Culturas Fílmicas a partir de casa

 

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Cineclubismo e Culturas Fílmicas a partir de casa como resposta saudável aos tempos de contenção

O Plano Extraordinário – Clube de Cinema associa-se à Comissão de Formação do Cineclube de Faro participando nas ações à distância de reflexão e formação crítica sobre filmes da história do cinema para desenvolvimento pessoal da cinefilia através de encontros virtuais para discussão em grande grupo.

Com base no programa ‘A Escola Vai ao Cineclube’, os estudantes de Culturas Fílmicas, com o apoio do Prof. Doutor Francisco Gil, (ESEC-UAlg) desenvolveram um ciclo para análise e debate sobre o que consideram essencial explorar com a comunidade académica e cinéfila.

Estes contactos sobre o arquivo, as coleções, a história, a missão e a actividade cineclubista revelaram-se profícuos para o desenvolvimento crítico e criativo dos estudantes neste percurso em que agora proporcionam as suas escolhas fundamentais.

Os nossos associados poderão inscrever-se gratuitamente nas acções, devendo preparar-se com antecedência sobre a programação.

 

Programa

25 de Março

Os Deuses devem estar Loucos, de Jamie Uys (1980, África do Sul) 109′

 

30 de Março

Tanna, de Martin Bustler e Bentley Dean (2015, Austrália) 104′

 

31 de Março

Uma Separação, de Asghar Farhadi (2011, Irão) 123′

 

1 de Abril

O Funeral das Rosas, de Toshio Matsumoto (1969, Japão) 107′

 

Inscrições

Para se inscrever basta enviar email para formacaoccf@gmail.com

com as seguintes indicações:

– nome

– cineclube

– número de sócio

– dia(s) da(s) sessão(ões) em que deseja participar

– contacto telefónico

Após inscrição receberá indicações individuais de participação por email.

nota: os seus dados são confidenciais e servirão apenas para a sua inscrição e participação nesta actividade específica

É com enorme agrado que o Plano Extraordinário se associa a esta iniciativa co-promovida pelo Cineclube de Faro e a Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve.

Uma acção cineclubista desenvolvida em rede por Cineclube de Faro / Cineclube de Tavira / Cineclube de Tomar / CEC (Centro de Estudos Cinematográficos) — Cineclube Universitário de Coimbra /

 

10 de Março, 19h: “O Traidor”

Realização: Marco Bellocchio

Intérpretes: Pierfrancesco Favino, Luigi Lo Cascio, Fausto Russo Alesi

ALE/ITA/FRA, 2019, 145′  M/16

No início dos anos 80, estala entre os chefes da Mafia siciliana uma guerra bem acesa pelo negócio da heroína. Tommaso Buscetta, um homem marcado, foge para o Brasil. Em Itália, as contas vão-se ajustando e Buscetta acompanha à distância o assassinato dos seus filhos e do seu irmão, em Palermo, sabendo que pode ser o próximo. Preso e extraditado para Itália pela polícia brasileira, Buscetta toma uma decisão que alterará tudo para a Mafia: decide encontrar-se com o Juiz Giovanni Falcone e trair o juramento de lealdade eterna que fizera à Cosa Nostra.

 

História e tragédia segundo Marco Bellocchio
Importa não esquecer que Marco Bellocchio é um dos nomes grandes da história do cinema italiano desde os tempos heróicos da década de 60: em “O Traidor”, ele revisita a personagem verídica de um denunciante da Cosa Nostra.

Perante a estreia de “O Traidor”, um dos grandes filmes da última edição do Festival de Cannes (mesmo se ficou fora do palmarés…), talvez seja útil recordar que não estamos, de modo algum, perante uma surpresa. Na verdade, o seu realizador, o italiano Marco Bellocchio (a completar 80 anos no dia 9 de Novembro) é um artista de elaboradas narrativas, com títulos marcantes ao longo de mais de meio século, desde a crónica juvenil e política de “I Pugni in Tasca” (1965) até subtis derivações melodramáticas como no recente “Sonhos Cor-de-Rosa” (2016). 

No centro de “O Traidor” encontramos a personagem verídica de Tommaso Buscetta (1928-2000), membro da Cosa Nostra que, em meados dos anos 80, se afastou daquela organização criminosa, denunciando às autoridades os responsáveis por muitos assassinatos cometidos pelos seus membros. A sua toma de posição transformou-o num alvo a abater, acabando por protagonizar um ziguezague geográfico que, da Sicília, o levou a lugares do Brasil e EUA. 

Bellocchio não faz, de modo algum, um documentário, o que não impede que “O Traidor” seja um objecto em que a contundência dos factos surge através de um rigor a que apetece chamar didáctico, já que tudo surge filtrado através de uma calculada distanciação. De tal modo que, à semelhança de outros grandes filmes de Bellocchio, a evocação histórica é inseparável de uma fulgurante dimensão trágica. Para nos ficarmos por um contraponto esclarecedor, lembremos o seu admirável “Bom Dia, Noite” (2003), sobre o rapto de Aldo Moro, em 1978.

Elemento fundamental na mise en scène de Bellocchio é, como sempre, a sua cuidada direcção de actores, nunca menosprezando o valor dramático de cada um deles, mesmo aquele que possa ter a seu cargo a mais secundária das personagens. Seja como for, o destaque vai para Pierfrancesco Favino, compondo um Buscetta que se revela através da tensão brutal entre a prática do crime e as convulsões morais de uma crescente solidão.

Crítica de João Lopes

 

3 de Março, 19h: “J’accuse – O Oficial e o Espião”

Realização: Roman Polanski

Intérpretes: Jean Dujardin, Louis Garrel, Emmanuelle Seigner

TA/FRA, 2019, 132′  M/12

Paris, 1894. Alfred Dreyfus (Louis Garrel), oficial francês de origem judia, é acusado de espionagem por, supostamente, ter passado informações de carácter militar aos alemães. Como consequência, é condenado a prisão perpétua na Ilha do Diabo (Guiana Francesa). Intrigado com a forma como todo o processo decorreu, o coronel Georges Picquart (Jean Dujardin) decide investigar o caso, descobrindo que, tal como suspeitava, os documentos que incriminavam Dreyfus tinham sido falsificados.
Um drama histórico com assinatura de Roman Polanski (“Repulsa”, “O Pianista”, “O Escritor Fantasma”, “O Deus da Carnificina”, “Vénus de Vison”), que adapta o romance “An Officer and a Spy”, de Robert Harris, que também assina o argumento. O nome do filme refere-se ao título da carta que o consagrado escritor Émile Zola (1840-1902) publicou no jornal “L’Aurore” a 13 de Janeiro de 1898, dirigindo-se a Félix Faure (1841-1899), na altura Presidente da República Francesa, acusando membros do exército e do Governo de cumplicidade na condenação por traição de um inocente: o oficial de artilharia judeu Alfred Dreyfus (1859-1935). Esse incidente envolveu toda a sociedade francesa e incendiou a opinião pública. PÚBLICO

Vencedor do César para Melhor Realizador, Melhor Argumento Adaptado e Melhor Guarda-Roupa a 28/02/2020

 

Filmar a paixão da verdade
O “Caso Dreyfus” inscreveu-se na história francesa como símbolo trágico de difamação e preconceito: “J’Accuse – O Oficial e o Espião”, de Roman Polanski, é uma esplendorosa evocação do seu labirinto de mentira e verdade.

Como sabem todos os espectadores interessados, “J’Accuse – O Oficial e o Espião” evoca o processo de acusação, julgamento e prisão a que foi sujeito Alfred Dreyfus, oficial de artilharia do exército francês, injustamente acusado de traição à Pátria, ao serviço da Alemanha, em 1894. A sua memória como alvo de difamação e preconceito fez com que se inscrevesse na história com a designação de “Caso Dreyfus”.

Por certo um dos exemplos mais admiráveis da ficção histórica segundo Roman Polanski (a par de “O Pianista”, que lhe valeu o Oscar de realização em 2003), “J’Accuse – O Oficial e o Espião” expõe, com metódica frieza, o efeito perverso de um gigantesco aparato de falsidades. Além do mais, a condição judaica de Dreyfus confere à sua saga de réu e prisioneiro na Ilha do Diabo (apenas seria ilibado em 1906) a dimensão de símbolo trágico do anti-semitismo.

Ainda assim, importa sublinhar a dimensão específica da narrativa de Polanski, construída a partir de um argumento que ele próprio escreveu em colaboração com Robert Harris, autor do livro em que o filme se baseia, disponível em tradução portuguesa. Não se trata, de facto, de elaborar uma mera antologia de peripécias, antes de mostrar o processo que conduziu da mentira à verdade.

Dreyfus surge interpretado, num misto de frieza e desamparo, por Louis Garrel, mas a personagem central é Georges Picquart, composta pelo magnífico Jean Dujardin. Picquart é, afinal, aquele que enuncia a questão base: a paixão da verdade deve ser assumida até às derradeiras consequências, mesmo quando os seus efeitos podem manchar a instituição (militar) que os protagonistas integram.

Nesta perspectiva, “J’Accuse – O Oficial e o Espião” possui qualquer coisa de raro didactismo político. Através de um intransigente realismo, a mise en scène de Polanski mostra como a evocação da verdade dos factos nunca é simples, já que depende do contexto marcado pelas formas mais diversas, por vezes muito perversas, de poder. Estamos perante um grande filme, esplendorosamente fora de moda, sobre o desejo de conhecer todos os mecanismos das relações humanas.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

18 de Fevereiro, 19h: “Parasitas”

Realização: Bong Joon-ho

Intérpretes: Song Kang-ho, Choi Woo-shik, Lee Sun-kyun

Coreia do Sul, 2019, 132′  M/14

Ki-taek tem uma família unida, mas estão todos desempregados e as suas perspectivas futuras são negras. O filho Ki-woo é recomendado por um amigo – que frequenta uma prestigiosa universidade – para dar explicações bem pagas, o que vem desencadear a esperança de um rendimento regular na família. Portador das expectativas familiares, Ki-woo dirige-se à casa dos Park para uma entrevista de trabalho. Chegado à casa do Sr Park – dono de uma empresa global de tecnologia informática – Ki-woo conhece Yeon-kyo, a bela e jovem dona da casa. Este primeiro encontro entre as duas famílias vai provocar uma imparável cadeia de incidentes.

 

Sobre a crueldade social

Consagrado através de filmes mais ou menos fantásticos como “The Host” e “Okja”, Bong Joon-ho surge, agora, com um trabalho incomparavelmente mais interessante: “Parasitas” é a história de uma família que conquista o espaço de outra família…

Como vai a luta de classes na Coreia do Sul?… Pergunta insólita, sem dúvida, mas inteiramente justificada face a um filme como “Parasitas”, de Bong Joon-ho. Isto porque encontramos aqui uma das mais desconcertantes ficções que pudemos descobrir em tempos recentes: uma família sem grandes meios vai-se insinuando na vida de uma outra família, muito rica, a ponto de ocupar o seu quotidiano…

Enfim, manda o bom senso que não revelemos muito das peripécias do filme. Mas importa dizer também que não se trata de uma mera colecção de anedotas resultantes dos contrastes entre “ricos” e “pobres”. Bong Joon-ho coloca em cena uma teia de fidelidades e traições que nos leva a contemplar o social como um mapa de muitos contrastes enraizados nos gestos mais subtis.

Nada a ver, entenda-se, com o entendimento mesquinho do “social” como um fenómeno virtual, exclusivamente “em rede”. Podemos mesmo dizer que este é um filme sobre a pulsação muito física das relações sociais, a ponto de “Parasitas” envolver uma estranha e perturbante moral — será que a vida social é uma colecção de máscaras com que enganamos os outros e, no limite, nos enganamos a nós próprios?

Bong Joon-ho tornou-se conhecido como realizador de filmes mais ou menos fantásticos ou fantasistas, como “The Host – A Criatura” (2006) e “Okja” (2017), qualquer um deles, a meu ver, muito menos interessante que “Parasitas”. Agora, ele coloca em marcha um dispositivo dramático que vai da caricatura ao “thriller”, expondo a crueldade interior do espaço social — daí também a dimensão universal deste filme, por certo fundamental para a sua consagração com a Palma de Ouro de Cannes.

Crítica de João Lopes

 

11 de Fevereiro, 19h: “Frankie”

Realização: Ira Sachs

Intérpretes: Marisa Tomei, Greg Kinnear, Brendan Gleeson, Isabelle Huppert

FRA/POR, 2019, 98′  M/12

Depois de lhe ter sido diagnosticada uma doença terminal, Frankie, uma famosa actriz francesa, decide juntar todos os que lhe são mais próximos para uma espécie de despedida. O local escolhido para o encontro é a vila de Sintra, em Portugal. Naquele lugar bucólico e tranquilo, deambulando por jardins e palacetes, as conversas vão fluindo, com cada um deles a tomar consciência do verdadeiro significado daquele momento.
Filmado em Sintra, um drama assinado pelo norte-americano Ira Sachs, segundo um argumento seu e de Mauricio Zacharias, com quem já colaborara em “Deixa as Luzes Acesas” (2012) e “Love Is Strange – O Amor É Uma Coisa Estranha” (2014). O elenco, internacional, inclui Isabelle Huppert, Brendan Gleeson, Greg Kinnear, Marisa Tomei, Jérémie Renier, Sennia Nanua, Manuel Sá Nogueira e Carloto Cotta. PÚBLICO

 

A vida é feita de pequenos nadas

Um filme frágil e vulnerável, mas por isso mesmo extraordinariamente comovente, um passeio com a vida e com a morte pelos bosques de Sintra com um elenco em estado de graça.

Parece existir em Frankie um desfasamento qualquer. Ira Sachs, até aqui – graças ao magnífico Love Is Strange e ao bastante bom Homenzinhos – contista de Nova Iorque, a filmar em Sintra com um elenco global encabeçado pela Huppert? A ceder um tudo nada ao cliché turístico (ai a Praia das Maçãs, ai o eléctrico, ai as queijadas, as fontes, o micro-clima) com o seu quê de co-produção oblige? Parece existir, mas não por muito tempo. Desvanece-se aos poucos, como os nevoeiros ou os aguaceiros do micro-clima, para deixar mais uma das histórias que só Sachs sabe contar sobre os pequenos nadas que fazem uma vida. Onde nada parece acontecer – e, na verdade, nada acontece lá fora mas, cá dentro, tudo mudou de sítio.

O que mudou em Frankie foi o cenário, que já não é a velocidade da Grande Maçã (e a personagem de Marisa Tomei, às tantas, diz que já não aguenta o bulício de Nova Iorque) para desacelerar nas ondas da Praia das Maçãs. E o que mudou, também, é que Sachs abre o plano para criar um mosaico com muitas personagens, talvez mesmo demasiadas (aqui há uma sensação de supérfluo, ali a ideia de que alguma coisa ficou pela rama). Há uma família, que na verdade são várias e todas centradas em Frankie, a actriz vedeta que convidou todos os que lhe são queridos para umas férias em Sintra. Dois maridos, filho, enteada com marido e filha, uma amiga de longa data que vem sem saber muito bem ao quê (e traz a tiracolo um amigo colorido que quer ser mais do que isso). Famílias em decomposição e recomposição, porque Frankie está a morrer de cancro e quer deixar tudo em pratos limpos. E quando tudo começa a encaixar no sítio, quando percebemos que toda a gente neste filme está encostada à parede ou fechada numa cela criada por si própria – à excepção de Frankie, rainha do xadrez de movimento livre em todas as direcções – é aí que Frankie se começa a ganhar.

Crítica de Jorge Mourinha

 

4 de Fevereiro, 19h: “Apocalypse Now – Final Cut”

Realização: Francis Ford Coppola

Intérpretes: Marlon Brando, Robert Duvall, Martin Sheen, Frederic Forrest, Albert Hall, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Dennis Hopper, G. D. Spradlin, Harrison Ford, Jerry Ziesmer, Scott Glenn, James Keane, Kerry Rossall, Tom Mason, Cynthia Wood, Colleen Camp, Linda Carpenter, Jack Thibeau, Glenn Walken

EUA, 2001, 203′  M/16

Terceira e derradeira versão de um dos grandes marcos da história do cinema que este ano comemora os 40 anos sobre a estreia no Festival de Cannes, onde venceu a Palma de Ouro.

Francis Ford Coppola considera esta a melhor e definitiva versão do seu filme, cujo restauro em 4K acompanhou de perto, nomeadamente ao nível do som.

Durante a Guerra do Vietname, um capitão das forças especiais recebe como missão procurar e assassinar um coronel americano desertor que se escondeu na selva e passou a comandar guerrilheiros no Camboja, onde é adorado como um semi-deus.

Criado a partir do livro “Coração das Trevas”, de Joseph Conrad.

 

“Apocalypse Now”: 40 anos de história
Quatro décadas depois da sua estreia, “Apocalypse Now” foi restaurado em 4K. Francis Ford Coppola encontrou, assim, o seu “Apocalypse Now – Final Cut”, um dos acontecimentos maiores do nosso ano cinematográfico.

Face à possibilidade de reencontro com a obra-prima de Francis Ford Coppola, o primeiro impulso será o de saudarmos o regresso de um título central na história moderna de Hollywood e, em boa verdade, de todo o cinema. Mas importa sublinhar a singularidade do evento: não se trata de uma reposição mas, de facto, de uma estreia.

Porquê? Porque “Apocalypse Now” passa a existir como um tríptico com 40 anos de história (1979-2019). Apetece dizer, aplicando uma linguagem musical: tema e variações. Primeiro, em 1979, o filme surgiu com 2 horas e 33 minutos, com essa duração arrebatando a Palma de Ouro de Cannes; depois, em 2001, Coppola decidiu integrar algumas sequências que tinham ficado de fora, lançando “Apocalypse Now Redux”, totalizando 3 horas e 22 minutos; agora, a versão final [final cut] tem 3 horas e 3 minutos.

Lembremos o mais básico: qualquer das versões é um esplendoroso objecto, celebrando o cinema como espectáculo maior que a vida, em tudo e por tudo diferente dos actuais modelois dominantes de super-heróis e afins que, quase sempre, reduzem o cinema a uma ostentação gratuita de proezas técnicas. Seja como for, com “Apocalypse Now – Final Cut”, Coppola terá encontrado o equilíbrio ideal do seu projecto, para mais contando com um exemplar restauro em digital 4K.

A saga do capitão Willard (Martin Sheen), encarregado de localizar e destruir o coronel Kurtz (Marlon Brando) desloca a novela clássica de Joseph Conrad, “Coração das Trevas” (1899), para os cenários dantescos do Vietname. Dito de outro modo: a crónica contudente do colonialismo transfigura-se, assim, em parábola sobre os traumas da guerra e o inferno das relações humanas. Ver ou rever tal proeza no ecrã de uma sala escura fica como um acontecimento fulcral do ano cinematográfico em Portugal.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

28 de Janeiro, 19h: “Variações”

Realização e Argumento: João Maia

Intérpretes: Sérgio Praia, Filipe Duarte, Victória Guerra, Augusto Madeira, Afonso Lagarto, Diogo Branco, Teresa Madruga

POR, 2019, 109′ M/12

“Variações” retrata a vida de António Ribeiro, barbeiro e figura da movida lisboeta no final dos anos 70, perseguindo o seu sonho de se tornar cantor e compositor, apesar de não saber uma nota de música. O filme foca o processo de transformação na persona de António Variações, artista excêntrico e popular cuja carreira fulgurante foi interrompida pela sua morte em 1984.

 

Memórias musicais, memórias portuguesas

Passados 35 anos sobre o seu falecimento, António Variações surge no centro de um filme que evoca a sua trajectória pessoal e artística: Sérgio Praia, intérprete de Variações, surge como peça central da realização de João Maia.

A aproximação do filme “Variações” aos recentes “Bohemian Rhapsody” (2018) e “Rocketman” (2019), respectivamente sobre Freddie Mercury e Elton John, talvez seja inevitável. Não no sentido de atrair qualquer comparação simplista, “pró” ou “contra”, entre as suas personagens centrais. Antes porque, com resultados diversos, por todos eles perpassa o poder transfigurador da música.

Nesta perspectiva, pode dizer-se que a longa-metragem realizada por João Maia sobre António Variações (1944-1984) começa por cumprir uma função narrativa, a que apetece chamar didáctica, de revisitação dramática de uma personagem. Não se trata de filmar Variações como um “herói à força”, mas de expor as singularidades de um ser humano — complexo e irredutível.

Tal irredutibilidade encontra a sua exemplar concretização na composição de Sérgio Praia. A meu ver, será precipitado deduzir que a energia do seu trabalho resulta da (incrível) semelhança física com António Variações. Na verdade, o que mais conta é o que acontece a partir de tal semelhança. A saber: a definição de uma personagem.

Interpretando os fundadores da discoteca Trumps, local indissociável da trajectória artística de Variações, Filipe Duarte e Victoria Guerra são outros dois bons exemplos de um elenco que, globalmente, consegue evitar o “pitoresco” das opções telenovelescas. Por tudo isso, na sua singeleza, “Variações” é um objecto apostado em revisitar memórias que, afinal, se cruzam com a nossa história social e o nosso imaginário artístico. Nos tempos que correm, a sua sobriedade merece ser descoberta e partilhada.

Crítica de João Lopes