18 de Abril, 17 e 19h: “Mudar de Vida”

Realização: Paulo Rocha

Intérpretes: Geraldo d’El Rey, Isabel Ruth, Maria Barroso, João Guedes, Nunes Vidal,Mário Santos, Constança Navarro, Jose Braz

FRA/ITA, 2016, 118′

Uma praia de pescadores, o mar que a pouco e pouco vai conquistando a terra. A luta do homem com o mar e sobretudo a luta entre a tradição e o progresso. No centro do drama estão as relações sentimentais, difíceis e quase absurdas que unem um pescador, Adelino, de regresso da guerra de África e duas mulheres, Júlia, uma mulher do mar (à moda antiga), e Albertina, uma operária misteriosa e selvagem. Voltando do Ultramar, Adelino encontra Júlia, a sua antiga namorada, casada com o seu irmão. O drama surge… Albertina, a operária, desafia-o a partir, a Mudar de Vida.

Esta cópia corresponde ao restauro digital de “Mudar de Vida” levado a cabo por iniciativa do Realizador e em grande parte concluído em vida deste. A nova matriz digital de imagem de resolução 2K foi obtida por transcrição do negativo de imagem de 35mm. O som foi restaurado digitalmente tomando como referência a mistura final do negativo de som óptico mas recuperando também bandas magnéticas parciais. Prosseguindo a colaboração inicialmente prestada a Paulo Rocha, as várias etapas do restauro tiveram supervisão do Realizador Pedro Costa, a quem a Cinemateca Portuguesa  – Museu do Cinema manifesta o seu profundo agradecimento

Mudar de Vida (1966) conta-nos a história de um idílio impossível, de uma reconciliação dorida e improfícua com as Origens – a Terra natal, a Mulher; mas também é um inventário grave e caricioso das obras que o homem inflige à terra, da lavradura dos mares e dos ares, do sal e da areia: é impossível apreender o significado do conflito romântico central sem relacioná-lo à canção de Gesta entoada por aquela pequena aldeia mediterrânea. Júlia, Adelino, Raimundo constituem não apenas os vértices de um triângulo romanesco, mas também as arestas – domésticas, “tópicas”- de um combate sempiterno com os elementos; o reencontro entre os amantes dá-se sob a égide de um Theatrum mundi: sob o sol e diante do mar, no areal onde Júlia trabalha. A arena trágica grega aqui retoma o seu espaço-tempo de presença, irradiante sob o sol, irisada de chuva, alternadamente apolínea e dionisíaca. Ao primeiro plano que nos mostra Adelino se encaminhando para o lugar, Rocha introduz um contracampo laboral, onde se vê uma mulher que ara o solo. A subjetividade “aparece” nesta cratera telúrica, de onde tudo advém. Melodrama sublimado pela omnipresença oracular da paisagem, Mudar de Vida não admite a separação, levada a cabo pelos arcanos do drama burguês, entre o intimismo elegíaco e o gregarismo trágico. Uma quintessência da integração clássica (mundo, gesto) se atinge e esmera aqui: “Somos” o mundo onde habitamos e trabalhamos. Paulo Rocha é um poeta bucólico e um rapsodo, pois sabe, em um mesmo e compassado movimento, rematar o imponderável da subjetividade e o inelutável do mundo. São os contrafortes rochosos e as ondas revoltas do mar as testemunhas destes olhares furtivos; é a pedra silente e eterna que os sagra. A Natureza assume aqui o papel do espectador- ou somos nós que tomamos o seu lugar e arraigamos, impassíveis, o seu desejo carnívoro? A consangüinidade entre a subjetividade e o”mundo que os contempla” é tão forte que, quando Júlia desmaia no início do filme, o espaço do filme vacila e titubeia com ela. Abre-se uma cratera no seio do mundo das aparências, um vácuo fenomenológico, cujo efeito é a desorientação espacial: deslocação precipitada de eixo, motricidade deficitária da câmera, que parece ceder à atração da terra negra e crepitante. Esta veemência sismográfica que a câmera adquire é um revelateur de que Adelino e Júlia são depositários mediúnicos de forças e ritos que os ultrapassam, de vaticínios que os espreitam, de demiurgias secretas que animam os ares e a terra.. quando Júlia está à cabeceira de Adelino convalescente, uma intuição em comum os ilumina: “Todos os vivos… e todos os mortos”. Eles pertencem a um universo muito vasto e muito antigo, de que o seu caso de amor desafortunado é a manifestação atual, episódica, claudicante- uma constelação arquetipicamente unitária, governada pelos vivos e pelos mortos, pelas marés e pelas estações, pelo Nomos e pelo Logos resguardados pelos rituais comunitários. Aqui, a Cultura não se opõe à Natureza, mas a ratifica e comemora: “Somos bichos”. Tudo se origina e deságua em uma mesma temporalidade cíclica. O festim das espumas que desembocam na areia, as alvíssaras febris da pesca em alto-mar, o cadenciado das palmas e dos cantos na glorificação do santo: a atenção meticulosa com que Mudar de Vida se detém sobre efemérides naturais e civilizacionais nos sugere que o mundo investigado aqui não separa ou justapõe estes domínios, mas os celebra com idêntica unção, como se pertencessem a um mesmo, amplíssimo e ressoante corpo cósmico, percutido pelo beat dos elementos. Uma pátina de Eterno recobre as cantigas, as rodas, as batidas; cada gesto se refrata e ressoa em um gesto anterior, primevo e último. O antropólogo e o poeta elegíaco, o entomologista e o cronista, o documentarista e o contista são requisitados em igual medida para traçar o panorama de um mundo anterior às cismas do Logos Ocidental e de suas instituições. Este mundo teve uma história, um ethos, um Romanceiro metafísico: reconciliação.

E é justamente contra o fundo desta aspiração concertante à unidade que a “cisão” representada por Júlia e Adelino adquire a sua ressonância patética: ela constitui uma fissura que deve necessariamente ser suturada, uma dívida cujo resgate é inapelável; a coluna de Adelino, a doença cardíaca de Júlia são os estigmas somáticos de uma radical situação, glosada com bonomia pelo casal de velhos (Olha o que isto vai dar!), refratada pela circunspecção desconfiada de Raimundo (seu irmão, seu esposo) e pelos flatus vocis de Júlia, que parece pressentir a Morte– carregá-la dentro de si… Quando Rocha nos mostra Adelino desvanecido sob o peso da embarcação, uma rima se estabelece com a astenia de Júlia; ambos sucumbem ao “peso” de uma condição superior às suas forças, cuja potência acabrunhante os esmaga: o draconiano universo do trabalho, índice de um devir submetido à férrea repetição, à estandardização do gesto e da força: este mundo bigger than life, que imprime sobre os míseros corpos humanos a cicatriz de sua passagem… Mas é por intercessão desta condição deficitária que eles acedem a uma espécie de êxtase, a momentos de semi-transe (o close em Del Rey durante a convalescença de Adelino, ou quando Júlia acorda do desmaio) que designam precisamente esta borda, penumbrosa e vacilante, sobre a qual se equilibram precariamente estes seres transidos pela paixão e pela culpa; o pathos que os consome aliena-os do meio, perde-os em si mesmos; por vezes, Mudar de Vida parece flutuar, e uma semi-hemiplegia da percepção condena Júlia e Adelino a uma existência fantasmagórica, entre angélica e vampiresca. Estar doente é ser aqui e lá, ancorado num promontório espiritual, fustigado pelas tormentas da alma; Rocha descobre para a casmurrice fenomenológica do doente uma ressonância existencial, um stimmung tenebroso que os aproxima de personagens de Dostoiévski. A intensidade ensimesmada que Geraldo del Rey e Maria Barroso imprimem a ambos isola-os em um cristal de inviolabilidade profética, que estilhaça o basso continuo classicista do filme com as agruras melódicas de um impromptu expressionista; a opacidade telúrica do meio é por um momento suspensa, rarefeita sua pressão entrópica. Mas o que se substitui ao augúrio trágico do mundo exterior talvez seja ainda mais ameaçador: uma experiência da subjetividade como o vetusto refúgio do fantasma. Quando o filme “volta a si”, permanece assombrado por este marasmo envenenado que o spleen dos personagens espraiara pelo ar.

Mundo, subjetividade, reconciliação, expiação: um contrato cósmico irremissível determina que a falta trágica deve ser sanada a qualquer custo. Um equilíbrio anterior deve ser restaurado, uma Origem restituída à sua fonte sem mácula, um élan divino sustentado em sua nota cristalina. Se Mudar de Vida assume como premissa uma convenção trágica, é para ao final pervertê-la com uma pirueta: não encontramos como esperávamos um Die irae, mas uma sonatina de risos pela campina. Ao sacrifício de todos, substitui-se o sacrifício de um particular, Júlia- e já conhecemos o suficiente da economia da redenção para intuir no amor esta moeda de troca conversora, através da qual o opróbrio transfigura-se em dom, a Morte em nova vida (espiritual). É a introdução da personagem de Albertina quem opera esta comutação: ao amor culpado e imemorial com a cunhada, um flerte aventuresco com a irmã do patrão; à ligação quase-incestuosa (e pensemos aqui nas implicações simbólicas deste enlace vertical de sangue: a Mãe, a Mulher, a Origem), a descontração “forma balada” de um amor fortuito, que revolve (imanta) o plano com a perseguição que inaugura o encontro de ambos. Ao trabalho como “maldição”, o labor como dom de vida (plus): “Dá-me este dinheiro. Não precisamos dele. Temos braços”. À verticalidade opressora destes blocos de granito que enquadram os encontros entre Júlia e Adelino, a horizontalidade do planalto finalmente descoberto, na corrida com Albertina. “O mundo é grande”, ela lhe responde com arrogante precisão. Mundos: caminhos e destinos. Nada é mais garantido de antemão (o Fatum!). De certa forma, Mudar de Vida é um filme incompleto; mas é na forma brusca com que se encerra que podemos ler em filigrana um “happy end”: o inacabamento do gesto final – estes dois que, telescopiados por um plano generosamente geral, se encaminham para fora do plano- é o índice de uma fresta de liberdade enfim conquistada, de uma abertura transitiva ao porvir e suas veredas.  , in http://www.apaladewalsh.com

http://www.apaladewalsh.com/2014/10/mudar-de-vida-os-dons-do-mar/

Sessão ás 17h – ENTRADA LIVRE para >60anos (Integrada no programa Junt’Anima Seniores)

Sessão às 19h – preço habituais

 

 

28 de Março, 19h: “Loucamente”

Realização: Paolo Virzì

Intérpretes: Micaela Ramazzotti, Valeria Bruni Tedeschi, Valentina Carnelutti

FRA/ITA, 2016, 118′

Beatrice é uma mentirosa compulsiva e uma tagarela de porte exuberante. Donatella é uma jovem tatuada, frágil e introvertida. Residentes na Villa Biondi, uma instituição terapêutica para mulheres que padecem de problemas mentais, estas duas mulheres ficam amigas. Uma tarde, resolvem fugir, decididas a encontrar um pouco de felicidade no manicómio ao ar livre também conhecido por mundo de gente “sã”.

 

Realismo & melodrama

Paolo Virzì é um nome essencial no panorama da actual produção italiana – com “Loucamente”, ele arrisca filmar o universo perturbante da loucura, contando com duas admiráveis actrizes, Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti.

Importa não esquecer o cinema italiano. E não apenas porque, quando recuamos no tempo, começamos por deparar com a herança do neo-realismo, depois com mestres como Roberto Rossellini ou Michelangelo Antonioni e notáveis artesãos como Dino Risi ou Mario Monicelli. Também porque a pluralidade dessa tradição se mantém viva no presente, recebida e transfigurada por cineastas como Nanni Moretti, Daniele Luchetti ou Paolo Virzì — justamente, Virzì, autor de “Capital Humano” (2013), regressa às salas portuguesas com um filme brilhante.

“Loucamente” (título original: “La Pazza Gioia”) arrisca-se num terreno sempre delicado: o da loucura, ou melhor, da convivência entre os que representam a norma (social, conjugal, emocional) e os que a ela escapam. Mais exactamente, este é um filme sobre duas mulheres que querem libertar-se das obrigações decorrentes da instituição psiquiátrica onde estão internadas.

O menos que se pode dizer do trabalho de Virzì é que se fundamenta num valor essencial: o trabalho específico dos actores e a sua capacidade de gerar personagens que não podem ser reduzidas a esterótipos intermutáveis. Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti (casada com o realizador) são admiráveis de subtileza e emoção, assumindo complexas personagens que procuram, respectivamente, reconquistar os seus privilégios sociais e encontrar o filho que foi adoptado.

Estamos perante um cinema que nasce de uma atenção obsessiva às contradições do tecido social sem que isso impeça, bem pelo contrário, uma celebração da irredutibilidade de cada ser humano. Daí o fascinante cruzamento de referências que encontramos no trabalho narrativo de Virzì — ele é, afinal, um realista na precisão da observação, mas também um herdeiro da mais nobre tradição melodramática. Os italianos aí estão.

Crítica de João Lopes

Integrado na Semana da Juventude em Tomar – Preço único 1€

 

14 de Março, 19h: “Toni Erdmann”

 

RealizaçãoMaren Ade

IntérpretesPeter SimonischekSandra HüllerMichael WittenbornThomas Loibl

ROM/Áustria/ALE, 2016, 162′ M/12

Já na casa dos 60, Winfried Conrad é um antigo professor de música conhecido pelo riso fácil e pelo gosto pela vida. A sua forma desprendida e um pouco irresponsável é uma das razões pelas quais se tornou distante de Ines, a sua extraordinariamente bem-sucedida filha. Ao contrário do progenitor, ela é sisuda, controlada e muito dedicada à carreira. Um dia, consciente do afastamento entre ambos, ele resolve fazer-lhe uma visita surpresa em Bucareste (Roménia), a cidade onde ela trabalha há já alguns anos. O encontro revela-se um fracasso e eles acabam por se distanciar ainda mais. Até que, algum tempo depois, ele regressa, desta vez vestindo a pele de Toni Erdmann, um “alter ego” inventado por si que, ao infernizar a vida da filha contando mentiras a todos os seus contactos, lhe vai mostrar o que verdadeiramente importa para ser feliz…
Terceira longa-metragem da realizadora alemã Maren Ade (“The Forest for the Trees” e “Todos os Outros”), uma comédia dramática protagonizado por Peter Simonischek e Sandra Hüller. Estreado no Festival de Cinema de Cannes, onde lhe foi atribuído o prémio Fipresci (pela Federação Internacional dos Críticos de Cinema), foi também vencedor do Prémio Lux de Cinema do Parlamento Europeu e obteve cinco galardões nos Prémios do Cinema Europeu (melhor filme, realização, argumentista, actor e actriz). Nomeado para Melhor Filme Estrangeiro nos Globos de Ouro, “Toni Erdmann” concorreu também aos Óscares na mesma categoria. PÚBLICO

http://www.apaladewalsh.com/2017/02/toni-erdmann-2016-de-maren-ade/

Com um lastro de reconhecimento “prestigiante” sem muito paralelo nos últimos anos, estreia em Portugal Toni Erdmann (2016), a terceira longa metragem da bissexta Maren Ade, que nos entretantos andou a produzir os filmes do Miguel Gomes. Perante esta admiração quase unânime, quase que somos levados a ir na cantiga da “obra-prima da década” ou então de sermos cínicos e perguntar o porquê de tanto alarido (Miguel Marias!). Nem uma cousa nem outra: Toni Erdmann é “apenas” um muito bom filme, o melhor da cineasta, que tem na sua duração e possíveis efeitos redundantes as suas exactas virtudes e os seus (poucos) exactos defeitos. E convenhamos que é muito complicado não gostar de um filme que acaba ao som da “Plainsong” dos The Cure e em que há a melhor cover de sempre de uma canção da Whitney Houston.

Uma das perguntas que, amiúde, as personagens de Maren Ade costumam fazer umas ás outras é a seguinte: “O que estás aqui a fazer?”. O tom da pergunta não é encabeçado nem por alegria nem pela mínima quantia de curiosidade, antes por um sentimento de incómodo de quem nos quer lixar o dia. Personagens solitárias e cheias de “boas intenções” que não fazem a mínima ideia de quando estão a ocupar demasiado tempo e demasiado espaço do outro, com poucas ou nenhumas noções do que significa a palavra “embaraço”. A “boa educação” e as convenções sociais impedem que o incomodado envie o inoportuno imediatamente para tal sítio, mas, como inevitável resultado da bola de neve que se vai formando, a explosão irá acontecer e não será bonita de se ver. Era assim na obra de estreia da alemã, Der Wald vor lauter Baumen (2003), onde se assistia à degradação psicológica de uma professora através da sua incapacidade de ter o comportamento “certo” para determinada ocasião, e também era, embora bem menos, o que acontecia em Alle Anderen (Todos os Outros, 2009), em especial na desbocada personagem da namorada do casal protagonista.

Toni Erdmann estará relativamente mais próximo dos pequenos festivais de episódios inconvenientes de Der Wald vor lauter Baumen do que da rotineira e estafada história de “um casal e seus problemas” (pessoal, o Bergman já disse tudo o que havia para dizer sobre isto há quarenta anos. Já não há mais nada para remexer. É chover no molhado. Seja em plano fixo ou câmara aos caídos, seja em Technicolor ou em “austero preto-e-branco”) de Alle Anderen. “Relativamente” porque as semelhanças acabam aí. Aos concisos oitenta minutos do seu primeiro trabalho, Toni Erdmann responde com uns langorosos cento e sessenta e dois, e ao sucedâneo doDogma style que é o seu trabalho de 2003, o último filme de Maren opõe um “neutro” classicismo. O primeiro é um filme caseiro, filmado na cidade natal da realizadora, Karlsruhe (já conhecemos mais pessoas desta cidade além do Oliver Kahn), com cenas curtas e urgentes, em que as personagens se encontram em constante movimento; Toni Erdmann está de malas e bagagens em Bucareste, no mundo da alta finança, filmado com uma câmara de altíssima definição, e em que as cenas e sequências se prolongam no tempo, tornando-se praticamente filmes em si mesmas.

Para se ter uma ideia desta durabilidade “excessiva”, pode-se escrever, sem perigos de maior, que a personagem que dá nome ao filme só entra em cena já lá vai decorrida uma hora de filme. E o que aconteceu nos sessenta minutos anteriores e o que sucederá nos cem posteriores levam-nos a concordar com o critico espanhol Miguel Marias, que na World Pool de 2016 da Senses of Cinema achava muito confuso que Toni Erdmann fosse classificado como “comédia”. Situações rídiculas e absurdas não significam, necessariamente, a entrada por caminhos cómicos, e se as há, e muitas, em Toni Erdmann, elas estão impregnadas de constrangimento. Não se chega perto do (involuntário) comportamento masoquista de Der Wald vor lauter Baumen – até porque aqui tínhamos uma personagem contra o mundo, e em Toni Erdmann há uma relação mútua com pathos a atravessar-se à frente -, mas os momentos de quase fecharmos os olhos perante tanto embaraço alheio também não estão nada em falta. Algumas das vezes, é tudo um exercício do mais sádico suspense: como acabará esta situação onde ninguém sabe o que fazer? Não há nada melhor para exemplificar isto do que o encontro dos (magníficos) Peter Simonischek (pai) e Sandra Huller (filha) numa reunião com os chefes e colegas desta num hotel de Bucareste. Até nos alegrámos por ali não estar. Mais: suspirámos por um filme do Todd Solondz.

O momento de catarse das personagens, presente nos últimos planos dos dois primeiros filmes, é agora expandido numa sequência de um quarto de hora que é apenas digna de ser vista, não descrita. Diremos apenas que começa por envolver um vestido e uma festa de anos. Dê por onde der, há que admirar o completo abandono dos actores nesta cena. É o momento, certamente, onde a fronteira entre os actores e as suas personagens se esbatem por completo, onde menos se conseguirá descortinar as diferenças entre aqueles actores a serem eles mesmos ou a usarem o corpo e a mente para dar vida a criações fíctícias.

No final, o happy ending nesta história de um pai e de uma filha é meramente ilusório. Maren Ade resgata, assim, o seu filme das garras simplórias da mensagem “ai, tens de aproveitar a vida e não dar tanta importância ao trabalho e ás aparências”, que bem poderia ser o mandamento de um dos chefões de Hollywood para mais uma comédia feel good. A última imagem de Toni Erdmann alimenta pelo menos a hipótese de a “mensagem” não ter passado de um interlúdio. Amanhã é outro dia, outra vez na alta finança, e há que trabalhar no duro e manter as aparências convencionais. Siga.

 

 

 

 

 

 

11 de Março, 17.00h: “O Menino e o Mundo”

o-menino-e-o-mundo-847494l-1600x1200-n-c81d3d3eRealização: Alê Abreu

IntérpretesVinicius Garcia (Voz), Marco Aurélio Campos (Voz), Lu Horta (Voz)

Brasil, 2013, 80′, M/6

Um menino abandona a sua aldeia para procurar o pai, descobrindo um mundo dominado por seres estranhos e fantásticos.
Uma animação extraordinária, com várias técnicas artísticas (lápis de cor, giz de cera, colagem e aguarela), que retrata as questões do mundo moderno através do olhar de uma criança.
A realização é do brasileiro Alê Abreu que, com este filme, se viu nomeado para um Óscar da Academia (2016), na categoria de Melhor Filme de Animação. 

7 de Março, 19h: “Correspondências”

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Argumento e Realização: Rita Azevedo Gomes

Fotografia: Acácio de Almeida | Jorge Quintela

Montagem: Rita Azevedo Gomes | Patricia Saramago

ActoresEva Truffaut, Pierre Léon, Rita Durão, Luís Miguel Cintra

ProduçãoC.R.I.M. (http://crim-productions.com/)

POR, documentário, 2016, 145′

O filme inspirou-se nas cartas trocadas entre dois poetas portugueses, Sophia de Mello Breyner Andresen e Jorge de Sena, que testemunham a sua demanda de liberdade durante um período em que o regime fascista português esteve sob pressão crescente.

 

«Correspondences» (Correspondências) por Hugo Gomes

Há uma mistura de teores que percorre todas estas palavras, desde o poético ao lírico passando pelo simplesmente político, até à preocupação da nossa língua (essa nossa identidade), como a preservação dos nossos ideais culturais e sociais – “devemos ser mais como o gregos” – tal como é referido em determinado ponto. Rita Azevedo Gomes (A Vingança de uma Mulher) encontrou a sua matriz, a correspondência trocada entre dois poetas, Jorge de Sena e Sophia de Mello Breyner Andersen, durante o exílio do primeiro no Brasil e, posteriormente, nos EUA, de forma a “fugir” ao regime fascista que se vivia em Portugal. Porém, para Breyner, a sua escrita remete à recordação de cada palavra como a saudade do seu mais íntimo amigo. Uma amizade separada por quilómetros de distância, mas reforçada pelas estrofes, pelas frases que substituem horas e horas de conversa.

Belos textos temos aqui! E a realizadora bem o sabe, aliás, até demais. Correspondências vem reforçar a ideia de uma vaga que vai brotando no nosso seio cinematográfico – um cinema cada vez mais lírico, empurrado pelos textos de uma correspondência antiga – que servem, não só de guião, assim como puro alicerce de uma eventual intriga. Será a saudade vencida por este prolongado método de comunicação, agora perdido pela distância de um clique das novas tecnologias em cumplicidade com as redes sociais que nos atingem, que nos faz invocar referido formato? Será a preocupação com o texto impresso, a degustação de cada palavra, cada acento, cada parágrafo e até a grafia no seu mais extremo nível, que nos afronta espiritualmente?

A verdade, é que temos aqui um português falado e escrito à beira da extinção, que nos dias de hoje se vê atropelado pela globalização e nesta redução da distância de contacto entre os mais diferentes pontos geográficos. Será que esta aproximação nos torna menos cuidadosos? Assim sendo, Correspondências vem ao auxílio de Cartas da Guerra, de Ivo Ferreira, a prioridade do texto-legado, da literatura salientada nas suas imagens. Mas, Ferreira soube construir uma narrativa visual que pudesse emancipar-se do próprio texto; em Correspondências tal não acontece, tudo é recorrido à forma de cautela. A nossa realizadora parece ter medo de superar o mencionado texto, focando-se nele e aceitando a aleatoriedade das imagens.

O melhor – O texto

O pior – as imagens não conseguem proclamar independência da matéria escrita

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