17 de Dezembro, 15.30h: “O Principezinho”

 

o-principezinho-blogRealização: Mark Osborne

Intérpretes: SarPaul Rudd (Voz), Rachel McAdams (Voz), Mackenzie Foy (Voz), James Franco (Voz), Marion Cotillard (Voz), Benicio Del Toro (Voz), Jeff Bridges (Voz), Paul Giamatti (Voz), Vincent Cassel (Voz), Ricky Gervais (Voz)

Versão dobrada em português: Rita Blanco, Paulo Pires, Joana Ribeiro, Rui Mendes e Francisco Monteiro

FRA, 2015, 108′

Uma menina vive com a sua mãe, uma mulher de tal modo obcecada com o futuro da filha que tem tudo delineado para cada hora de vida da criança. Os testes de admissão para um colégio muito conceituado são a grande preocupação do momento e nada, nem ninguém, parece demovê-la dos planos. Para ela, nada pode ser deixado ao acaso. Um certo dia, a pequena conhece o vizinho da casa ao lado, que lhe envia um desenho num pequeno avião de papel. Esse homem, que em tempos fora aviador, conta-lhe histórias das suas viagens e de como conheceu, em pleno deserto, um principezinho louro que lhe disse viver no asteróide B612. Com este novo amigo, a menina vai conhecer uma história de amizade que a mudará para sempre…
Produzido pela Onyx Films, um filme de animação realizado por Mark Osborne (“O Panda do Kung Fu”). O argumento, da responsabilidade de Irena Brignull e Bob Persichetti, baseia-se numa das mais importantes obras infantis de todos os tempos, escrita pelo ilustrador e piloto francês Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944) e publicada, pela primeira vez, em 1943.
Na versão inglesa as vozes são emprestadas pelos actores Jeff Bridges, Rachel McAdams, Riley Osborne, Paul Rudd, Marion Cotillard, James Franco, Benicio del Toro, Ricky Gervais, Bud Cort, Paul Giamatti, Albert Brooks e Mackenzie Foy. Na versão dobrada em português, as vozes são de Rita Blanco, Paulo Pires, Joana Ribeiro, Rui Mendes e Francisco Monteiro, entre outros. PÚBLICO

 

Uma bela recriação da herança de Saint-Exupéry

No panorama natalício do cinema, “O Principezinho”, de Mark Osborne, constitui uma magnífica excepção — uma recriação da obra de Saint-Exupéry que combina, de forma original e inventiva, duas técnicas de animação.

No panorama global dos desenhos animados, sabemos do muito talento (e também do enorme poder económico) que está envolvido em marcas como a Disney ou Pixar, Apesar disso, ou precisamente por causa disso, vale a pena mantermos o olhar disponível e reconhecer que o campo da animação está longe de se esgotar nos títulos que ostentam aquelas chancelas (pertencendo a Pixar, desde 2006, ao império Disney).

A nova versão de “O Principezinho” (apresentada extra-competição em Cannes/2015) surge como um belíssimo exemplo de um modelo animação que, embora integrando o digital, propõe um desvio pleno de consequências narrativas e dramáticas.

Em boa verdade, este é um objecto “dividido” em dois registos de animação — um mais corrente, digital, precisamente, para figurar a vida da menina que ocupa o centro da história; outro assumidamente primitivo, valorizando o desenho tradicional e as técnicas do stop-motion.

Quer isto dizer que a herança temática e simbólica do livro encantado de Antoine de Saint-Exupéry (cuja primeira edição data de 1943) se apresenta recriada através de um dispositivo que não se esgota em qualquer atitude banalmente “ilustrativa”. Trata-se, afinal, de definir uma experiência em que a monotonia de um quotidiano gerido por regras pouco humanas se desagrega face à alegria criativa do mundo das aventuras e fábulas.

Produção de origem francesa, originalmente concebida em duas versões (francesa e inglesa), o filme realizado por Mark Osborne (americano que dirigiu, por exemplo, “O Panda do Kung Fu”, em 2008) distingue-se como um evento realmente invulgar nesta quadra natalícia — pelas suas qualidades intrínsecas, e também porque nos leva a relativizar, repensar e reavaliar os padrões dominantes do cinema de animação.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

13 de Dezembro, 19h: “Love is Strange”

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Realização: Ira Sachs

Intérpretes: John Lithgow, Alfred Molina, Marisa Tomei, Tatyana Zbirovskaya

EUA/FRA, 2014, 94′  M/12

Após 39 anos juntos, Ben e George decidem dar o nó numa conservatória do registo civil em Manhattan, na sequência da aprovação da lei que permite o casamento entre homossexuais. No regresso da lua-de-mel, Ben é despedido do seu emprego de longa data como maestro de coro numa escola católica mista, por causa dos votos de casamento. Sem economias, o casal percebe que não tem condições para continuar a pagar o seu pequeno apartamento em Chelsea. Poucos dias depois de se juntarem para celebrar as núpcias, família e amigos têm agora de se reunir para descobrir como ajudar os dois amigos.

Love Is Strange é uma pequena obra-prima de câmara

A verdade é que é para desvendar pequenas jóias que nos quebram o coração sem estarmos à espera, e às quais não chegaríamos de outro modo, que os festivais (também) servem. E Love Is Strange (na secção paralela Panorama), do americano Ira Sachs, é um desses filmes, que antes de ser visto corre o risco de ser enfiado na gaveta do “problema social”, do “cinema queer” ou do “filme gay“, mas que precisa apenas de nos sentar à frente do ecrã para nos comover com a sua história.

Sim, os seus “heróis” são um casal gay na casa dos 60/70, que partilham a vida há 40 anos e se casaram finalmente – mas não é o casamento nem a homossexualidade que interessam a Ira Sachs. Antes a velhice, a idade, o amor. Porque, de repente, Ben e George precisam de vender o apartamento nova-iorquino onde fizeram a sua vida e, enquanto não encontram outro, vêem-se obrigados a viver com amigos e família – e cada um para seu lado, que o preço das rendas em Nova Iorque não é barato e o espaço não abunda.

Nesse movimento, Love Is Strange torna-se num melodrama de sublime contenção sobre o envelhecimento, ao som dos nocturnos de Chopin, com a câmara sempre focada nos seus maravilhosos actores. Que o casal seja interpretado por John Lithgow e Alfred Molina é a primeira mais-valia (Lithgow, então, tem aqui o papel de uma vida); que junto a eles esteja a demasiado rara Marisa Tomei, como uma sobrinha com problemas familiares, apenas sublinha que Sachs está mais interessado em trabalhar a humanidade e a emoção de gente normal que percebe de repente como o tempo passou.

Mas Love Is Strange, apesar de ser uma pequena obra-prima de câmara, é o tipo de filme de que o “mercado” (português, mas não só) pouco quer saber. Que, provavelmente, só vamos poder ver em festivais (como o anterior filme de Sachs, Keep the Lights On, que venceu o Queer Lisboa em 2012), mas que merecia melhor sorte.

JORGE MOURINHA em Berlim (8 de Fevereiro de 2014)

 

 

 

 

 

 

6 de Dezembro, 19h: “Carneiros”

 

carneiros-2Realização: Grímur Hákonarson

Intérpretes: Sigurður Sigurjónsson, Theodór Júlíusson, Charlotte Bøving

NOR/DIN/POL/Islândia, 2015, 93′ M/12

Nascidos numa aldeia islandesa, os irmãos Gummi  e Kiddi são criadores de ovelhas, tal como as várias gerações que os precederam. A sua rivalidade é lendária. Há mais de 40 anos que, por um motivo que já ninguém recorda, não dirigem palavra um ao outro. Um dia, é diagnosticada uma doença contagiosa a uma ovelha pertencente a uma quinta das redondezas. As autoridades optam por abater todos os animais que possam ter tido contacto com o agente infeccioso. Determinado a não seguir as regras, Gummi elabora então um plano de fuga para salvar os seus animais. Mas, para que isso se torne possível, terá de engolir o orgulho e pedir ajuda ao seu irmão.

‘Carneiros’, uma marcante obra sobre o passado e o perdão

JOÃO ESTRÓIA VIEIRA

Vencedor do prémio Un Certain Regard no Festival de Cannes, chega aos cinemas portugueses, pela mão da Medeia Filmes, Carneiros, a segunda longa-metragem do realizador Grimur Hakonarson.

Carneiros leva-nos até à localidade isolada de Burdardalur, na Islândia. No vale de Burdardalur grande parte dos habitantes tem no negócio da criação de carneiros o seu ganha-pão e, por consequência, uma grande ligação e compromisso entre os criadores e seus animais, que ultrapassa a simples ligação que se tem com um animal de estimação.

Gummi (Sigurður Sigurjónsson) e Kiddi (Theodór Júlíusson) são dois desses criadores. Dois irmãos que não têm mais nenhum parente vivo, vivem lado a lado na mesma propriedade, em casas separadas, onde a sua família é, há várias gerações, criadora de uma raça de carneiros reconhecida e premiada pela sua qualidade. Gummi e Kiddi, no entanto, não se falam há mais de quarenta anos. Esta falta de comunicação, minguada por cartas que ambos dão ao cão de Kiddi, que funciona como ligação entre eles, é uma consequência para factos que nunca nos foram dados a conhecer, nem tinham de ser.

Em Carneiros, cedo nos apercebemos que este é um filme que não nos dará nada de forma gratuita, muito pelo contrário. Trata-se de uma história dramática, pesada, de tonalidade cinzenta constante e sem facilitismos de narrativa, apenas levemente irrompida com alguns momentos de humor negro.

A disputa entre os dois irmãos sofre um factor de mudança quando se descobre haver uma doença no rebanho de um deles, um acontecimento que fará com que todos os rebanhos das redondezas tenham de ser abatidos.

Aqui, não são unicamente as suas criações de carneiros que estão em risco, mas sim um propósito em comum entre os irmãos, capaz de se sobrepor a disputas pessoais cimentadas nesta Islândia rural e de os unir passados tantos anos, anos passíveis de ser contados pela longevidade das barbas que transportam nos seus semblantes carregados, frutos de uma solidão transversal e comum a cada um deles, e cujo seu modo de vida não lhes facilitou a descoberta de alguém com quem a compartilhar.

Com as excelentes e irrepreensíveis actuações de Sigurður Sigurjónsson e Theodór Júlíusson, Carneirosé um pungente conto que com a maravilhosa banda sonora de Atli Orvarsson, ao som da melancolia trazida por um órgão de igreja e acordeão nos esmurra no estômago sem piedade num final perfeito capaz de nos marcar profundamente. Carneiros é uma obra sobre o perdão e de como o passado afecta o presente de forma tão vincada. Uma das melhores propostas de visionamento neste ano, em Portugal (a par do igualmente vindo do frio islandês O Grande Fúsi). Uma obra marcante que promete perdurar na memória.

Comunidade Cultura e Arte

 

 

 

 

29 de Novembro, 19h: “Se as Montanhas se Afastam”

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Realização: Jia Zhang-ke

Intérpretes: Zhao Tao, Zhang Yi, Liang Jing Dong

China, 2015, 131′  M/12

China, final de 1999.
Tao, uma jovem rapariga de Fenyang é cortejada por dois amigos de infância, Zhang e Liangzi. Zhang, proprietário de uma estação de serviço, tem reservado para si um futuro prometedor, ao passo que Liangzi trabalha numa mina de carvão.
Com o coração dividido entre os dois homens, Tao vai ter de fazer uma escolha que irá marcar o resto da sua vida e da do seu futuro filho, Dollar.
Num quarto de século, entre uma China em profunda mutação e a Austrália como a promessa de uma vida melhor, encontram-se as esperanças, os amores e as desilusões das personagens face ao seu destino.

Quase três anos depois de China – Um Toque de Pecado (2013), Jia Zhang-ke regressa às salas nacionais com um tocante melodrama contado em três partes (digamos, o passado, o presente e o futuro), exemplarmente filmado e absolutamente comovente sem ser manipulador. Uma das jóias cinematográficas do ano.

Se no seu filme anterior o espectador era levado, por reflexo condicional, a temer por antecipação os rasgos de violência que manchavam de sangue cada uma das diferentes histórias lá contadas, em Se as Montanhas se Afastam há uma estranha antecipação por uma espécie de explosão emocional que nunca chega a sentir-se verdadeiramente, permanecendo na sua maior parte interior a cada uma das personagens. Será esse, no fundo, o tema principal de Jia Zhang-ke nesta sua ambiciosa e algo enigmática obra, a repressão de sentimentos que deveriam estar à flor da pele? Talvez seja, mas já sabemos que no seu cinema as personagens estão sempre muito directamente ligadas ao ambiente que as rodeia, e a China, que hoje vive entre os valores tradicionais e o capitalismo crescente, é o palco ideal para essas convulsões interiores. Ao autor interessa-lhe não só reflectir sobre o presente e o futuro dessas personagens como também sobre o seu próprio país.

Quando começa, o filme situa-se em 1999, na entrada de um novo século, e um grupo de três amigos, composto pela bela Tao (Tao Zhao), o humilde mineiro Liangzi (Jing Dong Liang) e o abastado Jinsheng (Yi Zhang), habituado a divertir-se em conjunto, ameaça desfazer-se quando os rapazes competem pelo amor de Tao. Depois de se ver obrigada a escolher entre um deles, o filme retoma as personagens em 2014 e, mais tarde, em 2025, num futuro em que o mundo parece órfão de identidade, abraçando a tecnologia e deixando pouco ou nenhum espaço para a memória e para a tradição, perdidas nos confins da mente. De segmento para segmento, os actores mantêm-se, mas vai-se alterando o formato da imagem, que começa mais quadrada e se vai alargando até ao segmento do futuro, em contraste com a paisagem emocional das personagens, que se fecham gradualmente sobre si próprias (veja-se a diferença de sentimentos provocados pelo plano inicial num “sufocante” formato de 4:3 e o final, em “glorioso” scope – as aspas aqui não são meros adornos de escrita, caro leitor).

À boa maneira de Jia Zhang-ke, as histórias sucedem-se e as pessoas cruzam-se com grande naturalidade, o que de certa forma parece contrariar o próprio conceito de melodrama, que pressupõe uma vincada exacerbação de sentimentos. Mas, mais ou menos exteriorizados, são sempre os sentimentos que estão em primeiro plano e a narrativa, essa, com as suas pontas soltas em relação àquilo que fica por contar, é assim apresentada sem grande artifícios ou preocupações. O tempo passa, e o que fica para trás lá permanece, porque a vida não pára, e é aí que reside a sua grande beleza e a sua inevitável tragédia.

João Paulo Costa, in Take Cinema Magazine (http://take.com.pt/)

 

 

 

 

 

 

 

22 de Novembro, 19h: “Virgem Prometida”

virgem-prometidaRealização: Laura Bispuri

Intérpretes:Alba Rohrwacher, Emily Ferratello, Lars Eidinger

ITA/ALE/SUI/FRA/Albânia/Kosovo, 2015, 84′  M/12

Quando Hana (Alba Rohrwacher) era ainda bastante jovem, para evitar um casamento indesejado, invocou um antigo costume albanês, a lei de Kanun, e jurou ficar eternamente virgem. Em troca, teria de renunciar a tudo o que de alguma forma representasse a sua feminilidade. Assim, assumindo-se como Mark, a sua identidade masculina, rejeitou qualquer forma de amor ou intimidade. Depois de dez anos a viver nas montanhas, suportando a solidão, a fome e o frio, percebe que é chegado o momento de recusar os preceitos impostos por uma sociedade com que não se identifica e mudar. Para isso, abandona tudo o que até aí viveu e segue até Milão (Itália), onde reencontra uma prima, que há muito fugiu da Albânia, e a sua filha adolescente. Com elas, e num mundo completamente diferente daquele a que se acostumara, tentará reencontrar a mulher de que foi obrigada a abdicar mas que talvez ainda exista no fundo de si mesma.
Em competição na 65.ª edição do Festival de Cinema de Berlim, um filme dramático realizado pela italiana Laura Bispuri (que aqui se estreia em longa-metragem), que adapta a obra da escritora, realizadora e argumentista Elvira Dones sobre a antiga tradição albanesa – ainda hoje praticada – das “virgens prometidas”. PÚBLICO

História de uma máscara
De Itália, chega um filme tão inesperado como perturbante: centrado numa magnífica interpretação de Alba Rohrwacher, “Virgem Prometida” é um drama em que o mundo moderno se confronta com tradições ancestrais.

Imaginemos este perturbante cenário: uma mulher resiste à tradição que a obriga a casar- se com um determinado homem; em nome dessa tradição, é então obrigada a assumir um voto de eterna virgindade; mais do que isso: deve mudar de nome (de Hana para Mark) e passar a viver de acordo com as regras e comportamentos dos homens…

Não é uma fábula mais ou menos delirante de um mundo alternativo. Nada disso: estamos perante uma história dos nossos dias situada num lugar remoto, esquecido no meio das montanhas, algures na Albânia — o filme, “Virgem Prometida”, tem realização de Laura Bispuri e provém do mais austero e realista cinema italiano.

A história de Hana/Mark vai sofrer uma inevitável convulsão quando, dez anos mais tarde, ela acaba por sair do seu país, instalando-se em Itália (em casa de uma prima com quem partilhara a adolescência). Para ela, não se trata apenas de lidar com uma conjuntura social e moral em que as relações mulheres/homens se encontram enquadradas por outros valores. Há também uma interrogação que se instala: que energia sobreviveu naquele corpo que foi compelido a existir através de uma máscara?

Alba Rohrwacher é magnífica no papel central, sabendo evitar qualquer facilidade “simbólica” ou “panfletária” na definição da personagem. Em boa verdade, tudo isso decorre da postura e visão de Bispuri que recusa extrapolações fáceis: “Virgem Prometida” apresenta-se, afinal, como uma crónica crua e desencantada, mas também serenamente optimista, sobre um destino individual a que foi roubada a sua verdade mais íntima — estamos perante um subtil “supense” emocional.

Crítica de João Lopes, in CineMax