Cinema ao Ar Livre 2020 – Programação

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas noites das 4ªs feiras de Julho e Agosto (21.30h), a partir do dia 15 de Julho, com o apoio logístico da Câmara Municipal de Tomar.

Devido à actual situação sanitária, haverá várias limitações, a começar com o número de espectadores, que não poderá ultrapassar os 40.

Para não haver aglomerados à porta das Piscinas, os bilhetes estarão à venda no Posto de Turismo, em frente à Mata dos Sete Montes, a partir de 2.ª feira, até às 17h do dia da sessão, 4.ª feira.

À entrada alguém orientará as pessoas para os respectivos lugares.

A programação será a seguinte:

– 15/07 – A Incrível História da Pera Gigante, de Amalie Næsby Fick, Jørgen Lerdam, Philip Einstein Lipski  (dobrado em português) – filme infantil, para M/6

– 22/07 – Alice e o Presidente de Nicolas Pariser 

– 29/07 – Wild Rose – Rosa Selvagem, de Tom Harper

– 05/08 – Ramen Shop – Negócio de Família, de Eric Khoo

– 12/08 – Le Mans 66: O Duelo – Ford vs Ferrari de James Mangold

– 19/08 – O Paraíso, Provavelmente, de Elia Suleiman

– 26/08 – Mulherzinhas, de Greta Gerwig

 

Jovens (<18 anos e > 65 anos) e sócios – 1€

Adultos não sócios – 2€

 

 

Culturas Fílmicas a partir de casa

 

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Cineclubismo e Culturas Fílmicas a partir de casa como resposta saudável aos tempos de contenção

O Plano Extraordinário – Clube de Cinema associa-se à Comissão de Formação do Cineclube de Faro participando nas ações à distância de reflexão e formação crítica sobre filmes da história do cinema para desenvolvimento pessoal da cinefilia através de encontros virtuais para discussão em grande grupo.

Com base no programa ‘A Escola Vai ao Cineclube’, os estudantes de Culturas Fílmicas, com o apoio do Prof. Doutor Francisco Gil, (ESEC-UAlg) desenvolveram um ciclo para análise e debate sobre o que consideram essencial explorar com a comunidade académica e cinéfila.

Estes contactos sobre o arquivo, as coleções, a história, a missão e a actividade cineclubista revelaram-se profícuos para o desenvolvimento crítico e criativo dos estudantes neste percurso em que agora proporcionam as suas escolhas fundamentais.

Os nossos associados poderão inscrever-se gratuitamente nas acções, devendo preparar-se com antecedência sobre a programação.

 

Programa

25 de Março

Os Deuses devem estar Loucos, de Jamie Uys (1980, África do Sul) 109′

 

30 de Março

Tanna, de Martin Bustler e Bentley Dean (2015, Austrália) 104′

 

31 de Março

Uma Separação, de Asghar Farhadi (2011, Irão) 123′

 

1 de Abril

O Funeral das Rosas, de Toshio Matsumoto (1969, Japão) 107′

 

Inscrições

Para se inscrever basta enviar email para formacaoccf@gmail.com

com as seguintes indicações:

– nome

– cineclube

– número de sócio

– dia(s) da(s) sessão(ões) em que deseja participar

– contacto telefónico

Após inscrição receberá indicações individuais de participação por email.

nota: os seus dados são confidenciais e servirão apenas para a sua inscrição e participação nesta actividade específica

É com enorme agrado que o Plano Extraordinário se associa a esta iniciativa co-promovida pelo Cineclube de Faro e a Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve.

Uma acção cineclubista desenvolvida em rede por Cineclube de Faro / Cineclube de Tavira / Cineclube de Tomar / CEC (Centro de Estudos Cinematográficos) — Cineclube Universitário de Coimbra /

 

10 de Março, 19h: “O Traidor”

Realização: Marco Bellocchio

Intérpretes: Pierfrancesco Favino, Luigi Lo Cascio, Fausto Russo Alesi

ALE/ITA/FRA, 2019, 145′  M/16

No início dos anos 80, estala entre os chefes da Mafia siciliana uma guerra bem acesa pelo negócio da heroína. Tommaso Buscetta, um homem marcado, foge para o Brasil. Em Itália, as contas vão-se ajustando e Buscetta acompanha à distância o assassinato dos seus filhos e do seu irmão, em Palermo, sabendo que pode ser o próximo. Preso e extraditado para Itália pela polícia brasileira, Buscetta toma uma decisão que alterará tudo para a Mafia: decide encontrar-se com o Juiz Giovanni Falcone e trair o juramento de lealdade eterna que fizera à Cosa Nostra.

 

História e tragédia segundo Marco Bellocchio
Importa não esquecer que Marco Bellocchio é um dos nomes grandes da história do cinema italiano desde os tempos heróicos da década de 60: em “O Traidor”, ele revisita a personagem verídica de um denunciante da Cosa Nostra.

Perante a estreia de “O Traidor”, um dos grandes filmes da última edição do Festival de Cannes (mesmo se ficou fora do palmarés…), talvez seja útil recordar que não estamos, de modo algum, perante uma surpresa. Na verdade, o seu realizador, o italiano Marco Bellocchio (a completar 80 anos no dia 9 de Novembro) é um artista de elaboradas narrativas, com títulos marcantes ao longo de mais de meio século, desde a crónica juvenil e política de “I Pugni in Tasca” (1965) até subtis derivações melodramáticas como no recente “Sonhos Cor-de-Rosa” (2016). 

No centro de “O Traidor” encontramos a personagem verídica de Tommaso Buscetta (1928-2000), membro da Cosa Nostra que, em meados dos anos 80, se afastou daquela organização criminosa, denunciando às autoridades os responsáveis por muitos assassinatos cometidos pelos seus membros. A sua toma de posição transformou-o num alvo a abater, acabando por protagonizar um ziguezague geográfico que, da Sicília, o levou a lugares do Brasil e EUA. 

Bellocchio não faz, de modo algum, um documentário, o que não impede que “O Traidor” seja um objecto em que a contundência dos factos surge através de um rigor a que apetece chamar didáctico, já que tudo surge filtrado através de uma calculada distanciação. De tal modo que, à semelhança de outros grandes filmes de Bellocchio, a evocação histórica é inseparável de uma fulgurante dimensão trágica. Para nos ficarmos por um contraponto esclarecedor, lembremos o seu admirável “Bom Dia, Noite” (2003), sobre o rapto de Aldo Moro, em 1978.

Elemento fundamental na mise en scène de Bellocchio é, como sempre, a sua cuidada direcção de actores, nunca menosprezando o valor dramático de cada um deles, mesmo aquele que possa ter a seu cargo a mais secundária das personagens. Seja como for, o destaque vai para Pierfrancesco Favino, compondo um Buscetta que se revela através da tensão brutal entre a prática do crime e as convulsões morais de uma crescente solidão.

Crítica de João Lopes

 

3 de Março, 19h: “J’accuse – O Oficial e o Espião”

Realização: Roman Polanski

Intérpretes: Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner

TA/FRA, 2019, 132′  M/12

Paris, 1894. Alfred Dreyfus (Louis Garrel), oficial francês de origem judia, é acusado de espionagem por, supostamente, ter passado informações de carácter militar aos alemães. Como consequência, é condenado a prisão perpétua na Ilha do Diabo (Guiana Francesa). Intrigado com a forma como todo o processo decorreu, o coronel Georges Picquart (Jean Dujardin) decide investigar o caso, descobrindo que, tal como suspeitava, os documentos que incriminavam Dreyfus tinham sido falsificados.
Um drama histórico com assinatura de Roman Polanski (“Repulsa”, “O Pianista”, “O Escritor Fantasma”, “O Deus da Carnificina”, “Vénus de Vison”), que adapta o romance “An Officer and a Spy”, de Robert Harris, que também assina o argumento. O nome do filme refere-se ao título da carta que o consagrado escritor Émile Zola (1840-1902) publicou no jornal “L’Aurore” a 13 de Janeiro de 1898, dirigindo-se a Félix Faure (1841-1899), na altura Presidente da República Francesa, acusando membros do exército e do Governo de cumplicidade na condenação por traição de um inocente: o oficial de artilharia judeu Alfred Dreyfus (1859-1935). Esse incidente envolveu toda a sociedade francesa e incendiou a opinião pública. PÚBLICO

Vencedor do César para Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Guarda-Roupa a 28/02/2020

 

Filmar a paixão da verdade
O “Caso Dreyfus” inscreveu-se na história francesa como símbolo trágico de difamação e preconceito: “J’Accuse – O Oficial e o Espião”, de Roman Polanski, é uma esplendorosa evocação do seu labirinto de mentira e verdade.

Como sabem todos os espectadores interessados, “J’Accuse – O Oficial e o Espião” evoca o processo de acusação, julgamento e prisão a que foi sujeito Alfred Dreyfus, oficial de artilharia do exército francês, injustamente acusado de traição à Pátria, ao serviço da Alemanha, em 1894. A sua memória como alvo de difamação e preconceito fez com que se inscrevesse na história com a designação de “Caso Dreyfus”.

Por certo um dos exemplos mais admiráveis da ficção histórica segundo Roman Polanski (a par de “O Pianista”, que lhe valeu o Oscar de realização em 2003), “J’Accuse – O Oficial e o Espião” expõe, com metódica frieza, o efeito perverso de um gigantesco aparato de falsidades. Além do mais, a condição judaica de Dreyfus confere à sua saga de réu e prisioneiro na Ilha do Diabo (apenas seria ilibado em 1906) a dimensão de símbolo trágico do anti-semitismo.

Ainda assim, importa sublinhar a dimensão específica da narrativa de Polanski, construída a partir de um argumento que ele próprio escreveu em colaboração com Robert Harris, autor do livro em que o filme se baseia, disponível em tradução portuguesa. Não se trata, de facto, de elaborar uma mera antologia de peripécias, antes de mostrar o processo que conduziu da mentira à verdade.

Dreyfus surge interpretado, num misto de frieza e desamparo, por Louis Garrel, mas a personagem central é Georges Picquart, composta pelo magnífico Jean Dujardin. Picquart é, afinal, aquele que enuncia a questão base: a paixão da verdade deve ser assumida até às derradeiras consequências, mesmo quando os seus efeitos podem manchar a instituição (militar) que os protagonistas integram.

Nesta perspectiva, “J’Accuse – O Oficial e o Espião” possui qualquer coisa de raro didactismo político. Através de um intransigente realismo, a mise en scène de Polanski mostra como a evocação da verdade dos factos nunca é simples, já que depende do contexto marcado pelas formas mais diversas, por vezes muito perversas, de poder. Estamos perante um grande filme, esplendorosamente fora de moda, sobre o desejo de conhecer todos os mecanismos das relações humanas.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

18 de Fevereiro, 19h: “Parasitas”

Realização: Bong Joon-ho

Intérpretes: Song Kang-ho, Choi Woo-shik, Lee Sun-kyun

Coreia do Sul, 2019, 132′  M/14

Ki-taek tem uma família unida, mas estão todos desempregados e as suas perspectivas futuras são negras. O filho Ki-woo é recomendado por um amigo – que frequenta uma prestigiosa universidade – para dar explicações bem pagas, o que vem desencadear a esperança de um rendimento regular na família. Portador das expectativas familiares, Ki-woo dirige-se à casa dos Park para uma entrevista de trabalho. Chegado à casa do Sr Park – dono de uma empresa global de tecnologia informática – Ki-woo conhece Yeon-kyo, a bela e jovem dona da casa. Este primeiro encontro entre as duas famílias vai provocar uma imparável cadeia de incidentes.

 

Sobre a crueldade social

Consagrado através de filmes mais ou menos fantásticos como “The Host” e “Okja”, Bong Joon-ho surge, agora, com um trabalho incomparavelmente mais interessante: “Parasitas” é a história de uma família que conquista o espaço de outra família…

Como vai a luta de classes na Coreia do Sul?… Pergunta insólita, sem dúvida, mas inteiramente justificada face a um filme como “Parasitas”, de Bong Joon-ho. Isto porque encontramos aqui uma das mais desconcertantes ficções que pudemos descobrir em tempos recentes: uma família sem grandes meios vai-se insinuando na vida de uma outra família, muito rica, a ponto de ocupar o seu quotidiano…

Enfim, manda o bom senso que não revelemos muito das peripécias do filme. Mas importa dizer também que não se trata de uma mera colecção de anedotas resultantes dos contrastes entre “ricos” e “pobres”. Bong Joon-ho coloca em cena uma teia de fidelidades e traições que nos leva a contemplar o social como um mapa de muitos contrastes enraizados nos gestos mais subtis.

Nada a ver, entenda-se, com o entendimento mesquinho do “social” como um fenómeno virtual, exclusivamente “em rede”. Podemos mesmo dizer que este é um filme sobre a pulsação muito física das relações sociais, a ponto de “Parasitas” envolver uma estranha e perturbante moral — será que a vida social é uma colecção de máscaras com que enganamos os outros e, no limite, nos enganamos a nós próprios?

Bong Joon-ho tornou-se conhecido como realizador de filmes mais ou menos fantásticos ou fantasistas, como “The Host – A Criatura” (2006) e “Okja” (2017), qualquer um deles, a meu ver, muito menos interessante que “Parasitas”. Agora, ele coloca em marcha um dispositivo dramático que vai da caricatura ao “thriller”, expondo a crueldade interior do espaço social — daí também a dimensão universal deste filme, por certo fundamental para a sua consagração com a Palma de Ouro de Cannes.

Crítica de João Lopes