17 de Janeiro, 19h: “Eu, Daniel Blake”

 

daniel-blake-1Realização: Ken Loach

Intérpretes: Dave Johns, Hayley Squires, Sharon Percy

GB/FRA/BEL, 2016, 100′ M/12

Diagnosticado com um grave problema de coração, Daniel Blake (Dave Johns), um viúvo de 59 anos, tem indicação médica para deixar de trabalhar. Mas quando tenta receber os benefícios do Estado que lhe concedam uma forma de subsistência, vê-se enredado numa burocracia injusta e constrangedora. Apesar do esforço em encontrar um modo de provar a sua incapacidade, parece que ninguém está interessado em admiti-la. Durante uma espera numa repartição da Segurança Social conhece Katie (Hayley Squires), uma mãe solteira de duas crianças a precisar de ajuda urgente, que se mudou recentemente para Newcastle (Inglaterra). Daniel e Katie, dois estranhos cujas voltas da vida os deixaram sem forma de sustento, vêem-se assim obrigados a aceitar ajuda do banco alimentar. E é no meio do desespero que se tornam a única esperança um do outro…
Palma de Ouro na edição de 2016 do Festival de Cinema de Cannes, conta com assinatura do aclamado realizador Ken Loach e argumento de Paul Laverty, colaborador de Loach em vários outros filmes.

Ken Loach e a resistência do realismo

Figura ímpar do realismo britânico, Ken Loach está de volta com mais um dramático retrato social: “Eu, Daniel Blake”, protagonizado por Dave Johns, arrebatou a Palma de Ouro da 69ª edição do Festival de Cannes.

O mais recente filme de Ken Loach, “Eu, Daniel Blake”, é mais uma pequena grande lição de realismo, mais precisamente de um realismo britânico que não abdica de abordar as contradições internas do seu país, evitando as generalizações fáceis, interessando-se antes pela existência particular de personagens muito concretas — essa é, afinal, uma forma de humanismo e, num certo sentido, de resistência humanista.

Desta vez, Loach dirige o seu olhar para a personagem de Daniel Blake, um carpinteiro de meia idade que precisa do auxílio da segurança social, mas que esbarra com uma barreira de regras burocráticas que, em última instância, menosprezam a singularidade de cada indivíduo. Nesse processo, ele vai construir uma tocante relação afectiva com uma mãe solteira e os seus filhos.

O papel de Daniel Blake surge interpretado pelo magnífico Dave Johns, veterano da comédia e, em particular, da stand up, neste caso a dar provas de uma sofisticada energia dramática. Afinal de contas, o interesse de Loach pelos destinos individuais envolve sempre um intenso trabalho com os actores, aqui especialmente sensível nas composições de Johns e Hayley Squires, a protagonista feminina.

Com “Eu, Daniel Blake”, Loach entrou para a galeria muito reduzida dos cineastas que já ganharam duas vezes a Palma de Ouro — esta aconteceu no passado mês de Maio, a primeira ocorrera em 2006, com “Brisa de Mudança”.

Crítica de João Lopes, in CineMax

00:13 – 02 dezembro ’16

 

 

 

 

 

10 de Janeiro, 19h: “O Que Está por Vir”

 

lavenir-blogRealização: Mia Hansen-Løve

Intérpretes: Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka, Edith Scob

ALE/FRA, 2016, 100′  M/12

Nathalie Chazeaux é professora de Filosofia num instituto de Paris (França), onde vive com o marido e os dois filhos. A sua grande paixão é o ensino, ajudando cada um dos seus alunos a pensar e a encontrar o seu lugar no mundo. Tudo lhe parece perfeito até ao dia em que o marido lhe pede o divórcio. Apesar do inevitável choque inicial, ela percebe que este pode ser o momento por que tanto esperava. Com 55 anos e uma enorme vontade de se renovar, Nathalie aproveita aquela sensação de liberdade para recomeçar, dando início a uma nova forma de existência.
Com realização e argumento de Mia Hansen-Løve (“O Pai das Minhas Filhas”, “Um Amor de Juventude”), um filme sobre recomeços que conta com Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka e Edith Scob, entre outros. PÚBLICO

Filosofia & melodrama

Mia Hansen-Løve volta a interessar-se pelas convulsões do espaço familiar — em “O Que Está por Vir”, ela filma a saga de uma professora de filosofia assombrada pelos seus problemas pessoais, além do mais proporcionando a Isabelle Huppert uma composição a todos os títulos excepcional.

Os tempos não estão fáceis para filmes com gente viva — e, já agora, actores que não sejam digitais. Basta observar o modo como as convulsões do mercado são geridas por campanhas gigantescas que agitam tudo e todos quando chega mais um super-herói ou algum desenho animado (“bom” ou “mau”, não é isso que está em causa). O efeito prático de tal conjuntura é óbvio: títulos como “O Que Está por Vir”, de Mia Hansen-Løve, surgem desamparados, por vezes experimentando sérias dificuldades para encontrar o seu público potencial.

O mínimo que se pode dizer de “O Que Está por Vir” é que coloca em cena personagens que estão longe de corresponder a clichés correntes (e nada têm a ver com a triste “psicologia” de telenovelas e afins). Esta é a história de uma professora de filosofia, interpretada por Isabelle Huppert, subitamente confrontada com o desabar do seu mundo privado — a doença da mãe e a traição do marido vão obrigá-la a refazer muitos e decisivos aspectos da sua existência…

Apetece dizer que estamos perante um melodrama filosófico. Não por qualquer pretensiosismo intelectual, mas por motivos visceralmente… intelectuais. Dito de outro modo: a protagonista é levada repensar toda a sua filosofia de vida, num processo que Mia Hansen-Løve filma através de uma espantosa e subtil agilidade. Em última instância, somos levados a confrontar o peso das opções individuais com as imposições decorrentes dos valores sociais dominantes — esta é, de facto, a história de alguém que procura o seu lugar no mundo.

O Que Está por Vir” inscreve-se, assim, na mais nobre tradição (melo)dramática da produção cinematográfica francesa, essa a que pertencem nomes incontornáveis como Jean Renoir, François Truffaut ou André Téchiné. Sem esquecer, claro, que a energia de tal tradição tem nos actores um trunfo sempre fundamental — será preciso acrescentar que Huppert é genial?

Crítica de João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

 

3 de Janeiro, 19h: “O Clube”

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RealizaçãoPablo Larraín

IntérpretesAlfredo CastroRoberto FaríasAntonia Zegers

Chile, 2015, 98′  M/18

Quatro homens moram juntos numa casa isolada, numa pequena vila à beira mar. Foram enviados para este lugar para expiarem pecados do passado. Vivem sob um rigoroso regime, debaixo do olhar atento de uma vigilante, até que o frágil equilíbrio desta rotina é interrompido pela chegada de um quinto homem, um companheiro recentemente caído em desgraça, trazendo com ele o passado que todos julgavam ter deixado para trás. Filme vencedor do Grande Prémio do Júri no último Festival de Berlim (2016), O CLUBE foi também nomeado para Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Para lá da inocência e da culpa

Com intransigente rigor, Pablo Larraín continua a observar as convulsões da história do Chile — em “O Clube” (Urso de Prata no Festival de Berlim), encontramos um universo marcado pelas convulsões internas do catolicismo.

Na cena de abertura do filme “O Clube”, há um homem que treina um cão, intensamente, aplicadamente. Percebemos, pouco depois, que o homem pertence a um pequeno grupo que vai apresentar esse mesmo cão numa corrida, sendo o animal acompanhado por uma mulher… Estranhamente, o grupo não se envolve na corrida, matendo-se à distância, observando tudo através de binóculos…

A explicação para tão desconcertante comportamento virá pouco depois: os homens são padres católicos que foram acusados de crimes de pedofilia (ou de desvio de bebés de mães solteiras para os venderem a novas famílias); habitam uma casa (“o clube”) de uma praia esquecida da costa do Chile, sendo a mulher, a irmã Mónica, a sua única relação com o exterior — até que um homem que se identifica como uma das vítimas de um dos padres vem abalar aquele estado de coisas…

Não se julgue que “O Clube” procura qualquer efeito sensacionalista, típico de algumas reportagens (?) televisivas, inventariando vítimas e carrascos. Claro que estamos perante um objecto contundente que confronta o imaginário católico com algumas das suas perturbações mais fundas. Mas tudo isso se liga com uma questão eminentemente cinematográfica. A saber: como expor a claustrofobia daquele espaço, como transmitir o sentimento de um tempo que parece não passar?

Em boa verdade, nada disto é estranho à trajectória craitiva do realizador de “O Clube”, Pablo Larraín, em particular à sua visão obsessiva da história do Chile, com inevitável destaque para os efeitos da ditadura de Augusto Pinochet. Nessa medida, este é um filme que prolonga o realismo metódico e as perturbantes interrogações de “Tony Manero” (2008), “Post Mortem” (2010) e “Não” (2012).

Num universo marcado pelo desenho de uma fronteira nítida entre inocência e pecado, Larraín vai mais longe, filmando a consciência da volatilidade dessa fronteira e, mais do que isso, o labor da própria instituição no sentido de repor uma ordem que apazigue os seus fantasmas interiores, preservando uma imagem de harmonia para o exterior — “O Clube” é, enfim, um conto moral sobre os limites existenciais e simbólicos da própria moral e, desde já, um dos filmes maiores deste ano.

Crítica de João Lopes (Junho 2016)

 

 

 

 

 

 

27 de Dezembro, 19h: “Tempos Modernos”

tempos-modernosRealização: Charles Chaplin

Intérpretes: Charles Chaplin, Henry Bergman, Paulette Goddard, Tiny Sandford

EUA, 1936, 89′  M/6

Realizado em 1936, é um dos filmes mais significativos de Charles Chaplin. A sua obra sobre a luta entre as máquinas e o homem, na busca do caminho para a felicidade. O Vagabundo procura ganhar a vida trabalhando numa linha de montagem numa fábrica gigantesca. Mas está sempre a arranjar confusão e vai vivendo uma série de peripécias que o conduzem ao hospital e várias vezes à prisão. No entanto, essas peripécias conduzem-no também a uma jovem rapariga, cujo pai foi morto numa greve e por quem ele se apaixona. O Vagabundo e a rapariga juntam-se para enfrentar juntos as dificuldades da vida.

80 anos de “Tempos Modernos”

Um clássico absoluto sobre as maravilhas e fantasmas da Revolução Industrial: “Tempos Modernos” (1936), de Charlie Chaplin, é a grande reposição deste Natal.

 

Não é uma novidade — longe disso. E, no entanto, não deixa de ser um dos grandes acontecimentos deste Natal cinematográfico: a reposição de “Tempos Modernos” (1936), de Charlie Chaplin, corresponde um reencontro sempre fascinante, porventura a uma especialíssima revelação para alguns espectadores mais jovens.

A história do trabalhador de uma grande unidade industrial, progressivamente alienado pelas rotinas do seu trabalho (o seu corpo corre mesmo o risco de se transformar num autómato…), envolve uma visão crítica do progresso cuja acutilância não se desvaneceu. Em boa verdade, multiplicou-se: trata-se de saber, afinal, se as máquinas enriquecem as relações humanas ou, pelo contrário, anulam os seus valores?
Ao fazer “Tempos Modernos”, cinco anos depois de “Luzes da Cidade”, Chaplin trabalhava já, necessariamente, com as técnicas do cinema sonoro. O que não significa que tivesse abandonado as componentes do mudo, de tal modo que este é um filme que, em muitos aspectos, aplica matrizes de encenação (em particular na criação de ritmos de montagem) indissociáveis de um tempo em que o som fundamental era a música de acompanhamento…

Oitenta anos depois, o retorno de “Tempos Modernos” (para mais em cópia digital restaurada) significa também que o modelo clássico de reposições voltou mesmo ao mercado português. O menos que se pode desejar é que tal tendência, reforçada ao longo dos últimos anos, permaneça activa e inventiva ao longo de 2017.

João Lopes, in CineMax

20 de Dezembro, 19h: “Florence – Uma Diva fora de Tom”

 

florenceRealização: Stephen Frears

Intérpretes: Meryl Streep, Hugh Grant, Simon Helberg, John Kavanagh

GB, 2016, 110′  M/12

Passado na Nova Iorque dos anos ‘40, FLORENCE, UMA DIVA FORA DE TOM conta a história verídica da lendária Florence Foster Jenkins (Meryl Streep), uma socialite e herdeira nova iorquina que perseguiu de forma obsessiva o seu sonho de se tornar uma grande cantora lírica. Se quando cantava, a voz que ouvia na sua cabeça era bonita, para todos os outros tratava-se de uma experiência horrível, mas hilariante. O seu “marido” e agente, St. Clair Bayfield (Hugh Grant), um aristocrático actor inglês, conseguiu sempre proteger a sua amada Florence da cruel verdade, mas quando esta decide dar um concerto público no Carnegie Hall, St. Clair sabe que está prestes a enfrentar o seu maior desafio.

Alegria e comoção, drama e comédia

Com assinatura de Stephen Frears e uma notável composição de Meryl Streep, eis uma biografia que está para além dos clichés de muitos filmes biográficos — esta é Florence Foster Jenkins, a cantora que… não sabia cantar.

Florence Foster Jenkins (1868-1944) cantava, de facto, muito mal. A acção do seu marido, mobilizando espectadores mais ou menos coniventes, permitiu que ela cumprisse uma “carreira” de aparente consistência, chegando ao ponto de dar um recital no Carnegie Hall, de Nova Iorque…

É a história de uma impostura? Não exactamente. É antes a história de um ser humano marcado por dramas muito particulares que Stephen Frears filma com especial dedicação e irresistível ironia. Pode mesmo dizer-se que “Florence, uma Diva Fora de Tom” consegue a proeza de cruzar a comédia mais saborosa com uma perturbação emocional sempre à flor da pele.

Quase apetece dizer que Frears se tem vindo a especializar em abordagens biográficas — recorde-se que ele é também o realizador de “A Rainha” (2006), sobre Isabel II, ou “Vencer a Qualquer Preço” (2015), centrado no ciclista Lance Armstrong. Em qualquer caso, não é tanto um “estilo” que ele procura, antes a construção de narrativas capazes de dar conta da surpreendente complexidade das relações humanas.

Escusado será sublinhar que “Florence” fica a dever muito da sua energia, alegria e comoção à performance de Meryl Streep, subtil e envolvente, resistindo sempre a reduzir a sua personagem a uma banal caricatura. Em todo o caso, não esqueçamos Hugh Grant no papel de St. Clair Bayfield, o marido: a sua graça genuína, aliada a uma elaborada riqueza psicológica, é também uma das maravilhas deste filme tão clássico quanto surpreendente.

Crítica de João Lopes