24 de Novembro, 19h: “Retrato da Rapariga em Chamas”

Realização: Céline Sciamma

Intérpretes: Noémie Merlant, Adèle Haenel, Luàna Bajrami

FRA, 2019, 121′  M/12

1770. Marianne é pintora e tem de pintar o retrato de casamento de Héloïse, uma jovem que acaba de sair do convento. Héloïse resiste ao seu destino de esposa, recusando posar. Marianne tem de a pintar em segredo. Apresentada como dama de companhia, observa-a todos os dias.

 

A pintura e a pose, numa palavra, o amor
Venceu o prémio de argumento em Cannes: “Retrato da Rapariga em Chamas”, de Céline Sciamma, é um belo exercício sobre os poderes secretos da pintura. Com duas actrizes em estado de graça: Adéle Haenel e Noémie Merlant.

Dir-se-ia que entre pintura e cinema sempre existiu um jogo de sedução que já deu origem a filmes tão invulgares como “A Bela Impertinente”, de Jacques Rivette, ou “Van Gogh”, de Maurice Pialat (ambos franceses, ambos de 1991). No caso de “Retrato da Rapariga em Chamas” — distinguido em Cannes/2019 com o prémio de argumento —, dir-se-ia que a perturbação da pintura começa no seu valor de troca.

Troca de quê? Ou para quê? Pois bem, no sentido de um contrato conjugal: em finais do século XVIII, Marianne chega a uma ilha da Bretanha para pintar o retrato de Héloïse, retrato esse que pode desempenhar um papel decisivo na consumação do casamento de Héloïse. Neste universo de predomínio do masculino, é no espaço do feminino que se decide a verdade dos desejos.

Acontece que nenhuma imagem, a começar pelo retrato de um ser humano, “reproduz” o que quer que seja. A sua figuração envolve sempre um elo, transparente ou inconsciente, entre aquele (ou aquela) que faz pose e aquele (ou aquela) que transforma essa pose em matéria visual. Dito de outro modo: no jogo de olhares que se instala, Marianne e Héloïse são tocadas pelo fogo do amor.

Céline Sciamma é uma cineasta dos enigmas passionais e, mais do que isso, da dimensão mais secreta das identidades sexuais — lembremos o seu magnífico “Tomboy/Maria-Rapaz” (2011). Agora, através do requintado contributo de Noémie Merlant e Adèle Haenel, respectivamente como Marianne e Héloïse, Sciamma encena qualquer “coisa” que escapa às regras correntes das alianças humanas, expondo a dimensão sobre-humana de uma entrega amorosa — cinema do visível, pressentimento do invisível.

Crítica de João Lopes

17 de Novembro, 19h: “Palombella Rossa”

Realização: Nanni Moretti

Intérpretes: Asia Argento, Mariella Valentini, Nanni Moretti, Silvio Orlando

ITA, 1989, 87′  M/12

Michele é líder do Partido Comunista Italiano e jogador profissional de pólo aquático. Após um estúpido acidente de automóvel, perde a memória e tenta redescobrir os meandros da sua vida novamente através dos olhos ingénuos da criança ansiosa que costumava ser – através de uma viagem psicanalítica improvisada, simbolizada pelas amizades e adversidades de um jogo de pólo aquático.

 

“Palombella Rossa”, de 1989, é uma sátira ao panorama político italiano da altura, em particular, uma metáfora da situação então vivida pelo Partido Comunista Italiano. A ação centra-se quase sempre numa piscina onde decorre uma partida de pólo aquático que reflete os confrontos em causa. Entre dois gags fabulosos (o desastre de carro e a grande penalidade), um homem (Nanni Moretti) procura reconhecer-se e encontrar a função que lhe cabe no mundo.

Texto de João Lopes

 

Festa do Cinema Italiano 2020 – Programação

Apesar dos adiamentos, e da indisponibilidade temporária do Cineteatro Paraíso, vamos conseguir fazer a Festa do Cinema Italiano.

Devido à actual situação sanitária, haverá algumas limitações, nomeadamente o número de espectadores, que não poderá ultrapassar os 60.

Para não haver aglomerados à porta da Biblioteca, pedimos que passem a partir das 18h para comprar os bilhetes

A programação será a seguinte:

– 17/11Palombella Rossa, de Nanni Moretti

– 18/11 – Eu, Leonardo, de Jesus Garces Lambert

– 19/11Figli – Manual de Sobrevivência para Pais, de Giuseppe Bonito

Sessões às 19h, como habitualmente

– 21/11 – Bangla, de Phaim Bhuiyan, às 15.30h

– 21/11La Dolce Vita, de Federico Fellini, às 21.30h

10 de Novembro, 19h: “Roubaix, Misericórdia”

Realização: Arnaud Desplechin

Intérpretes: Roschdy Zem, Léa Seydoux, Sara Forestier, Antoine Reinartz

FRA, 2019, 119′  M/14

Roubaix, uma noite de Natal. O comissário Daoud percorre a cidade que o viu crescer. Carros incendiados, altercações… Na esquadra, um novo elemento, Louis Coterelle, acaba de chegar. Daoud e Louis vão investigar a morte de uma idosa. Duas jovens mulheres, Claude e Marie, são interrogadas. Pobres, alcoólicas, amantes.

As aventuras de Desplechin no género policial
O cineasta francês Arnaud Desplechin aposta num “desvio” na sua trajectória, filmando um policial na sua cidade natal: “Roubaix, Misericórdia” vale, sobretudo, pela densidade das personagens e respectivos intérpretes.

Sobre a mais recente longa-metragem de Arnaud Desplechin, “Roubaix, Misericórdia” (revelada em Cannes/2019), talvez seja útil dizer que não podemos deixar de a receber com alguma desconcertada surpresa. Que é como quem diz: o cineasta ligado à grande tradição melodramática — lembremos os épicos “Reis e Rainha” (2004) e “Um Conto de Natal” (2008) —, surge a assinar um policial puro e duro, centrado numa investigação em torno do assassinato de uma mulher de idade avançada.

Nada contra, como é óbvio. Mas talvez valha a pena referir que este interessante “desvio” de Desplechin passa pelo gosto muito pessoal de filmar a sua cidade natal, Roubaix. Nesta perspectiva, talvez se possa dizer que há em “Roubaix, Misericórdia” uma ambiência ambiguamente documental que nos leva a descobrir as convulsões da acção contaminadas pela energia própria de uma reportagem.
Há toda uma dimensão social que persiste no trabalho de Desplechin, uma vez mais sem nada de simbolismo “sociológico”. Por um lado, deparamos com situações reveladoras dos mais dramáticos desequilíbrios, desde a pobreza até à manipulação mais ou menos agressiva das mulheres; por outro lado, cada personagem distingue-se pelo seu carácter irredutível, nunca encerrado num cliché, seja ele psicológico ou moral.
Daí o reencontro com aquilo que é, afinal, uma marca vital do universo do cineasta. A saber: a cuidada direcção de actores, por certo essencial para contrabalaçar os momentos em que o filme parece abandonar as necessidades da intriga para valorizar de modo algo mecânico o “espectáculo”. Destaque para as duas actrizes, Léa Seydoux e Sara Forestier (lembremo-la em começo de carreira, em 2003, em “A Esquiva”, de Abdellatif Kechiche); e também, claro, para o impecável Roschdy Zem — a sua composição do comissário de polícia valeu-lhe o César de melhor actor referente a 2019.
Crítica de João Lopes

3 de Novembro, 19h: “Giulietta Degli Spiriti – Julieta dos Espíritos”

Realização: Federico Fellini

Intérpretes: Giulietta Masina, Sandra Milo, Mario Pisu

ITA/FRA, 1965, 137′  M/12

Suspeitando da infidelidade do marido, Giulietta (Giulietta Masina, esposa de Fellini) entra numa jornada surreal de autodescoberta, repleta de sonhos selvagens e fantasias encantatórias que envolvem Suzy, a sua vizinha sexualmente emancipada, e seu estilo de vida glamouroso dos anos 1960. Julieta dos Espíritos é o reverso feminino do “eu” masculino de Fellini 8 1/2.

Na semana em que o ciclo “Essencial Fellini” apresenta “Julieta dos Espíritos” (1965), vale a pena fazer um breve inventário da actualidade felliniana. Que é como quem diz: do modo como o cinema de Federico Fellini fala para o nosso presente.

 

Giulietta, Federico & etc.
O ciclo “Essencial Fellini” chega, agora, a “Julieta dos Espíritos”, o filme em que o realizador percorre a sua intimidade através da presença emblemática de sua mulher: Giulietta Masina.

“Julieta dos Espíritos” é, afinal, um filme conhecido através de um equívoco de identificação — básico, mas incontornável. De facto, a personagem central não é a “Julieta” a que se refere o título português, como não é a figura citada nas versões francesa ou inglesa: “Juliette des Esprits” e “Juliet of the Spirits”, respectivamente. Estamos a falar, de facto, de Giulietta: “Giulietta degli Spiriti”. Será preciso lembrar que se trata de um jogo de espelhos com o nome da intérprete principal, Giulietta Masina, mulher do realizador?
A viagem paradoxal, porque natural e onírica, de Giulietta pelos espectros do universo do marido existe como um mecanismo de perversa revelação e auto-revelação. Porquê perversa? Porque o cinema de Fellini nasce de um desafio radical, dir-se-ia infantil: o de intensificar a verdade da exposição intiimista sem anular, antes pelo contrário, o fulgor dos artifícios espectaculares.
Encontrámos isso mesmo nos primeiros títulos deste ciclo, a começar, claro, por “Oito e Meio” (1963), retrato e auto-retrato da criação cinematográfica que define um assombramento primordial: o criador é aquele que encena os seus fantasmas, tanto quanto é encenado por eles.
Daí o valor inestimável do também emblemático “La Dolce Vita” (1960). Afinal de contas, há 60 anos, Fellini desmontava a futilidade dos “famosos”, hoje em dia consagrada como lei mediática. Com uma particularidade que está longe de ser banal: há na visão felliniana tanto de crueldade como de compaixão.
Enfim, o seu frente a frente narrativo com Giulietta Masina começara com “A Estrada” (1954), filme que, além do mais, relança o cinema italiano para lá do sistema narrativo e moral do neo-realismo — juntamente com os seus contemporâneos (a começar por Michelangelo Antonioni), Fellini foi também um experimentador que formulou a hipótese de um novo humanismo.

Texto de João Lopes