10 de Dezembro, 19h: “Vitalina Varela”

Realização: Pedro Costa

Intérprete: Vitalina Varela, Ventura

POR, 2019, 124′  M/12

Vitalina Varela, cabo-verdiana, 55 anos, chega a Portugal três dias depois do funeral do marido. Há mais de 25 anos que estava à espera do seu bilhete de avião. É este o ponto de partida para a nona longa-metragem de Pedro Costa, que recebeu o Leopardo de Ouro, prémio máximo do Festival de Locarno de 2019, depois de ter sido um dos filmes que mais impacto teve junto do público e crítica no importante festival. Vitalina é real e é actriz – é uma mulher que veio de Cabo Verde para as Fontaínhas e que, enquanto sujeito e personagem, transita de “Cavalo Dinheiro” (2014) para comandar os fantasmas e as sombras que preenchem o filme do cineasta português. PÚBLICO

 

Premiado com o Leopardo de Ouro de Locarno, “Vitalina Varela” já está nas salas portuguesas — Pedro Costa prossegue a sua fascinante aventura cinematográfica com pessoas e personagens de Cabo Verde.

Com o filme “Vitalina Varela”, Pedro Costa arrebatou o prémio máximo de uma dos mais importantes certames de cinema da Europa, o Festival de Locarno, evento que, de alguma maneira, faz a ponte entre a grande produção industrial e os circuitos mais ou menos independentes. Lembrar esse feito não é exibi-lo como caução para o que quer que seja — trata-se apenas de sublinhar que as singularidades de tão extraordinário objecto de cinema não são “regionais”, antes contêm um apelo eminentemente universal.

A história de Vitalina Varela, personagem e actriz (também premiada em Locarno) pode, em boa verdade, definir-se como uma saga de sobrevivência. Ao chegar a Portugal, três dias depois do funeral do marido, esta mulher caboverdiana enfrenta, afinal, a própria crueldade do tempo: esperou 25 anos para poder ter a passagem de avião para a Europa e, ao chegar, dir-se-ia que todo o passado se abate sobre o seu frágil universo, questionando a insensatez do presente.

De “Ossos” (1997) a “Cavalo Dinheiro” (2014), o cinema de Pedro Costa — e, em particular, os seus filmes com elementos da comunidade caboverdiana — tem sido muitas vezes descrito como um trabalho de raiz documental. Vale a pena contrariar esse rótulo, mesmo se podemos reconhecer que há nele uma lógica de documento que, além do mais, se distancia do pitoresco mais ou menos paternalista que, não poucas vezes, contamina as descrições televisivas do outro.

Encontramos aqui um paradoxo vivo, eminentemente criativo, raro no cinema contemporâneo, precioso em qualquer contexto cultural dominado pela aceleração mediática. A saber: Pedro Costa integra um obstinado realismo — corpos, lugares, rostos, mãos, paredes, terra, etc. — que não exclui, antes parece convocar, uma crença das possibilidades de transfiguração que as imagens (e os sons) podem atrair e concretizar.

Daí que a aventura existencial de Vitalina Varela nos surja como uma demanda de outra dimensão, não exactamente utópica, mas transcendental. “Vitalina Varela” é mesmo um filme cujos sinais portugueses são tanto mais intensos quanto tudo nele nos projecta para um algures que, tendo qualquer coisa de metafísico, nos devolve à irredutibilidade das nossas raízes.

Consagrada no cinema de Jean-Luc Godard como programa de conhecimento e filosofia, a expressão “aqui e algures” pode ajudar a definir o misto de ousadia e poesia de que se faz “Vitalina Varela” — eis um filme que viaja pelas fronteiras expressivas do próprio cinema, desafiando as nossas ideias feitas sobre o que seja representar o mundo à nossa volta.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

3 de Dezembro, 19h: “Vem e Vê – Idi e Smotri”

Realização: Elem Klimov

Intérpretes: Aleksei Kravchenko, Liubomiras Lauciavicius, Olga Mironova

URSS, 1985, 146′  M/16

Um dos mais famosos e impressionantes filmes de guerra jamais feitos, “Idi e Smotri” evita a apologia bélica e a fotogenia da guerra, para insistir sobre o horror e a crueldade que todos os conflitos encerram. O pano de fundo é a Bielorússia, perto da fronteira polaca em 1943, onde um rapaz retira uma espingarda das mãos de um cadáver, para logo depois ser levado pela Resistência para engrossar as fileiras dos guerrilheiros, após os nazis terem arrasado inteiramente a sua aldeia e massacrado todos os habitantes. Texto: Cinemateca Portuguesa

 

Face ao horror da guerra
É um dos acontecimentos fulcrais do nosso ano cinematográfico de 2019: “Vêm e Vê”, clássico soviético realizado em 1985 por Elem Klimov, regressa às salas portuguesas numa impecável cópia restaurada.

O rosto dilacerado de Aleksei Kravchenko é um daqueles acontecimentos visuais e dramáticos que basta (aliás, bastou) para lhe garantir um lugar definitivo na história do cinema. Ele interpreta o jovem Flyora que, num lugar remoto da Bielorrúsia, em 1943, contempla de forma muito directa um massacre consumado pelo exército nazi — Flyora é a figura central do prodigioso “Vem e Vê”, muitas vezes citado como “o melhor filme de guerra de todos os tempos”. 

Agora reposto em impecável cópia restaurada, “Vem e Vê” é uma produção da URSS datada de 1985, assinada por Elem Klimov (1933-2003). E vai ficar também, desde já, como um dos acontecimentos vitais deste nosso ano cinematográfico, tantas vezes contaminado pelo ruído ensurdecedor das aventuras de super-heróis, menosprezando a variedade humana, temática e estética do cinema. Para simplificarmos, diremos: “Vem e Vê” é um filme que aposta em dar conta de todas as dimensões da experiência humana, mesmo para além da fronteira radical do horror.

Aliás, convenhamos que a inscrição de “Vem e Vê” na categoria de “filme-de-guerra” pode ser francamente insuficiente, porventura equívoca. Na verdade, não estamos perante um descendente do género tradicional de Hollywood (em que, obviamente, também encontramos proezas admiráveis), como também não fará muito sentido confundi-lo com algumas epopeias melodramáticas da produção soviética pós-Estaline (“Quando Passam as Cegonhas”, de Mikhail Kalatozov, lançado em 1957, poderá servir de modelo).

A realização de Klimov constitui uma apoteose radical de um realismo que envolve, precisamente, todas as convulsões que, na fúria da história, contribuiram para o apagamento da dimensão humana. Nesta perspectiva, talvez se possa dizer que “Vem e Vê” se coloca no coração de uma eterna questão de filosofia cinematográfica. A saber: como representar a violência que parece desafiar a própria possibilidade de representação? Em 2019, em tempos de tantas comunicações aceleradas e superficiais, essa continua a ser uma pergunta, de uma só vez estética e moral, que importa enfrentar.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

26 de Novembro, 19h: “Pedro e Inês”

 

 

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Port/2018, 120’ M/14

Realização: António Ferreira

Interpretação: Joana de Verona, Vera Kolodzig, Diogo Amaral

Pedro e Inês: nem Camões teria dito melhor

A recém-chegada obra cinematográfica portuguesa estreou-se nos cinemas a 18 de Outubro e arrebatou as audiências com uma viagem temporal de um amor intemporal.

O romance de D. Pedro e Inês de Castro é já uma história que todos conhecem desde pequenos: estudam-na, ouvem-na pela boca dos pais e avós ou lêem-na. Desta vez a história é a mesma, mas noutra visão. Foi a obra “A Trança de Inês”, de Rosa Lobato de Faria, que serviu de argumento e inspirou o engenho de António Ferreira.

Num clima muito mais contemporâneo, esta obra descreve o amor de Pedro e Inês em três tempos: passado, presente e futuro. Três Pedro, três Inês, três contextos sociais diferentes, a mesma história.

No passado encontra-se a história exatamente (ou quase) como ela se passou: na época medieval, D. Pedro está comprometido com D. Constança, apesar do seu amor profundo por Inês de Castro. O presente e o futuro baseiam-se também nesta sequência, apesar de algumas divergências que se tornam confusos, tendo em conta a história original, especialmente na personagem de D. Constança que acaba por ter papéis diferentes do original, o que acaba por cortar pontos da verdadeira história. Foi, no entanto, a ligação que António Ferreira conseguiu fazer com estes tempos e que, apesar de ligeiramente afastados da história, acabam por se interligar uns com os outros num resultado magnífico.

O elenco foi certamente uma ótima escolha, estendendo-se de Diogo Amaral e Joana de Verona como Pedro e Inês, até Vera Kolodzig (Constança), João Lagarto (D. Afonso) e Custódia Gallego (D. Beatriz), todos eles atores bem conceituados no cinema português e mais uma vez com uma prestação esplendida.

Quanto às personagens principais e o seu papel na história, facilmente se descreve, em poucas palavras e de forma talvez caricata, cada uma das três: Pedro, o esquizofrénico – Pedro é, como todos sabem, um louco de amor. No entanto, não é qualquer um que desenterra o corpo vivo da mulher para a coroar, ou que foge até com o corpo da mesma para a conservar consigo; Inês, a ingénua- Inês aparece no filme quase como uma criança que nunca tem noção do que se está a passar à sua volta, das tramas em que entra ou do perigo que corre, tornando-a uma ingénua por natureza, o que acaba por levar ao desfecho final conhecido; Constança, a doida varrida- Constança é sem dúvida imaginada como a pessoa mais séria no meio de todo o caos. Com o desenrolar do filme, acaba por mostrar ser exatamente o contrário: com ataques de raiva e várias atitudes que ultrapassam o limite da normalidade, Constança é provavelmente a personagem mais louca da obra.

Nos vários monólogos de Pedro ao longo do filme, pode destacar-se uma crítica à sociedade contemporânea, em especial aos médicos psiquiatras e outras pessoas que convivem com doentes mentais e os tratam como tal, ao invés de os verem como pessoas normais: “Eles gostam de nos arrumar numa categoria mas de facto isso não tem importância nenhuma. […] Eles, os saudáveis, que se comem uns aos outros, que se matam uns aos outros, que se destroem uns aos outros, não podem ter acesso ao nosso mundo particular.”

Os efeitos especiais e de luz ajudam a tornar o filme muito mais contemporâneo e conseguem facilmente criar o drama, o terror ou a loucura nos momentos necessários. Também a música, de Luís Pedro Madeira, consegue transportar o espectador entre tempos e emoções.

A morte e coroação de Inês e a vingança de Pedro são sem dúvida os momentos mais fortes do filme, onde há um elevado grau de suspense e terror devido ao tratamento realística das cenas, o que pode até chocar as pessoas mais sensíveis, mesmo quando já sabem o que está para acontecer.

É devido ao tratamento detalhado das cenas e da fantástica história de Pedro e Inês, que António Ferreira consegue renovar a lenda e criar um filme épico na história do cinema português, que será lembrado por muitos anos. Sem dúvida uma obra a não perder.

 

Escrito por Diana Carvalho para ComUm

19 de Novembro, 19h: “Snu”

 

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Port/2019, 94’ M/12

Realização: Patrícia Sequeira

Interpretação: Inês Castel-Branco, Pedro Almendra

 

Há um plano muito curioso neste Snu. O ator Pedro Almendra, que interpreta o papel de Francisco Sá Carneiro, dirige-se ao país perante uma câmara de televisão. A lente de Patrícia Sequeira, veterana na TV, “novata” no Cinema, filma os dois: Almendra e a câmara de TV, simultaneamente exibido a imagem do verdadeiro Sá Carneiro nessa mensagem ao país. Este verdadeiro “efeito de distanciamento”, lá diria Brecht, faz o espectador estar consciente que está perante um objeto artístico, sendo curiosa a decisão profundamente consciente da realizadora em querer misturar imagens reais e imagens encenadas neste seu filme sobre o grande amor entre Snu Abecassis e Francisco Sá Carneiro.

 

Perto das cine biografias típicas que acompanham a vida das personagens distribuindo os tópicos em camadas, analisando com mais ou menos profundidade cada uma delas, Sequeira foca-se essencialmente nesse amor, onde não faltam especulações, sonhos, alegrias, dores e sofrimento, engenhos que arrastam tudo o resto, onde se inclui a vida profissional e o percurso de ambos na década de 1970: ela, como editora da Dom Quixote com princípios muito frontais sobre social democracia; ele, um político em ascensão a liderar a direita democrática no Portugal pós-revolução ainda em convulsão.

 

É neste trajeto que encontramos também o bom registo dos atores, pois quer Inês Castel-Branco, quer Pedro Almendra incorporam as personagens carimbando-as de conhecimento (os tais factos históricos, validados por Helena Matos), charme, e acima de tudo carisma, criando entre si uma química amorosa que nos convence da sua relação e daquilo que mina as suas personalidades.

 

E a realizadora filma tudo sem restrições no estilo, sem uma régua e esquadro ou um livro carregado de apontamento das convenções do género. Ao invés, ela navega entre o puro cinema, a novela de luxo, o filme videoclip (onde não faltam onirismos), o registo documental, mas sempre com um toque poético, lírico e apaixonado, trespassando isso não só pelo uso das palavras do outro Sá Carneiro (o Mário), mas também através de uma banda-sonora onde Surma carrega o misticismo dos enamorados (embora algumas vezes, exageradamente na imposição às imagens).

 

Em suma, estamos perante um interessante exemplar de cinema comercial português sem cair na excessiva linguagem de TV, e num registo que foge suficientemente da presunção pictórica de parte do cinema de autor português, o qual esconde falta de criatividade e arrojo “com mãos cheias de nada” na forma de silêncios, contemplações, vazios narrativos e referências que deliciam os sentidos, mas que ora são derivativos, ora ocos, perfeitos para críticos analisar “em modo horóscopo”.

 

Escrito por Jorge Pereira para C7nema

 

12 de Novembro, 19h: “Vadio”

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Port/2018, 96’ M/12

Realização e Argumento: Stefan Lechner (Áustria)

Fotografia: Vasco Saltão, Vasco Viana

Produção: Real Ficção (Jacinta Barros, Rui Simões)

 

Sinopse: Abandonando um passado de pequenos delitos, David encontra no Fado o seu desígnio. Perseguindo incessantemente o sonho de ganhar a vida como Fadista, frequenta com o seu amigo Adriano o circuito tradicional do Fado Vadio, com o intuito de se aperfeiçoar. Mas enquanto que Adriano começa a obter reconhecimento e propostas de actuações pagas, David só encontra dificuldades. Decide então participar num concurso anual de fado cantando um poema de sua autoria, numa tentativa de chamar sobre si a atenção.

 

“Vadio” é um retrato humano sobre uma redenção, que parece inalcançável através da música, mas possível através da poesia, apesar da recusa de David em ser poeta. Uma história de amor por uma Lisboa de outros tempos e pelo Fado, enquanto catarse dos que cantam a tristeza.

Prémios: Prémio do Público no DocLisboa 2018

Prémio do Jornal Público para Melhor Filme Português no DocLisboa 2018

O documentário “Vadio” é realizado por Stefan Lechner, realizador austríaco que vive em Portugal desde 2007.

A sessão do Cineclube contará com a presença do Realizador.

05 de Novembro, 19h: “Até que o Porno nos separe”

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Realização: Jorge Pelicano

Port/2018, 89’ M/16

“Até que o porno nos separe”, o novo filme de Jorge Pelicano, produzido pela Até ao Fim do Mundo, chegou às salas de cinema portuguesas no dia 1 de maio.

O realizador de filmes como “Para, Escute, Olhe” (2009), “Ainda Há Pastores” (2006) e “Pára-me de Repente o Pensamento” (2015) venceu com este seu novo trabalho o Prémio de Melhor Documentário e o Prémio do Público no Festival Caminhos do Cinema Português 2018; o Prémio de Melhor Documentário no Roze Filmdagen 2019 (Amesterdão); e o Prémio Arco-Irís 2018 da Ilga Portugal.

Sinopse: Eulália, uma mãe de 65 anos, católica e conservadora, descobriu através da internet que o seu filho, emigrante na Alemanha, é Fostter Riviera, o primeiro ator porno gay português premiado internacionalmente. Tendo apenas o computador e o Facebook como única forma de comunicação, Eulália começa uma longa jornada emocional para tentar aproximar-se do filho que a levará a interpretar de forma diferente as suas expetativas como mãe e os valores com que foi criada.

Segundo o realizador, este filme surgiu de uma vontade “de explorar o tema da pornografia através de uma perspetiva” que sempre o intrigou, como o lado familiar dos atores e atrizes que integram este universo e perceber o impacto que as escolhas dos filhos podem ter na vida dos pais. “Tive conhecimento da história da Eulália, uma mãe de 65 anos, residente num bairro nos arredores do Porto, e que descobriu através da internet que o seu filho, emigrado na Alemanha, era um reconhecido ator porno gay (…) a reação desta mãe ao descobrir a orientação sexual e a profissão do filho foi de revolta, caindo num desgosto profundo.”

Eulália é hoje uma ativista pelos direitos LGBTI+, participando ativamente na AMPLOS do Porto (associação de mães e pais pela liberdade de orientação sexual e identidade de género) e em várias marchas LGBTI+ do país.

“Até que o porno nos separe” percorre o passado e o presente da relação entre uma mãe e um filho, personagens fortes e complexas. Pelicano tenta responder à questão: até onde pode ir o amor incondicional de uma mãe pelo filho?

Escrito por Tiago Resende para Cinema Sétima Arte

29 de Outubro, 19h: “Terra Franca”

Terra Franca

Realização: Leonor Teles

Port/2018, 80’ M/12

O Homem e o rio

Terra Franca é um filme de “paz”, onde seria inútil procurar um “pathos”: não importa quão difícil seja a vida, no centro do olhar de Leonor Teles está esta história de comunhão e harmonia.

Terra Franca é primeira longa-metragem de Leonor Teles, depois das bem sucedidas curtas-metragens que foram Rhoma Acans e, sobretudo, Balada de um Batráquio, premiada em Berlim. O lado destroy, muito punk, do filme do batráquio (que, recorde-se, escaqueirava um número incontável daqueles horrendos sapos de louça que certas lojas põem à entrada para afastar “os ciganos”), dá lugar a um objecto de natureza bem diferente, imerso num realismo contemplativo e intimista, feito de observação e proximidade, e, no que porventura é o seu traço mais distintivo, singularmente isento de qualquer espécie de “drama”. Continuam a ser as raízes de Leonor – natural de Vila Franca de Xira, a “terra franca” que a realizadora aqui filma – mas a relação pessoal é mais distanciada, e tudo se põe por trás dos sujeitos de observação do filme: um pescador (Albertino, sósia quase perfeito, incluindo o bigode, do protagonista do Western de Valeska Grisebach) e a sua família, nas semanas que antecedem o casamento da filha.

A imagem leitmotiv do filme são os planos de Albertino sozinho no rio, nas margens ou numa pequena embarcação, que voltam repetidamente e sempre numa duração considerável. Não menorizando tudo o resto, são estas imagens que definem o centro de Terra Franca, e fazem dele um filme de “paz”, um filme onde seria inútil procurar um pathos: não importa quão difícil seja a vida (e há, inevitavelmente, algumas referências à “crise”, tendo a rodagem do filme arrancado ainda durante os anos da troika), no centro do olhar de Leonor está esta história de comunhão e harmonia, entre um homem e o seu meio ambiente, familiar, geográfico, laboral (porque tudo se funde, é daí que vem a comunhão). Com esse leitmotiv, Terra Franca pode então declinar-se numa série de cenas, algumas bastante longas, que decompõem e particularizam uma família (os diálogos durante as cenas de refeições, os preparativos do casamento), e no-la fazem aparecer em toda a sua plenitude individual sem com isso se perder a dimensão “tipológica” que a faz valer também enquanto retrato propriamente “social”. Esse vai e vem de uma dimensão a outra (pontuado ainda por momentos algo elegíacos e alimentados por escolhas musicais inesperadas: Nat King Cole, Otis Redding…), feito sem quaisquer recursos retóricos convencionais (nem voz “off” nem “comentário” explícito), assegura a força, contemplativa e discreta, de Terra Franca.

Escrito por Luís Miguel Oliveira para “Público”