregrinação a Fátima. “As pessoas não conhecem esta realidade, pensam que é outra coisa.”

Na história que agora chega aos cinemas, 11 mulheres partem de Vinhais, Trás-os-Montes, para nove dias de caminho até Fátima. O que acontece nesses 400 quilómetros é um novelo de complexidades e contradições. Como a vida. “É o paradoxo entre a vida humana e a necessidade de Deus, ou a necessidade do transcendente”, resume o realizador João Canijo, em conversa com a Renascença.

Primeiro nasceu a ideia de provocar uma situação extrema, de “colocar um grupo de mulheres a experimentarem os seus limites numa relação de grupo de onde não podiam fugir”, conta o realizador. Depois, veio a justificação. “Ao procurar essa situação, apareceu-me a epifania da coisa mais portuguesa que há, que é a peregrinação a Fátima a pé”.

Fingir a realidade

O filme foi desenhado para ser confundido com um documentário, construído a partir de situações reais. “A realidade transforma-se em ficção a partir do momento em que há um olhar sobre ela. Portanto, porque é que a ficção não se há-de tornar realidade da mesma maneira?”, questiona o realizador. “Foi isso que tentei, e acho que consegui.”

Em 2014, todas as actrizes integraram grupos diferentes de peregrinos e foram a Fátima a pé. No fim de cada dia “gravavam um diário no iPhone e mandavam por e-mail” ao realizador, “para não se esquecerem das coisas que tinham acontecido”. Da reunião de todos os diários “saiu um primeiro tapete” para o filme, conta Canijo, enquanto aplana uma base imaginária com as mãos.

A actriz Anabela Moreira teve a tarefa acrescida de gravar entrevistas a quem ia encontrando pelo caminho, durante a sua peregrinação. Mas o exercício só se revelou realmente frutífero no fim. “Nas minhas primeiras investigações, todas as pessoas me diziam ‘foi maravilhoso; rezávamos, cantávamos, maravilhoso, abençoado’”, conta. Só depois de a actriz terminar o seu percurso – que calhou ser num grupo onde houve rupturas pelo caminho – é que os entrevistados começaram a perder o pudor inicial, aceitando contar também o lado mais cru da experiência.

No ano seguinte fizeram uma peregrinação falsa, só com as actrizes, e esta foi filmada. Canijo volta a aplanar o ar com um sorriso. “Deu muito trabalho, mas transcreveu-se tudo” o que saiu desse exercício de improviso contínuo na estrada. “Daí nasceu o segundo tapete”.

Antes da rodagem, as actrizes ainda passaram dois meses em Vinhais, nos arredores de Bragança, a estagiar com as mulheres que inspiraram as personagens. Aí “ficou o tapete todo muito aspiradinho”.

 

A verdade das personagens. Sem julgamentos

 

O processo foi fundamental para Rita Blanco, que interpreta uma das mulheres de Vinhais. “Nós íamos ter diálogos feitos por nós e mesmo as situações do filme eram construídas por nós. Logo, fazendo uma peregrinação, podemos escolher ideias, aproveitar situações que nos parecem interessantes e acrescentar às nossas personagens ou mesmo ao próprio filme”.

 

Rita Blanco construiu a sua “Ana Maria”, uma mulher “de gancho” com veia para líder do grupo. “O que é importante é que vocês, quando olharem para aquela Ana Maria, vejam a maneira de pensar daquela transmontana. Não é de uma transmontana. É daquela transmontana. E é isso que eu quero: que haja alguma verdade nas personagens que eu faço”.

As personagens de Rita Blanco e de Anabela Moreira destacam-se entre o grupo de 11 mulheres, como protagonistas… e antagonistas. A “Céu” a que Anabela Moreira dá corpo – e para a qual ganhou bastantes quilos – é “uma mulher sensível” que vai “acumulando ressentimentos” até atingir um limite.

Anabela sabe que “há pessoas que vão dizer que ela é a chata do grupo, outras que é a louca, outros que é a sensível, outros que é a má”. Mas em “Fátima” não há propriamente um herói e um vilão e era essa a intenção do realizador. “Este é o meu filme ‘matissiano’. Porque o Matisse tinha uma ambição, que era em cada quadro não haver um elemento preponderante e ser o espectador a construir o seu próprio quadro. Eu tentei fazer isso e consigo nas cenas dos acampamentos bastante bem. Por isso é que eu gosto mais da versão longa, porque tem mais acampamentos”.

O elenco completa-se com as actrizes Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa Madruga, Ana Bustorff, Teresa Tavares, Alexandra Rosa, Íris Macedo, Sara Norte e Márcia Breia. Chegou às salas de cinema três anos depois de ter dado os primeiros passos.

Catarina Santos para Rádio Renascença

11 de Setembro, 19h: “Colo”

 

Colo

Realização: Teresa Villaverde

Intérpretes: João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges, Beatriz Batarda

Port, 2017, 136’, M/16

 

Colo: estamos todos a precisar do colinho de Teresa Villaverde

Estreia finalmente em Portugal o novo filme de Teresa Villaverde, mais de um ano depois da sua estreia mundial no festival de Berlim, na edição de 2017, onde foi um dos filmes mais marcantes da Competição Oficial. Talvez este Colo necessite de alguma precisão, tal como a crise vivida por uma família de classe média lisboeta careça de ajuda para perceber o que se passou. É a vergonha escondida do desemprego paterno, o trabalho a dobrar materno e também às dores de crescimento da filha adolescente, bem como da sua amiga. No meio disso tudo, temos o cinema pausado e observador de Teresa Villaverde, e do que sucede neste momento de realismo social nacional.

 

 

Algures nos andares cimeiros de um prédio no bairro dos Olivais, o pai (João Pedro Vaz) já vai denotando os indícios de perturbações mentais que uma permanência forçada em casa vai facilitando, isto enquanto a mãe (Beatriz Batarda) procura manter a cabeça organizada ao mesmo tempo que mantém dois trabalhos. No meio de tudo isto, a jovem Marta (Alice Albergaria Borges) vive na bolha dos desafios naturais permitidos pelos seus 17 anos. É com a amiga Julia (Clara Jost) que sente mais empatia, ela que por sua vez enfrenta os primeiros meses de uma gravidez inesperada, e ainda com o namorado (Tomás Gomes que interpreta e assina a banda sonora do filme), musico numa banda.

 

“Eu não tenho a resposta exata sobre a necessidade de colo no filme”, procurou precisar a cineasta à nossa pergunta. Mas lá foi garantindo que “estamos todos num momento confuso em que não sei se todos precisamos de alguma coisa que não sei se sabemos exatamente o que é.” Talvez seja mesmo colo, um conforto necessário para apaziguar a alma daqueles que não sabem o que fazer ao tempo. Algo que, de resto, Teresa admite partilhar com as suas personagens.

Por essa errância e por essa falta de rumo passaram de resto várias das suas personagens que atravessam uma filmografia coerente, ainda que esparsa, com sete filmes em 26 anos, desde A Idade Maior (1991), passando por Três Irmãos (1994)  ou Os Mutantes (1998), mas também com o lado mais pesado da vida de Transe (2006). O seu trabalho anterior, Cisne (2011) pertencerá a uma outra aresta, a das atrizes que sempre dominam os seus filmes. Aí a coerência é total.

 

Também aqui são elas que dominam a nossa atenção. Marta e Julia reclamam essa vertigem da adolescência, a experimentação e a liberdade. Algo que acaba por ser também transversal ao cinema português de autor. De resto, Colo começa com uma imagem que nos parece remeter para o clássico Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, de 1963, com aqueles vestígios de aldeia enfiados dentro e Lisboa e a mirada do monte a olhar para os prédios da Avenida de Roma. Há aqui a Avenida de Roma, mas também o campo, ali mesmo, no Vale do Silêncio, nos Olivais. Foi de resto esse bairro que João Salaviza habitou em Montanha (2015), com personagens também a precisar de colinho. E há ainda uma cabana onde se conseguirá encontrar parte dessa liberdade impossível.

 

Teresa Villaverde filma tudo isso – excelente a fotografia de Acácio de Almeida e excelente o som de Vasco Pimentel, de certa forma os olhos e o ouvido do cinema português – bem como as assoalhadas e os corpos que parecem querer sair dos seus donos. Seja o passarito de Marta, o corpo de Julia habitado por um novo corpo que já parece sentir, mas é também esse corpo, o seu, o corpo de grupo, que chegará a aproximar do precipício.

Há ainda decisões algo insólitas que se irão tomar, mas essas são coisas que só Teresa poderá explicar. Ainda assim, Colo é essa sugestão de um país que deixou tantas pessoas perdidas numa crise que não consegue explicar e para a qual elas não estavam preparadas. É por isso mesmo um filme que continua.

Escrito por Paulo Portugal para a Insider.

Festa do Cinema Italiano – Programação

À semelhança dos dois últimos dois anos, o Cineclube de Tomar apresenta na próxima semana uma extensão da Festa do Cinema Italiano, com filmes inéditos em Portugal, e que provavelmente não terão distribuição comercial no nosso país.

A programação será a seguinte:

15/05Fortunata, de Sergio Castellitto (ITA, 2017, 103′) – 19h

Fortunata (Jasmine Trinca) é uma mãe adolescente vivendo numa situação extremamente complicada e assombrada por um casamento fracassado. Como forma de mudar de vida, precisa lutar diariamente por seu sonho: abrir um salão de cabeleireiro desafiando seu próprio destino, numa tentativa de emancipar-se e adquirir sua independência e o direito à felicidade.

16/05Botticelli – Inferno, documentário de Ralph Loop (ITA/ALE, 2016, 86′)      http://www.botticelli-inferno.de/19h

17/05In Guerra per Amore, de Pif (ITA, 2016, 99′)  – 19h http://bogiecinema.blogspot.pt/2017/04/resenha-critica-in-guerra-per-amore-2016.html

19/05Pipi, Pupù Rosmarina e il Mistero delle Note Rapite, de Enzo D’Alò (ITA/FRA, 2017, 81′)  – filme de animação para crianças – 15.30h

Gatta Cenerentola, de Ivan Cappiello | Marino Guarnieri | Alessandro Rak | Dario Sansone (ITA, 2017, 86′) – filme de animação para maiores de 12 anos – 21.30h

https://bogiecinema.blogspot.pt/2018/04/critica-gatta-cenerentola-2017.html