3 de Maio, 19h: “Oldboy – Velho Amigo”

Fic | Cor | 2003 | M/18 | 120’

Realização: Park Chan-wook

Interpretação: Choi Min-sik, Yoo Ji-Tae, Kang Hye-jeong

“Oldboy – Velho Amigo”: a iguaria sul-coreana regressa aos cinemas com o mesmo esplendor

A HISTÓRIA: Num dia qualquer em 1988, Dae-su, um homem de negócios casado e com uma filha, é raptado e aprisionado num quarto de hotel sem qualquer explicação. 15 anos depois é libertado, é-lhe dado dinheiro, um telemóvel e um fato novo. Desorientado, ele luta para descobrir porque foi preso e procura vingança. No entanto, o seu raptor ainda tem planos para ele. Mas à medida que o derradeiro confronto se aproxima, Dae-soo descobre um segredo terrível…

“Ri, e o mundo rirá contigo. Chora, e o mundo chorará contigo”. Foi com este provérbio que Dae-su (Choi Min-sik) sentiu-se acompanhado durante o seu misterioso enclausuramento durante 15 anos, sem nunca conhecer o local onde estava, o seu raptor e mesmo o motivo deste seu longo cativeiro. Esta frase, estampada num misterioso quadro, um dos poucos ornamentos de um apertado quarto que se transformaria, em quase mais de uma década, no seu mundo possível, tornou-se num hábito religioso e incentivo para uma vingança por concretizar.

Durante esta prisão, Dae-su treinou corpo e mente para um eventual encontro, um encontro que o próprio terá que “jogar”. Assumindo nova identidade, visto que perdera a sua mulher e filha durante a ausência, Dae-su cria uma ligação afetiva com uma jovem cozinheira de sushi que depressa vira cúmplice da sua jornada de sangue, ossos quebrados e revelações edipianas.

Se existe filme que se aprontou como o apogeu do novo cinema sul-coreano que chamava atenção no Ocidente ou, pelo menos, se converteu num dos maiores representantes deste “movimento”, esse é definitivamente “Oldboy – Velho Amigo”, o segundo tomo da trilogia de vingança do realizador Park Chan-wook, a adaptação de uma manga japonesa de Garon Tsuchiya.

Eis uma obra feita por uma agressividade furtiva (e visceral, se contarmos a infame cena do polvo, onde quatro animais vivos foram sacrificados), em parelha com uma elegância virtuosa. E como aquela frase que persegue o protagonista e o espectador, a ótica faz a diferença na experiência, pois tanto vemos uma comédia negra com direito à sua trágica ‘punchline’, ou um ‘thriller’ de cadências obstinadas com gosto pelas revelações inesperadas. É com gosto que acompanhamos de forma operática este Conde de Monte Cristo sul-coreano, “martelado” (aqui no bom sentido) por uma veia radicalmente raivosa e calculadamente desenrascada.

Não há que negar que “Oldboy” nos brinda com a sua narrativa, o seu compasso de espera e a surpresa guardada e atada num jocoso laço. É esse desafio face ao conforto da convencionalidade narrativa, e também a possibilidade de vários géneros num só, que o cinema sul-coreano conseguiu implantar modas e cultos junto de um público que, durante tantos anos, o ignorou.

Porém, nem tudo é serviço prestável ao entretenimento: o filme tende a entrar num campo de existencialidade coletiva, num exercício de separar as águas de um corpo violento e de impulsos animalescos (o “monstro” como várias vezes é mencionado), e uma mente refém das memórias de um passado turbulento e inconsequente. Há quem encontre nestes traços um lado metafórico para o estado de uma nação que disposta em seguir em frente, deixando para trás os conflitos e as consequências.

Convêm também afirmar que hoje ainda lidamos com as repercussões (e em variados ecrãs) deste triunfo artístico. O cinema sul-coreano não nasceu com este filme de Park Chan-wook, nada disso, mas foi graças ao seu sucesso, assim como o Grande Prémio de Júri atribuído no festival de Cannes pela comitiva de Quentin Tarantino (reza a lenda que este seria a genuína Palma de Ouro, não o documentário “Fahrenheit 9/11”, de Michael Moore), que se estabeleceu um parâmetro de comparação e, por sua vez, uma rivalidade saudável na produção sul-coreana, cuja vitalidade foi cobiçada a nível global.

Claro que os norte-americanos não entenderam isso e, dez anos depois, houve a refilmagem de Spike Lee, uma frouxa e fracassada tentativa de replicar a tal convencionalidade consistentemente abalroada pelo cinema sul-coreano.

Escrito por Hugo Gomes para a Sapomag

19 de Abril, 19h: “Descerrando os Punhos”

Fic | Rúss | 2021 | M/14 | 97’

Realização: Kira Kovalenko

Interpretação: Milana Aguzarova, Alik Karaev, Soslan Khugaev

Em ‘Descerrando os Punhos’, da russa Kira Kovalenko viajamos para os confins do mundo, através de um retrato íntimo de uma família disfuncional, e através de uma complexa história sobre uma relação de amor e ódio, interpretada por atores locais e a maioria não-profissionais.

‘Descerrando os Punhos’ (‘Unclenching the Fists’), o primeiro filme da realizadora russa Kira Kovalenko foi o vencedor da secção Un Certain Regard do Festival de Cannes 2021 e a aposta da Academia de Cinema Russa na corrida ao Óscar de Melhor Filme Internacional 2022. Formada no Atelier de Realização de Alexander Sokurov na Kabardino-Balkarian State University, Kira Kovalenko inspira-se — segundo ela própria — na estética neo-realista italiana e sobretudo nos filmes de Vittorio de Sica. Porém ‘Descerrando os Punhos’ faz uma referência quase directa a ‘De Punhos nos Bolsos’ (1965), o primeiro filme de Marco Bellocchio, (1965), uma obra quase de terror, que acompanha a vida de várias gerações de uma mesma família marcada por doenças hereditárias e que vivem num espaço fechado e exíguo. À partida este ‘Descerrando os Punhos’ procura explorar também outras questões: a superproteção familiar, o destino e a vida das mulheres oprimidas, nas sociedades e na religião islâmica, as consequências da guerra e do terrorismo, os traumas não ultrapassados ​​e o peso insuportável da falta de liberdade e individualidade. O filme foi rodado no dialecto autóctone, na antiga cidade mineira de Mizur, na Ossétia do Norte, — uma república autónoma localizada na região da Ciscaucásia, da Federação Russa, com uma população de cerca de 3.000 pessoas ou melhor quase deserta. É uma cidade literalmente perdida no fim-do-mundo, cercada de penhascos, e de edifícios pré-fabricados ao estilo comunista, dispostos ao longo de um desfiladeiro de um rio castanho e poluído pela mineração.

A história centra-se na jovem Ada (Milana Aguzarova), que vive nesse lugar longínquo, com seu irmão Dakko (Khetag Bibilov), deficiente e dependente, e com o seu pai despótico (Alik Karaev), que afirma protegê-la, enquanto na verdade absorve toda a sua energia e não a deixa crescer. A frágil Ada, sentindo-se presa nesse ambiente sufocante — há uma vaga insinuação de incesto, pelo menos com o pai e talvez também com os irmãos — e vivendo num lugar que não oferece perspectivas de futuro, deposita todas as suas esperanças no seu irmão mais velho, Akim (Soslan Khugaev), que abandonou a família para ir trabalhar e virar-se na grande cidade de Rostov. O objectivo do irmão mais velho, é tirá-la dali ou pelo menos levá-la a um médico, pois Ada sofre ainda as consequências de um ferimento que sofreu quando criança, — no início sem referência clara a eventos específicos — mas que mais tarde vamos saber que foi uma das crianças vítimas do cerco e massacre da escola de Beslanna Tchechénia, em 2004. Ada tem problemas para controlar a bexiga e sofre de constrangimentos constantes. Também é perseguida diariamente por Tamik (Arsen Khetagurov), um rapaz que está apaixonado por ela. Ada está cercada por homens obsessivos, que de alguma forma projectam nela os seus desejos imaturos e planos sem futuro. A saída é escapar desta sua situação, mas ao mesmo tempo a rapariga não consegue libertar-se ou melhor encontrar uma maneira de o fazer, devido à dependência e também carinho que sente apesar de tudo pelo pai e pelo irmão mais novo, vivendo quase numa espécie de síndroma de Estocolmo. 

Efectivamente este lugar isolado da Ossétia do Norte é o cenário perfeito para o desenvolvimento deste ‘Descerrando os Punhos’, um drama intenso e claustrofóbico sobre simbiose emocional e o isolamento. Contudo os interiores pobres, desarrumados e mal iluminados contribuem também para tornar o filme mais sufocante e pesado. A câmara do director de fotografia Pavel Fomintsev guiada quase sempre à mão é mantida muito próxima da figura e do rosto de Ada, acompanhando os seus movimentos frenéticos, semelhantes aos de um animal assustado, o que contribui para que se estabeleça um clima de ansiedade e angustia permanentes. As andanças constantes de Ada, do pai e dos irmãos (empurrando a moto sem gasolina ou no velho Lada, por exemplo) fazem de ‘Descerrando os Punhos’, também um filme muito físico em que os diálogos se transformam quase em confrontos corporais, em afectos ou abraços não-desejados. Estes episódios de ação constantes constroem a estrutura de uma narrativa estranha, rara, dura e poucas vezes vista do ponto de vista formal e isso é talvez o grande mérito do filme. Em termos de cores, o casaco violeta de Ada e as roupas coloridas que vende na loja da amiga, contrastam com o ambiente empoeirado e cinzento da paisagem de pedras, estradas e túneis e funciona como uma manifestação visual de ruptura ou melhor da busca e da luta desesperada da rapariga, pela sua individualidade fora da família e pela fuga desse mundo que a abafa. Além da fabulosa interpretação de Milana Aguzarova (Ada), uma estudante de teatro de olhos penetrantes e do experiente Alik Karaev (o pai), os dois únicos actores com experiência profissional, Kovalenko reuniu um elenco de não-profissionais completados pelo atleta de luta-livre Soslan Khugaev (o irmão mais velho), cuja contribuição é marcadamente neo-realista, sobretudo pela sua autenticidade e expressividade. A realizadora talvez tenha querido explorar demasiados temas ao mesmo tempo e é difícil dizer que estamos perante mais uma obra-prima do cinema russo, com um piscar de olho aos filmes de Alexander Sokorov’Descerrando os Punhos’ é um bom filme, formalmente impecável, mas que não conseguiu atingir os seus objectivos, talvez por causa de uma narrativa algo instável, com pistas que nem sempre são muito claras e que se tornam por vezes desgastantes e vagas. Porém ao nível das emoções é um filme que mexe bastante com os espectadores. JVM

Escrito por José Vieira Mendes para Magazine-hd.com

5 de Abril, 19h: “Coisas de Homens”

Fic | Fran | 2020 | M/14 | 101’

Realização: Lucas Belvaux

Interpretação: Gérard Depardieu, Catherina Frot, Jean-Pierre Darroussin

O silêncio da história

Lucas Belvaux propõe uma revisitação das memórias da Guerra da Independência da Argélia: “Coisas de Homens” exemplifica a energia de uma tradição francesa que alguma produção contemporânea não esqueceu.

Há toda uma tradição do cinema francês centrada em personagens masculinas que, enfrentando situações especialmente dolorosas, dão mostras de uma fundamental ambivalência dramática — entre a força física ou psicológica e a mais estranha vulnerabilidade. Recentemente falecido, Jean-Paul Belmondo pode servir de exemplo modelar. Ou ainda, em tempos mais remotos, um ícone como Jean Gabin.

Até certo ponto, “Coisas de Homens”, de Lucas Belvaux, é um filme herdeiro dessa tradição. Nele encontramos Gérard Depardieu a interpretar uma dessas personagens: velho e cansado, revoltado, à beira do intratável, ele é um ex-combatente da Guerra da Independência da Argélia — os traumas que transporta, agravando os seus conflitos no interior da pequena povoação rural em que vive, são, afinal, partilhados por toda uma geração de soldados.

O filme vale, antes do mais, pelas qualidades dos seus intérpretes: com Depardieu contracenam, por exemplo, Catherine Frot e Jean-Pierre Darroussin. Estamos, afinal, perante um labirinto de factos e memórias tanto mais perturbantes quanto aqueles soldados foram “reintegrados” nas suas famílias e comunidades através de um pesado silêncio que se abateu sobre as experiências violentas que viveram.

Belvaux aposta num ziguezague temporal que favorece uma curiosa estrutura coral: entre as cenas de passado e presente, vamos descobrindo um movimento (ou uma inércia) social que, de uma maneira ou de outra, assombra todas as relações humanas. Convenhamos que “Coisas de Homens” nem sempre domina muito bem essas alternâncias, mas sabe bem descobrir um trabalho consciente da sua herança temática e narrativa — e do peso dessa herança no património cinematográfico da França.

Crítica de João Lopes

8 de Março, 19h: “A Mulher que fugiu”

Fic | Cor | 2020 | M/12 | 77′

Realização: Hong Sang-soo

Interpretação: Kim Min-hee, Eun-mi Lee, Song Seon-mi

A beleza dos detalhes por Barbara Demerov

O novo filme de Hong Sang-Soo é mais um exemplo de como seu cinema pode ser tão agradável mesmo tratando de coisas tão simples: relações interpessoais, os silêncios que dizem tudo e as palavras que indicam outra coisa. The Woman Who Ran é uma história extremamente simples, mas com um poder de comunicabilidade tão forte que, mesmo não tendo a intenção de se tornar universal, acaba se transformando justamente nisso. Universal.

Ambientado no subúrbio de Seoul, a narrativa acompanha a visita da mulher Gamhee à três amigas que não via há muito tempo. Ela é casada e conta a cada uma que esta é a primeira vez em que viaja sem o marido; ou melhor: esta é a primeira vez que ela passa um dia sem ele em cinco anos de casamento. A cada vez que Gamhee conta isso, a reação das amigas é diferente – assim como o modo como conta isso. Às vezes parece que ela está querendo falar para si mesma, afirmando que está tudo bem não viver separadamente de seu parceiro.

São mínimos os detalhes que tornam esta pequena viagem tão carismática e cheia de vida. Apesar de os diálogos entre Gamhee e suas amigas não possuírem nada de chocante à primeira vista, a graça está nas reações de cada personagem durante eles e no que acontece entre um gole de vinho ou pedaço de carne. Sang-Soo faz comentários sobre vacas e a culpa de se comer carne e também filma um gato de rua (com seus zooms hilários que salientam a aleatoriedade da situação) enquanto espera pela comida. Tudo é muito bem-humorado e, ao mesmo tempo, muito sério.

Ele filma diálogos de vizinhos discutindo sobre manter ou não tal gato por perto com o mesmo plano que filma uma mulher dando um fora em um jovem com que se relacionou apenas uma vez. Por isso, quando o enredo mergulha em temas mais profundos – como perdas e desejo – é quando vemos que a verdadeira graça da história está aí: ao registrar as palavras e acontecimentos mais costumeiros na maior parte do tempo, de vez em quando aparece algo tão cintilante e surpreendente que é impossível se manter impassível.

The Woman Who Ran não é só uma mulher. Apesar da mulher-título ser citada em uma determinada cena do filme, as personagens aqui abordadas também desejam fugir de algo, pois os diálogos também aprofundam dilemas que se refletem em olhares distantes e sem tanto brilho. No fundo há sempre algo a mais, e isso é uma característica única de Sang-Soo. Em conversas de planos-sequência, ele consegue explorar o que está na superfície e o que está mais escondido com a mesma facilidade. Isso demonstra que, apesar de sermos seres complexos, não é tão difícil entender uns aos outros se apenas nos ouvirmos com mais dedicação. Seu cinema é sobre isso: ouvir e prestar atenção.

Escrito para “AdoroCinema.com”

22 de Fevereiro, 19h: “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental”

Fic. | Rom. | 2021 | M/18 | 106′

Realização: Radu Jude

Interpretação: Katia Pascariu, Claudia Ieremia, Olimpia Malai

Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental: a Primavera que reflorestou a Berlinale

Embora a fotografia de Marius Panduru, em certos momentos estilizados de mise-en-scène teatral ou operística, lembre as pérolas do sueco Roy Andersson (como “Da Eternidade”), o filme mais ousado de toda esta Berlinale, o romeno “Bad Luck Banging or Loony Porn” (“Babardeala cu bucluc sau porno balamuc”), tem como parentesco estético universal mais direto as prosopoeias animadas da Warner Bros., tipo “Looney Tunes” ou “Animaniacs”. Há momentos em que só falta o Daffy Duck aparecer, com uma bigorna Acme na cabeça, no meio de uma Roménia que é devassada, de alto a baixo, pelo cineasta Radu Jude, numa narrativa que mais parece uma colectânea de sketches de um espetáculo de comédia stand-up. Ou um bom desenho animado do Coyote contra o Beep-Beep. A relação entre esta comédia abrasiva em live action com as animações da WB é uma analogia inspirada pelo seu ritmo desvairado, dividido em três atos e uma sucessão de epílogos, sempre conectado com a perceção de que o Estado corrompido daquele país é um manancial de absurdos que nem o Bugs Bunny seria capaz de conter. E não há um minuto em que o riso não agite as nossas mandíbulas até a frouxidão.

O guião, assinado pelo próprio Jude, é mais uma comprovação de que a criatividade e a ousadia da Roménia, nas telas, não têm fim, sobretudo ao fazer da pandemia da covid-19 parte da sua narrativa. Gargalha-se de nervoso mesmo quando a câmara está apenas a observar o vaivém das ruas, seguindo a sua protagonista, a professora Emi (Katia Pascariu). Ao segui-la, o realizador de “Aferim!” (2015) já incorpora as máscaras de proteção ao coronavírus entre as suas personagens, datando propositadamente a sua narrativa ao surto pandémico do presente. O seu desejo é de que “Bad Luck Banging or Loony Porn” seja o que nas artes gráficas define-se como cartoon político, ou seja, uma piada em relação ao imediato, ao agora.

A partir da histeria que se vive hoje, entre confinamentos, a comédia de Jude acompanha, em três segmentos formalmente diferentes entre si, a história do ataque a Emi depois que uma gravação dela a fazer amor com o marido é espalhada pela internet. A primeira parte é a sua reação às acusações e o impacto delas no seu dia a dia. A segunda (e genial) é uma livre (e ponham livre nisso!) montagem de cenas com conexões eróticas e políticas, tiradas de arquivos. E a parte final, mais teatralizada, é o julgamento da mulher, onde Jude reduz a sua nação a cinzas, construindo gags (algumas físicas) dignas de um cartoon da Warner.

Mas apesar de toda sua originalidade, similar a pouquíssimas manifestações audiovisuais dos tempos atuais, há uma genealogia nacional, romena, à qual “Bad Luck Banging or Loony Porn” pertence. Ela refere-se a um estilo chamado de Primavera Romena, iniciado há 16 anos quando “A Morte do Senhor Lazarescu” (2005), de Cristi Puiu, lançou uma nova modalidade de realismo social, típica do país, na qual investigações quase sempre irónicas (muitas delas de ritmo tenso) mostram as falências institucionais.

O procedimento básico da Primavera supõe usar uma estética desdramatizada (poucas ações), em locações reais, filmadas com um olhar próximo do documentário, onde as tramas são sempre mote para que se aborde a decadência política (e moral) daquela nação a partir dos escombros sociais deixados como herança pelo Comunismo.

E isso sempre é arejado por um humor dos mais ácidos. Desse projeto estético nasceram filmes de culto como “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, vencedor da Palma de Ouro em 2007; “California Dreamin’”, de Cristian Nemescu; “O Tesouro” (2015), de Corneliu Porumboiu; “Instinto Materno” (Urso de Ouro de 2013) e “Ana , Mon Amou” (2017), de Cãlin Peter Netzer; e “Sieranevada”, do já citado Puiu. O filme de Jude é mais um (grande) exemplar desse cinema que exuma as cicatrizes nacionais para ficar para a posteridade no planisfério da imagem.

Escrito por Rodrigo Fonseca para C7nema. net