23 de Maio, 19h: “I Am Not Your Negro”

Realizado por Raoul Peck
Escrito por James Baldwin

Com a voz de Samuel L. Jackson

EUA, 2016, 93′ M/12

Em 1979, o poeta e ensaísta James Arthur Baldwin (1924-1987) iniciou “Remember This House”, um trabalho biográfico sobre Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), os três maiores líderes negros da década de 1960 nos EUA, todos eles assassinados. A obra analisava a história do racismo, assim como o tratamento dado às minorias em território norte-americano. Baldwin morreu de cancro do estômago antes de a finalizar. O manuscrito inacabado foi confiado ao realizador haitiano Raoul Peck que, combinando textos e imagens de arquivo em que o autor expôs os seus pensamentos, decidiu fazer um documentário sobre o tema.
Narrado pelo actor Samuel L. Jackson, “Eu Não Sou o Teu Negro” é uma reflexão sobre as lutas históricas pela igualdade de direitos e a forma como o tema se mantém actual e pertinente no contexto do século XXI. Estreado no Festival de Cinema de Toronto (Canadá) em 2016, passou pela Berlinale 2017 (onde ganhou o Prémio do Público para o Melhor Documentário), e foi nomeado para o Óscar. PÚBLICO

Retrato de um mundo a preto e branco

Sem vitimização, nem floreados. Racismo, privilégio e desigualdade são palavras chave neste documentário urgente e absolutamente contemporâneo. Depois de esgotar a única sessão no Indie Lisboa, chega agora às salas de cinema.

A voz é familiar. Afinal, é Samuel L. Jackson o narrador da história que se ouve e vê em Eu Não Sou o Teu Negro, o mais recente filme de Raoul Peck que foi nomeado para o Óscar de Melhor Documentário.

As questões raciais na América não são uma novidade e já foram representadas múltiplas vezes no grande ecrã. Mas aqui a história é pessoal. O documentário é baseado no livro Remember this house, de James Baldwin. O ativista morreu a 1 de dezembro de 1987, deixando inacabado um manuscrito. Nessas trinta páginas escreveu sobre Malcom X, Martin Luther King e Medgar Evers, três amigos e também três nomes incontornáveis se falarmos da luta de direitos civis nos EUA – e no mundo. Ouvir sobre vida e morte destes pelas palavras de Baldwin acrescenta o que falta a outros documentários sobre o tema: realismo e proximidade.

Com uma banda sonora sublime e um arquivo cinematográfico pejado de ótimas referências que nos contextualizam no tempo, o documentário resulta num retrato comovente das convicções de Baldwin. Mas reduzir estes 93 minutos à luta de um homem só seria não só redutor, passando a redundância, como falso. Porque, na verdade, o documentário de Peck vai muito além disso. As noções de privilégio, raça e direitos humanos são temas trazidos para a mesa, sem qualquer pudor ou tabu.

O filme, que é todo a preto e branco de uma forma quiçá poética, mas indubitavelmente sugestiva, não procura, contudo, puxar à lágrima ou obter compaixão. Por outro lado, é de uma frieza avassaladora cujo único objetivo parece ser mostrar os factos – e esses são tão desconfortáveis quanto perturbadores. Já dizia Heródoto que há que “pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Resta saber em que parte do processo nos encontramos.

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http://www.insider.pt/2017/05/18/eu-nao-sou-o-teu-negro-retrato-de-um-mundo-a-preto-e-branco/

INTEGRADO NA FESTA DO CINEMA – bilhetes a 2.50€ para não sócios.

16 de Maio, 19h: “Aquarius”

RealizaçãoKleber Mendonça Filho

Intérpretes: Sonia Braga, Maeve Jinkings, Irandhir Santos

BRA/FRA, 2016, 142′

Clara (Sonia Braga) tem 65 anos, é uma crítica musical reformada, viúva e mãe de três adultos. Mora no último prédio de estilo antigo localizado na Avenida Boa Viagem, no Recife e recebe propostas de construtoras, que desejam demolir o edifício para construir um novo empreendimento.

 

Retrato de uma mulher brasileira

“Aquarius” foi um dos acontecimentos marcantes do Festival de Cannes de 2016: Sonia Braga interpreta a figura central de uma história profundamente humana, tendo como pano de fundo a especulação imobiliária no Recife.

É pena que, entre nós, a descrição do audiovisual brasileiro seja, muitas vezes, reduzida às suas variações “telenovelescas”. Tal (falta de) visão priva-nos de conhecermos a diversidade de uma produção que, noutros tempos, ainda sob o efeito do Cinema Novo — Glauber Rocha, Carlos Diegues, Leon Hirszman, etc. —, teve uma presença efectiva no mercado português.

Tanto bastaria para sublinharmos a importância da estreia de um filme como “Aquarius”, escrito e realizado por Kleber Mendonça Filho, aliás um dos objectos de culto da edição de 2016 do Festival de Cannes onde, em qualquer caso, acabou por não obter qualquer distinção — Sonia Braga chegou mesmo a ser apontada como principal candidata ao triunfo de melhor interpretação feminina.

Ela interpreta uma mulher de 65 anos que exerceu a profissão de crítica de música e, depois de superar um problema grave de saúde, encara o edifício em que vive (de nome ‘Aquarius’) como o lugar final da sua existência. O certo é que o seu desejo de paz e privacidade é abalado pela entrada em cena de um empresa imobiliária que não vê a conservação dos prédios mais emblemáticos como uma prioridade…

Podemos inventariar uma série de temas de ressonância universal que perpassam na narrativa de Kleber Mendonça Filho — desde as marcas do envelhecimento até à gestão do espaço urbano, passando pelo diálogo entre as gerações. O certo é que “Aquarius” nunca se reduz a uma “ilustração” de temas, vivendo antes da metódica valorização das suas personagens e respectivas relações.

Sonia Braga é brilhante na composição dessa mulher, de nome Clara, que não quer abdicar da sua independência e do direito a definir as coordenadas da sua vida. Acima de tudo, encontramos aqui uma velha arte de caracterização psicológica que não cede a modernismos postiços ou formalismos fáceis — se a estreia de “Aquarius” for sinal de alguma (re)descoberta da produção brasileira, tanto melhor.

Crítica de João Lopes

9 de Maio, 19h: “O Vendedor”

 

RealizaçãoAsghar Farhadi

IntérpretesShahab HosseiniTaraneh AlidoostiBabak Karimi

Irão/FRA, 2016, 125′, M/12

O iraniano Asghar Farhadi – que trabalha em cinema desde 2002, mas em 2011 prendeu a crítica internacional com “Uma Separação”, que conquistou o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro – está de volta com um filme vencedor de dois prémios em Cannes: o de Melhor Argumento, para o próprio realizador, e o de Melhor Actor, para Shahab Hosseini, tendo recebido novamente o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro 2017.
“O Vendedor gira” à volta de um casal de actores que são protagonistas de uma produção local da emblemática peça “A Morte de um Caixeiro Viajante”, escrita por Arthur Miller em 1949 e premiada com o Pulitzer. Forçados a sair do seu apartamento devido a obras no prédio vizinho, Emad e Rana mudam-se para um novo apartamento no centro de Teerão. Um incidente ligado ao anterior inquilino vai mudar drasticamente a vida do jovem casal.

 

As fronteiras das relações humanas

Distinguido com dois prémios em Cannes, “O Vendedor” vem confirmar a coerência do trabalho do realizador iraniano Asghar Farhadi — os seus particularismos não excluem, antes favorecem, uma dimensão fortemente universal.

Quais as hipóteses de um filme iraniano — sublinho: do Irão — em plena quadra natalícia? Como é que esse filme se pode “defender” da avalancha promocional que sustenta os produtos típicos de Natal (“bons” ou “maus”, não é isso que está em causa)?

Será que dois prémios em Cannes — interpretação masculina e argumento — são suficientes para que “O Vendedor” [título internacional: “The Salesman”], de Asghar Farhadi, seja conhecido e reconhecido por algum público?

Eis algumas questões que quase ninguém formula (e muito poucos arriscam enfrentar), mas que estão no centro da actual dinâmica — ou falta de dinâmica — do mercado. Claro que aquilo que está em causa não são os filmes que, de uma maneira ou de outra, são mais falados e mais vistos. O que está em causa é, ainda e sempre, o valor essencial da diversidade.

No caso de “O Vendedor”, a diferença é tanto mais interessante quanto não apaga, antes multiplica, o seu alcance universal. Estamos, assim, perante uma história obviamente enraizada num contexto eminentemente iraniano: um casal de actores (a trabalhar numa encenação de “A Morte de um Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller) tenta resolver a crise que os assalta — a pouco e pouco, por uma espécie de assombramento material e moral, todas as relações parecem abaladas…

O espectador atento reconhecerá a coerência de Farhadi. Tal como em “Uma Separação” (2011) e “O Passado” (2013), ele trabalha a partir dos elementos mais enraizados do quotidiano — neste caso, um incidente protagonizado pela mulher (confundida com uma prostituta) — para, a partir do seu desenvolvimento, observar as fronteiras das próprias relações humanas. Dir-se-ia entre as máscaras do teatro e as intensidades da vida sem máscaras.

É um filme de uma rara subtileza humana, alicerçado num realismo metódico e obsessivo, para mais ligado a um notável trabalho de representação — Shahab Hosseini e Taraneh Alidoosti definem mesmo um dos mais espantosos pares de actores vistos ao longo de 2016.

Crítica de João Lopes

2 de Maio, 19h: “Neruda”

Realização: Pablo Larraín

Intérpretes: Gael García Bernal, Luis Gnecco, Mercedes Morán

ESP/FRA/EUA/ARG/Chile, 2016, 107′

1948, a Guerra Fria estendeu-se até ao Chile. No Congresso, o senador Pablo Neruda critica abertamente o governo. O presidente Videla exige a sua destituição, e confia ao temível inspector Óscar Peluchonneau a responsabilidade de deter o poeta. Neruda e a esposa, a pintora Delia del Carril, não conseguem sair do país e são obrigados a esconder-se. Ele espicaça o inspector, deixando-lhe pistas voluntariamente, de forma a tornar a perseguição ainda mais íntima e perigosa. Neste jogo do gato e do rato, Neruda aproveita a ocasião para se reinventar e tornar-se um símbolo da liberdade e uma lenda literária.

 

Na intimidade de Pablo Neruda

Antes de ter dirigido “Jackie”, sobre Jacqueline Kennedy, o chileno Pablo Larraín assinou um notável retrato de Pablo Neruda: “Neruda”, com Luis Gnecco e Gael García Bernal, esteve na Quinzena dos Realizadores em Cannes/2016.

Depois da estreia em época de Oscars do filme de Pablo Larraín, “Jackie” (que deu a Natalie Portman uma nomeação na categoria de melhor actriz), é natural que muitos espectadores vejam na biografia assinada pelo cineasta chileno que agora chega às salas portuguesas — “Neruda”, sobre o poeta Pablo Neruda (1904-1973) — uma espécie de consequência natural. De facto, “Neruda” é anterior a “Jackie”, tendo sido revelado em Maio de 2016, na Quinzena dos Realizadores, em Cannes.

Não é uma mera questão cronológica que importa. É, isso sim, o facto de Larraín recorrer ao modelo tradicional do “filme-biográfico” para o discutir e, por assim dizer, virar do avesso. Desde logo, porque ele escolhe um arco temporal claramente delimitado: em “Jackie”, tratava-se de rever Jacqueline Kennedy nos dias que se seguiram ao assassinato do marido; em “Neruda”, acompanhamos de forma metódica as convulsões decorrentes do facto de o poeta ter criticado, em 1948, a repressão anti-comunista do Presidente Gabriel González Videla.

Nesta perspectiva, aquilo a que assistimos é menos a caracterização “psicológica” de uma personagem e mais o labirinto de tensões que aproxima e afasta duas figuras emblemáticas: Neruda, claro, interpretado com admirável secura realista por Luis Gnecco, e Oscar Peluchonneau, o chefe da Polícia de Investigação que Gael García Bernal compõe num jogo de desconcertante (e fascinante) ambivalência moral.

Sendo um notável fresco histórico, em que cada detalhe conta, “Neruda” acaba por ser também um drama de inusitada intimidade. Assistimos, em última instância, não a uma abordagem panfletária ou maniqueísta do espaço político, antes a uma viagem pelas diferenças entre dois homens separados pelos valores históricos, mas “unidos” pela miragem de um Chile mítico e redentor. Larraín é, enfim, um cineasta capaz de nos dar a ver a história — individual e colectiva — como uma saga visceralmente humana, impossível de reduzir a conceitos meramente ideológicos.

Crítica de João Lopes

18 de Abril, 17 e 19h: “Mudar de Vida”

Realização: Paulo Rocha

Intérpretes: Geraldo d’El Rey, Isabel Ruth, Maria Barroso, João Guedes, Nunes Vidal,Mário Santos, Constança Navarro, Jose Braz

FRA/ITA, 2016, 118′

Uma praia de pescadores, o mar que a pouco e pouco vai conquistando a terra. A luta do homem com o mar e sobretudo a luta entre a tradição e o progresso. No centro do drama estão as relações sentimentais, difíceis e quase absurdas que unem um pescador, Adelino, de regresso da guerra de África e duas mulheres, Júlia, uma mulher do mar (à moda antiga), e Albertina, uma operária misteriosa e selvagem. Voltando do Ultramar, Adelino encontra Júlia, a sua antiga namorada, casada com o seu irmão. O drama surge… Albertina, a operária, desafia-o a partir, a Mudar de Vida.

Esta cópia corresponde ao restauro digital de “Mudar de Vida” levado a cabo por iniciativa do Realizador e em grande parte concluído em vida deste. A nova matriz digital de imagem de resolução 2K foi obtida por transcrição do negativo de imagem de 35mm. O som foi restaurado digitalmente tomando como referência a mistura final do negativo de som óptico mas recuperando também bandas magnéticas parciais. Prosseguindo a colaboração inicialmente prestada a Paulo Rocha, as várias etapas do restauro tiveram supervisão do Realizador Pedro Costa, a quem a Cinemateca Portuguesa  – Museu do Cinema manifesta o seu profundo agradecimento

Mudar de Vida (1966) conta-nos a história de um idílio impossível, de uma reconciliação dorida e improfícua com as Origens – a Terra natal, a Mulher; mas também é um inventário grave e caricioso das obras que o homem inflige à terra, da lavradura dos mares e dos ares, do sal e da areia: é impossível apreender o significado do conflito romântico central sem relacioná-lo à canção de Gesta entoada por aquela pequena aldeia mediterrânea. Júlia, Adelino, Raimundo constituem não apenas os vértices de um triângulo romanesco, mas também as arestas – domésticas, “tópicas”- de um combate sempiterno com os elementos; o reencontro entre os amantes dá-se sob a égide de um Theatrum mundi: sob o sol e diante do mar, no areal onde Júlia trabalha. A arena trágica grega aqui retoma o seu espaço-tempo de presença, irradiante sob o sol, irisada de chuva, alternadamente apolínea e dionisíaca. Ao primeiro plano que nos mostra Adelino se encaminhando para o lugar, Rocha introduz um contracampo laboral, onde se vê uma mulher que ara o solo. A subjetividade “aparece” nesta cratera telúrica, de onde tudo advém. Melodrama sublimado pela omnipresença oracular da paisagem, Mudar de Vida não admite a separação, levada a cabo pelos arcanos do drama burguês, entre o intimismo elegíaco e o gregarismo trágico. Uma quintessência da integração clássica (mundo, gesto) se atinge e esmera aqui: “Somos” o mundo onde habitamos e trabalhamos. Paulo Rocha é um poeta bucólico e um rapsodo, pois sabe, em um mesmo e compassado movimento, rematar o imponderável da subjetividade e o inelutável do mundo. São os contrafortes rochosos e as ondas revoltas do mar as testemunhas destes olhares furtivos; é a pedra silente e eterna que os sagra. A Natureza assume aqui o papel do espectador- ou somos nós que tomamos o seu lugar e arraigamos, impassíveis, o seu desejo carnívoro? A consangüinidade entre a subjetividade e o”mundo que os contempla” é tão forte que, quando Júlia desmaia no início do filme, o espaço do filme vacila e titubeia com ela. Abre-se uma cratera no seio do mundo das aparências, um vácuo fenomenológico, cujo efeito é a desorientação espacial: deslocação precipitada de eixo, motricidade deficitária da câmera, que parece ceder à atração da terra negra e crepitante. Esta veemência sismográfica que a câmera adquire é um revelateur de que Adelino e Júlia são depositários mediúnicos de forças e ritos que os ultrapassam, de vaticínios que os espreitam, de demiurgias secretas que animam os ares e a terra.. quando Júlia está à cabeceira de Adelino convalescente, uma intuição em comum os ilumina: “Todos os vivos… e todos os mortos”. Eles pertencem a um universo muito vasto e muito antigo, de que o seu caso de amor desafortunado é a manifestação atual, episódica, claudicante- uma constelação arquetipicamente unitária, governada pelos vivos e pelos mortos, pelas marés e pelas estações, pelo Nomos e pelo Logos resguardados pelos rituais comunitários. Aqui, a Cultura não se opõe à Natureza, mas a ratifica e comemora: “Somos bichos”. Tudo se origina e deságua em uma mesma temporalidade cíclica. O festim das espumas que desembocam na areia, as alvíssaras febris da pesca em alto-mar, o cadenciado das palmas e dos cantos na glorificação do santo: a atenção meticulosa com que Mudar de Vida se detém sobre efemérides naturais e civilizacionais nos sugere que o mundo investigado aqui não separa ou justapõe estes domínios, mas os celebra com idêntica unção, como se pertencessem a um mesmo, amplíssimo e ressoante corpo cósmico, percutido pelo beat dos elementos. Uma pátina de Eterno recobre as cantigas, as rodas, as batidas; cada gesto se refrata e ressoa em um gesto anterior, primevo e último. O antropólogo e o poeta elegíaco, o entomologista e o cronista, o documentarista e o contista são requisitados em igual medida para traçar o panorama de um mundo anterior às cismas do Logos Ocidental e de suas instituições. Este mundo teve uma história, um ethos, um Romanceiro metafísico: reconciliação.

E é justamente contra o fundo desta aspiração concertante à unidade que a “cisão” representada por Júlia e Adelino adquire a sua ressonância patética: ela constitui uma fissura que deve necessariamente ser suturada, uma dívida cujo resgate é inapelável; a coluna de Adelino, a doença cardíaca de Júlia são os estigmas somáticos de uma radical situação, glosada com bonomia pelo casal de velhos (Olha o que isto vai dar!), refratada pela circunspecção desconfiada de Raimundo (seu irmão, seu esposo) e pelos flatus vocis de Júlia, que parece pressentir a Morte– carregá-la dentro de si… Quando Rocha nos mostra Adelino desvanecido sob o peso da embarcação, uma rima se estabelece com a astenia de Júlia; ambos sucumbem ao “peso” de uma condição superior às suas forças, cuja potência acabrunhante os esmaga: o draconiano universo do trabalho, índice de um devir submetido à férrea repetição, à estandardização do gesto e da força: este mundo bigger than life, que imprime sobre os míseros corpos humanos a cicatriz de sua passagem… Mas é por intercessão desta condição deficitária que eles acedem a uma espécie de êxtase, a momentos de semi-transe (o close em Del Rey durante a convalescença de Adelino, ou quando Júlia acorda do desmaio) que designam precisamente esta borda, penumbrosa e vacilante, sobre a qual se equilibram precariamente estes seres transidos pela paixão e pela culpa; o pathos que os consome aliena-os do meio, perde-os em si mesmos; por vezes, Mudar de Vida parece flutuar, e uma semi-hemiplegia da percepção condena Júlia e Adelino a uma existência fantasmagórica, entre angélica e vampiresca. Estar doente é ser aqui e lá, ancorado num promontório espiritual, fustigado pelas tormentas da alma; Rocha descobre para a casmurrice fenomenológica do doente uma ressonância existencial, um stimmung tenebroso que os aproxima de personagens de Dostoiévski. A intensidade ensimesmada que Geraldo del Rey e Maria Barroso imprimem a ambos isola-os em um cristal de inviolabilidade profética, que estilhaça o basso continuo classicista do filme com as agruras melódicas de um impromptu expressionista; a opacidade telúrica do meio é por um momento suspensa, rarefeita sua pressão entrópica. Mas o que se substitui ao augúrio trágico do mundo exterior talvez seja ainda mais ameaçador: uma experiência da subjetividade como o vetusto refúgio do fantasma. Quando o filme “volta a si”, permanece assombrado por este marasmo envenenado que o spleen dos personagens espraiara pelo ar.

Mundo, subjetividade, reconciliação, expiação: um contrato cósmico irremissível determina que a falta trágica deve ser sanada a qualquer custo. Um equilíbrio anterior deve ser restaurado, uma Origem restituída à sua fonte sem mácula, um élan divino sustentado em sua nota cristalina. Se Mudar de Vida assume como premissa uma convenção trágica, é para ao final pervertê-la com uma pirueta: não encontramos como esperávamos um Die irae, mas uma sonatina de risos pela campina. Ao sacrifício de todos, substitui-se o sacrifício de um particular, Júlia- e já conhecemos o suficiente da economia da redenção para intuir no amor esta moeda de troca conversora, através da qual o opróbrio transfigura-se em dom, a Morte em nova vida (espiritual). É a introdução da personagem de Albertina quem opera esta comutação: ao amor culpado e imemorial com a cunhada, um flerte aventuresco com a irmã do patrão; à ligação quase-incestuosa (e pensemos aqui nas implicações simbólicas deste enlace vertical de sangue: a Mãe, a Mulher, a Origem), a descontração “forma balada” de um amor fortuito, que revolve (imanta) o plano com a perseguição que inaugura o encontro de ambos. Ao trabalho como “maldição”, o labor como dom de vida (plus): “Dá-me este dinheiro. Não precisamos dele. Temos braços”. À verticalidade opressora destes blocos de granito que enquadram os encontros entre Júlia e Adelino, a horizontalidade do planalto finalmente descoberto, na corrida com Albertina. “O mundo é grande”, ela lhe responde com arrogante precisão. Mundos: caminhos e destinos. Nada é mais garantido de antemão (o Fatum!). De certa forma, Mudar de Vida é um filme incompleto; mas é na forma brusca com que se encerra que podemos ler em filigrana um “happy end”: o inacabamento do gesto final – estes dois que, telescopiados por um plano generosamente geral, se encaminham para fora do plano- é o índice de uma fresta de liberdade enfim conquistada, de uma abertura transitiva ao porvir e suas veredas.  , in http://www.apaladewalsh.com

http://www.apaladewalsh.com/2014/10/mudar-de-vida-os-dons-do-mar/

Sessão ás 17h – ENTRADA LIVRE para >60anos (Integrada no programa Junt’Anima Seniores)

Sessão às 19h – preço habituais