Category Archives: Sessões Infantis

21 de Outubro, 16.30h: “Ozzy”

Realização: Alberto Rodríguez

Versão dobrada em português

ESP/CAN, 2016, 90′ M/6

Ozzy é um jovem beagle que sempre viveu feliz com a sua família humana. Quando recebem a notícia de que ganharam uma viagem ao Japão, os humanos não cabem em si de contentes. O problema surge no momento em que percebem que nessa viagem não são permitidos cães. Decididos a deixar o seu grande amigo em boas mãos, optam por inscrevê-lo no Blue Creek, um spa para cães que se assemelha ao paraíso (canino, claro). Mas o que ele descobre assim que os donos viram costas é aterrador: afinal, Blue Creek é uma prisão gerida pelo terrível Sr. Silva, onde impera a lei do mais forte, a mais injusta e arbitrária regra alguma vez criada. Agora, para conseguir sobreviver até ao regresso da família, o que o inexperiente Ozzy tem de fazer é manter-se longe de sarilhos e perceber em quem confiar…
Um filme de animação que marca a estreia na realização de Alberto Rodríguez e Nacho La Casa. Na versão dobrada em português, as vozes são de Tiago Teotónio Pereira, Filipa Areosa, José Mata e Diogo Valsassina. PÚBLICO

 

 

 

 

 

 

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15 de Julho, 15.30h: “A Canção do Mar”

Realização: Tomm Moore

Versão dobrada em português

DIN/BEL/IRL/LUX/FRA, 2014, 93′, M/6

Desde a trágica morte da sua mãe que Ben e Saoirse (vozes de David Rawle e Lucy O’Connell, respectivamente), de dez e seis anos, vivem num grande farol junto ao mar com o pai, um homem triste e amargurado. Um dia, Ben descobre que a irmã é uma fada que se pode transformar em foca e depois retornar à condição humana. E quando ela toca uma flauta feita de concha que pertencia à progenitora, consegue libertar seres mágicos presos numa terrível maldição. Agora, para que todas as criaturas encantadas possam recuperar os seus poderes e voltar a ser livres, os dois irmãos embarcam numa aventura onde terão de enfrentar os seus medos mais profundos…
Inspirado em vários mitos do folclore irlandês, “A Canção do Mar” conta com a realização de Tomm Moore que, com este filme, se viu nomeado pela segunda vez para o Óscar de Melhor Filme de Animação em 2015, depois de já o ter sido em 2010 com “The Secret of Kells” (2009), a sua estreia em cinema.

 

A magia das lendas na animação

Uma das grandes maravilhas do cinema de animação é o encontro com o mito, essa inspiração que primeiro tocou o universo literário, e só depois deu origem a filmes tão inesquecíveis como A Pequena Sereia (1989) ou, ainda recentemente, O Conto da Princesa Kaguya (2013). É nessa mesma fonte que vamos descobrir A Canção do Mar, de Tomm Moore, que respira a mitologia celta das terras irlandesas, convocando a lenda das Selkies: mulheres-focas que podiam viver com os humanos, quando despidas da sua pele animal. Moore, fiel às origens, situa a história numa remota ilha irlandesa, onde um faroleiro vive com os seus dois filhos – um rapaz irritadiço, Ben, e um menina mais nova, Saoirse, que parece ter guardado da mãe (desaparecida) a serenidade marítima. Os dois irmãos, levados pela avó paterna para a cidade, lançam-se numa aventura de retorno a casa que vai pôr em risco a vida da pequena Soirse, uma menina-foca.
Nomeado para o Óscar de animação em 2015, este conto familiar é de uma imensa subtileza, inteligência e sensibilidade, tanto na criação visual como narrativa. Um verdadeiro encanto.

Inês Lourenço, in DN Artes

 

 

 

 

 

 

17 de Junho, 15.30h: “A Minha Vida de Courgette”

 

Realização: Claude Barras

Versão dobrada em português

SUI/FRA, 2016, 66′, M/6

Courgette é a alcunha de Ícaro, um rapazinho de nove anos que, após a morte da mãe, é enviado para um orfanato. Apesar das circunstâncias trágicas que o levaram até ali, é exactamente nesse lugar que o pequeno vai encontrar o seu lugar no mundo. Ao seu lado terá Raymond, o polícia encarregue do seu caso que se tornou um grande amigo, assim como Simon e Camile, dois órfãos que, tal como ele, se viram subitamente sós e com quem vai partilhar os mesmos sentimentos de luto, tristeza e raiva, mas também a alegria das brincadeiras e a esperança de encontrar um novo lar…
Primeira longa-metragem do suíço Claude Barras, um filme de animação em “stop motion” que adapta a obra “Autobiographie d’Une Courgette” (2002) da autoria do escritor francês Gilles Paris. Estreado na edição de 2016 do Festival de Cinema de Cannes, “A Minha Vida de Courgette”, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação 2017. PÚBLICO

 

Bonequinhos muito humanos

Distinguido com muitos prémios internacionais, “A Minha Vida de Courgette” é, no domínio da animação, uma das mais notáveis proezas dos últimos anos — a técnica usada envolve figurinhas filmadas pelo processo de “stop motion”.

Icare é uma criança que vive com a mãe alcoólica uma existência infeliz. Quase sempre sozinho no seu quarto, tem como passatempo a criação de construções com as latas de cerveja que a mãe consome em grande quantidade — ela chama-lhe “Courgette” e ele gosta disso. Um dia, de forma acidental, Icare provoca a morte da mãe, acabando por ser colocado numa instituição para órfãos…

Poderia ser a sinopse de um drama pungente, servido por interpretações em que sentimos a pele e o sangue das personagens. E é-o, num certo sentido, com uma pequena e sugestiva diferença: “A Minha Vida de Courgette” é um filme com bonequinhos animados (pela técnica stop motion), consagrado internacionalmente com muitas distinções, incluindo a de melhor longa-metragem de animação nos Prémios de Cinema Europeu — nos Oscars, nessa mesma categoria, esteve entre os nomeados mas não ganhou.

Filme perceptível apenas pelos adultos? Solução de compromisso entre a visão dos mais velhos e as sensibilidades dos mais novos? Em boa verdade, não creio que seja muito interessante “rotular” um objecto tão original a partir de especulações sobre o “seu” público — estamos, afinal, perante uma narrativa com elementos susceptíveis de mobilizar a atenção de qualquer espectador, de qualquer faixa etária.

Realizado pelo suíço Claude Barras, “A Minha Vida de Courgette” distingue-se pelo rigor das suas composições — nomeadamente no tratamento de gestos e olhares —, mas também pela precisão da sua narrativa. Confirma-se, aliás, uma velha máxima desta área de produção: independentemente das técnicas utilizadas, o trabalho de argumento é vital para a criação de um ambiente capaz de mobilizar o nosso olhar. Por isso, aqueles bonequinhos de movimentos sincopados são maravilhosamente humanos.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

11 de Março, 17.00h: “O Menino e o Mundo”

o-menino-e-o-mundo-847494l-1600x1200-n-c81d3d3eRealização: Alê Abreu

IntérpretesVinicius Garcia (Voz), Marco Aurélio Campos (Voz), Lu Horta (Voz)

Brasil, 2013, 80′, M/6

Um menino abandona a sua aldeia para procurar o pai, descobrindo um mundo dominado por seres estranhos e fantásticos.
Uma animação extraordinária, com várias técnicas artísticas (lápis de cor, giz de cera, colagem e aguarela), que retrata as questões do mundo moderno através do olhar de uma criança.
A realização é do brasileiro Alê Abreu que, com este filme, se viu nomeado para um Óscar da Academia (2016), na categoria de Melhor Filme de Animação. 

17 de Dezembro, 15.30h: “O Principezinho”

 

o-principezinho-blogRealização: Mark Osborne

Intérpretes: SarPaul Rudd (Voz), Rachel McAdams (Voz), Mackenzie Foy (Voz), James Franco (Voz), Marion Cotillard (Voz), Benicio Del Toro (Voz), Jeff Bridges (Voz), Paul Giamatti (Voz), Vincent Cassel (Voz), Ricky Gervais (Voz)

Versão dobrada em português: Rita Blanco, Paulo Pires, Joana Ribeiro, Rui Mendes e Francisco Monteiro

FRA, 2015, 108′

Uma menina vive com a sua mãe, uma mulher de tal modo obcecada com o futuro da filha que tem tudo delineado para cada hora de vida da criança. Os testes de admissão para um colégio muito conceituado são a grande preocupação do momento e nada, nem ninguém, parece demovê-la dos planos. Para ela, nada pode ser deixado ao acaso. Um certo dia, a pequena conhece o vizinho da casa ao lado, que lhe envia um desenho num pequeno avião de papel. Esse homem, que em tempos fora aviador, conta-lhe histórias das suas viagens e de como conheceu, em pleno deserto, um principezinho louro que lhe disse viver no asteróide B612. Com este novo amigo, a menina vai conhecer uma história de amizade que a mudará para sempre…
Produzido pela Onyx Films, um filme de animação realizado por Mark Osborne (“O Panda do Kung Fu”). O argumento, da responsabilidade de Irena Brignull e Bob Persichetti, baseia-se numa das mais importantes obras infantis de todos os tempos, escrita pelo ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) e publicada, pela primeira vez, em 1943.
Na versão inglesa as vozes são emprestadas pelos actores Jeff Bridges, Rachel McAdams, Riley Osborne, Paul Rudd, Marion Cotillard, James Franco, Benicio del Toro, Ricky Gervais, Bud Cort, Paul Giamatti, Albert Brooks e Mackenzie Foy. Na versão dobrada em português, as vozes são de Rita Blanco, Paulo Pires, Joana Ribeiro, Rui Mendes e Francisco Monteiro, entre outros. PÚBLICO

 

Uma bela recriação da herança de Saint-Exupéry

No panorama natalício do cinema, “O Principezinho”, de Mark Osborne, constitui uma magnífica excepção — uma recriação da obra de Saint-Exupéry que combina, de forma original e inventiva, duas técnicas de animação.

No panorama global dos desenhos animados, sabemos do muito talento (e também do enorme poder económico) que está envolvido em marcas como a Disney ou Pixar, Apesar disso, ou precisamente por causa disso, vale a pena mantermos o olhar disponível e reconhecer que o campo da animação está longe de se esgotar nos títulos que ostentam aquelas chancelas (pertencendo a Pixar, desde 2006, ao império Disney).

A nova versão de “O Principezinho” (apresentada extra-competição em Cannes/2015) surge como um belíssimo exemplo de um modelo animação que, embora integrando o digital, propõe um desvio pleno de consequências narrativas e dramáticas.

Em boa verdade, este é um objecto “dividido” em dois registos de animação — um mais corrente, digital, precisamente, para figurar a vida da menina que ocupa o centro da história; outro assumidamente primitivo, valorizando o desenho tradicional e as técnicas do stop-motion.

Quer isto dizer que a herança temática e simbólica do livro encantado de Antoine de Saint-Exupéry (cuja primeira edição data de 1943) se apresenta recriada através de um dispositivo que não se esgota em qualquer atitude banalmente “ilustrativa”. Trata-se, afinal, de definir uma experiência em que a monotonia de um quotidiano gerido por regras pouco humanas se desagrega face à alegria criativa do mundo das aventuras e fábulas.

Produção de origem francesa, originalmente concebida em duas versões (francesa e inglesa), o filme realizado por Mark Osborne (americano que dirigiu, por exemplo, “O Panda do Kung Fu”, em 2008) distingue-se como um evento realmente invulgar nesta quadra natalícia — pelas suas qualidades intrínsecas, e também porque nos leva a relativizar, repensar e reavaliar os padrões dominantes do cinema de animação.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

19 de Novembro, 15.30h: “O Rapaz e o Monstro”

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RealizaçãoMamoru Hosoda

IntérpretesBryn Apprill (Voz)Kumiko Asô (Voz)Morgan Berry (Voz)

Japão, 2015, 119′

Órfão de pai e mãe, o pequeno Kyuta sobrevive como pode nas ruas de Tóquio (Japão). Um dia, sem saber como, vê-se em Jutengai, um mundo imaginário de onde não consegue sair. Ali conhece estranhas criaturas que lhe parecem ainda mais ameaçadoras do que os adultos da sua cidade. Entre elas está Kumatetsu, um lutador de artes marciais que, apesar da aparência feroz, acaba por se assumir como uma espécie de pai e mentor de Kyuta. A relação, nem sempre pacífica, entre o rapaz e aquele monstro, torna-se cada vez mais íntima e profunda, com cada um a compensar as necessidades do outro…
Um filme de animação sobre o valor da amizade, escrito e realizado por Mamoru Hosoda. PÚBLICO

 

“O Rapaz e o Monstro”, de Mamoru Hosoda
por RUI ALVES DE SOUSA

No segundo dia da Monstra de 2016 foi exibido o mais recente filme do realizador Mamoru Hosoda. É um nome já conhecido do festival, que passou por edições anteriores e ganhou um prémio da competição de longas metragens em 2008, como referiu Fernando Galrito na introdução ao filme. Êxito de bilheteira no Japão (foi o segundo título mais rentável no país em 2015), O Rapaz e o Monstro é uma aventura divertida e bem humorada, com um espírito familiar, pertencente a um tipo de histórias que se tornou comum nos animes, tanto no cinema como na televisão. Não será por acaso que Hosoda esteja ligado a universos animados emblemáticos para a geração que, entre os finais dos anos 90 e os primórdios do terceiro milénio, via programas com “bonecos” japoneses exibidos pelos canais generalistas – falamos de One Piece e, sobretudo, de Digimon.

É esta série que O Rapaz e o Monstro faz lembrar: ao centrar-se na demanda de um pequeno rapaz que se sente perdido na vida urbana, e que acidentalmente vai parar a um mundo paralelo, habitado por “monstros”.  São animais de todas as espécies, que falam, competem entre si e, imagine-se!, praticam artes marciais. Ren, o garoto protagonista do filme, torna-se o aprendiz de um mestre sem trabalho – e entre momentos mais ou menos interessantes, lá vamos acompanhamos o crescimento do jovem entre dois mundos (na arte das lutas e, acima de tudo, na sua construção como um ser humano), e o companheirismo que vai crescendo entre o professor e o seu aluno.

Temos em O Rapaz e o Monstro um bom motivo de entretenimento para todas as idades. Os mais pequenos vão gostar mais do que os adultos, obviamente, mas o humor do filme e das personagens sustenta a atenção tanto dos pequenos como dos mais crescidos. É aí que temos a grande força desta história animada, que se vê com gosto. Há aqui diversão suficiente que sustente as duas horas que o filme demora a mostrar-nos as múltiplas facetas desta aventura.

do blog https://maquinadeescrever.org/

 

 

 

 

 

 

15 de Outubro, 15.30h: “Memórias de Marnie”

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Realização: Hiromasa Yonebayashi

Intérpretes: Sara Takatsuki (Voz), Kasumi Arimura (Voz), Nanako Matsushima (Voz)

Japão, 2014, 103′

Anna, de 12 anos, vive em Sapporo (Japão) com os pais adoptivos. A relação entre os três é distante, o que faz de Anna uma menina insegura e muito introvertida. Um dia, por razões de saúde, é enviada para passar o Verão numa pequena aldeia perto da praia, em casa de uns parentes. Lá, durante um dos seus passeios solitários, descobre uma mansão aparentemente abandonada, mas estranhamente familiar, onde vive uma rapariga da sua idade chamada Marnie. Ao conhecerem-se, um elo inexplicável surge entre elas e Marnie acaba por se tornar a sua primeira grande amiga. Mas a descoberta desta amizade vai trazer revelações que transformação a vida de Anna para sempre…
Com realização do japonês Hiromasa Yonebayashi (O Mundo Secreto de Arrietty), um filme de animação que se baseia na novela “When Marnie Was There” do escritor inglês Joan G.Robinson (1910-1988).
Nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação, “Memórias de Marnie” foi o vencedor do Grande Prémio Monstra na edição de 2016 do Festival de Animação de Lisboa. PÚBLICO

 

“Memórias de Marnie”, de Hiromasa Yonebayashi
por RUI ALVES DE SOUSA

O novo (e anunciado como o derradeiro) filme dos estúdios Ghibli, do realizador d’ O Mundo Secreto de Arriety, estreou-se na Monstra e de lá saiu com o Grande Prémio da competição de longas-metragens. Tem uma história lindíssima sobre a memória e a amizade, em que os fantasmas e as mágoas da existência têm um papel fulcral. Voltamos a um sentimentalismo que, de certa forma, tem algo de telenovela na sua estrutura, algo que tem sido comum em certos filmes mais recentes do estúdio, como A Colina das Papoilas. No entanto, com tanto material comovente incluído nas imagens, na música e nas vozes, é impossível que alguém consiga ficar indiferente a Memórias de Marnie. São emoções que não causam feridas, mas marcas profundas que permanecerão na memória dos espectadores.

A animação é excepcional, com a qualidade que os estúdios Ghibli nos foram habituando ao longo das décadas. Yonebayashi mostra, mais uma vez, como é um nome relevante para o panorama atual da animação japonesa. Um cineasta da sensibilidade, com um espírito comovente ímpar, que lida com histórias que, por mais fantasia e surrealismo que possam conter, lidam com o que de mais humano existe no cinema: as relações familiares, os traumas, as recordações, a capacidade de perdoar e recuperar o que parece ter sido extinto das nossas vidas. Memórias de Marnie ganha porque, apesar da sua narrativa andar entre altos e baixos mais ou menos constantes (e a revelação da intriga não precisava de ser tão extensivamente analisada), nunca se perde nem deixa de querer alcançar um objetivo muito preciso: um retrato fascinante e apaixonante das ligações entre passado e presente, e do constante conflito entre gerações, comum a todas as épocas históricas.

do blog https://maquinadeescrever.org/