22 de Junho, 19.00h: “Palladio
 – O Espectáculo da Arquitectura “

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Realizador: Giacomo Gatti

Itália 2019, 90’ M/12

Andrea Palladio, o grande arquitecto veneziano, é um dos gigantes do Renascimento. La Rotonda, as galerias da Basílica Vicenna e a fachada cândida da Igreja do Redentor em Veneza continuam a invocar o esplendor da harmonia e da beleza, enquanto os seus Quatro Livros permanecem uma referência para as novas gerações de arquitetos.

No Veneto dos anos 500, Palladio reinventou o fulgor da Roma imperial ao sintetizar um estilo intemporal. A sua modernidade e elegância superaram as fronteiras dos séculos e das nações e foram exportadas para todo o mundo. Tornaram-se, em conjunto com as leis da Sereníssima República, o fundamento de uma nova nação: os Estados Unidos da América.

De um aprendiz de escultor e um humilde pedreiro, Palladio tornou-se num arquitecto do mundo. Mas qual é o seu legado no século XXI? Palladio dá-nos a conhecer o grande arquitecto, com um olhar contemporâneo, cinematográfico, através de imagens rigorosas e também sugestivas, suspensas entre a representação do presente e uma evocação pictórica do passado.

As estrelas contemporâneas da arquitectura internacional acompanham-nos numa viagem que se desenvolve através de quatro grandes temas:

A modernidade do antigo
A arquitectura do poder
A cidade e a ideia e
A aldeia como imitação da natureza.

Com foco na região do Veneto, entre Vicenza, Veneza e o campo trevisano, o filme alarga os horizontes até aos Estados Unidos, onde, desde a Bolsa de Valores de Nova York à Casa Branca, podemos descobrir que Palladio está por toda a parte.

Dos produtores de sucessos internacionais como Os Museus do Vaticano, Florença e a Galeria dos Ofícios, Basílicas Papais e Rafael – o Príncipe das Artes, do realizador e argumentista de Michelangelo – O Coração e a Pedra, Palladio – o Espectáculo da Arquitetura é o primeiro grande documentário realizado sobre o arquitecto supremo dos últimos cinco séculos.

15 de Junho, 19h: “La Strada – A Estrada”

La Strada

Realização: Federico Fellini

Intérpretes: Giulietta Masina, Anthony Quinn, Richard Basehart

ITA, 1954, 94′  M/12

O filme que tornou célebre em todo o mundo o nome de Federico Fellini, e lhe deu o primeiro Óscar de Hollywood (para o Melhor Filme Estrangeiro). A história de um casal de saltimbancos, a ingénua e pura Gelsomina e o brutal Zampanò, cego perante o amor da sua companheira. A morte dela será o início da sua redenção. A parábola cristã do perdão e da redenção num dos grandes momentos da história do cinema, por onde passa também a sombra de um Charlot trágico. Anthony Quinn é Zampanò, uma das suas mais míticas criações.

La Strada é, ao lado de I Vitelloni, o filme de Federico Fellini em que ele se manifesta de corpo inteiro e começa a construir uma obra pessoal que os filmes anteriores já anunciavam. Um olhar pessoal e uma equipa homogénea, em especial na parte técnica e outros contributos, com destaque para Nino Rota, compositor que no cinema deixará o seu nome ligado ao de Fellini. Mas o que lhe dá um toque mais “felliniano” é a polémica levantada à sua volta e o gosto com que o realizador a ela respondeu. Esta é uma característica comum a quase todos os filmes que Fellini fez a seguir, com destaque particular para La Dolce Vitta, Otto e Mezzo, as suas incursões pelo Satyricon e a “fantasia” de Casanova.

Mas se não é “autobiográfico” como o anterior, La Strada é aquele em que o “olhar” e “estilo” Fellini se manifestam em toda a sua força e pujança, pela primeira vez. De todos os filmes citados talvez também tenha sido La Strada o que mais polémica levantou (a de La Dolce Vitta é já de outro nível). Em 1954, quando o filme se estreou, o neo- realismo impunha os seus cânones à produção italiana, sob a égide de Cesare Zavattini, mas a sua posição revelava-se cada vez mais frágil, com os “trânsfugas” optando por novos “modelos” (a comédia “à italiana”, por exemplo). Se os filmes anteriores de Fellini já mostravam que não era por aí que o realizador estava interessado em marchar, La Strada representa a ruptura definitiva. E isso foi o que a crítica de esquerda (Aristarco em Itália, Raymond Borde em França), que já o olhava de viés, não perdoou (Borde chamou-lhe, “Poujade franciscano” que “está a sujar o neo-realismo italiano”).

Toda a novidade, tudo aquilo que ainda não é percebível, provoca uma reacção de recusa, principalmente das forças dominantes. O cinema de Fellini afirma-se, a partir de La Strada, um “outro” cinema, um olhar pessoal e à margem de qualquer “escola” (goste-se ou não dele, não se pode deixar de reconhecer a sua originalidade). Não é a paisagem “real” onde se inserem personagens “reais”, enfrentando problemas “reais” de ordem política e social, as marcas de uma certa ideia de “neo-realismo”, que se encontram a partir de agora em Fellini. As personagens de La Strada são de outra ordem, espiritual, tomando cada uma delas, Zampanò, Gelsomina, “il Matto”, uma função simbólica. Todo o filme, aliás, toma este sentido, e era isto o que os defensores do neo-realismo lhe criticavam. Em La Strada, Fellini dá início a um estilo narrativo que o caracterizou: um percurso que, sendo labiríntico, forma uma espécie de círculo vicioso: regressa-se sempre ao ponto de partida, mesmo que este esteja agora a outro nível: Zampanò regressa a uma solidão mais amarga e desesperada daquela em que o encontrámos ao começo, e num espaço em tudo semelhante, a praia. Ele toma aqui, neste final, também uma forma simbólica, semelhante ao “monstro” que desagua na praia no final de La Dolce Vitta. O círculo fecha-se em La Strada e o percurso pelas estradas toma a forma de um labirinto de onde é impossível fugir, a não ser pela morte: a personagem de “Matto”, primeiro, Gelsomina, depois, de quem saberemos apenas pela música que “deixou” como testemunho.

Uma cena do filme contém toda a ideia dele. Aquela em que “Matto” conversa à noite com Gelsomina, e lhe explica a sua “filosofia” de vida, a de que tudo tem um sentido, “mesmo esta pedra”. E remata com um “se esta pedra não serve para nada, então nada tem sentido”, por onde passa um claro eco dostoievskiano (a título de curiosidade, a frase de “Os Irmãos Karamazov” é dita, na adaptação de Richard Brooks, pelo mesmo actor que faz de “Matto”: Richard Basehart). No plano seguinte Gelsomina leva ao rosto e ao peito aquela pedrinha, que para ela tem todo o sentido do mundo: o mesmo que tem o clarinete, em que ela toca a melodia e que é o dela mesma, face a Zampanò. Só este não compreende nada disso, que ela (e aquelas coisas) são a essência de algo espiritual, que o sentido da vida (e para outros, de Deus) se encontra ali.

La Strada, que impôs internacionalmente o nome de Fellini (receberia o Oscar para o melhor filme estrangeiro) revela também Giulietta Masina como uma actriz de eleição, com um toque chaplinesco, muito destacado então, mas que lhe dá uma conotação infantil (os olhos dela na cena em que Zampanò lhe muda o chapéu, ao começo, assim como a “aprendizagem”, e especialmente, o número burlesco que representa ao lado de Zampanò).

Manuel Cintra Ferreira, para a Cinemateca Portuguesa

8 de Junho, 19.00h: “O Museu do Prado”

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Realizador: Valeria Parisi

Documentário apresentado por Jeremy Irons

ITA/ESP, 2019, Cores, 92‘ M/12

 

Quando abandonada pela Razão, a Imaginação produz monstros impossíveis; unida a ela, é a mãe das artes e a origem das suas maravilhas. Francisco Goya 

Obras de arte magníficas contam a história de Espanha e de um continente inteiro.


Estamos num dos templos da arte mundial, um espaço de memória e um espelho para o presente com 1.700 trabalhos expostos e cerca de 7.000 tesouros de arte ali preservados. Esta colecção conta a história de reis, rainhas, dinastias, guerras, derrotas e vitórias, além da história de sentimentos e emoções dos homens e mulheres do passado e de hoje, cujas vidas estão entrelaçadas à do museu: governantes, pintores, artistas, arquitetos, colecionadores, curadores, intelectuais, visitantes. 

Em 2019, o ano das comemorações do seu 200º aniversário, contar a história do Prado em Madrid do dia em que foi “fundado” – aquele 10 de novembro de 1819 quando se fez a primeira menção ao Museo Real de Pinturas – significa cobrir não apenas os últimos 200 anos, mas pelo menos seis séculos de história. A vida da coleção do Prado iniciou-se com o nascimento de Espanha enquanto nação e o casamento entre Fernando II de Aragão e Isabel de Castela, uma união que marcou o início do grande Império Espanhol. 

Ainda assim, ao longo dos séculos, a pintura tem sido uma linguagem universal que não conhece barreiras. Se há um museu onde é claro que a pintura não foi afetada por nacionalismos, então este museu de certeza é o Prado, com as suas ecléticas e multifacetadas coleções a demonstrar que a arte não possui passaportes a limitar a sua circulação. Em vez disso, é um meio universal para entender e transmitir os pensamentos e sentimentos dos seres humanos. 

Por esta razão, em O MUSEU DO PRADO as obras de arte e os grandes artistas que as criaram assumem o papel principal, não os coroados que as colecionaram, mas também a inspiração europeia e libertária por trás de um museu e a sua riqueza de tesouros de arte e histórias. Esse é o fio comum que percorre o novo documentário escrito por Sabina Fedeli e realizado por Valeria Parisi, uma produção 3D Produzioni e Nexo Digital em colaboração com o Museu do Prado , com o apoio do Intesa Sanpaolo Bank Group. O MUSEU DO PRADO , um novo evento da ArtBeats – Great Beauty On Screen project, terá a sua estreia nos cinemas portugueses no dia 7 de janeiro de 2020. 

Para além disto, há uma participação extra-especial: o actor Jeremy Irons guia os espectadores à descoberta de uma herança de beleza e arte. A começar pelo Salon de Reinos, num estilo arquitectónico deliberadamente nu que ganha vida com as pessoas, as luzes e as projeções, levando o visitante de volta ao passado glorioso da monarquia espanhola e ao Siglo de Oro, quando muitas das obras de arte expostas hoje no Prado estavam penduradas nas paredes. Naquela altura o espaço era usado para bailes, recepcionar festas e apresentar performances teatrais. Este era um núcleo vibrante de Madrid e de Espanha como um todo, como era o Barrio de las Letras, onde escritores e artistas do Siglo de Oro viveram, e, no século XX, a Residencia de Estudiantes, onde os intelectuais da Geração de 1927 se reuniriam, inclusive Buñuel, Lorca e Dalí. 

As pinturas no Prado reflectem uma era épica única, que permitiu surgir um dos mais importantes museus do mundo. Esta é uma coleção reunida “mais com o coração do que com a cabeça”, porque os reis e rainhas escolheram apenas o que eles amavam. Um inventário de gostos e prazeres que contam a história de eventos públicos, dinastias, cardeais, guerras e alianças. Também é um inventário de assuntos privados: um casamento, uma mesa luxuosamente posta, a loucura de uma rainha. Uma pequena rede de cabeças coroadas, hidalgos , majas y caballeros , cada um com as suas vidas, verdades e mensagens. A história de uma era de grande padronado, do amor dos monarcas espanhóis pelos grandes mestres, como Goya, cujo trabalho possui uma forte presença no Prado com um conjunto de mais de 900 itens, a incluir a maioria dos seus desenhos e cartas: correspondências com o seu amigo de infância Martin Zapater. 

A arte de Goya tem influenciado muitos artistas modernos, como é o caso do 3 de Maio de 1808 , uma pintura que retrata os efeitos da revolução espanhola contra o exército francês. Este trabalho tornar-se-ia num símbolo de todas as guerras e daria a Picasso a inspiração para a sua Guernica . Como Picasso, Dalì e Garcia Lorca também foram cativados pelo museu, enquanto o escritor e pintor Antonio Saura iria continuamente ali para apanhar um bocado da sua atmosfera mágica, e chamava o Prado de “uma riqueza de intensidade”. Portanto, esta é a arte que ilumina o presente e nos pergunta: o que tem sido o Museu do Prado nestes 200 anos, o que representa hoje e o que continuará a representar para as gerações futuras – este museu vivo, um farol para todos os espanhóis durante os momentos sombrios da ditadura, e um lar para onde voltar para os artistas e intelectuais exilados? 

O objetivo dos autores, consequentemente, era não só contar a história das belezas formais e do apelo encantador da coleção do Prado, mas também sobre como os temas das obras exibidas são atuais e como, através da história da arte, elas podem ser uma narrativa da sociedade, com os seus ideais, os seus preconceitos, os vícios, as novas ideias, as descobertas científicas, a psicologia humana e as modas. 

O MUSEU DO PRADO não é somente sobre estas obras de arte extraordinárias, as quais são o coração e a alma do documentário, mas também sobre a paisagem, os palácios e edifícios reais que definem o cenário e viram o nascimento e desenvolvimento destas coleções de arte. Esta é uma herança universal e inclui não só os trabalhos de Vélazquez, Rubens, Titian, Mantegna, Bosch, Goya, El Greco preservados no Prado, mas também o Escorial , o panteão da família real, o Palácio Real de Madrid, o Convento de Las Descalzas Reales, o Salon de Reinos . Um fresco a contrastar os interiores e os exteriores, as pinturas e os palácios, as pinceladas e os jardins. 

O nascimento do Museu do Prado é uma história cativante. Em 1785 Carlos III de Bourbon contratou o arquiteto da corte Juan de Villanueva para projetar um edifício que abrigasse o Gabinete de História Natural, o qual nunca chegaria a servir este propósito. O edifício foi transformado no museu que conhecemos hoje em 1819 por influência de D. Isabel de Bragança, Rainha de Espanha pelo seu casamento com o rei Fernando VII. Caminhar por este espaço de beleza significa nunca deixar de se maravilhar, de afastar preconceitos e contradições, de descobrir os mitos e símbolos de um incrível, por vezes revolucionário, mundo. Significa um intercâmbio interativo através da história da arte. Significa ser arrebatado por obras-primas como A Deposição da Cruz do artista flamengo Van der Weyden, Adão e Eva de Titian, a Pinturas Negras de Goya nos seus últimos anos, As Meninas de Vélasquez (“O ar em Las Meninas é a melhor qualidade de ar que existe” declarou Dalì). 

As figuras torcidas, alongadas, não convencionais de El Greco, O Jardim das Delícias Terrenas de Bosch, que despertam a curiosidade, a expectativa, a atenção dos visitantes de qualquer nacionalidade e cultura, ou o trabalho da flamenga Clara Peeters, que teve a coragem de pintar auto-retratos em miniatura nos seus quadros de natureza-morta e instaura uma reivindicação para o papel das artistas femininas, ou ainda A Senhora Barbuda de Ribera, onde uma mulher, com o rosto coberto por uma barba espessa, amamenta o seu filho recém-nascido. 

A forma como o documentário se desenvolve é intervindo na narrativa artística com um estudo da arquitetura e uma análise de materiais valiosos de arquivo, marcados por entrevistas a vários especialistas do Museu do Prado: Miguel Falomir, Director do Prado, e os Conservadores Andrés Úbeda de los Cobos, Diretor Adjunto de Conservação; Javier Portús, Curador Chefe da Pintura Espanhola até o Século XIX, Manuela Mena, Conservadora-chefe da Pintura do século XIX e Goya; Enrique Quintana, Coordenador-chefe de Conservação; Alejandro Vergara, Conservador-chefe de Pintura Flamenga até ao Século XVIII e Escolas de Arte do Norte da Europa; Almudena Sánchez, Restauradora de Quadros; Leticia Ruiz, Chefe do Departamento de Pintura Espanhola até o século XVIII; José Manuel Matilla, Conservador Chefe de Gravuras e Desenhos; José de la Fuente, Restaurador de Pinturas em Painel de Madeira. 

Além destes, também são entrevistados Lord Norman Foster, arquitecto responsável pelo projecto de remodelação do Salón de Reinos (Prémio Pritzker), Helena Pimenta, Directora da Companhia Nacional de Teatro Clássico em Madrid; Laura Garcia Lorca, Presidente da Fundação com o nome do seu tio, o poeta Federico Garcia Lorca; Marina Saura, actriz e filha do pintor Antonio Saura; Olga Pericet, dançarina; Pilar Pequeno, fotógrafa. 

O MUSEU DO PRADO é produzido pela 3D Produzioni e pela Nexo Digital, distribuído em Portugal pela Risi Film em parceria com o Museu do Prado e com o apoio da Intesa Sanpaolo. Estreou em Portugal no dia 07 de Janeiro 2020. 

1 de Junho, 19.30h: “Prazer, Camaradas!”

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Realizador: José Filipe Costa

Documentário

POR, 2019, 105′ M/12

Com produção de Uma Pedra no Sapato e realização de José Filipe Costa, “Prazer, Camaradas!” – que teve estreia internacional em Agosto de 2019, no Festival de Locarno (Suíça) – junta histórias vividas em cooperativas e aldeias portuguesas no pós-25 de Abril de 1974, contadas por portugueses e estrangeiros que as viveram. Na trama, alguns dos actores são as pessoas que, em 1975, vieram ou regressaram a Portugal para participar na revolução. “Não podia pôr actores a fazerem isto como na época, nem usar actores-estátuas a dizerem textos”, explica Costa. “Como então pôr os documentos a falar? E tive esta ideia de pôr estas pessoas com 61 e tal anos neste limbo. O jogo era muito simples, eles viverem com aquele corpo como se estivessem a viver no passado, e eu não sabia o que ia sair daí, e fui sendo surpreendido, muito surpreendido.”
 
 

O 25 de Abril em tom de “comédia de costumes”
Com “Prazer, Camaradas!”, José Filipe Costa revisita o tempo em que jovens vindos do estrangeiro chegaram a Portugal para conhecer a revolução… Um belo exercício de questionamento histórico, subtil e pleno de humor.

De que falamos quando falamos do 25 de Abril? Eis uma questão básica, de uma só vez histórica e simbólica, que justifica algo mais do que uma resposta “panfletária”. Em termos cinematográficos, entenda-se. Trata-se, sobretudo, de saber que linguagens usamos para preencher e, de alguma maneira, resgatar a distância que nos separa dos eventos que puseram fim à ditadura do Estado Novo.

“Prazer, Camaradas!” é um filme que adopta uma estratégia tão inesperada quanto envolvente, até porque há nele uma dinâmica de “comédia de costumes” que lhe confere um humor insólito e contagiante. O objectivo é evocar o envolvimento de jovens vindos do estrangeiro com aqueles que, nas cooperativas de herdadas ocupadas, protagonizavam a ideia, e o ideal, de construir novas formas de vida.

A realização de José Filipe Costa distancia-se dos lugares-comuns “ilustrativos”, banalmente televisivos, quase sempre guiados por uma cândida cegueira artística: bastaria “reconstituir”, “imitando”, para nos ser devolvida a verdade original dos acontecimentos. Ora, aqui, tudo se baralha — e esclarece — porque os “velhos” de hoje estão a interpretar os “novos” de há quase meio século. Como num espelho.

Talvez importe não dizer mais do que isto, de modo a não esvaziar o calculado efeito de surpresa que o filme explora no seu lançamento… Sublinhe-se apenas que “Prazer, Camaradas!” estabelece esse ziguezague passado/presente através de um riso saudável, capaz de lidar com as convulsões de tudo o que aconteceu.

Nessas convulsões inclui-se um repensar da sexualidade e, mais do que isso, um leque de dúvidas e interrogações sobre o lugar prático & simbólico das mulheres face às regras e mecanismos do poder masculino. Nesta perspectiva, este é um filme que consegue algo cada vez mais raro: não a identificação escapista de “culpados”, mas uma memória de muitos contrastes — por vezes comovente, outras irresistivelmente sarcástica — reflectindo todas as inocências perdidas.


Crítica de João Lopes

 

18 de Maio, 19h: “Caros Camaradas!”

Caros camaradas

Realizador: Andrey Konchalovskiy

Intérpretes: Yuliya Vysotskaya, Vladislav Komarov, Andrey Gusev

RUS, 2020, 116′ M/14

Uma cidade de província no sul da União Soviética, 1962. Para Lyudmila, devota funcionária do Partido Comunista e veterana idealista da Segunda Guerra Mundial, tudo o que representa um sentimento antissoviético, é um flagelo. Por isso, é apanhada de surpresa por uma greve na fábrica local, na qual a sua própria filha participa.

Em pouco tempo, a situação fica descontrolada. O regime decreta o recolher obrigatório, inicia detenções em massa e tenta encobrir a violência enquanto Lyudmilla tenta desesperadamente encontrar a filha. A sua fé na linha do Partido, outrora inquestionável, é abalada pela crescente consciência do custo humano que implica, destruindo o mundo que pensava conhecer.

Baseado em acontecimentos reais, ocorridos em 1962, na cidade de Novocherkassk, quando o exército e o KGB dispararam sobre manifestantes desarmados.

Filme vencedor do Prémio Especial do Júri no Festival de Veneza.

 
 

Política, memórias e solidão
O cineasta russo Andrei Konchalovsky continua a ser um paciente e obstinado analista da história colectiva: em “Caros Camaradas!”, revisita o ano de 1962, para abordar um episódio trágico da vida da URSS

Lyuda, a personagem central de “Caros Camaradas!” (interpretada pela extraordinária Yuliya Vysotskaya) vive numa encruzilhada em que o sentido comunitário se vai transfigurando em desesperada solidão. Por um lado, face à repressão exercida pelas forças do seu próprio partido — o Partido Comunista da URSS —, não pode deixar de sentir um profundo desgosto; por outro lado, numa idealização à beira do delírio, esforça-se por continuar a acreditar naquilo que seria a “pureza” dos seus ideais, ilusoriamente vividos na época de Estaline. 

Dito de outro modo: “Caros Camaradas!” é um filme ágil e subtil que sabe colocar em cena uma dinâmica colectiva sem perder de vista as contradições individuais. Mais concretamente, trata-se de abordar um episódio trágico do comunismo na URSS: em 1962, uma greve dos trabalhadores de uma fábrica de locomotivas, na cidade de Novocherkassk, foi violentamente reprimida pelo exército e elementos do KGB, tendo sido mortas, a tiro, durante uma manifestação, várias dezenas de pessoas.
 
“Caros Camaradas!” representa, assim, mais um capítulo fundamental do trabalho de Andrei Konchalovsky, ainda e sempre empenhado em revisitar determinadas conjunturas históricas com uma paixão obstinada pelos factos, sem ceder a esquematismos políticos ou panfletários — lembremos o exemplo de um dos seus títulos mais recentes, “Paraíso” (2016), cruzando três histórias de outras tantas personagens durante a Segunda Guerra Mundial.
 
O exemplo de “Caras Camaradas!” é tanto mais envolvente e perturbante quanto Konchalovsky relança o seu gosto realista, paradoxalmente espelhado pela admirável fotografia a preto e branco, assinada por Andrey Naydenov. Este é um cinema que nasce de um enfrentamento da memória, na certeza de que a sua preservação constitui uma componente ética de qualquer argumentação política.
 
A esse propósito, lembremos o lugar traumático que o massacre Novocherkassk ocupa na história do regime soviético. As suas repercussões, aliás, o seu silenciamento (já que, na altura, foi “decretada” a proibição de as testemunhas divulgarem o que tinha acontecido) foi tão intenso que a investigação oficial do que tinha ocorrido só teve lugar em 1992, já depois do fim da URSS.  
 
 

 
Crítica de João Lopes