11 de Dezembro, 19h: “Fim de Semana no Ascensor”

Realização: Louis Malle

Intérpretes: Jeanne Moreau, Maurice Ronet, Lino Ventura

FRA, 1958, 91′ M/12

Louis Malle foi assistente de Bresson em 1956 (“Un Condamné a mort s’est echappé”) e estreia-se em 1958 com “Ascenseur pour l’échafaud / Fim-de-semana no Ascensor”, galardoado com o Prémio Louis Delluc para o melhor filme francês do ano. Este thriller policial com música de Miles Davis e uma fotografia desinibida e cheia de frescura, interpretado por uma actriz que viria a ser um dos rostos do cinema da Nouvelle Vague, Jeanne Moreau, antevia já o memorável ano de 59, o ano de “Os Quatrocentos Golpes”, de Truffaut, de “O Acossado”, de Godard, de “Hiroshima, Meu Amor”, de Resnais, e foi por muitos visto como uma das influências para o “novo cinema” que estava a chegar;

 

O filme de Louis Malle, com Jeanne Moreau e Maurice Ronet, possui uma dimensão mítica que não pode ser dissociada da sua banda sonora — a música de “Fim de Semana no Ascensor” tem assinatura de Miles Davis.

Miles Davis em Paris? É verdade. No final dos anos 50, começo da década de 60, o genial trompetista foi presença regular na capital francesa, a ponto de se envolver no filme “Fim de Semana no Ascensor” (1958), um projecto de Louis Malle — este é mais um dos títulos na série de reposições de clássicos do cinema francês que constitui um dos grandes acontecimentos da nossa temporada cinéfila de Verão.

Esta é uma história passional que se cruza com componentes de uma intriga policial. Ou seja: com a cumplicidade do seu amante Julien, Florence decide assassinar o marido… Em boa verdade, estamos perante uma “inversão” da clássica investigação “quem, como, onde?”. Afinal, desde o começo temos a chave do mistério: o verdadeiro tema é a resistência dos laços amorosos no interior de uma tão conturbada conjuntura moral.

Fotografado a preto e branco pelo grande Herin Decaë, “Fim de Semana no Ascensor” decorre, afinal, de um subtil trabalho de síntese entre uma certa tradição melodramática francesa e as referências, mais ou menos “expressionistas”, do cinema “noir” de Hollywood. Hábil gestor de tais influências, Malle é também um excelente director de actores — e o par Jeanne Moreau/Maurice Ronet funciona admiravelmente num registo de muitas e delicadas sugestões eróticas.

Impõe-se, além do mais, uma precisão histórica. É bem certo que, não poucas vezes, situamos o arranque simbólico da Nova Vaga francesa nesse ano mágico de 1959 em que surgiram “O Acossado”, “Os 400 Golpes” e “Hiroshima, Meu Amor”, respectivamente de Jean-Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais. Pois bem, importa alargar o calendário e lembrar que, um ano antes, Malle era também um criador apostado em encontrar novas sínteses entre o clássico e o moderno — aliás, ainda em 1958, ele assinou ainda o magnífico “Os Amantes”, também com Jeanne Moreau.

Crítica de João Lopes

 

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4 de Dezembro, 19h: “Madame de”

Realização: Max Ophüls

Intérpretes: Charles BoyerDanielle DarrieuxLia de LéaVittorio de Sica

ITA/FRA, 1953, 102′

“Madame de…”, de Max Ophüls é considerada por muitos críticos como a melhor obra deste realizador alemão, naturalizado francês e radicado nos EUA. Partindo da adaptação de um romance de Louise de Vilmorin, Max Ophüls constrói uma história romântica esculpida por equívocos e coincidências. Danielle Darrieux interpreta o papel da Madame, esposa mimada de Général André de (Charles Boyer). Encerrada num casamento sem amor, mas de consentimento mútuo, a Madame ocupa os seus dias a aumentar as suas dívidas e as noites a seduzir jovens, enquanto o seu marido se encontra com a amante. A névoa de respeito que envolve e protege a relação de mentiras é destruída por um par de brincos que ela vende em segredo para pagar as dívidas e que o marido compra de novo para oferecer à amante. Numa comédia de enganos característica de Max Ophüls, os brincos vão ter de novo às mãos da Madame. Situando a história em Paris, em finais do século XIX, o realizador faz um retrato da alta sociedade parisiense da “Belle Époque”

 

A beleza…. ver este filme é uma humilhação para nossos tempos.
Cultuadores do feio e do grotesco que somos (desde Picasso? Stravinsky?). Max Ophuls, diretor vienense desta obra-prima, talvez o mais belo filme já feito, volta a Europa após exilio americano, e volta a seu mundo. Mas é mundo já morto em 1953, ano desta produção. O que dirá hoje, tempo de funk e de Chavez?
Em sua primeira parte o filme é só leveza e bom humor. O que assistimos é o belo mundo das elites do final do século XIX. Não é o mundo de Henry James. James mostra o mundo do futuro, do dinheiro, da América. Aqui é o fim da Europa, fim de um passado, e o que move tudo são os bons modos, as aparências, os costumes, a honra. Nada de americano.
Nunca se fizeram cenários como estes ( e percebemos o porque do amor de Todd Haynes e Baz Lhurmann a este diretor ). São espelhos, tapetes, jóias, móveis, roupas, janelas, pinturas, em tal quantidade, de tanto gosto, é tudo tão luxuoso, tão chic, tão delicado, que dá vontade de abaixar o som e ficar apenas olhando. Mas há a câmera e ela não pára. Ophuls a faz voar pelos cenários, cruza paredes e janelas, flutua pelas tapeçarias. Baila. E é tão suave que mal notamos seu movimento. Os atores sabem se comportar. São dignos do filme que lhes é ofertado. Mas Charles Boyer é mais que isso.
E ainda há uma história. Sobre brincos que são vendidos e insistem em voltar. Esposa infiel e marido general que leva a vida como ordem militar. E em sua segunda parte o filme torna-se drama e é exemplificada a diferença entre homens e mulheres: elas, quando amam, mandam os costumes para o lixo; eles se atèm ainda a seus papeis. Vem o final, um duelo para lavar a honra e uma igreja com velas e diamantes. A beleza vence.
Falar de filme como este é tarefa ingrata. A esposa, futil que se torna apaixonada, é Danielle Darrieux. O amante, nobre italiano, é Vittorio de Sica. E o general, corno que mantém a pose, e´Charles Boyer. Perfeitos. Danielle é pura cocotterie, De Sica é o sedutor que se confunde e Boyer dá um show como o militar rígido. São, dignamente, diamantes em imagens que são joalherias. Ofusca e entorpece a correção, o luxo ao ponto extremo, a civilidade, o savoir faire. Mas, fã de Stendhal que Ophuls era ( o filme tem muito do espirito de Stendhal e de Mozart ), é também mostrada, com muita leveza, o que havia de asfixiante, de falso, de tolo, em toda essa pose presunçosa. A paixão real não pode existir em espelhos de cristal e peles de vison. Fenece.

Max Ophuls é um espírito extinto. Ver este filme é tomar contato com outro mundo, outro cosmo, outra existencia possível. Somos os orfãos do planeta aqui exibido. Ainda queremos, cegamente sem saber, tudo o que é aqui mostrado. Mas não é mais possível obter ou ao menos tentar esse tipo de conforto e de código de conduta. Então, orfãos, nos embrutalhamos. Seria cruel ter Ophuls neste nosso universo. Fica seu legado de beleza. E a certeza de que já fomos muito melhores.

 

27 de Novembro, 19h: “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”

Realização: Hirokazu Kore-eda

Intérpretes: Kirin Kiki, Lily Franky, Sôsuke Ikematsu, Jyo Kairi, Miyu Sasaki

JAP, 2018, 121′  M/14

Osamu e Nobuyo são um casal muito pobre cujos rendimentos miseráveis não chegam para sustentar a família. Para sobreviver, recorrem a pequenos furtos em lojas e supermercados. Um dia, Osamu encontra Yuri, uma menina perdida no meio da cidade, que se percebe ter sido vítima de negligência. Apesar das carências em que todos vivem, esta família resolve receber a criança em sua casa e assegurar-se de que fica bem…
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes, um filme dramático sobre a importância dos afectos com assinatura do aclamado cineasta japonês Hirokazu Koreeda (“Ninguém Sabe”, “Andando”, “O Meu Maior Desejo”, “Tal Pai, Tal Filho”, “O Terceiro Assassinato”). PÚBLICO

 

O humanismo de Hirokazu Kore-eda
Hirokazu Kore-eda é, por certo, hoje em dia, o mais internacional dos cineastas japoneses — com o seu drama “Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões”, agora lançado no mercado português, arrebatou a Palma de Ouro de Cannes.

A memória da passagem de “Shoplifters” no último Festival de Cannes é reveladora. Não foi, por certo, dos títulos mais exuberantes. Não teve nem a contundência crítica de “BlackKklansman”, de Spike Lee, nem a dimensão de fresco histórico de “Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski.
O certo é que a nova realização do japonês Hirokazu Kore-eda veio provar que, pelo menos para algum cinema contemporâneo, a palavra humanismo não é coisa vã.

Provavelmente, a Palma de Ouro que acabou por receber representa (também) um sintoma dessa abrangência humana — em boa verdade, ao longo dos anos, o festival da Côte d’Azur tem sido uma plataforma fundamental para o conhecimento da obra de Kore-eda.

Ele é, afinal, um cineasta observador da sua sociedade, capaz de colocar em movimento uma exemplar (e muito clássica) dialéctica: as suas histórias são muito particulares pelos sinais e referências que convocam, o que não as impede de possuir um genuíno apelo universal.

Nesta perspectiva, “Shoplifters” — que recebeu o subtítulo português “Uma Famíla de Pequenos Ladrões” — não pode deixar de ser visto como um capítulo mais de uma colecção de histórias em que também se incluem “Ninguém Sabe” (2004), “Andando” (2008) ou “Tal Pai, Tal Filho”: em cena estão sempre os laços familiares, seus equilíbrios e desequilíbrios.

Que, neste caso, a família seja de “pequenos ladrões”, eis o que expõe os contrastes de um tecido social em que a existência dos bens essenciais de consumo não anula algumas formas de marginalidade financeira. Em última instância, Kore-eda expõe as marcas de uma solidão paradoxal — como se o colectivo fosse também o espaço em que a dimensão individual experimenta os seus dramas, por vezes as suas tragédias.

Crítica de João Lopes
publicado 19:58 – 22 novembro ’18

 

20 de Novembro, 19h: “Joaquim”

Realização: Marcelo Gomes

Intérpretes: Julio Machado, Isabél Zuaa, Rômulo Braga, Nuno Lopes, Welket Bungué

ESP/BRA/POR, 2017, 97′  M/12

O brasileiro Joaquim José da Silva Xavier, mais conhecido como Tiradentes, ficou para a História do país sul-americano como um herói da luta pela independência. A trajectória de como um soldado colonial do século XVIII se transformou num herói revolucionário é mostrada episodicamente neste filme que mistura ficção com factos históricos.
A obra de Marcelo Gomes, que realizou filmes como “Cinema, Aspirinas e Urubus” ou “O Homem das Multidões”, além de ter escrito o guião de “Madame Satã”, é uma co-produção entre o Brasil, Espanha e Portugal. Protagonizado pelo brasileiro Júlio Machado, o filme conta com vários actores portugueses no elenco, como Isabél Zuaa, Nuno Lopes ou o luso-guineense Welket Bungué. PÚBLICO

Joaquim é retrato sujo e realista do mártir que virou alegoria nacional

Joaquim não tem este título por acaso: ao contrário do que sugeriria caso se chamasse apenas Tiradentes, o interesse deste novo trabalho do cineasta Marcelo Gomes não é falar da figura histórica, mas do homem que nela se transformaria. Se a versão dirigida por Oswaldo Caldeira e estrelada por Humberto Martins em 1999 trazia o inconfidente como um mito, cavalgando em câmera lenta ao som de “Blowin’ in the Wind” (suspiro), esta nova – e infinitamente superior – produção aborda o papel de Joaquim José da Silva Xavier na Inconfidência Mineira apenas em seu prólogo, quando vemos sua cabeça fincada em uma estaca diante de uma igreja, já que o restante da projeção se dedicará a acompanhar a formação de sua consciência política.

Ou, o que torna Joaquim tão instigante, “consciência política”.

Mas me adianto. Escrito pelo próprio diretor, o roteiro traz o alferes Joaquim José (Machado) trabalhando em um posto de cobrança de pedágio e perseguindo contrabandistas de ouro. Frustrado por ser constantemente ignorado por seus superiores em suas requisições de promoção, ele é destacado para buscar novos veios de ouro, comandando, na missão, um pequeno grupo formado por seu subordinado Januário (Braga), pelo escravo João (Bungué), pelo índio Inhambupé (Pua) e pelo português Matias (Lopes). Convencido de que o sucesso da jornada lhe traria reconhecimento e a promoção a segundo-tenente, o personagem-título também pretende usar sua parte do ouro para mandar procurar a escrava fugida Preta (Zuaa), por quem se apaixonara.

Retratando a época (o final do século 18) sem romantismo e sem buscar cosmetizá-lo, Gomes, o diretor de arte Marcos Pedroso e a figurinista Rô Nascimento apresentam o período como um lugar sujo e hostil; um mundo de dentes apodrecidos, cabelos cobertos de piolhos, peles marcadas por carrapatos e, no caso dos escravos, ainda por roupas imundas e rasgadas. Enquanto isso, a fotografia de Pierre de Kerchove carrega nas grandes angulares que exploram as locações e na instabilidade da câmera, que busca trazer um aspecto moderno à linguagem e evita a abordagem clássica, rígida, que filmes de época normalmente empregam – e mesmo que falte a estes elementos fotográficos uma lógica que sugira algum arco narrativo coeso (a estratégia não muda muito ao longo da projeção), aprecio sua concepção básica.

Vivendo seu primeiro papel de destaque no Cinema (e que num mundo justo o lançaria imediatamente ao estrelato), Júlio Machado compõe o protagonista como um homem menos racista do que seus contemporâneos, mas longe de ser perfeito: ambicioso e rancoroso, ele tenta envenenar o superior contra um colega de farda e não hesita em arriscar os companheiros em sua jornada obsessiva por ouro. Com um olhar cada vez mais ensandecido, Joaquim é um indivíduo cuja solidão se torna cada vez maior à medida que afasta todos que o cercam e cujo envolvimento na luta contra a Coroa portuguesa se dá mais por frustração pessoal e profissional do que por princípios ideológicos. Além disso, se como alferes ele é visto como um nada, entre os revolucionários é visto com distinção – algo que, logo sentimos, talvez seja tão atraente para o protagonista quanto a independência do Brasil. Ou mais.

Por outro lado, ainda que as ironias constantes presentes no roteiro tenham suas virtudes, há momentos nos quais se tornam óbvias demais, o que revela uma falta de confiança incômoda na capacidade do espectador de enxergá-las – cenas como aquela na qual Joaquim diz “Você sabe que não suporto traição!” ou outra na qual começa a discutir a independência dos Estados Unidos como sinal de uma nação mais evoluída e acaba pesando a mão ao completar com a observação de que aquele é um país que jamais colonizaria outros. Já em outros aspectos, Joaquim se sai melhor ao se manter mais sutil, como ao transformar em sons animalescos, de forma discreta, os gemidos do chefe do (anti-?)herói ao estuprar Preta.

No entanto, o ponto forte do filme reside mesmo em sua habilidade ao expor as contradições de indivíduos que lutavam contra o domínio português, mas não viam qualquer problema em possuir escravos (em certo instante, a esposa de um dos líderes do movimento surge deitada numa rede balançada por uma escrava). Da mesma forma, Marcelo Gomes deixa clara a hierarquia inata àquela sociedade: se os brasileiros eram inferiores aos portugueses, ainda mais discriminados eram os índios e os negros – e há uma cena belíssima na qual João e Inhambupé cantam juntos, em suas línguas nativas, criando uma harmonia dos excluídos enquanto seus superiores brancos se embebedam ao lado de uma fogueira.

Mas Gomes vai além ao ressaltar que Joaquim é visto pelos burgueses que o atraem para a revolução como um inferior, um bruto útil aos seus propósitos. “Talvez eu tenha sido o único a perder a cabeça porque era o mais pobre”, ele diz nos primeiros minutos do filme, numa narração vinda do além-túmulo cinematográfico. E é este o brilhantismo de Joaquim: o fato de se encerrar onde a maioria das obras sobre o sujeito iniciaria, já que, para seu realizador, ainda mais importante que ilustrar a formação de “Tiradentes” é apontar como o Brasil já deu início à sua independência sem se preocupar com os erros estruturais mais graves de sua sociedade, cuja desigualdade manteve-se intocada, mas que sempre teve um talento particular para convencer os menos favorecidos de que os interesses da elite eram os mais importantes.

E o olhar de desprezo lançado na direção do protagonista por aqueles que este julga seus iguais é, de uma forma trágica, um símbolo atualíssimo do país mesmo quase dois séculos após alcançar sua independência. (Pablo Villaça)

Texto originalmente publicado como parte da cobertura do Festival de Berlim 2017.

18 de Fevereiro de 2017

http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/critica/filme/8368/joaquim

 

 

13 de Novembro, 19h: “Vazante”

Realização: Daniela Thomas

Intérpretes: Adriano Carvalho, Luana Nastas, Sandra Corveloni

POR/BRA, 2017, 116′  M/12

Daniela Thomas faz bela estreia solo em “Vazante”
Com visual belíssimo, o filme conta uma história do século 18, que a cineasta ouviu de seu pai, Ziraldo
Por Mariane Morisawa, de Berlim

Daniela Thomas gosta de trabalhar em parceria. Foi assim que codirigiu Terra Estrangeira (1996), O Primeiro Dia (1998) e Linha de Passe (2007), com Walter Salles, e Insolação (2010), com Felipe Hirsch. Mas ela, que não é de ter os próximos projetos na ponta da língua, cultivava havia muitos anos uma ideia. “Foi uma história contada por meu pai”, disse ao site da VEJA, referindo-se ao cartunista e escritor Ziraldo. Girava em torno de um homem de meia idade que não gostava de usar sapatos e se casou com uma menina de 12 anos, dando-lhe bonecas até que seu corpo de criança estivesse pronto a gerar filhos. Ainda assim, precisou de um empurrãozinho de Beto Amaral, que produziu Insolação. Ele a pressionou para produzir seu primeiro projeto individual no cinema. Juntos, acabaram escrevendo o roteiro e dando forma àquilo que era apenas vontade. Assim nasceu Vazante, exibido na mostra Panorama do 67º Festival de Berlim.

Em 1821, às vésperas da independência do Brasil, António (Adriano Carvalho) é um tropeiro português que gosta de colocar o pé na terra e que herdou da família da mulher uma fazenda cujos dias de glória ficaram para trás. Os diamantes não estão mais lá. Ao chegar de uma de suas longas viagens, descobre que a mulher e o filho que esperava morreram no parto. Homem de poucas palavras, António parte, tentando curar a dor sabe-se onde. Ficam na fazenda seus escravos, inclusive um grupo novo e rebelde que não fala banto, a língua dos outros. Jeremias (Fabrício Boliveira), negro alforriado já nascido no Brasil, fica encarregado de colocá-los na linha, ao mesmo tempo em que ensina os outros a cultivar a terra, em vez de garimpar. Enquanto isso, o cunhado de António, Bartholomeu (Roberto Audio), numa situação modesta depois do casamento da irmã, e é pressionado pela mulher, Dona Ondina (Sandra Corveloni), a aceitar uma mudança para a cidade. Estão numa posição desconfortável, sendo obrigados a aceitar quando António propõe se casar com a filha mais nova do casal, Beatriz (Luana Nastas), de apenas 12 anos.

O filme aposta numa estrutura narrativa arriscada, em que o protagonista some de vez em quando, dando espaço a outros personagens e grupos e, no fundo, ao lugar. “Pensei muito num folhetim, como os de José de Alencar”, disse Daniela Thomas. Mas os tempos são alongados, buscando reproduzir o lento passar das horas na época, quando viajar significava perder contato com seu mundo durante semanas ou meses. Só depois de mergulhar o espectador nesse universo, Daniela Thomas usa os elementos comuns dos folhetins, das novelas, com um crescendo no drama que termina com choque.

Tal estrutura narrativa exige do espectador e não funciona sempre, principalmente para quem espera um desenvolvimento mais profundo dos personagens. O filme, de poucas palavras, deixa muitas lacunas. É melhor pensar nele como um retrato de um lugar em transição e de uma época, cujos reflexos ainda são percebidos no Brasil de hoje. “Sempre gostei de história”, explicou a diretora. “É impressionante como algumas coisas se mantêm, como a estrutura patriarcal”, completou. Uma das cenas mais impressionantes é quando António faz uma visita de surpresa à casa de Bartholomeu e, enquanto os homens comem à mesa, as mulheres ficam sentadas nos cantos, nas sombras.

Em compensação, “Vazante” é em termos visuais o filme mais deslumbrante do Festival de Berlim até agora. Mas sem exibicionismo, com razão de ser. Daniela Thomas quis rodar em preto e branco para não dar margem a qualquer discussão sobre a autenticidade ou opiniões sobre a palheta de cores – a fotografia belíssima de Inti Briones capta a natureza rude que quer expulsar aquelas pessoas dali. “Queria que fosse o mais realista possível”, disse a diretora. A ideia perpassou toda a produção, da escolha da fazenda original do século 18, cercada de montanhas, até a construção das casas da senzala. “Jamais imaginei que ia encontrar essas locações”, contou Daniela.

O elenco negro foi composto por pessoas das comunidades quilombolas da região Diamantina, bem como de refugiados da África Subsaariana de São Paulo, indicados pelo ator Toumani Kouyate. As roupas criadas pelo figurinista Cassio Brasil foram todas feitas a mão. A direção de arte de Valdy Lopes Jr. não tenta embelezar nada artificialmente. O som feito pelo português Vasco Pimentel abdica da música e é feito de zumbidos de insetos, canto de pássaros, badalar dos sinos do gado e, principalmente, do ranger dos carros de boi. “Fiquei emocionada de poder usá-los, porque para mim seu som é tipicamente brasileiro”, disse Daniela Thomas, lembrando que também faz parte da história do cinema nacional, como na abertura de Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos.

 

6 de Novembro, 19h: “Western”

 

RealizaçãoValeska Grisebach

IntérpretesMeinhard Neumann, Reinhardt Wetrek, Syuleyman Alilov Letifov

ALE/BUL/Áustria, 2017, 119′  M/12

Um grupo de trabalhadores alemães chega a uma zona remota da Bulgária para construir uma central hidroeléctrica. Ali, a maioria deles  adopta uma atitude de superioridade em relação aos habitantes locais, o que rapidamente os torna indesejados. A única excepção é Meinhard, um homem tranquilo e pouco dado a excessos que, por isso mesmo, depressa começa a ser ostracizado pelos colegas. Com o tempo, Meinhard (Meinhard Neumann) começa a fazer algumas amizades junto da  população. Com eles, apesar das diferenças culturais e da barreira linguística, vai descobrir um sentimento de comunidade que nunca tinha experienciado na sua própria terra…

 

‘Western’: não são precisas grandes histórias para fazer um bom filme

por João Pinho

“Western”, da realizador alemã Valeska Grisebach, conta a história de um grupo de trabalhadores alemães que vai construir uma infraestrutura na Bulgária. Nesse grupo há um homem que se destaca dos outros por ser um lobo solitário que, para surpresa tantos dos aldeões como dos próprios colegas, quer se integrar na comunidade da localidade que fica a poucos minutos do local onde trabalha e dorme.

Esta história passa-se no interior deserto e calmo da Bulgária, mas podia bem ter acontecido numa aldeia transmontana portuguesa ou na Beira Baixa. Por isso, é uma história universal feita com uma visão documental que capta as coisas mais simples e reais que definem o ser humano: os seus desejos primários, a língua, sentido de casa, significado da vida, sentimento de pertença, o amor, a família, a cultura, a Natureza. A personagem principal, Meinhard, luta calmamente e com perseverança contra a desconfiança dos aldeões, sabendo bem que, como o próprio diz, só os mais fortes sobrevivem neste mundo. Nesta luta pela sobrevivência e pela integração, a força tem um significado maior do que a que é meramente física, é uma questão de carácter e, ao mesmo tempo, de humildade.

Num filme “Western” clássico, o estranho, foreigner, entra na via principal da localidade e, no fim, salva os cidadãos, com um olhar misterioso e cool. Mas aqui, não há heróis, não precisa. Este filme retrata as voltas que a vida dá: heróis num lugar, estrangeiros perdidos noutro a tentar encontrar o seu lugar no mundo. E é nesta ideia que está a beleza da obra. O cavalo, um símbolo da liberdade, aventura e masculinidade, acaba por desaparecer, através da morte do mesmo. Os próprios traços da personagem principal contrastam com a do herói clássico: bigode rectangular, magro, já nos seus cinquentas, pele cansada do sol. O seu chefe é um homem mesquinho, violento e não fica preocupado caso as suas acções ofendam os aldeões, inclusive desvia a água escassa da aldeia sem permissão. Não é o vilão, é um ser humano bastante comum.

Na obra de Valeska Grisebach, percorremos também o quotidiano dos trabalhadores e as actividades de lavoura dos aldeões que, à noite, se juntam para jogar umas cartadas e beber uns copos. A vida é simples e, aos poucos, Meinhard consegue socializar com os búlgaros, ora com gestos ora através de um aldeão que sabia falar um pouco de alemão. No fim, ele apercebe-se que a luta pela sua integração está longe de chegar ao fim. Durante a festa da aldeia, que se prolonga até à noite, ele é esmurrado por alguém que não o aceita, não quer que ele pertença à aldeia: um sentimento perfeitamente normal, tendo em conta que se tratava de uma comunidade pequena e unida. Mas ele recompõe-se, sempre com movimentos calmos, nunca reagindo demasiado, só quando a sua vida está em risco. E este é mais um aspecto que nega a ideia de herói.

“Western” não é uma mera alusão de época em que as terras, que agora chamamos de EUA, estavam por descobrir. Essa descoberta foi feita a partir do suor e sangue das lutas entre os colonos e os aventureiros colonistas. É uma metáfora tão bonita, mas tão complexa sobre a invasão e a aventura, em que duas comunidades entram em colisão, apesar de terem várias coisas em comum. O próprio chefe é a personificação de uma certa ideologia em que o inferior, os búlgaros (por serem menos desenvolvidos), dependem dos superiores, os alemães. Os segundos, segundo o próprio, ainda lhes estavam a fazer um favor com a sua presença. A forma como os trabalhadores interceptam as mulheres da aldeia coincide com a mesma forma tóxica e agressiva com que os aventureiros tratavam as índias no Faroeste. A história repete-se muitas vezes através de pequenos eventos que não são tão expressivos ou têm tantas consequências. Mesmo assim, as mesmas ideias e os mesmos abusos repetem-se, através de diferentes pessoas; mas, ainda assim, por humanos.

A profundidade e beleza deste filme facilmente colocam-no num dos melhores filmes deste ano. A arte também tem disto, não precisa de grandes histórias ou de grandes heróis. A ficção também pode ser a descrição do dia-a-dia, parecendo quase um documentário, e pode-nos preencher da forma mais simples. Também precisamos de ser confrontados com as nossas acções ou com as dos outros, não podemos fugir das nossas responsabilidades.

É de realçar que a personagem principal é interpretada por um actor amador. Dá que pensar.

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https://www.comunidadeculturaearte.com/western-nao-sao-precisas-grandes-historias-para-fazer-um-bom-filme/

30 de Outubro, 19h: “Ramiro”

ramiro

Realização: Manuel Mozos

Intérpretes: António Mortágua, Madalena Almeida, Fernanda Neves

Port, 2017, 99′, M/12

Ramiro, uma comédia lisboeta, com certeza!

Momento feliz do cinema português com o regresso de Manuel Mozos à ficção. “Ramiro” é uma comédia lisboeta sem bloqueios.

Pomo-nos a jeito. Ficarmos ao lado de uma personagem rabugenta, porta–estandarte de uma Lisboa onde ainda era possível encontrar tascas e pedir minis. Este Ramiro, alfarrabista trintão, está a ficar cada vez mais rezingão. Os dias passam e nem o cão e nem os amigos do bairro são capazes de lhe matar uma frustração que não passa. A dada altura, alguém entra de repente na sua vida e a tal pirueta concretiza-se. O nosso Ramiro vai aprender que é preciso olharmos para o mundo, vermos melhor a vida dos vizinhos e respirarmos, de preferência, bem fundo. A poesia está ali ao lado…

O novo filme de Manuel Mozos, cineasta maior do cinema português contemporâneo, é o seu filme mais off. Uma “comédia delicada” que é sobretudo uma adoção de humor subtil, não sendo por acaso que o argumento venha das canetas de Mariana Ricardo e Telmo Churro, habituais argumentistas de Miguel Gomes.

Mas a proeza maior deste Ramiro é nunca resvalar para outros tipos de cinema. Melhor, sente-se que há uma fortíssima ressonância autobiográfica, mesmo quando não se desvia num centímetro do conceito de estudo de personagem, neste caso uma grande personagem, Ramiro, símbolo de um urbano-depressivo que era tão fácil encontrar na Lisboa antes da Lisboa dos turistas (lá bem pelo meio, outro dos temas aqui é a Lisboa que se vai…). Mas, para além da “fofura” do conto do urbano-depressivo, Ramiro vale também pelo rosto magoado de António Mortágua, ator-revelação que prova que o cinema português pode confiar de braços abertos no teatro português.

O Sr. Ramiro é um poeta que vê a vida dos outros. Nós olhamos para ele com olhos de cinema e saímos encantados. Ajuda também tudo isto ser ao som da música de Bruno Pernardas.

Escrito por Rui Pedro Tendinha para Diário de Notícias.