27 de Junho, 19h: “Paula Rego, Histórias e Segredos”

Realização: Nick Willing

Documentário

GB, 2017, 92′

Conhecida por ser muito ciosa da sua privacidade, Paula Rego revela-se pela primeira vez neste filme, surpreendendo o seu filho, o cineasta Nick Willing, com histórias e segredos da sua vida excepcional, uma vida de luta contra o fascismo, um mundo da arte misógino e a depressão.
Nascida em Portugal, um país sobre o qual o pai lhe disse que não era bom para as mulheres, Rego usou as suas imagens poderosas como uma arma contra a ditadura antes de se estabelecer em Londres, onde continuou a abordar questões sobre a situação da mulher como o direito ao aborto. Mas, acima de tudo, as suas pinturas são um vislumbre críptico sobre um mundo íntimo de tragédia pessoal, fantasias perversas e verdades constrangedoras.
Nick Willing combina um grande arquivo de filmes caseiros e fotografias de família com entrevistas que percorrem 60 anos de vida e imagens de Rego a trabalhar no seu estúdio. E o resultado é um poderoso retrato pessoal da vida e obra de uma artista cujo legado vai sobreviver ao tempo, ilustrado visualmente em pastel, carvão e tinta a óleo.

 

Um belo acontecimento na área documental: Nick Willing dialoga com a sua mãe, Paula Rego — o resultado é, de uma só vez, um exercício de revelação humana e uma viagem através de um admirável universo pictórico.

Mais do que nunca, importa (re)valorizar o facto de o género documental ter deixado de ser um parente pobre no panorama corrente da exibição cinematográfica — passou mesmo a ser uma presença regular na oferta da distribuição/exibição.

A sua proliferação envolve, por vezes, alguns banais efeitos de moda? É verdade que sim, mas isso não nos impede de reconhecer as muitas revelações que têm vindo dessa área — “Paula Rego, Histórias & Segredos” pode ser uma magnífico exemplo.

Eis a questão: como filmar o universo de Paula Rego? Digamos que a pergunta pressente, desde logo, a complexidade artística e humana do que está em jogo. Mas importa acrescentar uma fascinante ambiguidade: como ser cineasta e filmar o universo criativo da sua mãe? É verdade: este é um filme dirigido por Nick Willing, filho de Paula Rego — e, como seria inevitável, isso está longe de ser um detalhe secundário.
Willing evita a facilidade de querer convencer o espectador de que o seu acesso privilegiado à personagem retratada lhe confere qualquer “vantagem”. Este é mesmo um filme construído, antes do mais, a partir da perplexidade do filho que, logo no início, nos confessa que ficou surpreendido com a disponibilidade de Paula Rego, num misto de desassombro e serenidade, falar de muitas memórias de absoluta intimidade — assistimos, assim, a um genuíno processo de revelações.
O mais notável é o modo como tudo isso se vai entrelaçando para gerar um invulgar retrato cinematográfico. “Paula Rego, Histórias & Segredos” é isso mesmo que está condensado no título. A saber: uma deambulação de palavras e imagens que nos ajuda a sentir (ainda mais) as vibrações internas de um admirável universo pictórico. Ou como o cinema se faz e refaz através da cumplicidade com as outras artes.
Crítica de João Lopes

20 de Junho, 19h: “Esta Terra é Nossa”

Realização: Lucas Belvaux

Intérpretes: Émilie Dequenne, André Dussollier, Guillaume Gouix

FRA/BEL, 2017, 117′ M/14

Pauline, uma enfermeira num distrito mineiro no Norte de França educa os seus dois filhos sozinha e cuida do pai, um operário da siderurgia reformado. Dedicada e generosa, os seus pacientes adoram-na e contam com ela.Ainda assim, ninguém se apercebe que Pauline, que enfrenta uma realidade social cada vez mais dura, lentamente começa a seguir um caminho nunca antes seguido por ninguém da sua família. Um partido nacionalista em ascensão, em busca de respeitabilidade, aproveita-se da sua popularidade, tornando-a na sua candidata às eleições locais…

 

A Frente Nacional e Marine Le Pen apontaram o dedo a “Esta Terra É Nossa” ainda antes de este ser exibido, o que é uma óptima razão para ir ver o filme e gostar.

A Frente Nacional e Marine Le Pen apontaram o dedo a Esta Terra É Nossa ainda antes de este ser exibido, o que é uma óptima razão para ir ver o filme e gostar (mas não a única).

Acusaram-no de “propaganda anti-FN”, ainda por cima em ano de presidenciais que ameaçam tombar a frágil balança europeia. E Lucas Belvaux, que é belga, sabe bem que a polémica oferece uma dimensão extra ao filme: Pauline é uma jovem enfermeira com dois filhos de um pai ausente convidada para cabeça-de-lista nas eleições autárquicas pelo Bloco Patriótico, liderado por Agnès Dorgelle, uma populista com um discurso xenófobo com uma capa de nacionalismo (como habitual).

É um interessante olhar sobre a realidade política e social francesa, onde o momento mais assustador é quando uma multidão canta A Marselhesa e percebemos como há ódios tão ancestrais que se tornaram tradição: “Marchemos! Marchemos; que um sangue impuro fertilize as nossas terras (Marchons, marchons; qu’un sang impure abreuve nos sillons)”

Mas Belvaux esforça-se demasiado para que Pauline seja apenas uma pessoa comum num mundo que não compreende – tornando-a demasiado ingénua, a ponto de não reconhecer uma enorme tatuagem fascista que o namorado tem nas costas. E o final é demasiado fraco para uma situação tão explosiva.

Crítica de Tiago R. Santos, in Sábado

17 de Junho, 15.30h: “A Minha Vida de Courgette”

 

Realização: Claude Barras

Versão dobrada em português

SUI/FRA, 2016, 66′, M/6

Courgette é a alcunha de Ícaro, um rapazinho de nove anos que, após a morte da mãe, é enviado para um orfanato. Apesar das circunstâncias trágicas que o levaram até ali, é exactamente nesse lugar que o pequeno vai encontrar o seu lugar no mundo. Ao seu lado terá Raymond, o polícia encarregue do seu caso que se tornou um grande amigo, assim como Simon e Camile, dois órfãos que, tal como ele, se viram subitamente sós e com quem vai partilhar os mesmos sentimentos de luto, tristeza e raiva, mas também a alegria das brincadeiras e a esperança de encontrar um novo lar…
Primeira longa-metragem do suíço Claude Barras, um filme de animação em “stop motion” que adapta a obra “Autobiographie d’Une Courgette” (2002) da autoria do escritor francês Gilles Paris. Estreado na edição de 2016 do Festival de Cinema de Cannes, “A Minha Vida de Courgette”, foi nomeado para o Óscar de Melhor Filme de Animação 2017. PÚBLICO

 

Bonequinhos muito humanos

Distinguido com muitos prémios internacionais, “A Minha Vida de Courgette” é, no domínio da animação, uma das mais notáveis proezas dos últimos anos — a técnica usada envolve figurinhas filmadas pelo processo de “stop motion”.

Icare é uma criança que vive com a mãe alcoólica uma existência infeliz. Quase sempre sozinho no seu quarto, tem como passatempo a criação de construções com as latas de cerveja que a mãe consome em grande quantidade — ela chama-lhe “Courgette” e ele gosta disso. Um dia, de forma acidental, Icare provoca a morte da mãe, acabando por ser colocado numa instituição para órfãos…

Poderia ser a sinopse de um drama pungente, servido por interpretações em que sentimos a pele e o sangue das personagens. E é-o, num certo sentido, com uma pequena e sugestiva diferença: “A Minha Vida de Courgette” é um filme com bonequinhos animados (pela técnica stop motion), consagrado internacionalmente com muitas distinções, incluindo a de melhor longa-metragem de animação nos Prémios de Cinema Europeu — nos Oscars, nessa mesma categoria, esteve entre os nomeados mas não ganhou.

Filme perceptível apenas pelos adultos? Solução de compromisso entre a visão dos mais velhos e as sensibilidades dos mais novos? Em boa verdade, não creio que seja muito interessante “rotular” um objecto tão original a partir de especulações sobre o “seu” público — estamos, afinal, perante uma narrativa com elementos susceptíveis de mobilizar a atenção de qualquer espectador, de qualquer faixa etária.

Realizado pelo suíço Claude Barras, “A Minha Vida de Courgette” distingue-se pelo rigor das suas composições — nomeadamente no tratamento de gestos e olhares —, mas também pela precisão da sua narrativa. Confirma-se, aliás, uma velha máxima desta área de produção: independentemente das técnicas utilizadas, o trabalho de argumento é vital para a criação de um ambiente capaz de mobilizar o nosso olhar. Por isso, aqueles bonequinhos de movimentos sincopados são maravilhosamente humanos.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

13 de Junho, 19h: “Paraíso”

Realização: Andrei Konchalovski

Intérpretes: Peter Kurth, Yuliya Vysotskaya, Viktor Sukhorukov

RUS/ALE, 2016, 130′, M/12

Durante a Segunda Grande Guerra, cruzam-se uma aristocrata russa emigrada em França e que colabora com a Resistência, um francês que trabalha com os nazis e um oficial alemão de alta patente das SS. Vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza (Melhor Realização), este drama do veterano Andrei Konchalovsky foi o candidato russo aos Óscares 2016.

 

Rostos e vozes da guerra

É um dos grandes acontecimentos do momento e ficará, por certo, como um título fundamental de todo o ano de estreias: “Paraíso”, do russo Andrei Konchalovsky, reencena as memórias trágicas da Segunda Guerra Mundial.

É bem provável que para muitos espectadores — sobretudo os que construíram a sua percepção através de um mercado dominado por “blockbusters” (“bons” ou “maus”, não é isso que está em causa) — Andrei Konchalovsky não passe de um nome sem significado. E, no entanto, estamos perante um dos autores essenciais da história do cinema soviético e russo (europeu, enfim) do último meio século.

O seu título mais recente, “Paraíso” — distinguido com um Leão de Prata (melhor realização) em Veneza —, constitui uma das mais espantosas abordagens do Holocausto produzidas em anos recentes. Nesta perspectiva, e para além das diferenças de estilos e contextos, este é um filme que não podemos deixar de aproximar de “O Filho de Saul”, de László Nemes (vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro referente a 2015), voltando a sublinhar a vontade de refazer, sobretudo para as novas audiências, as memórias da Segunda Guerra Mundial.

Colocando-se muito para além de qualquer noção rudimentar de “reconstituição” histórica, Konchalovsky cria uma teia de factos e memórias que passa pela evocação da vida de três personagens: um colaboracionista francês, funcionário do governo de Vichy (Philippe Duquesne); uma condessa russa que ajuda a Resistência (Yuliya Vysotskaya);  e um oficial das SS alemãs encarregado de fiscalizar o funcionamento dos campos de extermínio (Christian Clauss).

Arquitectando um puzzle de rostos e vozes (sustentado por “entrevistas” cujo enigma temporal acompanhará todo o filme), Konchalovsky encena, em última instância, a tensão brutal que se estabelece entre os destinos individuais e as forças colectivas. Mais do que um típico “filme-de-guerra”, “Paraíso” desenvolve-se como uma perturbante viagem através da consciência das suas personagens — um fresco histórico elaborado como um ensaio sobre a dimensão mais íntima da experiência humana.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

6 de Junho, 19h: “Stefan Zweig – Adeus Europa”

Realização: Maria Schrader

Intérpretes: Josef HaderBarbara SukowaKenne SchwarzJoão LagartoVirgílio Castelo

AUS/ALE/FRA 2016, 106′

Os anos do exílio na vida de Stefan Zweig, um dos escritores de língua alemã mais lidos do seu tempo, entre Buenos Aires, Nova Iorque e Brasil. Enquanto intelectual judeu, Zweig tenta encontrar a atitude correcta face aos acontecimentos na Alemanha nazi, ao mesmo tempo que vai em busca de um lar no novo mundo.

 

O filme “Stefan Zweig — Adeus, Europa” retrata o exílio de um dos escritores mais lidos do século XX, revelando um homem angustiado, que nunca se resignou com a destruição da Europa pelo nazismo e acabou por se suicidar.

“A ideia de filme é a ideia de exílio, estávamos focados em tudo o que lemos sobre o exílio e é interessante porque primeiro nunca pensámos no que aconteceu às pessoas que puderam sair da Europa e em fazer um filme passado naquela época, lidando com a Europa mas sem mostrar a Europa”, explicou, em entrevista à Lusa, a realizadora, Maria Schrader, quando o filme se antestreou em Lisboa.

Escritor e pacifista judeu austríaco, Stefan Zweig previu o declínio da Europa precocemente e abandonou o seu país natal, em 1934, tentando encontrar a atitude correta face aos acontecimentos na Alemanha nazi, e um lar no novo mundo.

Apesar da hospitalidade e enorme reconhecimento com que foi recebido e tratado no Brasil, o autor não conseguiu um substituto para a sua pátria e nunca se conformou com o caminho de intolerância e autoritarismo que a Europa estava a seguir.

“Stefan Zweig era um dos melhores escritores de língua alemã, um dos mais lidos, juntamente com Thomas Mann, e era provavelmente o mais conhecido europeu no exílio. Teve o privilégio de poder escapar da Europa, de poder continuar a publicar, poder estabelecer-se num sítio tão bonito, no norte do Rio de Janeiro, rodeado pelo paraíso, e ainda assim suicidou-se, em 1942”.

Para Maria Schrader, “isto é algo de misterioso”, que levanta várias questões: o que significa estar no exílio, o que significa “casa”, o que significa ser um estrangeiro e querer reconstruir um novo lar, o que significa ser artista?

Estruturado como se fosse um romance, o filme está dividido por prólogo, epílogo e quatro episódios específicos do período de exílio de Stefan Zweig: a sua primeira estada no Brasil, a participação no Congresso P.E.N. em Buenos Aires, em 1936, visita ao Estado brasileiro da Baía (1941), a visita a Nova Iorque, em 1941, e a morte em Petrópolis, no ano seguinte.

A opção por este formato é explicada pelo coargumentista Jan Schomburg como uma forma de fugir ao modelo dos “filmes biográficos” e tentar colocar a vida do escritor numa estrutura dramática, para lhe dar mais intensidade.

Quanto aos episódios escolhidos, tratou-se de “espremer” os grandes momentos de um período tão limitado da sua vida (cinco anos), tentando ao mesmo tempo servir a visão que o próprio Stefan Zweig tinha da História, que era “muito complexa”, escolhendo momentos que permitiram a Maria Schrader e Jan Schomburg a olhar para essa mesma História de vários ângulos.

Um desses momentos foi o Congresso do P.E.N., em Buenos Aires, quando foi proferido um poderoso discurso contra o nazismo alemão, que entusiasmou toda a plateia.

A própria realizadora confessa que se impressionou e arrepiou com o discurso, mas que, ao ler os diários de Stefan Zweig, percebeu que o escritor não partilhava do mesmo sentimento.

No filme teve a preocupação de manter essa “complexidade”, mostrando o discurso de forma a impressionar, e mostrar depois uma outra pessoa que se sente totalmente desconfortável, por ser pacifista e recusar-se a usar as palavras com ódio.

Ao longo de todo o filme é clara esta dicotomia entre a esperança e o desespero, entre o bem-estar físico no Brasil, onde passou a viver e onde era bem tratado e acarinhado, e a angústia mental por não conseguir alcançar um sentimento de pertença àquele país e querer regressar a um lugar que sabia estar a morrer e ao qual não poderia voltar.

São frequentes as frases de enaltecimento e reconhecimento da grandeza do Brasil – “país do futuro” – face à realidade que se vive na Europa, mas o avançar da depressão é visível, de capítulo para capítulo, com a personagem (interpretada por Josef Hader) a passar de um estado de distanciamento, para um estado de revolta e tristeza profunda, que contrasta com o seu discurso.

Já em Petrópolis, Stefan Zweig afirma que vive “no melhor lugar possível” e que não tem “razão de queixa”, mas o seu olhar denuncia angústia e sofrimento, e com o desespero a ganhar terreno até ao limite do suportável, acaba por cometer suicídio com a mulher, Lotte (Aenne Schwarz), tomando uma dose letal de barbitúricos.

A carta que deixa escrita em alemão traduz exatamente esse sentimento antagónico que o acompanhou durante os anos de exílio, de gratidão para com o “maravilhoso país” que o acolheu, numa altura em que o mundo da sua língua estava “perdido” e o seu “lar espiritual, a Europa, autodestruído”, uma realidade que nunca conseguiu ultrapassar e que o levou a partir antes, demasiado “impaciente” para esperar pela “aurora daquela grande noite”.

 

 

 

 

 

30 de Maio, 19h: “O Jovem Karl Marx”

RealizaçãoRaoul Peck

IntérpretesAugust Diehl, Stefan Konarske, Vicky Kriep

ALE/FRA/BEL, 2017,118′

Do haitiano Raoul Peck – que foi ministro da Cultura do seu país e assinou também a realização de documentários como o nomeado para um Óscar “I Am Not Your Negro”, sobre James Baldwin –, um olhar sobre a juventude de Karl Marx, da sua esposa, Jenny, e de Friedrich Engels, e o cruzamento entre os três que levou Karl e Friedrich a novas teorias políticas. Passado entre Paris, Londres e Bruxelas, o filme conta com o alemão August Diehl (“Sacanas sem Lei”, “Salt”) no papel principal, bem como o seu compatriota Stefan Konarske, que faz de Engels, e a luxemburguesa Vicky Krieps como Jenny von Westphalen/Marx. PÚBLICO

 

O que nos trará de novo um filme sobre Karl Marx?! O que o cineasta do Haiti, Raoul Peck, pretende explicar (ou relembrar) é de onde surgiram os fundamentos do manifesto do Partido Comunista neste muito bem conseguido The Young Karl Marx. Mas Peck é também o cineasta que pode muito bem ganhar o Óscar por I Am Not Your Negro, o documental em que se revivem os escritos e as memórias de James Baldwin sobre os atentados aos direitos civis nos EUA. Afinal de contas, dois filmes que marcam estes tempos, ou que chamam a atenção para os paradoxos do capitalismo e a insolência da raça. Estes são os dois grandes temas que me dominam, esclareceu na nossa entrevista o realizador ativista. Importantes eles são. Importa saber é se vão farão a diferença.   Estamos em 1844, numa altura em que o jovem Karl Marx (na composição muito consistente de August Diehl), ainda com 26 anos, conhece Friedrich Engls (Stefan Konarske), filho de um burguês dono da maquinofactura que lhe permitirá verificar a gritante diferença de classes criada pela Revolução Industrial. É claro que este filme não evita o seu lado de Ciência Política e um inevitável name droping da filosofia alemã, de Feuerbach e Hegel, bem como os idealistas, como Proudhon, de onde parte a inspiração para enfrentar esse capitalismo desumanizado. A eficácia de Peck consiste em passar a mensagem sem nos aborrecer com conversas inúteis. Isto graças ao guião bem urdido escrito de parceria entre Pack e Pascal Bonitzer.   Apesar desta ser a juventude de Marx – sim, ainda antes do famoso O Capital, que só viria a ser publicado vinte anos depois – é também o início da parceria com Engels e a definição da luta de classes. É esse período fértil influenciado pelo estudo de Engels sobre as condições dos trabalhadores ingleses, mas também onde se começam a perceber as diferenças entre os ambos; Engels, mais adepto da luta ativista; Marx, a pressentir a necessidade de um estudo mais profundo, como haveria de provar mais tarde nas obras posteriores. É neste clima que surgirá a figura do comunista, evoluindo do ‘comum’e da sociedade igualitária.   Atenção ao final, com a fusão do aplauso da criação do Partido Comunista com o genérico e o inconfundível tema de Bob Dylan, Like a Rolling Stone, a introduzir as imagens do crash de Wall Street, Che Guevara, Mandela, o Muro de Berlim, o movimento Ocupy Wall Street… Ou seja, ficamos já preparado para I Am Not Your Negro (embora este filme seja anterior a O Jovem Karl Marx…).   Paulo Portugal

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23 de Maio, 19h: “I Am Not Your Negro”

Realizado por Raoul Peck
Escrito por James Baldwin

Com a voz de Samuel L. Jackson

EUA, 2016, 93′ M/12

Em 1979, o poeta e ensaísta James Arthur Baldwin (1924-1987) iniciou “Remember This House”, um trabalho biográfico sobre Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), os três maiores líderes negros da década de 1960 nos EUA, todos eles assassinados. A obra analisava a história do racismo, assim como o tratamento dado às minorias em território norte-americano. Baldwin morreu de cancro do estômago antes de a finalizar. O manuscrito inacabado foi confiado ao realizador haitiano Raoul Peck que, combinando textos e imagens de arquivo em que o autor expôs os seus pensamentos, decidiu fazer um documentário sobre o tema.
Narrado pelo actor Samuel L. Jackson, “Eu Não Sou o Teu Negro” é uma reflexão sobre as lutas históricas pela igualdade de direitos e a forma como o tema se mantém actual e pertinente no contexto do século XXI. Estreado no Festival de Cinema de Toronto (Canadá) em 2016, passou pela Berlinale 2017 (onde ganhou o Prémio do Público para o Melhor Documentário), e foi nomeado para o Óscar. PÚBLICO

Retrato de um mundo a preto e branco

Sem vitimização, nem floreados. Racismo, privilégio e desigualdade são palavras chave neste documentário urgente e absolutamente contemporâneo. Depois de esgotar a única sessão no Indie Lisboa, chega agora às salas de cinema.

A voz é familiar. Afinal, é Samuel L. Jackson o narrador da história que se ouve e vê em Eu Não Sou o Teu Negro, o mais recente filme de Raoul Peck que foi nomeado para o Óscar de Melhor Documentário.

As questões raciais na América não são uma novidade e já foram representadas múltiplas vezes no grande ecrã. Mas aqui a história é pessoal. O documentário é baseado no livro Remember this house, de James Baldwin. O ativista morreu a 1 de dezembro de 1987, deixando inacabado um manuscrito. Nessas trinta páginas escreveu sobre Malcom X, Martin Luther King e Medgar Evers, três amigos e também três nomes incontornáveis se falarmos da luta de direitos civis nos EUA – e no mundo. Ouvir sobre vida e morte destes pelas palavras de Baldwin acrescenta o que falta a outros documentários sobre o tema: realismo e proximidade.

Com uma banda sonora sublime e um arquivo cinematográfico pejado de ótimas referências que nos contextualizam no tempo, o documentário resulta num retrato comovente das convicções de Baldwin. Mas reduzir estes 93 minutos à luta de um homem só seria não só redutor, passando a redundância, como falso. Porque, na verdade, o documentário de Peck vai muito além disso. As noções de privilégio, raça e direitos humanos são temas trazidos para a mesa, sem qualquer pudor ou tabu.

O filme, que é todo a preto e branco de uma forma quiçá poética, mas indubitavelmente sugestiva, não procura, contudo, puxar à lágrima ou obter compaixão. Por outro lado, é de uma frieza avassaladora cujo único objetivo parece ser mostrar os factos – e esses são tão desconfortáveis quanto perturbadores. Já dizia Heródoto que há que “pensar o passado para compreender o presente e idealizar o futuro”. Resta saber em que parte do processo nos encontramos.

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http://www.insider.pt/2017/05/18/eu-nao-sou-o-teu-negro-retrato-de-um-mundo-a-preto-e-branco/

INTEGRADO NA FESTA DO CINEMA – bilhetes a 2.50€ para não sócios.