23 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Hidden Figures – Elementos Secretos”

Realização: Theodore Melfi

Intérpretes: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst

EUA, 2016, 127′ M/12

Início da década de 1960. Os EUA e a União Soviética encontram-se em plena Guerra Fria. A disputa pela corrida espacial entre as duas potências é uma evidência e nenhum dos países está disposto a perder a oportunidade de colocar o primeiro homem no espaço. Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson são três mulheres afro-americanas cujos cérebros brilhantes lhes valeram cargos na NASA, apesar da segregação racial e sexual ser uma realidade. Numa época em que os computadores eram ainda muito rudimentares, foram as suas extraordinárias capacidades de cálculo matemático que definiram as complexas trajectórias que tornaram possível colocar na órbita da Terra o astronauta John Glenn, no dia 20 de Fevereiro de 1962. Tornou-se assim o primeiro norte-americano a fazê-lo (o soviético Yuri Alekseyevich Gagarin, a bordo da nave Vostok 1, já o tinha conseguido em Abril do ano anterior).
Com realização de Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”), segundo um argumento seu e de Allison Schroeder, um filme que se inspira na obra biográfica “Hidden Figures – The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race”, em que a escritora de Margot Lee Shetterly relata a história das três visionárias que tiveram de lutar contra o preconceito numa época em que ser mulher e negra era ainda um grande entrave ao sucesso. Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Glen Powell e Mahershala Ali dão vida às personagens. PÚBLICO

 

 

 

 

 

22 de Agosto, 19h: “Irmãs Amadas”

Realização: Dominik Graf

Intérpretes: Hannah Herzsprung, Florian Stetter, Henriette Confurius

ALE/Áustria, 2014, 138′

Alemanha, século XVIII. As irmãs Charlotte e Caroline von Lengefeld são duas raparigas aristocráticas a viver sob as ordens de uma mãe autoritária na cidade de Rudolstadt. Quando ambas se apaixonam perdidamente pelo jovem poeta e filósofo Friedrich Schiller, optam por partilhar aquele amor, mesmo sabendo que estão a desafiar as convenções de uma sociedade profundamente tradicionalista. Entre os três nasce assim um triângulo amoroso consensual onde cada um desempenha o seu papel. Contudo, com o passar do tempo e à medida que a relação assume outras formas, o sentimento de posse ganha novas proporções e o pacto que lhes servira até aí é quebrado…
Com realização de Dominik Graf (“Assalto ao Banco”), um filme que se inspira na vida amorosa de Friedrich Schiller (1759-1805), poeta, filósofo, médico, historiador e um dos representantes máximos do Romantismo alemão. Florian Stetter, Hannah Herzsprung, Henriette Confurius e Claudia Messner assumem os principais papéis. PÚBLICO

Memórias do poeta Schiller

Eis uma produção alemã que esteve na competição do Festival de Berlim de 2014. Dominik Graf evoca um especialíssimo triângulo, constituído pelo poeta Friedrich Schiller (1759-1805) e as irmãs Caroline e Charlotte von Lengefeld.

Protagonizaram, afinal, uma espécie de pré-romantismo, no sentido em que a sua defesa da sensibilidade individual contra os valores do Século das Luzes os levou a conceber uma comunidade amorosa, idealmente capaz de existir fora das hipocrisias da sociedade (Schiller viria a casar-se com Charlotte).

O maior trunfo do filme é a sua ambígua ligeireza: através de uma narrativa em “quadros” mais ou menos teatrais, embora aplicando sempre ágeis movimentos de câmara, Graf vai instalando a sensação paradoxal de que o carácter radical do compromisso de Schiller, Caroline e Charlotte contém os elementos da sua própria decomposição. Tudo isto num contexto em que a nostalgia de uma natureza virginal se confronta com a crueldade dos tempos (e das notícias da Revolução Francesa). Enfim, um pequeno grande filme que merece ser descoberto.

Crítica de João Lopes, in DN/Artes – 5/10/2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

16 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Hell or High Water – Custe o Que Custar!”

Realização: David Mackenzie

Intérpretes: Dale Dickey, Ben Foster, Chris Pine, Jeff Bridges

:EUA, 2016, 102′ M/16

Dois irmãos ameaçados de expropriação estão determinados a salvar a casa de família: Toby é um pai solteiro que faz os possíveis para assegurar o sustento dos seus filhos; Tanner, por seu lado, é um ex-presidiário com um sentido de justiça muito próprio. Para conseguirem a quantia necessária para conservar a propriedade, resolvem assaltar as várias sucursais do banco que os ameaça com a penhora. Tudo acontece de um modo relativamente pacífico até se cruzarem com Marcus Hamilton, um ranger do Texas à beira da reforma, conhecido pela inteligência e pelas capacidades de observação. Hamilton traça assim o perfil e as motivações dos dois assaltantes, antecipando os seus golpes e perseguindo-os por todo o território norte-americano até que um deles cometa um erro fatal…
Com realização de David Mackenzie (“Young Adam”, “Playboy Americano”, “O Sentido do Amor”) e argumento de Taylor Sheridan (que escreveu “Sicário – Infiltrado”), um “western” que conta com a participação de Chris Pine, Ben Foster, Jeff Bridges, Dale Dickey e Gil Birmingham, entre outros. PÚBLICO

Nas paisagens do “western”

O “western” continua vivo no interior da produção americana, servindo, neste caso, para encenar um drama muito contemporâneo: “Custe o que Custar” é um “thriller” dos nossos dias que exibe as marcas temáticas e simbólicas de algumas aventuras do velho Oeste

Se nos lembrarmos de um filme como “The Getaway/Tiro de Escape” (1972), de Sam Peckinpah, com Ali MacGraw e Steve McQueen, podemos começar por caracterizar a longa (por vezes, fascinante) agonia temática e simbólica do “western”. Que é como quem diz: o “western” deixou de ser a epopeia de conquista do Oeste americano, para passar a existir como matriz para outros dramas, agora situados no nosso presente.

“Custe o que Custar” (título original: “Hell or High Water”) é um descendente directo dessa lógica. Curiosamente realizado por um escocês, David Mackenzie, trata-se de uma narrativa que se desenvolve como um “thriller” de investigação e perseguição, embora conservando as paisagens, físicas e metafóricas, do “western”.

Os dois ladrões (Chris Pine e Ben Foster) perseguidos pelo xerife (Jeff Bridges), devidamente apoiado pelo seu ajudante de ascendência índia (Gil Birmingham), surgem, assim, como figuras de um presente permanentemente assombrado pelos valores e códigos das aventuras do velho Oeste — e tanto mais quanto, paradoxalmente, nestes austeros cenários do Texas, detectamos as marcas de muitas formas de decomposição social e económica.

Combinando um elaborado sentido de contemplação com a arte de sugerir as ambiguidades dos comportamentos, eis um filme que sabe situar-se face a um património riquíssimo, sem cair em qualquer facilidade meramente copista. Não será, por certo, através de “Custe o que Custar” que o “western” voltará a ser um género florescente no interior da máquina de Hollywood — o certo é que face a alguns super-heróis enredados nos seus artifícios digitais, é salutar encontrar este gosto pelas pessoas e pelos seus lugares.

Crítica de João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

 

9 de Agosto, 21.30h – Políticos não se Confessam”

Realização: Roberto Andò

Intérpretes: Toni ServilloDaniel AuteuilPierfrancesco Favino

ITA/FRA, 2016, 108′ M/12

Preparado para fazer importantes mudanças no panorama económico mundial, Daniel Roché (Daniel Auteuil), director do Fundo Monetário Internacional, dirige-se a uma convenção do G8, na Alemanha, onde se vai reunir com os ministros da Economia de todos os países envolvidos. A acompanhá-lo está Roberto Salus (Toni Servillo), um monge italiano que ali está para cumprir uma incumbência particularmente insólita: servir de confessor ao fim daquele dia. Na manhã seguinte, Roché é encontrado morto…
Escrito e realizado por Roberto Andò (autor de “Viva a Liberdade”, que também teve Servillo como protagonista), “Políticos Não se Confessam” conta ainda com a participação de Connie Nielsen, Pierfrancesco Favino, Marie-Josée Croze, Moritz Bleibtreu, Lambert Wilson e Daniel Auteuil. PÚBLICO

 

 

 

 

 

8 de Agosto, 19h: “Café Society”

Realização: Woody Allen

IntérpretesJesse EisenbergKristen StewartSteve Carell

EUA, 2016, 96′

EUA, década de 1930. O jovem Bobby sonha conquistar fama e fortuna. Decidido a alcançar o estrelato, deixa Nova Iorque e ruma a Los Angeles, onde tenciona valer-se dos contactos do tio, Phil Stern, um famoso agente que fez carreira em Hollywood. Bobby consegue o emprego de mensageiro na empresa do tio. É então que conhece e se apaixona perdidamente por Vonnie, a belíssima secretária de Phil. Ao contrário de todos os que a rodeiam, ela olha com algum desdém para todo o “glamour” da indústria cinematográfica. Mas, para infortúnio de Bobby, ela está romanticamente envolvida com outra pessoa.
Com realização e argumento do veterano Woody Allen, uma comédia romântica que conta com Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Parker Posey, Blake Lively, Corey Stoll, Jeannie Berlin, Ken Stott e Tony Sirico, entre outros. PÚBLICO

 

Melodrama em Hollywood

Foi o filme de abertura oficial do Festival de Cannes (2016)— com “Café Society”, Woody Allen revisita os eufóricos anos 30 de Hollywood, contando com um magnífico elenco liderado por Jesse Eisenberg e Kristen Stewart.

Não se pode dizer que Woody Allen seja um grande amante dos faustos de Hollywood. Apesar de já ter ganho quatro Oscars (os dois primeiros como realizador e argumentista de “Annie Hall”, em 1978), nunca esteve presente para os receber… E, no entanto, Hollywood continua a pontuar o seu trabalho.

É essa, pelo menos, a porta de entrada no magnífico “Café Society”, filme que nos transporta para os eufóricos anos 30, quando o cinema americano vivia as aceleradas transformações do mudo para o sonoro, com a consolidação de novos modelos narrativos e também do próprio star system. A sua personagem central, Bobby (Jesse Eisenberg), é mesmo um jovem que, através de ligações familiares, tenta a sua sorte na indústria dos filmes.

Repare-se, no entanto, na origem de Bobby: ele vem, afinal, de Nova Iorque e, em boa verdade, toda a sua existência em Los Angeles vai ser marcada pelas memórias da grande metrópole da costa Leste. Dir-se-ia que até mesmo o seu envolvimento amoroso com Vonnie (Kristen Stewart) se vai desenvolver como um confronto de duas sensibilidades geográficas e culturais.

Mais do que retratar Hollywood num período muito específico, Woody Allen aposta em recuperar a energia melodramática desse mesmo período, afinal fazendo um filme “antigo”, agora com o distanciamento de quem controla em absoluto as subtilezas das linguagens que convoca.

Será preciso sublinhar que, uma vez mais, isso acontece através de um elenco em estado de graça? Para além do par Eisenberg/Stewart, admire-se a subtileza das composições de Steve Carrell ou Blake Lively — afinal, este é um cinema enraizado nas singularidades dos seus intérpretes.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

2 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Deusas em Fúria”

Realização: Pan Nalin

Intérpretes: Tannishtha ChatterjeeAnuj ChoudhryRajshri Deshpande

ALE/Índia, 2015, 115′ M/12

Frieda, uma conhecida fotógrafa de moda, resolve organizar a sua festa de casamento e convida para uma semana em Goa, Índia, na casa da sua família, algumas das melhores amigas. De idades e mundos diferentes, encontram-se em momentos muito específicos das suas vidas. Estes dias servirão para celebrar a amizade, a união e a liberdade possíveis numa sociedade marcadamente patriarcal. Porém, esta festa de despedida será também o palco de revelações inesperadas, onde as alegrias se vão misturar com tristezas, desgostos e alguns desenganos.
Apresentado no Festival de Cinema de Toronto (Canadá), um filme sobre a amizade feminina, numa cultura onde elas ainda lutam pela igualdade de direitos. O argumento e realização fica a cargo de Pan Nalin (“Samsara”, “Valley of Flowers”). O elenco conta com Sandhya Mridul, Tannishtha Chatterjee, Sarah-Jane Dias, Anushka Manchanda, Amrit Maghera, Rajshri Deshpande, Pavleen Gujra e Adil Hussain. PÚBLICO

 

 

 

 

 

1 de Agosto, 19h: “O Que nos Resta”

Realização: Hans-Christian Schmid

Intérpretes: Lars Eidinger, Egon Merten, Eva Meckbach

ALE, 2012, 85

Marko, um escritor na casa dos 30, vive em Berlim, na Alemanha, desde os tempos da universidade. A relação com a família nunca foi pacífica e hoje a convivência reduz-se a duas ou três visitas por ano. Desde muito novo que se sente pouco identificado com o modo de vida burguês de ambos os progenitores. Porém, decidido a não prejudicar a relação do seu próprio filho com os avós, aceita reunir-se na casa paterna para um fim-de-semana no campo. Mas o que se previra relativamente tranquilo ganha proporções inesperadas quando a mãe, uma pessoa mentalmente desequilibrada desde tenra idade, decide deixar de tomar a medicação. Os conflitos sucedem-se e as tristes recordações do passado vêm novamente ao de cima…
Em competição no Festival de Cinema de Berlim, um drama familiar realizado por Hans-Christian Schmid segundo um argumento de Bernd Lange. O elenco conta com a participação de Lars Eidinger, Sebastian Zimmler, Corinna Harfouch, Egon Merten e Eva Meckbach, entre outros.

 

Nas fronteiras do melodrama

Vemos pouco cinema alemão. E há na sua produção corrente muitos títulos que merecem ser descobertos. É o caso de “O Que Nos Resta”, um melodrama familiar dirigido por Hans-Christian Schmid e sustentado por um conjunto de magníficas interpretações.

A consagrada Corinna Harfouch. E também Lars Eidinger, Egon Merten, Eva Meckbach, Sebastian Zimmler e Ernst Stötzner. Eis uma colecção de nomes que não fazem parte das nossas referências correntes, mas que partilham uma mesma qualidade: são excelentes actores. Estão todos num título gerado no contexto de uma produção alemã que, afinal, conhecemos de forma muito limitada — integram o elenco de “O Que Nos Resta” (2012), um daqueles filmes que não merece ser esquecido no meio das avalanchas promocionais dos “blockbusters”…

Dirigido por Hans-Christian Schmid, a partir de um argumento assinado por Bernd Lange, este é um melodrama que, por assim dizer, desafia as suas próprias fronteiras. O ponto de partida relativamente convencional — uma reunião familiar durante um fim de semana — vai deslizando para uma estranheza (psicológica e simbólica) que se instala a partir do momento em que a mãe (Harfouch) dá conta do facto de ter deixado de tomar os medicamentos que lhe foram receitados por causa da sua depressão crónica…

O que faz com que o trabalho de Schmid supere os efeitos mais correntes do modelo que aplica é a sua resistência a qualquer definição determinista das personagens. Somos, por isso, convocados para um envolvente processo de descoberta — tanto quanto as personagens, também o espectador é confrontado com a dimensão mais irredutível dos laços humanos.

Acima de tudo, “O que Nos Resta” é um objecto que (re)afirma a possibilidade de um cinema que recuse qualquer fascínio tecnicista, não abandonando os valores mais primitivos de uma dramaturgia que, interessando-se pela complexidade das personagens, mantém uma relação exemplar com os actores. Nada de super-heróis, nem sequer de heróis… Por vezes, é bom saber que a vida vivida nos mobiliza.

Crítica de João Lopes