24 de Outubro, 19h: “O Ilustre Cidadão”

Realização: Mariano CohnGastón Duprat

IntérpretesOscar MartínezDady BrievaAndrea FrigerioManuel Vicente

ESP/ARG, 2016, 118′ M/12

Depois de recusar importantes e prestigiosos prémios em todo o mundo, Daniel Mantovani, vencedor do Prémio Nobel da Literatura, aceita o convite para visitar a sua terra natal na Argentina, que tem sido a inspiração para todos os seus livros. Acontece que aceitar este convite foi a pior ideia da sua vida, quando Mantovani reencontra todos os fantasmas do seu passado. Pode esperar-se o inesperado quando se usa pessoas verdadeiras como personagens dos seus livros!

O Ilustre Cidadão, uma deliciosa comédia negra argentina, ganhou o prémio para Melhor Actor no Festival de Veneza do ano passado e agora chega aos cinemas portugueses.

O Ilustre Cidadão, o mais recente filme dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, começa de forma electrizante. Mais especificamente, tem início com o seu protagonista, um celebrado escritor argentino chamado Daniel Mantovini, a receber o prémio Nobel da Literatura em Estocolmo. Nada disto implica uma abertura de grande valor cinemático ou de entretenimento, mas então Mantovini começa a falar e, ao invés de se mostrar grato e humilde como é costume neste tipo de cerimónia, as suas palavras estão cheias de desprezo e condescendência mal disfarçada. Para o escritor, o reconhecimento que a Academia Sueca lhe deu trata-se de uma incontestável prova de que o seu trabalho já não tem valor artístico, é uma confirmação do seu declínio enquanto criador.

A cereja no topo deste delicioso bolo de intransigência provocatória é o que Mantovini faz a seguir a terminar o seu discurso: ele coloca-se em frente aos membros da Academia e olha expectante para a audiência, até que estes começam a aplaudir e ele fica em pé sorridente e a banhar-se na adoração do seu público. A rebeldia antissistema deste artista é nada mais que uma comodidade para o jogo de fama e validação pública do protagonista. Assim termina o prólogo, a que se seguem cinco capítulos, o primeiro dos quais tem lugar cinco anos após o incendiário discurso do Nobel, em Barcelona onde Mantovini vive há décadas. Aí, encontramos o escritor laureado que, depois de recusar uma série de convites de inúmeras organizações internacionais, diz à sua fiel assistente que vai aceitar um pedido feito pela sua terra natal de Salas, cujo município o quer condecorar com a medalha de “Ilustre Cidadão”.

Apesar de Mantovini ter usado a localidade que o viu nascer como fonte de inspiração e cenário para todos os seus romances, desde a sua juventude que ele não lá põe os pés. Mesmo quando os seus pais morreram, o escritor recusou-se a regressar à Argentina, permanecendo no continente europeu, onde todo o seu sucesso literário foi obtido. Refletindo sobre essa mesma realidade, o autor confessa à assistente que as suas personagens nunca puderam escapar de Salas, e ele, pelo contrário, nunca foi capaz de regressar. Pelo menos, foi assim durante décadas, até que um impulso passageiro o levou de volta, talvez em busca da receção de um herói local e da adoração popular que, como vimos na primeira cena do filme, tanto alimenta o seu ego.

Quaisquer ideias de glória heroica são logo postas à prova quando, ao invés de uma escolta imponente, Mantovini encontra uma carripana a cair aos bocados para o levar a Salas e, como não podia deixar de ser, a meio do caminho o automóvel para de trabalhar. O facto do autor ter recusado qualquer presença de imprensa ou a companhia da sua assistente apenas piora a situação e ele e o seu companheiro de viagem são eventualmente obrigados a queimar os próprios livros do escritor para se aquecerem e a usá-los como papel higiénico. Chegado à localidade com um dia de atraso, Daniel acaba por ter a sua receção heroica, mesmo que o glamour possivelmente idealizado pelo espectador nada tem que ver com a miséria e ridículo saloio que marca todos os festejos à volta do escritor celebridade.

O Ilustre Cidadão vai-se assim revelando como uma história de choque cultural entre o escritor cosmopolita e os crescentes ridículos e absurdos com que ele se depara em Salas. O estilo realista, quase documental na sua crua filmagem digital, que os cineastas habituados a projetos televisivos empregam apenas sublinha o potencial cómico do guião e o mesmo acontece com as prestações de quase todo o elenco que se mantêm na precária corda bamba entre o naturalismo e a caricatura. Pelo menos esse é o equilíbrio que orienta o filme até uma hostil confrontação durante o julgamento de um concurso de pintura local, em que finalmente o filme traça claras linhas de batalha entre o seu protagonista intelectual e a comunidade regida por favores, cunhas, costumes antiquados, gostos conservadores, conformismo cultural e outros tantos vícios e defeitos que Mantovini observa com indignação elitista.

Desse modo, O Ilustre Cidadão deixa de ser uma comédia ligeira para se assumir como uma sátira fortemente política da sociedade argentina, aqui representada no microcosmos de Salas. Mais do que uma paródia da Hollywood dos anos 30, a narrativa do filme vai-se aproximando de modelos dramáticos como, por exemplo, A Visita de Friedrich Dürrenmatt e suas venenosas observações sociais sobre mesquinhez comunitária, a incapacidade de pessoas aceitarem o conceito de mudança e até sobre a corrupção que floresce entre locais como este. Mas o argumento desta obra não deixa que o seu olhar crítico incida somente sobre o povo provincial, também vendo com algum moralismo a figura indulgente de Mantovini que se está sempre a contradizer e cujas obras efetivamente minam Salas e sua comunidade como inspiração para obras aparentemente focadas em vícios humanos.

A certa altura, durante uma das palestras do escritor, uma senhora pergunta por que razão ele não escreve coisas bonitas. Podemo-nos rir da questão e nela encontrar provas de modos de vida conformistas e gostos filistinos, mas também há nessas palavras a implícita crítica este autor que delicia os académicos europeus com os seus relatos de miséria nas distantes comunidades rurais da Argentina.

Muitos críticos internacionais parecem ter ignorado quão o filme é uma espada de dois gumes, vendo nele somente uma comédia feita ao custo da dignidade do povo provinciano de Salas. No entanto, é difícil de ignorar quão o epílogo do filme paralela o seu prólogo, mostrando-nos, mais uma vez, como Daniel Mantovini está pronto a explorar polémica e denegrir Salas se isso lhe garantir fama, respeito e a notoriedade visualmente sintetizada nos flashes frenéticos de câmaras fotográficas.

Nem que fosse só pelo seu sorriso ambivalente aquando destes últimos instantes de O Ilustre Cidadão, o famoso Oscar Martinez teria plenamente merecido o prémio de Melhor Actor que ganhou no Festival de Veneza do ano passado. Mas, para além disso, a sua gloriosa prestação engloba todo os momentos do filme, servindo de âncora à mirabolante sátira que orbita à volta deste escritor honrado com o Nobel.

Cláudio Alves, in http://www.magazine-hd.com/apps/wp/ciudadano-ilustre-cidadao-em-analise-critica/

 

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21 de Outubro, 16.30h: “Ozzy”

Realização: Alberto Rodríguez

Versão dobrada em português

ESP/CAN, 2016, 90′ M/6

Ozzy é um jovem beagle que sempre viveu feliz com a sua família humana. Quando recebem a notícia de que ganharam uma viagem ao Japão, os humanos não cabem em si de contentes. O problema surge no momento em que percebem que nessa viagem não são permitidos cães. Decididos a deixar o seu grande amigo em boas mãos, optam por inscrevê-lo no Blue Creek, um spa para cães que se assemelha ao paraíso (canino, claro). Mas o que ele descobre assim que os donos viram costas é aterrador: afinal, Blue Creek é uma prisão gerida pelo terrível Sr. Silva, onde impera a lei do mais forte, a mais injusta e arbitrária regra alguma vez criada. Agora, para conseguir sobreviver até ao regresso da família, o que o inexperiente Ozzy tem de fazer é manter-se longe de sarilhos e perceber em quem confiar…
Um filme de animação que marca a estreia na realização de Alberto Rodríguez e Nacho La Casa. Na versão dobrada em português, as vozes são de Tiago Teotónio Pereira, Filipa Areosa, José Mata e Diogo Valsassina. PÚBLICO

 

 

 

 

 

 

17 de Outubro, 19h: “As Donzelas de Rochefort”

Realização: Jacques Demy

Intérpretes: Catherine DeneuveDanielle DarrieuxFrançoise Dorléac

FRA, 1966, 120′  M/12

Catherine Deneuve e a sua irmã Françoise Dorléac (prematuramente desaparecida num trágico acidente) são as “donzelas de Rochefort”, outro porto francês amado e cantado por Jacques Demy. A história, em estilo de conto de fadas à volta de marinheiros e raparigas por eles apaixonadas, é uma celebração e homenagem ao musical americano que tanto fascinava Demy, e que se materializa na presença de Gene Kelly e do intérprete de “West Side Story”, George Chakiris. Texto: Cinemateca Portuguesa

 

A música e a magia de Jacques Demy

Grande acontecimento no mercado de Verão: “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” e “As Donzelas de Rochefort” regressam em cópias digitais restauradas — para reencontrar a magia do cinema musical segundo Jacques Demy.

… e o grande acontecimento do Verão cinematográfico tem o nome de Jacques Demy! É verdade: através de reposições em cópias digitais restauradas podemos redescobrir dois títulos fundamentais de uma certa ideia francesa de musical: “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” (1964) e “As Donzelas de Rochefort” (1967). Com eles, Demy celebrou a sua filiação na grande tradição de Hollywood, ao mesmo tempo inventando um cinema cantado e encantado que, afinal, marcou de forma indelével os anos 60 da Nova Vaga.

AS DONZELAS DE ROCHEFORT – Jacques Demy

Três anos depois do impacto de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (também em reposição – e que o Cineclube de Tomar irá passar no início de 2018), Jacques Demy (1931-1990) relançava e relançava-se no musical com aquele que é, provavelmente, o seu trabalho mais universal.

De novo com Catherine Deneuve, agora contracenando com a irmã Françoise Dorléac, este é um objecto mais próximo das matrizes clássicas de Hollywood, aliás presente através de dois nomes emblemáticos: Gene Kelly, mestre absoluto da idade de ouro do género, e George Chakiris que, em 1961, contracenara com Natalie Wood em West Side Story.

Atravessado pelas ilusões utópicas da paixão amorosa, As Donzelas de Rochefort consuma, além do mais, uma proeza rara: a de “ocupar” as ruas e praças de Rochefort como quem reinventa os recursos tradicionais do estúdio fechado – simples e genial.

Classificação: ***** (excecional)

João Lopes in CineMax e DN Artes

10 de Outubro, 19h: “Três Novas Curtas Portuguesas”

Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante, com Frederico Costa Amarante Barreto e Mara Costa Amarante, 19 min

Coelho Mau, de Carlos Conceição, com Carla Maciel, João Arrais, Júlia Palha, Matthieu Charneau, 30 min

Farpões Baldios, de Marta Mateus, António Prudêncio, João Capitão, Maria Clara Madeira, Tobias José Liliu, 25 min

 

Cinema português em formato pequeno

Numa iniciativa da Midas Filmes, chegam ao mercado três curtas-metragens portuguesas, apresentadas em programa conjunto — os seus autores são Diogo Costa Amarante, Carlos Conceição e Marta Mateus.

Eis um pequeno grande acontecimento no panorama da exibição do cinema português. E vale a pena sublinhar o adjectivo pequeno: trata-se, de facto, de dar a ver, em programa conjunto, três curtas-metragens que se têm distinguido nos últimos tempos, tanto em Portugal como no estrangeiro — ” Três novas curtas portuguesas” inclui:

* CIDADE PEQUENA, de Diogo Costa Amarante — consagrado com o Leão de Ouro do Festival de Berlim, tem no seu centro uma criança atormentada pelo pensamento de que as pessoas, afinal, podem morrer: um retrato íntimo em que a cidade, lugar urbano, é sobretudo uma paisagem interior.

* COELHO MAU, de Carlos Conceição — a vida de dois jovens, assombrada por sombras familiares que são, afinal, fantasmas sexuais, vai derivando para os domínios da fantasia — em última instância, a vibração dos corpos atrai as componentes tradicionais da fábula.

* FARPÕES BALDIOS, de Marta Mateus — em cenários do Alentejo, a relação com a terra é revista através do cruzamento de memórias mais ou menos remotas com a realidade crua do dia a dia; o filme participou na última edição do Curtas de Vila do Conde, tendo arrebatado o Grande Prémio da competição internacional.

João Lopes, in CineMax

 

A estreia em sala das curtas-metragens portuguesas Cidade PequenaCoelho Mau Farpões Baldios, que se distinguiram internacionalmente, é uma celebração do cinema português. Eis três pequenos grandes filmes

O cinema não se mede aos palmos, já se sabe. Mas, no caso do cinema português, tem sido tão flagrante o reconhecimento internacional das curtas-metragens que se pode afirmar que, nesta matéria, muitas vezes, são os pequenos que se agigantam. No passado recente, Portugal recebeu uma Palma de Ouro em Cannes e três ursos de ouro em Berlim, palmarés invejável, atendendo até a nossa relativamente pequena produção.

O mais recente Urso de Berlim foi precisamente para Cidade Pequena, de Diogo Costa Amarante, que se estreia agora em sala, na companhia de duas outras curtas: Farpões Baldios, de Marta Mateus, e Coelho Mau, de Carlos Conceição. Os filmes, que passaram todos pelo Curtas de Vila do Conde, têm em comum a recuperação de uma ambiência rural, contrastante com a linha de cinema urbano predominante nos nossos dias.

Com uma estética muito apurada, cuidado fotográfico perfeccionista, Diogo Costa Amarante filma, em Cidade Pequena, a irmã e o sobrinho, para tratar a angústia da morte na infância. O rapaz ouve dizer na escola que as pessoas morrem quando o coração para de bater e fica preocupado e inquieto. Costa Amarante propõe-se a essa difícil missão de filmar o interior pelo lado de dentro. É um filme forte e bonito, que fala do crescimento.

Farpões Baldios, de Marta Mateus, foi a grande surpresa do último Curtas de Vila do Conde. O filme ganhou mesmo o prémio internacional do festival, o que é raro acontecer a uma obra portuguesa. Novamente com uma fotografia de qualidade suprema e uma certa austeridade nos enquadramentos e nas montagens, a realizadora viaja ao Alentejo, numa narrativa simples e contemplativa. Ao contrário de outros cineastas da sua geração, Marta Mateus parece reivindicar as referências de Manoel de Oliveira e António Reis.

Finalmente, Coelho Mau, de Carlos Conceição, realizador habituado a marcar presença em importantes festivais. Na senda do anterior Boa Noite, Cinderela, Conceição distorce o universo das histórias de encantar e cria uma atmosfera bucólica, mágica mas, ao mesmo tempo, altamente perversa. Uma espécie de conto de fadas para adultos, com uma sensualização deliberada do corpo masculino, e um tratamento plástico altamente minucioso.

Manuel Halpern, in Visão

3 de Outubro, 19h: “Treblinka”

Realizador: Sérgio Tréfaut
Documentário, a partir das memórias de Chil Rajchman

Com as vozes de Kirill Kashlikov e Isabel Ruth

POR/RUS, 2016, 61′ M/14

Nascido na Polónia, o judeu Chil Meyer Rajchman (1914-2004) foi um dos sobreviventes ao Holocausto. Prisioneiro do campo de extermínio nazi de Treblinka (Polónia), onde mais de 800 mil pessoas perderam a vida, pertenceu a um grupo muito restrito de pessoas que conseguiram escapar após uma revolta, a 2 de Agosto de 1943. Fugiu para Varsóvia, onde viveu sob anonimato até ao fim da guerra e onde escreveu “Sou o Último Judeu”, um livro de memórias sobre os dez meses no campo. Essa obra foi publicada em 2009, já depois da sua morte, em 2004, na cidade de Montevideu (Uruguai), país para onde emigrou e onde passou o resto da vida. “Os vagões tristes transportaram-me para este lugar. Vêm de toda a parte: de leste e de oeste, do norte e do sul. De dia como de noite, em todas as estações: Primavera, Verão, Outono, Inverno. Os comboios chegam sem percalços, incessantemente, e Treblinka prospera a cada dia que passa. Quantos mais chegam, mais Treblinka consegue absorver.” Assim começa o seu relato.
Vencedor do Prémio de Melhor Filme Português no IndieLisboa 2016, é sobre este homem e muitos outros que se debruça este filme-ensaio escrito e realizado por Sérgio Tréfaut. Neste “universo dos sobreviventes”, em que a acção decorre durante uma viagem de comboio transiberiana, são os actores Isabel Ruth e Kiril Kashlikov a dar voz aos testemunhos. PÚBLICO

Documentário, ficção & etc.

Como revisitar as memórias do Holocausto? “Treblinka”, de Sérgio Tréfaut, é um filme precioso para lidar com tal interrogação — e tanto mais quanto nele encontramos mais uma via para relançar o debate sobre as relações entre documentário e ficção.

Mais do que nunca, a discussão sobre as fronteiras, ou as contaminações, entre documentário e ficção está na ordem do dia. Acima de tudo, importa manter o olhar disponível e o pensamento aberto — não se trata de escolher um em vez do outro, muito menos um contra o outro, mas de compreender como a própria evolução do cinema criou novas matrizes de expressão em ambos os territórios.

Vencedor da competição nacional no Indie Lisboa 2016, “Treblinka”, de Sérgio Tréfaut, aí está como um objecto modelar no interior dessa discussão. Mais do que isso: estamos perante um trabalho de encenação que se coloca, muito conscientemente, num ponto em que os mecanismos típicos da ficção se combinam, com exemplar rigor, com as matrizes mais tradicionais da escrita documental.

Trata-se, então, de evocar o Holocausto e, mais especificamente, o campo de extermínio de Treblinka. A partir de uma dualidade, ou melhor, de uma dialéctica tão simples quanto perturbante: por um lado, as personagens interpretadas por Isabel Ruth e Kirill Kashlikov viajam de comboio, pelo Leste europeu, retomando as vias dos comboios que transportaram muitos milhares de vítimas para os campos construídos pelos nazis; por outro lado, as palavras de Chil Rajchman, sobrevivente de Treblinka, repõem a intensidade trágica de memórias que importa preservar.

Documentário ou ficção? Dir-se-ia que algo acontece para lá desses dois termos. Como se o cinema contemporâneo (alguns filmes contemporâneos, entenda-se) arriscassem discutir as próprias bases do fundamental efeito de real. É, afinal, uma via fulcral para discutir também o naturalismo equívoco, supostamente transparente, tantas vezes canalizado por muitas mensagens televisivas — o cinema sabe pensar para lá desse naturalismo.

Crítica de João Lopes – 14 julho ’17

 

26 de Setembro, 19h: “Duas Mulheres, Um Encontro”

Realização: Martin Provost

Intérpretes: Catherine DeneuveCatherine FrotOlivier Gourmet

FRA, 2017, 117′  M/12

Generosa, íntegra e bem-intencionada, Claire é uma mãe solteira de 49 anos que dedicou toda a vida ao filho e à profissão de parteira. Na mesma altura em que se debate com o possível encerramento da maternidade onde sempre trabalhou, depara-se com o súbito reaparecimento de Béatrice, a ex-namorada do seu falecido pai, de quem não tinha notícias há quase 40 anos. Ao contrário dela, Béatrice é exuberante, superficial e autocentrada. Este encontro vem causar algum desequilíbrio à vida de Claire, que nunca lhe perdoou o facto de ter levado o pai ao suicídio. Mesmo que a princípio o relacionamento entre elas se revele difícil, aos poucos vão criando laços e, apesar das diferenças óbvias, ambas sabem que têm muito a aprender uma com a outra…
Escrito e realizado por Martin Provost (“Séraphine”, “Violette”), um filme dramático protagonizado por duas das mais importantes actrizes francesas da actualidade: Catherine Deneuve e Catherine Frot.

 

Para não esquecer o melodrama

Algum cinema francês sabe manter-se fiel à herança das suas matrizes clássicas. Assim acontece em “Duas Mulheres, um Encontro”, um belo melodrama de Martin Provost, com Catherine Deneuve e Catherine Frot.

Enfim, por uma vez um título português (muito diferente do original) não é uma invenção disparatada que, em última instância, apenas penaliza o filme em questão.

O filme de Martin Provost com Catherine Deneuve e Catherine Frot chama-se, no original, “Sage Femme”, expressão que, à letra, podemos traduzir por “mulher sensata” ou “mulher sábia”. Acontece que, ao mesmo tempo, em contexto profissional sage femme é uma parteira — precisamente a profissão da personagem interpretada por Frot…

A solução “Duas Mulheres, um Encontro” surge, por isso, como uma maneira sugestiva e equilibrada de referir o que, realmente, está em jogo. A saber: Claire e Béatrice (respectivamente, Frot e Deneuve) reencontram-se sob o signo da memória de um homem — o pai de Claire suicidou-se depois de ter vivido com Béatrice; esta, ao pretender reencontrar Claire, não sabe o que aconteceu… O encontro das duas mulheres envolverá, por isso, um misto de proximidade e estranheza que, no limite, as vai conduzir a reavaliar a sua própria identidade.

Também responsável pelo argumento do filme, Provost toma o partido das suas personagens. Que é que isso significa? Antes do mais, contrariar qualquer solução maniqueísta típica de alguns debates televisivos — são seres humanos que estão em cena, não símbolos “sociológicos”. Depois, retomando a velha moral do mestre Jean Renoir — cada um tem as suas razões —, expondo o encontro das duas mulheres como um desafio intimista em que, em última análise, está em jogo a relação de cada uma delas com a nitidez indizível da morte.

Num Verão inevitavelmente (?) dominado pelas campanhas agressivas de “blockbusters” e afins, é bom deparar com um filme como “Duas Mulheres, um Encontro”. Afinal de contas, Provost, as suas duas actrizes e, em boa verdade, todo o elenco (destaque-se ainda a presença do impecável Olivier Gourmet) relançam, assim, a memória do mais genuíno cinema (melo)dramático francês — também neste caso, importa não esquecer.

Crítica de João Lopes

06 julho ’17

19 de Setembro, 19h: “Sonhos Cor-de-Rosa”

Realização: Marco Bellocchio

Intérpretes: Bérénice BejoValerio MastandreaFabrizio Gifuni

FRA/ITA, 2016, 134′  M/12

Turim, 1969. A infância idílica de Massimo, um menino de 9 anos, é pulverizada pela misteriosa morte da mãe. O rapaz recusa-se a aceitar a brutal perda, ainda que o padre lhe diga que a mãe está no Céu. Anos mais tarde, na década de 90, o Massimo adulto é um jornalista bem-sucedido. Depois de uma reportagem sobre a guerra em Sarajevo, começa a ter ataques de pânico. Quando começa a tratar da venda da casa dos pais, Massimo é obrigado a regressar ao seu passado traumático. Mas a compreensiva Dra. Elisa ajuda Massimo a abrir-se e a confrontar as suas feridas de infância… Baseado no livro “Tem Bons Sonhos” de Massimo Gramellini.

 

Bellocchio, drama e melodrama

Nem sempre nos recordamos dele, mas é um facto: Marco Bellocchio continua a ser um nome fundamental na paisagem do cinema italiano. Dele nos chega, agora, o magnífico “Sonhos Cor-de-Rosa”, adaptado de um romance de Massimo Gramellini.

Quem são os grandes clássicos do cinema italiano? Quem são os autores que ajudaram a definir tanto a sua concisão social como a capacidade de lidar com os enigmas do comportamento humano?

Sabemos responder, sem dúvida: de Roberto Rossellini a Michelangelo Antonioni, do neo-realismo às convulsões das “novas vagas”, o seu trabalho deixou marcas profundas dentro e fora de Itália… Mas porque é que, quase sempre, nos esquecemos de Marco Bellocchio?

Lembremos, para simplificar, que aos 77 anos (nasceu a 9 de Novembro de 1939, em Piacenza, na região da Emilia-Romagna) Bellocchio continua a ser um cineasta capaz de preservar uma tradição (melo)dramática que começa sempre no gosto por histórias capazes de expor as ambiguidades e contradições do factor humano.

Assim acontece em “Sonhos Cor-de-Rosa”, estreado o ano passado, em Cannes, integrando a programação da Quinzena dos Realizadores. Tendo como ponto de partida o romance homónimo de Massimo Gramellini (editado entre nós, pela Bertrand, como “Tem Bons Sonhos”), Bellocchio encena a trajectória de um adulto que continua a viver de forma palpável — e, por assim dizer, realista — a perda da mãe, ocorrida quando tinha apenas nove anos…

Como sempre através de uma excelente direcção de actores (Valerio Mastandrea, Bérénice Bejo, Dario Dal Pero, etc.), Bellocchio desmonta esse conflito, latente ou expresso, entre a identidade social dos seus protagonistas e as razões (mesmo as menos racionais…) das suas pulsões mais fundas. Escolhido para inaugurar a Festa do Cinema Italiano, “Sonhos Cor-de-Rosa” é, de facto, um exemplo modelar de uma produção que sabe falar do presente sem menosprezar a riqueza do seu património narrativo.

Crítica de João Lopes

07 abril ’17