21 de Janeiro, 19h: “Amazing Grace”

Realização: Alan Elliott, Sydney Pollack

Documentário

EUA, 2018, 89′  M/6

Com um nome tirado do hino cristão com letra de John Newton, “Amazing Grace” é um disco ao vivo de Aretha Franklin, gravado na New Temple Missionary Baptist Church de Los Angeles, em Janeiro de 1972. A filmar a actuação para um documentário estava Sydney Pollack que, por não se ter usado uma claquete para sincronizar o som e a imagem, nunca chegou a completar o filme. Mas antes de morrer, em 2008, o realizador entregou as imagens captadas, que foram sincronizadas ao longo de dez anos e acabaram por sair também após a morte da cantora, que ocorreu em 2018. É este o resultado, mais de 45 anos depois. PÚBLICO

 

Aretha Franklin, música e religião

“Amazing Grace” constitui um extraordinário exemplo de sobrevivência cinematográfica — realizado em 1972 pelo cineasta Sydney Pollack, o documentário sobre a gravação do álbum homónimo de Aretha Franklin só pôde ser concluído em 2018.

Como é que os filmes sobrevivem?… Ou como é que um filme se pode perder?… Apetece dizer que “Amazing Grace” constitui um exemplo extraordinário de resistência à possibilidade de apagamento das memórias cinematográficas, que são também, neste caso, memórias musicais.

Aconteceu em 1972. Aretha Franklin (1942-2018) decidiu gravar um álbum de gospel que se viria a intitular, justamente, “Amazing Grace” — uma das referências mais lendárias da sua vasta discografia. Por iniciativa da Warner Bros. (proprietária da Atalantic, então a editora de Aretha), Sydney Pollack foi contratado para registar as gravações, efectuadas numa igreja de Los Angeles, visando a feitura de um documentário a estrear nas salas.

Vale a pena lembrar que, na altura, Pollack era já um nome destacado de toda uma nova geração de criadores de Hollywood, capazes de assumir a complexidade da herança clássica sem deixar de experimentar novos caminhos temáticos e estéticos. Nesse mesmo ano realizou “As Brancas Montanhas da Morte”, tendo já assinado, por exemplo, “A Flor à Beira do Pântano” (1966) e “Os Cavalos Também se Abatem” (1969).

Questões de natureza técnica impediram a sincronização de imagens e sons, começando aí um processo de “esquecimento”, apenas contrariado a partir de 2007 (um ano antes da morte de Pollack), quando o produtor e compositor Alan Elliott se interessou pela montagem do material disponível (entretanto, graças a recursos digitais, já sincronizado).

O resultado, concluído em 2018, transcende a lógica “ilustrativa” de um documentário tradicional. Isto porque Pollack filma claramente sem plano previamente definido, deixando que as suas câmaras de 16mm (eram quatro no total) sejam contaminadas pela vibração de um evento em que a excelência musical se confunde com a celebração religiosa. Ou como o olhar documental envolve sempre as nuances das histórias individuais e colectivas.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

14 de Janeiro, 19h: “Judy”

Realização: Rupert Goold

Intérpretes: Renée Zellweger, Jessie Buckley, Rufus Sewell, Bella Ramsey

GB, 2019, 118′  M/12

Inverno de 1968. Quase três décadas depois do sucesso de “O Feiticeiro de Oz”, que a catapultou para a fama com apenas 16 anos, Judy Garland vê-se sem trabalho nem dinheiro para sustentar os filhos. É assim que, a custo, aceita fazer uma digressão em Inglaterra.

Desgostosa por ter de deixar as crianças nos EUA e insegura por tantos anos longe dos palcos, a frágil Judy vai tentar ultrapassar a depressão e a dependência de álcool e medicamentos, enfrentando os velhos demónios que carrega consigo.

 

Por amor de Judy Garland

Na corrida ao Oscar de melhor actriz referente à produção de 2019, Renée Zellweger está na linha da frente: a sua interpretação de Judy Garland permite-nos revisitar e redescobrir os filmes e os bastidores da idade de ouro de Hollywood.

Renée Zellweger é uma talentosa actriz que viu a sua imagem de marca e, mais do que isso, a sua carreira minada pela mediocridade “O Diário de Bridget Jones” (2001) e respectivas derivações. De tal modo que, numa fase crítica da sua evolução pessoal (nasceu há 50 anos, na cidade de Katy, Texas), consegue renascer através da magnífica interpretação de Judy Garland (1922-1969) no filme “Judy”.

Convenhamos que nunca seria fácil evocar Garland, figura maior da idade de ouro de Hollywood, nome indissociável de títulos míticos como “O Feiticeiro de Oz” (1939), de Victor Fleming, ou “Não Há como a Nossa Casa” (1944), de Vincente Minnelli. Até porque a aposta de “Judy” arrisca muito para além do fausto dessas memórias — trata-se, afinal, de construir uma narrativa que, sem prescindir de alguns ziguezagues temporais (nomeadamente para a rodagem de “O Feiticeiro de Oz”), se centra no período final em que Garland protagonizou alguns dramáticos concertos em Londres. 

Pois bem, Zellwegger consegue a proeza de compor a personagem de Garland, não apenas através de um impressionante trabalho realista de “reconstituição” do corpo da actriz (e da voz!), mas sobretudo expondo as tensões mais delicadas que nascem da relação da sua imagem pública com os bastidores da sua existência artística e familiar. Dito de outro modo: mesmo aplicando uma matriz tradicional de “filme-biográfico”, a realização de Rupert Goold sabe respeitar a complexidade psicológica das relações que coloca em cena. 

Filme de genuíno amor pelo cinema, “Judy” consegue, assim, contrariar as descrições pitorescas, por vezes anedóticas, da vida de uma star, afinal celebrando a importância de conhecer os protagonistas de Hollywood sem ceder a qualquer maniqueísmo (“pró” ou “contra”). E vale a pena repetir o que todos os analistas americanos garantem: Zellweger é, para já, a grande favorita ao Oscar de melhor actriz, a atribuir no dia 9 de Fevereiro de 2020. 

Crítica de João Lopes

Entretanto, já ganhou o Globo de Ouro para Melhor Actriz no passado domingo, 5 de Janeiro, em Los Angeles.

 

 

 

 

7 de Janeiro, 19h: “Pavarotti”

Realização: Ron Howard

Documentário

Intérpretes: Luciano Pavarotti (and friends…)

GB/EUA, 2019, 114′  M/12

O Campeonato do Mundo de futebol de 1990, em Itália, foi o momento em que a ópera deixou de ser exclusiva das elites e atingiu as massas. A estrela da ópera Luciano Pavarotti juntou-se aos colegas tenores Plácido Domingo e José Carreras no palco em Roma, numa transmissão vista por 1,4 mil milhões de pessoas no mundo inteiro.

A poderosa interpretação de “Nessun Dorma” continua a representar uma das mais famosas actuações que o mundo alguma vez ouviu e, assim, Pavarotti realizou o velho sonho de popularizar a ópera.

Ron Howard toma uma abordagem íntima para contar a história de Pavarotti, indo além da icónica figura pública para revelar o homem.

 

Os Três Tenores… e mais além

Para muitos, Luciano Pavarotti terá sido descoberto através dos Três Tenores. O certo é que a sua carreira e, afinal, toda a sua existência envolve um amor pela ópera que excede o âmbito dessa experiência — o filme de Ron Howard é um belo tributo à energia criativa de Pavarotti.

É frequente associarmos o nome de Ron Howard a espectáculos mais ou menos artificiosos e, por assim dizer, formalmente “especulativos” — lembremos os exemplos de “Cocoon” (1985), “Grinch” (2000) ou “O Código Da Vinci” (2006). O certo é que alguns dos seus melhores filmes são variações dramáticas sobre personagens e situações verídicas — é o caso de “Apollo 13” (1995) ou “Frost/Nixon” (2008).

Mais recentemente, o seu impulso realista levou-o a fazer “The Beatles: Eight Days a Week” (2016), magnífico documentário sobre as performances ao vivo dos quatro de Liverpool e, em particular, sobre a sua conquista do mercado americano. Com o novo “Pavarotti”, reencontramos o mesmo impulso: um retrato de Luciano Pavarotti(1935-2007) que passa, obrigatoriamente, pela experiência dos Três Tenores, mas excedendo o seu âmbito artístico.

Claro que a aliança de Pavarotti com Plácido Domingo e José Carreras — iniciada num lendário concerto, em Caracalla, Roma, no âmbito do Mundial de Futebol de 1990 — define um capítulo fundamental na trajectória do tenor nascido em Modena, Itália. O certo é que, através de um brilhantíssimo trabalho de montagem (o documentário é também uma narrativa), o filme consegue cruzar a vida pública de Pavarotti com o seu universo privado, numa dinâmica artística e humana que nunca cede a qualquer lógica “voyeurista” e “cor de rosa”. Sem esquecer, claro, a sua coabitação artística com muitos nomes do pop rock, em especial através da série de concertos “Pavarotti & Friends”.

Estamos, afinal, perante um exemplo modelar de recuperação e reorganização de muitos materiais de arquivo, de entidades oficiais aos registos familiares, a provar que documentar é também saber lidar com as memórias inscritas nas  imagens e nos sons. Tendo em conta que, recentemente, chegou ao mercado português outro caso notável de labor documental como é “Os Olhos de Orson Welles”, de Mark Cousins, importa também sublinhar que o mercado só tem a ganhar com esta diversificação da oferta.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

17 de Dezembro, 19.20h: “Anoitecer”

Realização: Laszló Nemes

Intérpretes: Susanne Wuest, Vlad Ivanov, Urs Rechn, Juli Jakab

HUN/FRA, 2018, 142′  M/12

1913, Budapeste, o coração da Europa. Irisz Leiter, 20 anos, chega à capital húngara depois de ter passado a infância e adolescência num orfanato. Tenta arranjar trabalho na loja que pertencera aos falecidos pais. Quando um homem a interpela à procura de Kalman Leiter, Irisz é subitamente confrontada com o seu passado. Na procura de respostas sobre o que aconteceu à sua família, Irisz depara-se com segredos sombrios e é arrastada para o turbilhão de uma civilização nas vésperas do seu anoitecer.

 

O cinema e o pressentimento da tragédia
Admirável filme: “Anoitecer”, do húngaro László Nemes, evoca a cidade de Budapeste, em 1913, pouco tempo antes da eclosão da Primeira Guerra Mundial — com Juli Jakab no papel central, uma actriz de invulgar talento.

Um hábito banal, banalmente preguiçoso, leva-nos a pensar que quando um filme se apresenta como uma “reconstituição histórica”, então o seu saldo dramático deve coincidir com a descoberta de um sentido para a própria história. E se a história resistir a ser representada? No limite, e se a história não fizer sentido?

Trata-se, então, de saber como é que as coisas significam dentro da história, abrindo o filme à pluralidade dos sentidos, às ambivalências, porventura aos silêncios sem resposta. “Anoitecer” é um filme assim — uma viagem que fazemos na companhia de uma mulher, Írisz Leiter, que tenta recuperar um posto de trabalho na sofisticada loja de chapéus de Budapeste que já pertenceu à sua família.

É a saga de uma personagem à procura de um lugar que já foi seu e que, em boa verdade, talvez já não exista. E é também, num cruzamento pleno de sugestões e inquietações, um fresco (histórico, precisamente) sobre uma cidade efervescente, em pleno ano de 1913, coleccionando sinais premonitórios daquilo que, como sabemos, seria a tragédia da Primeira Guerra Mundial.

Estamos perante o trabalho de um cineasta, o húngaro László Nemes, cuja ousadia já conhecíamos: a sua primeira longa-metragem, “O Filho de Saul” (distinguida com o Oscar de melhor filme estrangeiro de 2015), era o perturbante retrato da vida e da morte no interior de um campo de concentração montado pelos nazis. Agora, com “Anoitecer”, Nemes confirma a sua invulgar vocação para nos fazer sentir as convulsões da história e o lugar instável do individual no turbilhão das forças colectivas.

Tudo isso envolve um método de encenação, tão detalhado quanto obsessivo, em que a câmara se “cola” a Írisz, num efeito-reportagem que se articula com a prodigiosa composição de Juli Jakab. Ela é alguém capaz de sustentar a pressão constante da câmara, desnudando a sua personagem, num efeito em que a clareza das emoções, paradoxalmente ou não, nunca é estranha aos enigmas da identidade — simplificando, “Anoitecer” é, desde já, no mercado português, um dos momentos altos de 2019.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

10 de Dezembro, 19h: “Vitalina Varela”

Realização: Pedro Costa

Intérprete: Vitalina Varela, Ventura

POR, 2019, 124′  M/12

Vitalina Varela, cabo-verdiana, 55 anos, chega a Portugal três dias depois do funeral do marido. Há mais de 25 anos que estava à espera do seu bilhete de avião. É este o ponto de partida para a nona longa-metragem de Pedro Costa, que recebeu o Leopardo de Ouro, prémio máximo do Festival de Locarno de 2019, depois de ter sido um dos filmes que mais impacto teve junto do público e crítica no importante festival. Vitalina é real e é actriz – é uma mulher que veio de Cabo Verde para as Fontaínhas e que, enquanto sujeito e personagem, transita de “Cavalo Dinheiro” (2014) para comandar os fantasmas e as sombras que preenchem o filme do cineasta português. PÚBLICO

 

Premiado com o Leopardo de Ouro de Locarno, “Vitalina Varela” já está nas salas portuguesas — Pedro Costa prossegue a sua fascinante aventura cinematográfica com pessoas e personagens de Cabo Verde.

Com o filme “Vitalina Varela”, Pedro Costa arrebatou o prémio máximo de uma dos mais importantes certames de cinema da Europa, o Festival de Locarno, evento que, de alguma maneira, faz a ponte entre a grande produção industrial e os circuitos mais ou menos independentes. Lembrar esse feito não é exibi-lo como caução para o que quer que seja — trata-se apenas de sublinhar que as singularidades de tão extraordinário objecto de cinema não são “regionais”, antes contêm um apelo eminentemente universal.

A história de Vitalina Varela, personagem e actriz (também premiada em Locarno) pode, em boa verdade, definir-se como uma saga de sobrevivência. Ao chegar a Portugal, três dias depois do funeral do marido, esta mulher caboverdiana enfrenta, afinal, a própria crueldade do tempo: esperou 25 anos para poder ter a passagem de avião para a Europa e, ao chegar, dir-se-ia que todo o passado se abate sobre o seu frágil universo, questionando a insensatez do presente.

De “Ossos” (1997) a “Cavalo Dinheiro” (2014), o cinema de Pedro Costa — e, em particular, os seus filmes com elementos da comunidade caboverdiana — tem sido muitas vezes descrito como um trabalho de raiz documental. Vale a pena contrariar esse rótulo, mesmo se podemos reconhecer que há nele uma lógica de documento que, além do mais, se distancia do pitoresco mais ou menos paternalista que, não poucas vezes, contamina as descrições televisivas do outro.

Encontramos aqui um paradoxo vivo, eminentemente criativo, raro no cinema contemporâneo, precioso em qualquer contexto cultural dominado pela aceleração mediática. A saber: Pedro Costa integra um obstinado realismo — corpos, lugares, rostos, mãos, paredes, terra, etc. — que não exclui, antes parece convocar, uma crença das possibilidades de transfiguração que as imagens (e os sons) podem atrair e concretizar.

Daí que a aventura existencial de Vitalina Varela nos surja como uma demanda de outra dimensão, não exactamente utópica, mas transcendental. “Vitalina Varela” é mesmo um filme cujos sinais portugueses são tanto mais intensos quanto tudo nele nos projecta para um algures que, tendo qualquer coisa de metafísico, nos devolve à irredutibilidade das nossas raízes.

Consagrada no cinema de Jean-Luc Godard como programa de conhecimento e filosofia, a expressão “aqui e algures” pode ajudar a definir o misto de ousadia e poesia de que se faz “Vitalina Varela” — eis um filme que viaja pelas fronteiras expressivas do próprio cinema, desafiando as nossas ideias feitas sobre o que seja representar o mundo à nossa volta.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

3 de Dezembro, 19h: “Vem e Vê – Idi e Smotri”

Realização: Elem Klimov

Intérpretes: Aleksei Kravchenko, Liubomiras Lauciavicius, Olga Mironova

URSS, 1985, 146′  M/16

Um dos mais famosos e impressionantes filmes de guerra jamais feitos, “Idi e Smotri” evita a apologia bélica e a fotogenia da guerra, para insistir sobre o horror e a crueldade que todos os conflitos encerram. O pano de fundo é a Bielorússia, perto da fronteira polaca em 1943, onde um rapaz retira uma espingarda das mãos de um cadáver, para logo depois ser levado pela Resistência para engrossar as fileiras dos guerrilheiros, após os nazis terem arrasado inteiramente a sua aldeia e massacrado todos os habitantes. Texto: Cinemateca Portuguesa

 

Face ao horror da guerra
É um dos acontecimentos fulcrais do nosso ano cinematográfico de 2019: “Vêm e Vê”, clássico soviético realizado em 1985 por Elem Klimov, regressa às salas portuguesas numa impecável cópia restaurada.

O rosto dilacerado de Aleksei Kravchenko é um daqueles acontecimentos visuais e dramáticos que basta (aliás, bastou) para lhe garantir um lugar definitivo na história do cinema. Ele interpreta o jovem Flyora que, num lugar remoto da Bielorrúsia, em 1943, contempla de forma muito directa um massacre consumado pelo exército nazi — Flyora é a figura central do prodigioso “Vem e Vê”, muitas vezes citado como “o melhor filme de guerra de todos os tempos”. 

Agora reposto em impecável cópia restaurada, “Vem e Vê” é uma produção da URSS datada de 1985, assinada por Elem Klimov (1933-2003). E vai ficar também, desde já, como um dos acontecimentos vitais deste nosso ano cinematográfico, tantas vezes contaminado pelo ruído ensurdecedor das aventuras de super-heróis, menosprezando a variedade humana, temática e estética do cinema. Para simplificarmos, diremos: “Vem e Vê” é um filme que aposta em dar conta de todas as dimensões da experiência humana, mesmo para além da fronteira radical do horror.

Aliás, convenhamos que a inscrição de “Vem e Vê” na categoria de “filme-de-guerra” pode ser francamente insuficiente, porventura equívoca. Na verdade, não estamos perante um descendente do género tradicional de Hollywood (em que, obviamente, também encontramos proezas admiráveis), como também não fará muito sentido confundi-lo com algumas epopeias melodramáticas da produção soviética pós-Estaline (“Quando Passam as Cegonhas”, de Mikhail Kalatozov, lançado em 1957, poderá servir de modelo).

A realização de Klimov constitui uma apoteose radical de um realismo que envolve, precisamente, todas as convulsões que, na fúria da história, contribuiram para o apagamento da dimensão humana. Nesta perspectiva, talvez se possa dizer que “Vem e Vê” se coloca no coração de uma eterna questão de filosofia cinematográfica. A saber: como representar a violência que parece desafiar a própria possibilidade de representação? Em 2019, em tempos de tantas comunicações aceleradas e superficiais, essa continua a ser uma pergunta, de uma só vez estética e moral, que importa enfrentar.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

26 de Novembro, 19h: “Pedro e Inês”

 

 

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Port/2018, 120’ M/14

Realização: António Ferreira

Interpretação: Joana de Verona, Vera Kolodzig, Diogo Amaral

Pedro e Inês: nem Camões teria dito melhor

A recém-chegada obra cinematográfica portuguesa estreou-se nos cinemas a 18 de Outubro e arrebatou as audiências com uma viagem temporal de um amor intemporal.

O romance de D. Pedro e Inês de Castro é já uma história que todos conhecem desde pequenos: estudam-na, ouvem-na pela boca dos pais e avós ou lêem-na. Desta vez a história é a mesma, mas noutra visão. Foi a obra “A Trança de Inês”, de Rosa Lobato de Faria, que serviu de argumento e inspirou o engenho de António Ferreira.

Num clima muito mais contemporâneo, esta obra descreve o amor de Pedro e Inês em três tempos: passado, presente e futuro. Três Pedro, três Inês, três contextos sociais diferentes, a mesma história.

No passado encontra-se a história exatamente (ou quase) como ela se passou: na época medieval, D. Pedro está comprometido com D. Constança, apesar do seu amor profundo por Inês de Castro. O presente e o futuro baseiam-se também nesta sequência, apesar de algumas divergências que se tornam confusos, tendo em conta a história original, especialmente na personagem de D. Constança que acaba por ter papéis diferentes do original, o que acaba por cortar pontos da verdadeira história. Foi, no entanto, a ligação que António Ferreira conseguiu fazer com estes tempos e que, apesar de ligeiramente afastados da história, acabam por se interligar uns com os outros num resultado magnífico.

O elenco foi certamente uma ótima escolha, estendendo-se de Diogo Amaral e Joana de Verona como Pedro e Inês, até Vera Kolodzig (Constança), João Lagarto (D. Afonso) e Custódia Gallego (D. Beatriz), todos eles atores bem conceituados no cinema português e mais uma vez com uma prestação esplendida.

Quanto às personagens principais e o seu papel na história, facilmente se descreve, em poucas palavras e de forma talvez caricata, cada uma das três: Pedro, o esquizofrénico – Pedro é, como todos sabem, um louco de amor. No entanto, não é qualquer um que desenterra o corpo vivo da mulher para a coroar, ou que foge até com o corpo da mesma para a conservar consigo; Inês, a ingénua- Inês aparece no filme quase como uma criança que nunca tem noção do que se está a passar à sua volta, das tramas em que entra ou do perigo que corre, tornando-a uma ingénua por natureza, o que acaba por levar ao desfecho final conhecido; Constança, a doida varrida- Constança é sem dúvida imaginada como a pessoa mais séria no meio de todo o caos. Com o desenrolar do filme, acaba por mostrar ser exatamente o contrário: com ataques de raiva e várias atitudes que ultrapassam o limite da normalidade, Constança é provavelmente a personagem mais louca da obra.

Nos vários monólogos de Pedro ao longo do filme, pode destacar-se uma crítica à sociedade contemporânea, em especial aos médicos psiquiatras e outras pessoas que convivem com doentes mentais e os tratam como tal, ao invés de os verem como pessoas normais: “Eles gostam de nos arrumar numa categoria mas de facto isso não tem importância nenhuma. […] Eles, os saudáveis, que se comem uns aos outros, que se matam uns aos outros, que se destroem uns aos outros, não podem ter acesso ao nosso mundo particular.”

Os efeitos especiais e de luz ajudam a tornar o filme muito mais contemporâneo e conseguem facilmente criar o drama, o terror ou a loucura nos momentos necessários. Também a música, de Luís Pedro Madeira, consegue transportar o espectador entre tempos e emoções.

A morte e coroação de Inês e a vingança de Pedro são sem dúvida os momentos mais fortes do filme, onde há um elevado grau de suspense e terror devido ao tratamento realística das cenas, o que pode até chocar as pessoas mais sensíveis, mesmo quando já sabem o que está para acontecer.

É devido ao tratamento detalhado das cenas e da fantástica história de Pedro e Inês, que António Ferreira consegue renovar a lenda e criar um filme épico na história do cinema português, que será lembrado por muitos anos. Sem dúvida uma obra a não perder.

 

Escrito por Diana Carvalho para ComUm