21 de Abril, 15.30h: “Rudolfo, o Gatinho Preto”

Realização: Motonori Sakakibara, Kunihiko Yuyama

Versão dobrada em português

JAP, 2016, Cores, 89′  M/3

O gatinho Rudolfo cresceu com a dona na pequena cidade de Gifu, no Japão. Certo dia, acaba acidentalmente entre caixotes num camião de transporte de longa distância. Quando dá por si, está a centenas de quilómetros de casa, mesmo no centro da cidade de Tóquio. Sozinho e totalmente desprotegido, é acolhido por Tenhomuitos, o chefe dos gatos vadios. Apesar de simpatizar imediatamente com o seu novo amigo, fica espantado ao perceber que ele aterroriza a população felídea da zona. É então que Tenhomuitos lhe revela um segredo que pode significar algo importantíssimo para Rudolfo: consegue decifrar a escrita humana. Com esse conhecimento, talvez os dois consigam encontrar um modo de fazer o pequeno gatinho regressar para os braços da sua dona…
Um filme animado sobre a importância da amizade em tempos adversos, com realização de Motonori Sakakibara e Kunihiko Yuyama.  PÚBLICO

 

 

 

 

 

 

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17 de Abril, 19h: “Além da Estrada”

Realização: Charly Braun

Intérpretes: Hugo Arias, Naomi Campbell, Esteban Feune de Colombi

BRA/Uruguai, 2010, 85′ M/12

Santiago (Esteban Feune de Colombi) é um jovem argentino que chega a Montevideu, Uruguai, para resolver algumas questões relacionadas com a herança dos seus pais, que morreram recentemente num trágico acidente de automóvel. A caminho de Punta del Este, o rapaz dá boleia a Juliette (Jill Mulleady), uma jovem belga que viaja em busca de um amigo numa comunidade neo-hippie. Juntos vão seguindo viagem e cruzando as belas paisagens uruguaias, ao mesmo tempo que vão desenvolvendo uma relação cheia de significado…
Um “road movie” que marca a estreia na longa-metragem do brasileiro Charly Braun, realizador das curtas premiadas “Quero Ser Jack White” e “Do Mundo Não Se Leva Nada”. PÚBLICO

 

“Além da estrada” explora bem o gênero “road movie”

Um homem, uma mulher e uma estrada. Você já viu esse “road movie” várias vezes. Ainda assim, o diretor carioca Charly Braun consegue, em seu primeiro longa-metragem, extrair frescor desses elementos tantas vezes recombinados pelo cinema.

O homem é Santiago (Esteban Feune de Colombi), um argentino de cerca de 30 anos que decide viajar ao Uruguai para conhecer um terreno deixado por seus pais, mortos em um acidente algum tempo antes. A mulher é Juliette (Jill Mulleady), uma belga que chega ao mesmo país atrás de uma paixão do passado.
Santiago dá uma carona para Juliette na capital, Montevidéu, e eles desbravam as famosas praias e o desconhecido interior do país. Parte do encanto de “Além da Estrada”, coprodução Brasil-Uruguai, vem do fato de que os sentimentos dos dois protagonistas estão perfeitamente espelhados na paisagem desolada.
Um território marcado não apenas pelos imensos vazios mas sobretudo pela impressão de estar aprisionado ao passado. Outra parte dos atrativos do filme surge da integração entre os momentos ficcionais e algumas passagens que namoram o documental. Isso pode ser visto em particular nos encontros entre Santiago e Juliette com figuras reais do interior uruguaio, que quebram a noção de desolamento.

Por fim, e talvez mais importante, os sentimentos dos personagens principais não parecem fabricados para atender a uma determinada carência do público, seja por romance, por belas paisagens ou por um pouco de fé na humanidade. Eles parecem brotar naturalmente na tela como reflexo de uma sensação de inadequação e nostalgia. Isso é reforçado pelos vídeos caseiros usados no fim do filme, em que o diretor ainda criança aparece em vários dos locais visitados por seus protagonistas.

“Além da Estrada” pode ser um filme irregular, que alterna sequências de grande força com algumas outras de menor interesse, mas é no balanço geral uma estreia muito promissora.

RICARDO CALIL
CRÍTICO DA FOLHA de S. PAULO

 

Filme integrado no projecto MOVTOUR, em parceria com os Institutos Politécnicos de Tomar e Santarém e Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

Entrada Livre para alunos e funcionários do IPT.

 

10 de Abril, 19h: “Por Aqui e Por Ali – A Walk in the Woods”

Realização: Ken Kwapis

Intérpretes: Robert RedfordNick NolteEmma Thompson

EUA, 2015, 104′  M/12

Após ter passado duas décadas em Inglaterra, o escritor de viagens Bill Bryson (Robert Redford) está de regresso aos Estados Unidos.

Em vez de aproveitar a companhia da esposa (Emma Thompson) e restante família, decide que a melhor forma de recuperar os laços com a pátria passa por uma caminhada pelo trilho dos Montes Apalaches, 3.540 kms através de algumas das mais intocadas, espectaculares e acidentadas paisagens da América.

Infelizmente para ele, a paz e tranquilidade que esperava encontrar não passa de um sonho desde o momento em que a única pessoa disposta a acompanhá-lo na caminhada é o seu amigo Katz (Nick Nolte), um mulherengo inveterado que depois de uma vida a enganar meio mundo, vê na viagem a forma de escapar a algumas dívidas e a hipótese de uma última aventura antes que seja tarde demais.

Robert Redford e Nick Nolte no Trilho dos Apalaches

Baseado no best-seller de Bill Bryson, “A Walk in the Woods” coloca em cena dois grandes actores, Robert Redford e Nick Nolte.

Bill Bryson (Robert Redford) é um escritor de viagens que está a marinar há vários anos e decide libertar-se da esposa e dos netos para embarcar num percurso pedonal de 3500 quilómetros da cordilheira Apalache que vai da Geórgia até ao Maine nos Estados Unidos. Na viagem leva Stephen Katz (Nick Nolte), um amigo inesperado, um velho companheiro das aventuras na Europa quando eram mais jovens. Bill perdeu o contacto com Stephen que esbanjou a sua vida com o álcool e as mulheres. Os dois homens, apesar da idade avançada, embarcam no percurso contra todas as expectativas de o terminarem com o seu passo de caracol. O filme infelizmente também mantém esse ritmo, intercala a viagem com cruzamentos com desconhecidos, uns mais felizes do que outros, que servem sobretudo de dispositivo de humor. Salva-se o cenário e alguns diálogos mais profundos de balanço das suas vidas, Nick Nolte por ter o personagem mais modelado está melhor em cena. É um daqueles casos em que o livro e a própria aventura deverão ser mais inspiradores, o filme tem a sua simpatia e serve para se desfrutar a paisagem e os dois bons intérpretes que fazem este percurso narrativo com um pé atrás das costas.

Jorge Pinto, in Metropolis

 

Filme integrado no projecto MOVTOUR, em parceria com os Institutos Politécnicos de Tomar e Santarém e Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

Entrada Livre para alunos e funcionários do IPT.

 

3 de Abril, 19h: “Uma Mulher não Chora”

Realização: Fatih Akin

Intérpretes: Diane KrugerDenis MoschittoNuman Acar

FRA/ALE, 2017, 106′  M/16

Inesperadamente, a vida de Katja desmorona-se quando o marido Nuri e o filho Rocco morrem num atentado à bomba. Os amigos e familiares tentam apoiá-la em tudo o que conseguem e Katja consegue sobreviver ao funeral. Mas a busca pelos perpetradores e as razões que levaram ao atentado agravam o luto de Katja, abrindo feridas e dúvidas. Danilo, advogado e melhor amigo de Nuri, representa Katja no julgamento dos dois suspeitos: um casal neo-nazi. O julgamento leva Katja ao limite. Para ela não há outra alternativa senão fazer-se justiça.

 

Uma Mulher não Chora: Um filme para enfrentar os medos

Na verdade, Katja chora. Seria difícil não o fazer. Uma Mulher Não Chora, que ganhou o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, é sobre a perda e desgosto; o luto e o vazio que se transformam na necessidade de justiça perante um crime hediondo: a morte da sua família – Nuri, um turco, e o filho de ambos – num atentado.

É um papel exigente e Diane Kruger, na sua primeira produção germânica, tem o melhor desempenho da carreira, conquistando inclusive o prémio de Melhor Actriz em Cannes. Uma Mulher Não Chora é um filme que vive entre a actualidade política e social (o ressurgimento de grupos de extrema-direita e os consequentes ataques xenófobos; o pânico do terrorismo islâmico) e a estrutura clássica de um filme de vingança, em que a velha máxima de Nietzsche – “E se tu olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti” – é quase sempre aplicável.

O filme agarra o espectador e obriga-o a confrontar-se com as consequências do ódio, que alastra à vista de todos. Mas a verdade é que Fatih Akin demonstrou, nas suas duas obras-primas (Head-On – A Esposa Turca e Do Outro Lado), uma habilidade narrativa que lhe permite compreender as emoções que se escondem nos actos desesperados. Algo que em Uma Mulher Não Chora está quase ausente, como se não existisse espaço para a introspecção na violência e, à semelhança do olhar da sua protagonista, o mundo se transformasse num território contaminado pela impossibilidade de redenção. Não deixa de ser um regresso à forma do realizador mas nós, os fãs de Akin, sabemos que lhe deram o Globo pelo filme errado.

Crítica de Tiago R. Santos, in Sábado GPS

 

27 de Março, 19h: “Corpo e Alma”

on-body-and-soul-2017-001-geza-morcsanyi-alexandra-borbely-night_0Realização: Ildikó Enyedi

Intérpretes: Géza Morcsányi, Alexandra Borbély, Zoltán Schneider

HUN, 2017, Cores, 116′  M/16

Mária e Endre (Alexandra Borbély e Géza Morcsányi, respectivamente) trabalham num matadouro em Budapeste, Hungria. Ele é director financeiro; ela é inspectora de qualidade. São ambos pessoas tímidas e reservadas. Todas as noites eles têm o mesmo sonho: são um casal de veados apaixonado que se encontra numa floresta coberta de neve. Ao descobrir que partilham a mesma fantasia, ficam perturbados mas tentam descobrir o motivo. É então que, pouco a pouco, Mária e Endre se dispõem a encontrar um no outro o amor que partilham no sonho. Contudo, na vida real tudo lhes parece mais complicado…
Uma história de amor escrita e realizada por Ildikó Enyedi (“Vakond”, “O Meu Século XX”) que recebeu o Urso de Ouro e o prémio FIPRESCI na edição de 2017 do Festival de Cinema de Berlim.
Nomeado para o Óscar de Melhor Filme em Língua não Inglesa, perdeu para “Uma Mulher Fantástica”, que exibimos na passada semana.

 

A cumplicidade dos sonhos

“Corpo e Alma” é um dos mais recentes fenómenos do cinema húngaro: uma história de um homem e uma mulher que partilham os mesmos sonhos, desse modo acedendo às paisagens enigmáticas da pulsão amorosa.

No cinema contemporâneo, não há muitos autores que arrisquem trabalhar sobre as matrizes clássicas do melodrama integrando componentes de natureza mais ou menos fantástica. O menos que se pode dizer do filme “Corpo e Alma”, da cineasta húngara Ildikó Enyedi (é o representante da Hungria na corrida às nomeações para o Oscar de melhor filme estrangeiro), é que nele encontramos esse risco, sempre fascinante, de sugerir uma dimensão transcendental do amor sem anular as componentes visceralmente realistas dos espaços em que a acção decorre.

Tudo se passa no cenário frio de um matadouro, entre o respectivo responsável financeiro (Géza Morcsányi) e uma inspectora que chega para uma tarefa de fiscalização (Alexandra Borbély): ele, solitário e relativamente distante dos colegas; ela, ainda mais solitária, fechada no seu casulo de rituais cumpridos de forma obsessiva. Por circunstâncias acidentais, vêm a descobrir que partilham os mesmos sonhos, literalmente, protagonizados por um casal de veados numa paisagem de frio e neve…

O mais surpreendente — e, por isso, mais envolvente — no labor de encenação de Ildikó Enyedi é a sua desarmante postura literal. Neste sentido: não se trata de desenvolver qualquer “tese” sobre a cumplicidade onírica das duas personagens centrais, mas sim de encarar a partilha dos sonhos como um fenómeno, por certo, excepcional, mas também de desarmante naturalidade.

“Corpo e Alma” desenvolve-se, assim, como uma teia de acontecimentos microscópicos em que o mais discreto movimento dos olhos ou a simples (?) vibração muito física da pele, não são o acessório, mas o essencial. A direcção de actores é impecável, sendo a composição de Alexandra Borbély qualquer coisa de verdadeiramente excepcional — foi, aliás, eleita melhor actriz europeia de 2017 nos Prémios do Cinema Europeu.

Crítica de João Lopes, in CineMax

 

20 de Março, 19h: “Uma Mulher Fantástica”

Realização: Sebastián Lelio

Intérpretes: Daniela VegaFrancisco ReyesLuis GneccoAline Küppenheim

ESP/Chile/EUA/ALE, 2017, 104′ M/14

Marina é uma jovem trangénero aspirante a cantora. Certo dia conhece Orlando, um homem bastante mais velho, por quem se apaixona. Os dois amam-se profundamente e são felizes. Mas quando Orlando morre repentinamente, Marina vê-se obrigada a enfrentar a família dele, que nunca reconheceu aquela relação e que é incapaz de a aceitar a dor dela com a dignidade que ela merece…
Com realização do chileno Sebastián Lelio (“Glória”) segundo um argumento seu e de Gonzalo Maza, um filme dramático sobre preconceito e discriminação que conta com Daniela Veja e Francisco Reyes como protagonistas.
Urso de Prata no Festival de Cinema de Berlim, “Uma Mulher Fantástica” foi nomeado para o Globo de Ouro e para o Óscar para Melhor Filme Estrangeiro, tendo ganho este último.

A verdade humana

Vencedor de um Urso de Prata em Berlim, candidato chileno ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro (que venceu), “Uma Mulher Fantástica” celebra a diferença da sua personagem central para além de qualquer cliché sexual ou dramático.

Já conhecíamos o nome do chileno Sebastián Lelio através de “Glória” (2013), um filme que retratava uma singularíssima personagem feminina, resistindo aos padrões de comportamento supostamente “correctos” para a sua condição de meia idade. Agora, podemos descobrir o mais recente dos seus trabalhos, “Uma Mulher Fantástica” (distinguido com um Urso de Prata – Melhor Argumento em Berlim, e com o Óscar de Melhor Filme em Língua não Inglesa em Los Angeles), outra viagem surpreendente pela sensibilidade feminina.

A “mulher fantástica” a que o título se refere é Marina, transexual que vive com um homem que desfez o seu casamento. Para nos ficarmos pela informação coligida no trailer do filme, digamos que o homem morre e, para além da súbita solidão, Marina vê-se forçada a confrontar-se com os preconceitos mais ou menos agressivos da família do defunto — para eles, a sua “identidade” torna-a uma personagem pouco recomendável…

Sebastián Lelio está, obviamente, a tratar lugar-comuns e preconceitos muito enraizados no espaço familiar e no tecido social, mas tem o cuidado de não reduzir Marina a um “símbolo” mais ou menos universal de tal tipo de situações. “Uma Mulher Fantástica” não é um panfleto, antes obedece aos valores clássicos do melodrama, desse modo expondo a irredutibilidade do trajecto de Marina, além do mais através de uma bela composição de Daniela Vega.

Em tempos de extremadas e fundamentais interrogações da sexualidade, ou melhor, dos comportamentos sexuais, “Uma Mulher Fantástica” é um filme que resiste às generalizações fáceis, nunca encerrando a personagem de Marina num estatuto de porta-voz do que quer que seja — a não ser da sua verdade enquanto ser humano. Daí decorre, por certo, o efeito universal que tem conseguido, a ponto de ser o candidato chileno a uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro (que ganhou…).

Crítica de João Lopes

13 de Março, 19h: “Sightseers – Assassinos de Férias”

Realização: Ben Wheatley

Intérpretes: Alice Lowe, Eileen Davies, Steve Oram

ALE/EUA/FRA, 2016, 118′ M/12

Apaixonado, Chris quer levar Tina numa inesquecível viagem de caravana. Habituada a uma vida recatada, ela pouco sabe sobre o mundo real, por isso ele está decidido a mostrar-lhe todos os lugares que marcaram a sua vida. Porém, para lá das maravilhas do mundo, existem também contratempos difíceis de gerir: pessoas irascíveis, adolescentes barulhentos, parques de campismo cheios de burocracias e, pior do que tudo o resto, a mãe de Tina, uma senhora autoritária e intrometida que tudo fará para ver o fim daquela relação. Com tantas contrariedades, uma viagem que prometia ser uma espécie de lua-de-mel antecipada faz vir ao de cima os seus instintos assassinos e eles transformam-se em dois perigosos psicopatas.
Com argumento de Steve Oram e Alice Lowe (que são também os protagonistas), uma comédia negra com realização de Ben Wheatley (“Uma Lista a Abater”). PÚBLICO

 

Assassinos de Fériasé uma comédia negra como alcatrão fresco

Bonnie e Clyde. Kit e Holly. Mickey e Mallory. Os amantes mortíferos embarcados em viagens de finais sangrentos vêm juntar-se ao grupo uma curiosa adição de terror satírico muito, muito britânico.

Chris quer mostrar o seu mundo a Tina e quer fazê-lo à sua maneira – numa viagem através das ilhas britânicas, na sua adorada caravana. Tina levou uma vida enclausurada e há coisas que Chris quer que ela veja: o Museu Tramway Crich, o Viaduto Ribblehead, o Museu Pencil Keswick e a paisagem rural que separa estas maravilhas. A sua jornada inicia-se ao som do cover de “Tainted Love” pelos Soft Cell, e esse é um dos elementos-chave para o seu sucesso– por todos os pequenos sinais, sabemos onde irá eventualmente parar, mas é isso mesmo que torna esta viagem, que os fará aprender da forma mais difícil a lidar com um sonho que é literal e continuamente decepado, tão assustadoramente hipnótica.

“Assassinos de Férias” é uma comédia negra como alcatrão fresco – muito britânica e muito seca – que mescla destemidamente humor impassível e uma violência chocante não recomendada aos membros da audiência mais sensíveis.

Tornado famoso pelo seu gosto na exploração do lado negro da vida moderna, o realizador Ben Wheatley orquestra a ação provisionada pelo argumento escrito, curiosamente, pelos dois protagonistas – Alice Lowe e Steve Oram. Juntos construíram uma ode surpreendentemente afetuosa à herança das chuvosas “férias britânicas” e as suas peculiares atrações, mas também uma sátira social de gume cortante.

Inicialmente criada como um piloto televisivo que foi recusado pela BBC por ser “demasiado negro”, o material acabou por encontrar forma de reencarnação no encontro entre Lowe, Oram e Wheatley, a equipa-pesadelo perfeita para anexar a esta aventura perturbadora uma experiência catártica refletida sobre duas pessoas que encontram na metáfora da violência o tubo de escape perfeito para as frustrações de um casal que passou a vida a ser pisado e resolveu bater na mesa e dizer “ok, por agora já chega”.

Outras duras realidades, possivelmente até mais sangrentas e dolorosas, colocam questões desconfortáveis, à medida que, primeiro, nos familiarizamos com a relação quebrada que Tina mantém com a mãe, e depois, como a sua relação com Chris se deteriora com o passar do tempo.

Ao contrário de outras duplas assassinas, como sejam os protagonistas de “Assassinos por Natureza” ou “Noivos Sangrentos”, Chris e Tina não pretendem deixar ao mundo uma afirmação através da sua violência – ao contrário, neste caso estamos apenas perante um par de pessoas profundamente entorpecidas socialmente, incapazes de criar um vínculo social sério ou de estabelecer um objetivo de vida.

Com o tratamento pouco simpático que tem recebido da grande superfície do Cinema comercial, a Comédia Romântica é basicamente um género de zombies, composto por uma grande massa de filmes sem um sopro de vida, unicamente construídos para arrastar casais até às salas ao custo de uma dupla de protagonistas atraente e um argumento mais fino que uma folha de papel.

Ocasionalmente contudo surgem pequenas pérolas com poderes de reanimação soberanos, e “Assassinos de Férias” apronta-se a estabelecer uma transfusão de sangue (metafórica e literalmente) bem-vinda ao género.

É divertido. É doentio. É bom. Mas, acima de tudo, vai fazê-lo pensar duas vezes antes de deitar um papel de Cornetto para o chão.

Rui Ribeiro, in http://www.magazine-hd.com

 

Filme integrado no projecto MOVTOUR, em parceria com os Institutos Politécnicos de Tomar e Santarém e Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

Entrada Livre para alunos e funcionários do IPT.