27 de Agosto, 19h: “Hotel Império”

Realização e argumento:Ivo M. Ferreira

Intérpretes: Margarida Vila-NovaRhydian VaughanCândido FerreiraGan Kwok-Leung

China/POR/Macau, 2019, 82′  M/14

Maria, de origem portuguesa, viveu toda a vida no Hotel Império, um lugar outrora famoso, situado numa zona nobre de Macau. Apesar das dificuldades em manter o espaço, tenta não ceder às constantes pressões dos especuladores imobiliários para vender o edifício. Mas, quando o filho da co-proprietária do hotel regressa a Macau depois de duas décadas de ausência, a situação de Maria complica-se ainda mais.
Estreado no Festival de Cinema de Pingyao (China), um drama realizado pelo português Ivo M. Ferreira (“Cartas da Guerra”), segundo um argumento seu e de Edgar Medina. O elenco inclui Margarida Vila-Nova, Rhydian Vaughan, Kwok-Leung Gan, Cândido Ferreira e Tiago Aldeia, entre outros. PÚBLICO

 

Um olhar pessoal sobre o antigo território português no Sul da China, num thriller sexual contido em que Margarida Vila-Nova é estrela.

Depois da Angola de Cartas da Guerra, Ivo M. Ferreira visita Macau neste Hotel Império, uma obra visualmente cuidada e primorosa (como todas as do cineasta são) que através da história pessoal de uma mulher, Maria (Margarida Vila-Nova), pressionada a vender o velho hotel que o pai abriu há décadas, conta também a história da transição da administração portuguesa para a China e as transformações no espaço e dinâmica.

Na retina fica um plano em que Maria e Chu (Rhydian Vaughan), deitados no chão, após uma intensa confrontação, expõem a dualidade de tudo o que existe neste universo; o famoso Yin e Yang que descreve duas forças fundamentais opostas e complementares que se encontram em todas as coisas, aqui enquadrado como finalmente o encontro entre duas almas, dois países e duas culturas, tão próximas como distantes pelas circunstâncias da vida e História.

Filme de memórias, segredos e legado, que viaja entre passado e presente com um olhar em dúvida quanto ao futuro, sobressai a profunda marca de tristeza da personagem de Maria, presa entre mundos díspares e em mutação. Num momento específico, ela questiona o que faria se fosse para Portugal, esse país que lhe é estranho e longínquo, mas que simultaneamente lhe corre nas veias por herança parental. A resposta é curiosa e vem de uma jovem que lhe diz que ela tem de fazer o que normalmente se faz nessas situações: visitar os cemitérios onde se encontram os familiares.

No meio disto tudo, das dívidas e dúvidas de Maria, surge Chu, um misterioso homem, um fantasma do passado disposto a marcar o presente e a mexer no pequeno cosmos observado. O actor, tal como Vila-Nova, carimba toda a sua personagem num clima de contenção, substituindo Ferreira o palavreado poético de narração de Cartas da Guerra com enormes silêncios, longos olhares tímidos num território que se sente seu, mas que se olha com alguma distância. Isso nota-se muito no posicionamento da câmara e dos actores em relação ao espaço, quer nos interiores, quer no exterior, com a câmara a seguir muitas vezes tudo a uma certa distância, por corredores, entre ruas, janelas, como que se transpusesse o sentimento geral de todo o filme, o do estrangeiro no país que vive e estrangeiro no país de origem.

Isso é cimentado por Margarida Vila-Nova, que encanta aqui num registo entre o cantonês e o inglês, e que consegue  – num dos momentos mais belos, mas certamente mais derivativos – cantar um tema numa outra persona que não é a sua, mas que também é.

Um belo filme sobre a incerteza de dois mundos à procura de harmonia e equilíbrio na sua rota de colisão; e uma transição curiosa do preto e branco de Cartas da Guerra para um colorido frio nas sequências de dia e quente, sedutor e misterioso nas nocturnas.

http://www.c7nema.net/critica/item/50839-hotel-imperio-por-jorge-pereira.html

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21 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “A Queda do Império Americano”

Realização e argumento: Denys Arcand

Intérpretes: Maxim Roy, Éric Bruneau, Vincent Leclerc

CAN, 2018, 127′  M/14

Pierre-Paul Daoust, 36 anos, é um intelectual com um doutoramento em filosofia que se vê forçado a trabalhar como estafeta para conseguir viver decentemente. Um dia, durante uma entrega, é apanhado no meio de um assalto que corre terrivelmente mal: dois mortos e milhões em duas malas de dinheiro caídas no chão. Pierre-Paul é confrontado com um dilema: partir de mãos a abanar, ou agarrar no dinheiro e fugir?

 

Da comédia social ao conto moral
Denys Arcand, veterano da produção cinematográfica do Canadá, está de volta ao mercado português: “A Queda do Império Americano” é mais um capítulo da sua visão (dramática & cómica) das relações sociais canadianas.

Tantas vezes nos esquecemos que, desde o mestre da animação Norman McLaren até ao nosso contemporâneo David Cronenberg, há, de facto, um cinema canadiano pleno de invenção e também de recursos de produção — por alguma razão os estúdios dos EUA escolhem muitas vezes o Canadá para os seus projectos. Vale a pena, por isso mesmo, saudar o reencontro com Denys Arcand (n. 1941), um dos nomes essenciais de uma certa “vaga” que, sobretudo ao longo dos anos 70/80, assumiu uma visão crítica do seu próprio país.

O novo filme de Arcand, “A Queda do Império Americano”, envolve mesmo um jogo de memórias cruzadas com o seu próprio trabalho. Estamos, assim, perante o capítulo final de uma trilogia iniciada com “O Declínio do Império Americano” (1986) e prolongada através de “As Invasões Bárbaras” (2003), este um dos títulos canadianos com maior projecção internacional graças à sua consagração com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

No plano temático, a trilogia de Arcand pode definir-se através de algumas linhas essenciais, das tensões sociais e simbólicas entre homens e mulheres até à hipocrisia de um sistema de relações alicerçado numa verdadeira luta de classes. Desta vez, o pano de fundo do dinheiro (presente em todos os filmes) adquire especial importância, já que esta é uma história algo rocambolesca que começa num assalto falhado que irá beneficiar um empregado de uma empresa de entrega de encomendas que, por acaso, estava no local em que tudo acontece…

Através de um conjunto de peripécias mais ou menos cruéis, pontuadas por muitas formas de sarcasmo, o que Arcand filma é, em última instância, a fraqueza congénita do próprio imaginário social: das ilusões geradas pelo dinheiro até à perversidade do seu poder, este é um mundo em que cada um se perde na inconsistência do colectivo a que pertence. Em resumo: uma feliz combinação de comédia social e conto moral.

Crítica de João Lopes

 

 

 

20 de Agosto, 19h: “O Cavalheiro com Arma”

Realização e argumento: David Lowery

Intérpretes: Robert Redford, Sissy Spacek, Casey Affleck, Danny Glover, Tom Waits

EUA, 2018, 93′  M/12

A história de Forrest Tucker, desde a sua audaciosa fuga da prisão de San Quentin aos 70 anos de idade, a uma série de roubos sem precedentes que confundem as autoridades e encantam o público. Envolvidos na perseguição estão John Hunt (Casey Affleck), um detetive cativado pelo talento de Forrest no seu ofício e uma mulher (Sissy Spacek) que o ama, apesar de tudo.

 

Um conto moral sobre um velho e a sua pistola
Fazendo o retrato de um bizarro assaltante de bancos, “O Cavalheiro com Arma” confirma a originalidade temática e formal do realizador David Lowery. E traz-nos Robert Redford numa composição magnífica, digna de uma nomeação para um Oscar.

Decididamente, o cineasta David Lowery não tem muita sorte no mercado português. A sua longa-metragem “História de um Fantasma”, um conto romântico em ambiente fantasmático, por certo um dos mais originais títulos americanos de 2017 foi directamente para DVD. Agora, o novo “The Old Man and the Gun” é lançado como “O Cavalheiro com Arma”…

Por que não respeitar a alusão do original ao clássico de Ernest Hemingway, “The Old Man and the Sea”? Será que “O Cavalheiro com Arma” é mais apelativo que seria “O Velho e a Pistola”?

É uma questão secundária (que, em qualquer caso, por razões comerciais e simbólicas, vale a pena formular). O que mais conta é o facto de estarmos perante um belo conto moral, à moda antiga, mas com uma frescura criativa contagiante.

Trata-se de evocar a história (verídica) de um velho que assalta bancos, vai preso, volta a assaltar bancos… Numa vertigem contida que, em última instância, decorre do seu gosto de viver. Ou seja: a personagem do velho Forrest Tucker é tão só um homem que passou a viver conciliado com as contradições da própria existência humana.

Lowery encena tudo isso como uma espécie de policial suspenso no tempo e nas emoções, para tal contando com a contribuição decisiva de Robert Redford no papel de Tucker — ele é perfeito na encarnação de uma alegria que subsiste, candidamente, até mesmo no pressentimento da morte. E tem a seu lado Sissy Spacek, outra presença magnífica, nostálgica, ma non troppo.

Como é sabido, Redford deu a entender que este seria o seu derradeiro trabalho como actor — e não faltaram artigos a rotular o filme como um “canto do cisne”, eventualmente especulando sobre a possibilidade (verosímil) de chegar aos Oscars. O certo é que, alguns meses mais tarde, na ante-estreia americana de “The Old Man and the Gun”, Redford veio dizer que talvez se tenha precipitado… Só podemos estar de acordo com ele.

Crítica de João Lopes

 

 

13 de Agosto, 19h: “BlacKkKlansman: O Infiltrado”

Realização: Spike Lee

Intérpretes: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Robert John Burke

EUA, 2018, 128′  M/14

No início dos anos 70, um período de grande agitação social onde a luta pelos direitos civis vai enfurecendo, Ron Stallworth (John David Washington) torna-se o primeiro detetive afro-americano do Departamento da Polícia de Colorado Springs, mas a sua chegada é vista com cepticismo e abre hostilidades nos vários departamentos. Com audácia, Stallworth decide subir a pulso e fazer a diferença na sua comunidade; e é com grande coragem que entra numa perigosa missão: infiltrar-se e expor o Ku Klux Klan. Fazendo-se passar por um racista extremista, Stallworth contacta por telefone o grupo e acaba por ser convidado a entrar no núcleo do mesmo. Consegue mesmo criar uma relação com o ‘Grande Feiticeiro’, David Duke (Topher Grace), que elogia o compromisso de Stallworth a o progresso da América Branca. Com a investigação à paisana a ficar cada vez mais complexa, um colega de Ron Stallworth, Flip Zimmerman (Adam Driver), faz-se passar por ele nos encontros cara-a-cara com os membros do grupo de ódio, recolhendo informações para um plano mortal. Stallworth e Zimmerman juntam-se assim para tentar deitar abaixo a organização, cujo objectivo real é espalhar junto das massas uma mensagem de violência.

 

Spike Lee filma o passado no nosso presente

Foi um dos momentos altos de Cannes e fica, desde já, como um dos filmes maiores de 2018: “BlacKkKlansman: O Infiltrado“, de Spike Lee, é uma extraordinária abordagem do racismo na história moderna dos EUA.

Quando assistimos à evidência (por vezes proteccionista) que os filmes americanos ditos de “acção”, com heróis mais ou menos “super”, têm no espaço mediático internacional, sou levado a perguntar até que ponto as audiências mais jovens, especialmente visadas por tais produtos, conhecem minimamente a tradição política de Hollywood…

Logo após a passagem de “BlacKkKlansman” em Cannes/2018 (onde ganhou o Grande Prémio, segundo na hierarquia do palmarés), todos ficaram a saber que o filme de Spike Lee partia de uma história verídica do final dos anos 70 para desembocar na actualidade da América de Donald Trump. Provavelmente, essa revelação retirou algum efeito de “surpresa” aos minutos finais do filme… Mas a questão não é essa: o que importa sublinhar é o empenho de Lee em mostrar, de forma inteligentemente crítica, que a nossa relação com o passado envolve sempre alguma visão do presente.

Em termos esquemáticos, esta começa por ser a história de uma ambiguidade à beira do burlesco. Assim, em 1979, Ron Stallworth (magnificamente interpretado por John David Washington, filho de Denzel Washington) tornou-se o primeiro elemento afro-americano da polícia de Colorado Springs. E com tanto empenho assumiu as suas funções que conseguiu inscrever-se (via telefone…) no Ku Klux Klan. Escusado será dizer que os pressupostos racistas da organização o impediam de se mostrar enquanto membro, pelo que o seu colega Flip Zimmerman (Adam Driver) se assumiu como seu duplo…

Enfim, esta mini-sinopse está longe de esclarecer a subtileza e complexidade da realização de Lee. E tanto mais quanto, como ficou dito, “BlacKkKlansman” (entre nós lançado com o subtítulo ‘O Infiltrado’) percorre um arco temporal que desemboca em 2017, mais precisamente na manifestação dos supremacistas brancos a 11/12 Agosto em Charlottesville, Virginia. Em boa verdade, este é um fresco histórico sobre o racismo na história dos EUA, tendo como ponto de fuga, de uma só vez material e simbólico, o tempo aqui e agora.

Criando permanentes ziguezagues entre os destinos pessoais e as convulsões colectivas, cruzando os detalhes privados com os elementos do espaço público, a narrativa de Lee consegue, afinal, expor o continente histórico como uma paisagem em permanente reconversão e reapropriação. Lembremos, por isso, alguns dos seus títulos mais admiráveis como “Malcolm X” (1992), sobre o polémico líder afro-americano, “Verão Escaldante” (1999), evocando uma estação trágica em Nova Iorque, ou “A Última Hora” (2002), por certo uma das mais admiráveis reflexões sobre a América pós-11 de Setembro — “BlacKkKlansman” é um novo e exemplar capítulo na sua brilhante filmografia, sem hesitação, desde já, um dos filmes maiores de 2018.

Crítica de João Lopes

 

7 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Reviver o Passado em Montauk”

Realização: Volker Schlöndorff

Intérpretes: Stellan Skarsgård, Bronagh Gallagher, Nina Hoss

ALE/IRL/FRA, 2017, 106′  M/12

O escritor alemão Max Zorn chega a Nova Iorque, com a jovem e bela esposa, para promover a sua mais recente obra, inspirada numa história de amor ali vivida, muitos anos antes, com uma mulher chamada Rebeca. Assombrado por recordações, Max não consegue parar de pensar no que teria acontecido se não tivesse deixado para trás o que ainda considera o grande amor da sua vida. Quando descobre que ela continua a viver em Nova Iorque, resolve visitá-la. Embora, a princípio, pareça imperturbável, Rebeca acaba por o convidar para a acompanhar numa curta viagem a Montauk (Long Island), onde tenciona comprar a casa de praia de uns amigos. Como ambos se recordam, foi naquela cidade que viveram os momentos mais felizes do seu curto romance. E apesar do tempo que os separou, aquele lugar está repleto de recordações, o que inevitavelmente os faz regressar à sua história.

Com realização do alemão Volker Schlöndorff (“Golpe de Misericórdia”, “O Nono Dia”, “Diplomacia”), segundo um argumento seu e de Colm Tóibín, um filme dramático que se inspira na obra autobiográfica “Montauk”, do aclamado escritor e dramaturgo suíço Max Frisch (1911-1991). O elenco conta com Stellan Skarsgård, Nina Hoss, Bronagh Gallagher, Niels Arestrup e Susanne Wolff. PÚBLICO

 

O grande amor da vida dele

Nem filme de velho, nem filme de velhinho moderno: o veterano alemão Volker Schlöndorff assina um sereno drama clássico à moda antiga.

Faz parte da ironia do tempo que passa que aquilo que foi ontem aclamado como inovador ou vanguardista seja hoje considerado bafiento: as “novas vagas” de ontem são os convencionalismos anquilosados de amanhã. Ainda não há muito tempo, Bertrand Tavernier, na sua belíssima Viagem pelo Cinema Francês, demonstrava como tudo isso não passa de uma etiqueta fugaz ou prática que serve para “arrumar” filmes em gavetas sem prestar necessariamente atenção ao que os singulariza. O veterano Volker Schlöndorff (O Tambor, 1979) começou precisamente como assistente de realizadores franceses como Louis Malle ou Alain Resnais, foi um dos nomes de ponta do jovem cinema alemão dos anos 1960 e 1970 a par de Herzog ou Wenders, mas hoje é visto como um cineasta menor que se deixou seduzir pelo exacto conformismo contra o qual se erguia.

Depois de um já muito recomendável Diplomacia (2014), Reviver o Passado em Montauk é a melhor prova de que Schlöndorff não está nem anquilosado nem conformado. Sim, é verdade que o filme se instala num subgénero perfeitamente delimitado — o drama adulto literário que terá tido o seu “momento alto” nos anos 1970. (Nem por acaso, o filme foi co-escrito com o romancista irlandês Colm Tóibín, e cita um romance do suíço Max Frisch.) Sim, é verdade que é daqueles filmes que transpiram todo um conforto burguês, levantando aquela questão eternamente lançada por Morrissey: “Isto não tem nada que ver com a minha vida!” Mas até tem, porque Reviver o Passado em Montauk é um filme subterrâneo sobre o remorso e a culpa, sobre a tentação do abismo que nos atrai a todos — como poderia ter sido o caminho que nunca tomámos? No caso, conta-se a história de um escritor que, de passagem por Nova Iorque para lançar um livro, procura reencontrar o grande amor da sua vida que deixou escapar; Max quer perceber se há hipótese de reparar esse mal, mas Rebecca sabe que não é esse exactamente o verbo certo.

Crítica de Jorge Mourinha

 

 

 

6 de Agosto, 19h: “Vice”

Realização: Adam McKay

Intérpretes: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, LisaGay Hamilton, Tyler Perry

EUA, 2019, 132′  M/14

O filme relata como o burocrata Dick Cheney, silenciosamente, se tornou o homem mais poderoso do planeta, na qualidade de vice-presidente de George W. Bush, mudando os EUA e o mundo de uma forma que ainda hoje se faz sentir.

 

Política & cinema político
Centrado na personalidade do vice-presidente Dick Cheney, “Vice” é mais um exemplo da melhor tradição política da produção americana — a realização tem assinatura de Adam McKay, o cineasta de “A Queda de Wall Street”.

Quando assistimos à evidência (por vezes proteccionista) que os filmes americanos ditos de “acção”, com heróis mais ou menos “super”, têm no espaço mediático internacional, sou levado a perguntar até que ponto as audiências mais jovens, especialmente visadas por tais produtos, conhecem minimamente a tradição política de Hollywood…

Não é tanto a questão geracional que, aqui, refiro, mesmo se a sua importância (educacional & simbólica) não pode ser menosprezada. Estou apenas a apontar um grave défice de conhecimento. De facto, de “Young Mr. Lincoln/A Grande Esperança” (1939), de John Ford, a “W.” (2008), de Oliver Stone, passando por “Os Homens do Presidente” (1976), de Alan J. Pakula, tal tradição é absolutamente essencial para compreendermos as dinâmicas criativas e ideológicas de Hollywood.

Os exemplos citados são, obviamente, selectivos. E não apenas porque são espantosos objectos de cinema, longe, muito longe, de qualquer acumulação gratuita de efeitos especiais… São também filmes que, directa ou indirectamente, colocam em cena Presidentes dos EUA. Daí a curiosa ironia que nos traz o filme “Vice”, de Adam McKay — desta vez, tudo gira em torno de um vice-presidente.

Muito se tem falado da transfiguração física de Christian Bale para interpretar a personagem de Dick Cheney (n. 1941), vice-presidente de George W. Bush. E não há dúvida que o trabalho do actor possui essa capacidade mimética que só está ao alcance dos profissionais mais exigentes e sofisticados. Em qualquer caso, seria precipitado reduzir o interesse do filme a tal proeza.

Lembram-se de “A Queda de Wall Street”, realizado pelo mesmo Adam McKay em 2015? Aí encontrávamos uma pequena grande proeza cinematográfica. A saber: a abordagem dos primórdios da crise económica de 2008, não através de signos abstractos, ditos “especializados”, mas sim como um sistema de relações entre pessoas.

Podemos definir o impacto de “Vice” através de algo semelhante. O filme vai-nos revelando um Dick Cheney que encara cada relação humana como elo de uma cadeia de poder, de construção e consolidação de poder. Daí a requintada estrutura não linear: não se trata tanto de propor um jogo convencional de “flashbacks”, mas antes de gerar uma textura narrativa em que acontecimentos por vezes muito distantes no tempo ecoam uns nos outros, revelando a argúcia, não poucas vezes inquietante, do seu protagonista.

“Vice” tem oito nomeações para os Óscares, incluindo melhor filme, melhor actor e melhor realizador. Seja como for, quase todas as previsões parecem colocá-lo fora da corrida para as principais estatuetas. Uma coisa é certa: numa época de revisão crítica das linhas de força da política made in USA, em grande parte motivada pela acção da administração Trump, “Vice” surge como sintoma exemplar dessa urgência social que é também, de uma só vez, cinematográfica e… política.

Crítica de João Lopes

 

 

30 de Julho, 19h: “A Sede do Mal”

Realização:Orson Welles

Intérpretes:Charlton Heston, Janet Leigh, Marlene Dietrich, Orson Welles

EUA, 1958, 105′  M/12

Considerado um filme de culto, “A Sede do Mal”, de Orson Welles, passa-se numa cidade fronteiriça entre o México e os Estados Unidos onde Mike Vargas (Charlton Heston), detective mexicano, interrompe a sua lua-de-mel para participar numa investigação. Vargas vê-se obrigado a testemunhar contra Grande, líder de uma família de traficantes de droga, cujos parentes tentam afastá-lo do caso. Quando uma bomba explode no interior de um carro e mata um magnata norte-americano, Vargas envolve-se numa investigação que põe a descoberto os métodos questionáveis de Hank Quinlan (Orson Welles), chefe da polícia dessa região. Antevendo que Vargas fosse longe demais, Quinlan alia-se a Grande, colocando as vidas de Vargas e da sua mulher Susie (Janet Leigh) em perigo.

 

O filme negro de Orson Welles sobre a fronteira entre o México e os EUA

Magnífica oportunidade de redescoberta de um trabalho que aplica as regras do filme noir para construir uma narrativa eminentemente trágica.

Quem já viu não esquece… E podemos apostar que quem vai ver pela primeira vez ficará maravilhado pela sofisticada complexidade da cena de abertura de A Sede do Mal (1958), obra-prima de Orson Welles

Tudo acontece na fronteira entre o México e os EUA. Através de um longo plano-sequência (entenda-se: uma ação filmada em continuidade, sem cortes de montagem), Welles mostra-nos alguém a colocar uma bomba-relógio na mala de um automóvel que, poucos momentos depois, começa a movimentar-se… A espera da explosão que se adivinha constitui um pequeno prodígio de mise en scène, além do mais introduzindo a personagem fulcral do oficial da polícia especializado em tráfico de drogas: em lua-de-mel, está também a atravessar a fronteira na companhia da mulher – ele é Charlton Heston, ela Janet Leigh.

O suspense da situação está longe de esgotar as linhas de tensão que Welles coloca em movimento. A partir dessa cena de abertura somos projetados num labirinto de relações envolvendo personagens insólitas, ora transparentes ora indecifráveis – por exemplo, um cansado e amargo polícia, interpretado pelo próprio Welles, ou a dona de um bordel, com Marlene Dietrich, didaticamente, a desafiar a sua própria mitologia.

Lembremos, sobretudo, que Welles, aqui ainda a trabalhar com um grande estúdio (Universal Pictures), nunca deixou de ser um genuíno experimentador, neste caso transfigurando as regras do clássico filme noir para criar pesadelo trágico enraizado em sinais muito realistas. Desde a sua lendária longa-metragem de estreia – O Mundo a Seus Pés (1941) -, ia consolidando uma obra marcada por muitos problemas de produção, mas sempre comandada pelo desejo radical, porventura insensato, de expor as contradições mais fundas da identidade humana através da singularíssima arte das imagens e dos sons.

Crítica de João Lopes