2 a 4 de Abril: “O Bando dos Crocodilos”

o-bando-dos-crocodilos_13Realização: Christian Ditter

Intérpretes: Nick Reimann, Fabian Halbig, Manuel Steitz

ALE, 2009, 96′

Disponível entre as 9h de 2/04 e as 21h de 4/0 no seguinte link   https://videoclube.zeroemcomportamento.org/programs/o-bando-dos-crocodilos-tomar

Hannes, de dez anos, vive sozinho com a sua mãe, e quer muito juntar-se ao grupo mais interessante da região, Os Crocodilos. Durante o seu desastroso teste de entrada, vê a sua vida ser salva por Kai, um rapaz imobilizado numa cadeira de rodas. Tal como Hannes, também Kai gostaria de fazer parte do grupo, mas todos acham que ele seria incapaz de fugir se as coisas ficassem complicadas. Contudo, ao assistir a um assalto, Kai torna-se subitamente interessante para o grupo, forçando a entrada de Hannes. Com os novos elementos, Os Crocodilos estão prontos a resolver um emocionante mistério. Baseado num livro de Max von der Grün, este filme foi premiado em inúmeros festivais de cinema para crianças, tornando-se um grande sucesso de público.

13 a 14 de Março: “66 Cinemas”

Realização: Philipp Hartmann

Documentário

ALE, 2016, 98′

Disponível entre as 9h de 13/03 e as 23.59h de 14/03 no seguinte link https://videoclube.zeroemcomportamento.org/programs/66-cinemas-tomar

Num tempo pré-Covid, Philipp Hartmann fez um filme, viajou com ele pelo circuito alemão de cinemas independentes (tudo o que não seja pertencente a uma cadeia de cinemas comerciais) e fez disso um outro filme. Um panorama de uma variada mistura de cinemas geridos por cinéfilos. Um Amor partilhado que significa também uma partilha de sofrimento. A existência de cada um desses cinemas está ameaçada.

 

“66 CINEMAS” retrata algumas das 66 salas de cinema alemãs que Philipp Hartmann visitou em 2014/15 como parte de uma digressão pelos cinemas com seu filme anterior “O tempo voa como um leão que ruge”, e dá-nos um panorama da realidade que os pequenos cinemas independentes viveram ou estão a viver. Apesar de muitas semelhanças – todos têm que reagir às consequências da digitalização, às mudanças de hábitos de visualização do público ou aos desafios económicos – é evidente que cada cinema encontra os seus próprios caminhos e estratégias, sempre fortemente marcados pelo empenho dos operadores e colaboradores.

A visão caleidoscópica e dramaturgicamente construída de cinemas muito diferentes, com as suas arquiteturas e organização do trabalho, bem como as pessoas que estão por trás desses cinemas, concentra-se num panorama da paisagem do cinema alemão em toda a sua amplitude – entre cineclubes, cinemas comunitários, cinemas de arte e ensaio e multiplexes.

Pode alguma coisa ser um hobby se é o teu trabalho? Pode alguma coisa ser trabalho se a amas tanto?
Estas são questões que o dono de um dos cinemas se pergunta durante o documentário. Ao longo do filme, elementos das equipas dos diversos cinemas respondem afirmativamente a estas retóricas questões.
Passamos por máquinas de pipocas e por cabines de projecção no caminho para as salas de cinema.
Mas há um senão. O resultado da venda de comida e bebida é fundamental para o equilíbrio das contas.
Será que blockbusters de Hollywood deveriam ser exibidos também nestes cinemas, para equilibrar as contas? E será que isso é suficiente?
Ir ao cinema será igual dentro de uma década? Ou o conceito precisará de ser repensado?

 

Encontro com uma civilização perdida

As salas de cinema como restos de uma civilização — 66 Cinemas no videoclube da Zero em Comportamento.

O alemão Philipp Hartmann visita salas de cinema do seu país – 66, para sermos tão exactos como o título do filme – em busca dos restos, para não dizer das ruínas, de uma civilização em vias de desaparecimento, aquela que fazia do cinema, como espaço físico e como ritual social, um centro da sua vida cultural. O filme já é de 2016, pelo que forçosamente falta este dado novo que vem abalar tudo – a pandemia do covid – relançar alguns dados: um recente artigo do Guardian mostrava, para o caso britânico, que se a pandemia lançou o sistema dos multiplexes numa crise profunda, as pequenas salas independentes resistiram bem e, nalguns casos, até prosperaram (mas sobre isto, e até para o caso português, não vale a pena especular, porque se a pandemia fosse a II Guerra ainda nem tínhamos chegado ao desembarque na Normandia).

Em todo o caso, 66 Cinemas reporta-se a uma época de “normalidade”, e a normalidade dessa época tinha as salas independentes, e os “cinemas de uma só sala”, em grandes centros urbanos como em pequenas localidades, numa luta pela sobrevivência como pão nosso de cada dia. Vemos no filme os pessimistas, os que diagnosticam a morte definitiva do cinema como principal hábito recreativo-cultural das populações, e os optimistas que acreditam na “reinvenção” (não falta a inefável “curadora” que propõe com euforia o desmembramento do cinema e a sua conversão em objecto de instalação em galerias, e acha que isso é vida) sem que o filme nos diga quais têm mais razão. 66 Cinemas, que encontra proprietários, projeccionistas, espectadores, que lhes dá voz e lhes ouve as idiossincrasias e as memórias (bastante divertidas, em alguns casos), chama a atenção para um aspecto pouco explorado: cada cinema tem uma História particular, representa algo de único na relação com uma comunidade específica ao longo de décadas, a morte de um cinema é sempre a morte de uma memória qualquer, falar de 66 cinemas (ou 666, ou 6666, ou 66666) é falar de igual número de histórias (por oposição, por exemplo, a um gigante do streaming, que tem milhares de filmes mas história nenhuma, e está em todo o lado sem estar em lado nenhum). A par disto, vai o encontro com uma civilização que está mesmo perdida, a da película, com todos os seus pormenores absolutamente incompreensíveis para uma geração já nada e criada na época digital (e por isso o filme, pedagogicamente, deixa alguns projeccionistas discorrerem longamente sobre as especificidades da projecção em película e sobre a maneira como o material, o “suporte”, era absolutamente decisivo para que os filmes fossem como fossem – discurso, aliás, que bem importava amplificar nesta época em que se trata os filmes como um mero “conteúdo” evanescente e sem relação nenhuma com o suporte em que foram feitos).

Não tem, apesar de ser claro o lado em que Hartman e a maioria dos seus convidados se colocam, nenhuma nostalgia assinalável. As coisas são apenas o que são, e talvez por isso a única resposta seja da ordem do wishful thinking; como o rapaz cinéfilo que, lá para o final do filme, formula o desejo de ter nascido “trinta anos antes”, e profetiza que a nova cultura cinematográfica terá cada vez menos lugar para a “violência da vanguarda” (pensaria talvez, sendo alemão, em Werner Schroeter) e se subsumirá em “filmes de autor medíocres e piegas” (pensando, talvez, em quase tudo o que resta).

 

12 de Janeiro, 19h: “Aznavour por Charles”

Realização: Marc di Domenico, Charles Aznavour

Documentário, Biografia

FRA, 2019, 83′ M/12

Em 1948, o cantor francês Charles Aznavour (1924-2018) recebe uma Paillard Bolex, a sua primeira câmara. Até 1982, filmará horas de película, o seu diário filmado. Aonde quer que vá, leva a câmara com ele. Filma a sua vida e vive como filma: lugares, momentos, amigos, amores, infortúnios…

 

“Aznavour por Charles”: a vida de Charles Aznavour filmada por ele mesmo

Produtor e grande amigo de Charles Aznavour, Marco Di Domenico fez “Aznavour por Charles” com os filmes amadores rodados pelo cantor ao longo da sua vida. Eurico de Barros dá-lhe quatro estrelas.

Em 1948, Edith Piaf ofereceu duas coisas a Charles Aznavour, que era então seu secretário, letrista e também aspirante a cantor: uma operação ao nariz e uma máquina de filmar de 16 mm Paillard Bolex. Aznavour descobriu-se picado pelo bichinho do cinema amador e passou a levá-la consigo para toda a parte e a filmar tudo em seu redor, à medida que se ia tornando cada vez mais famoso e os espectáculos, ou as férias com a família, o conduziam aos quatro cantos do mundo. Até ao final da vida, o cantor nunca parou de filmar, passando dos 16 mm ao Super 8, depois para o vídeo e para o digital.

Pouco antes de morrer, em 2018, com 94 anos, Aznavour, que tinha todo este material catalogado e guardado num compartimento secreto da sua casa no Sul de França, confiou-o ao seu produtor e grande amigo Marc Di Domenico, também realizador de um documentário sobre ele, “Autobiographie”, para que o transformasse num filme, dizendo-lhe: “Tu vês coisas aqui que eu não vejo, avança.” Assim, Di Domenico escolheu, digitalizou e montou uma seleção de imagens, com a ajuda de um dos filhos do cantor, Mischa, que também participa na produção deste documentário.

E eis “Aznavour por Charles”, composto por imagens feitas entre 1948 e 1982 (Di Domenico não quis usar mais material depois desta data, que corresponde à altura em que Aznavour deixou de filmar em película e passou para o VHS) e que se situa algures entre o auto-retrato e o filme autobiográfico. A esmagadora maioria destas imagens estão inéditas. O cantor mostrava-as apenas em projeções caseiras, à família e alguns amigos, e a sua terceira mulher, Ulla, e os filhos, nunca tinham visto os filmes feitos por ele antes deste seu terceiro e último casamento. A narração (por Romain Duris) que acompanha “Aznavour por Charles” é composta por palavras de Aznavour, extraídas de textos seus, entrevistas e biografias.

Para além de mostrar o gosto genuíno e o entusiasmo saboreado que Charles Aznavour tinha em filmar os lugares onde ia, o que lhe acontecia e os que o rodeavam, “Aznavour por Charles” é um registo da ambição de sucesso que movia o cantor (que ele aliás não esconde, e lhe deu cabo do primeiro casamento), e da sua busca de um amor perdurável e da felicidade em família, gozada no conforto e na segurança que as recompensas do seu talento lhe dariam, mas que chegariam apenas com a sua terceira mulher, a sueca Ulla Thorsell. Neste desvendar da sua privacidade, Aznavour inclui mesmo aquele que foi o maior desgosto da sua vida: a morte, por “overdose”, aos 25 anos, de Patrick, o filho que teve de uma relação extraconjugal nos anos 50.

Observador, generoso e sempre mais interessado nas pessoas anónimas do que nos monumentos, nos marcos históricos ou noutras celebridades como ele, Charles Aznavour filmava com a mesma emoção e espontaneidade com que cantava, fosse num bairro da lata de La Paz, fosse nas ruas da sua bem-amada Nova Iorque, fosse no bairro de Montmartre onde cresceu e vendeu jornais ao lado de outra futura vedeta, Lino Ventura. E nunca se esqueceu das suas origens nem da sua condição de filho de refugiados da diáspora arménia em França. Uma Arménia que visitou pela primeira vez 40 anos depois de ter nascido em Paris, onde conheceu a avó e outros familiares, acontecimento que deixou também registado em película.

Pelas imagens deste documentário ora efusivo, ora melancólico, reflexivo e confessional, que mapeia os altos e baixos sentimentais, anímicos, familiares e artísticos de Charles Aznavour através do olhar do próprio (tirando algumas imagens de arquivo, concertos e programas de televisão) sobre a sua vida, as pessoas e o mundo, passam as rodagens de filmes como “Disparem Sobre o Pianista” ou “Um Táxi para Tobruk”, os espectáculos em salas como o Carnegie Hall ou o Olympia, ou o convívio com outras grandes celebridades. Mas também momentos de descontracção em casa, de memórias íntimas e de interrogação pessoal, sempre associados ou desencadeados por filmagens feitas em Paris ou Hong Kong, Abidjan ou Erevan.

“Aznavour por Charles” fica ainda como um curiosíssimo documento visual sobre o mundo tal como ele era entre os anos 50 e o início da década de 80. O intérprete de “Formidable” e “La Bohème” captou dezenas e dezenas de horas de filme, e “Aznavour por Charles” dura 83 minutos. Marco Di Domenico pecou apenas por poupadinho.  É que nos deixa cheios de vontade de ver mais.

 

 

29 de Dezembro, 19h: “Ordem Moral”

 

Realização: Mário Barroso

Intérpretes: Maria de Medeiros, Marcello Urgeghe, João Pedro Mamede

Por, 2020, 101′ M/14

“Ordem Moral”, de Mário Barroso: a submissão é uma ignomínia

Em Um Amor de Perdição (2008), longa metragem anterior de Mário Barroso, baseada livremente na obra de Camilo Castelo Branco, Simão e Teresa vivem uma história de amor impossível. Inconformados, lutam contra as construções sociais que os enclausuram. Ordem Moral retoma o tema da submissão, tendo por base a vida de Maria Adelaide Coelho da Cunha (Maria de Medeiros), herdeira e dona do Diário de Notícias, no início do século passado.

Maria Adelaide, descontente com o casamento e com a hipocrisia inerente à vivência na alta sociedade portuguesa, decide fugir com Manuel Claro (João Pedro Mamede), antigo motorista da família. As sucessivas infidelidades do seu marido Alfredo da Cunha (Marcello Urgeghe) e a intenção de vender o jornal sem o seu consentimento estão na origem deste ato de vingança. A natureza vincadamente patriarcal da época, complica sobremaneira a situação da protagonista, que vê recair sobre si todo um complô, ao qual nem a medicina é alheia. 

Responsável pela fotografia de clássicos incontornáveis do cinema português, como Vale Abraão (1993), de Manoel de Oliveira, ou A Comédia de Deus (1995), de João César Monteiro, é inegável a capacidade de Mário Barroso em criar imagens memoráveis. Enquadramentos primorosos que, aqui, remetem para Oliveira, pelo décor rico em interiores de cores vivas, veludos, ornamentações e espelhos. Destaque, por exemplo, para o plano zenital que verticalmente capta Maria Adelaide enquadrada pelo corrimão das escadas, quando toma conhecimento da morte da criada.

Barroso é claramente influenciado pelos realizadores que marcaram o seu percurso na indústria. No entanto, o cineasta procura demarcar-se da decalcação dos filmes que o inspiram. Se, por um lado, a câmara se comporta de forma semelhante (com ligeiramente mais movimento, expresso em diversas panorâmicas e travellings), por outro, observa-se uma abordagem mais naturalista, evidente no comportamento e diálogo dos atores.

Apesar de renegar a teatralidade característica dos filmes de Manoel de Oliveira, o cineasta não deixa de incorporar o teatro no próprio filme, criando um curioso jogo  de interpretação de papéis, nublando as diferenças entre a identidade real (dentro do filme) e a ficcional (dentro da peça de teatro). As constantes imagens de personagens refletidas em espelhos reforçam esta sugestão de fragmentação de personalidades.

Dramaturgicamente Barroso trabalha com as convenções sociais associadas à época, nomeadamente o papel da mulher. Mas, ao contrário de filmes como Ne Touchez pas la Hache (2007) de Jacques Rivette, onde a própria encenação deixa implícito os anseios dos personagens, o realizador opta por tornar os diálogos demasiado explicativos, não deixando espaço para a nuance e mistério do que poderia ficar nas entrelinhas.

Ordem Moral reforça o posicionamento de Mário Barroso entre o cinema de autor e o comercial, um cinema do meio ao qual é frequentemente associado, onde muito do interesse reside na forma como equilibra elementos dos dois lados. Ficamos, então, com um objeto cinematográfico redondo e seguro, bem contando e atuado, levemente empobrecido pela falta de confiança de Mário Barroso no poder sugestivo das suas imagens.

Escrito por Bruno Victorino para “Comunidade Cultura e Arte”

22 de Dezembro, 19h:”O Fim do Mundo”

 

Realização: Basil da Cunha

Intérpretes: Lara Cristina Cardoso, Marco Joel Fernandes, Alexandre da Costa Fonseca

Por, 2020, 107′ M/16

O Fim do Mundo leva-nos a um mundo de desencanto, naquele que outrora foi um bairro animado e cheio de vida. Basil da Cunha regressa à Reboleira e ao Bairro da Estrada Militar, onde já vem contando histórias há alguns anos.

A obra do realizador luso-suíço tem um caracter etnográfico de enorme valor (Nuvem,  Os Vivos Também Choram, Até Ver a Luz, Nuvem Negra e agora O Fim do Mundo), ao filmar locais que em breve desaparecerão, e as pessoas que os habitam. O Fim do Mundo era para ser o filme-despedida deste bairro da Amadora, mas a pandemia veio mudar os planos – e ainda bem. As demolições pararam alguns meses, e o realizador ganhou tempo de avanço para novos projectos, antes do fim anunciado.

“Após oito anos numa casa de correcção, Spira (Michael Spencer) regressa à Reboleira, um bairro de lata que está a ser destruído, nos arredores de Lisboa. Spira é bem recebido pelos amigos e familiares, mas Kikas (Carlos Fonseca), um velho traficante do bairro, fá-lo perceber que não é bem-vindo. Depois de Até ver a Luz (2013), Basil da Cunha quis contar em O Fim do Mundo as últimas horas do bairro da Reboleira através dos olhos da geração que ele viu crescer e tomar conta das ruas nos últimos anos.”

Há frieza e desalento espelhados nos olhos do protagonista, um estranho no local onde cresceu, em que o tempo ausente fez desaparecer casas, laços e memórias. Spira é de poucas palavras, fiel aos que o respeitam, introvertido, mas carregado de mágoa e violência. Este rapaz regressa a casa e quase não a reconhece. A sociedade, por seu lado, não o reintegrou nem lhe deu esperança nestes oito anos de reformatório. Spira não vê futuro e prefere não ter sonhos. É um jovem magoado e desconfiado, mas capaz de grandes loucuras por quem ama.

Destaque para o bom desempenho do protagonista, Michael Spencer, e dos seus dois amigos, Marco Joel Fernandes (Giovanni) e Alexandre da Costa Fonseca (Chandi) cada um com uma personalidade muito própria, formando um trio de jovens sem perspectivas e obrigados pelo mundo a crescer demasiado rápido. Na pele da madrasta de Spira, Luísa Martins dos Santos é a grande descoberta do realizador neste filme. A actriz demonstra confiança e emoções seguras na sua estreia cinematográfica.

Basil da Cunha faz de O Fim do Mundo um ciclo de vida e morte, um ritual de despedida, qual cortejo fúnebre, onde filma rostos, de olhos tristes que fixam a câmara – ou nos fixam a nós – e connosco ficam para a eternidade, muito para além do dia em que as retroescavadoras apagarem as memórias físicas de uma vida construída no bairro.

Manuel é a personagem que traz os momentos mais inusitados à longa-metragem e ao bairro. Um desafiador, que rouba sanitas ou torradeiras após a demolição das casas, ou coloca música alegre em momentos soturnos. Este elemento desestabilizador proporciona-nos a cena com maior magia latente, que nos anestesia, por momentos, da dor e decadência com que O Fim do Mundo nos confronta.

Uma fuga momentânea para uma realidade paralela – que existe, mesmo que ninguém acredite – e revela o maior encanto escondido daquele local, agora meio em ruínas, que guarda as memórias felizes de muitas gerações.

Escrito por: Inês Moreira Santos para “ Hoje Vi(vi) um Filme”