Cinema ao Ar Livre 2019 – Programação

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas noites das 4ªs feiras de Julho e Agosto (21.30h), a partir do dia 17 de Julho.

A programação será a seguinte:

17/07 – Green Book, de Peter Farrelly

24/07 – Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

31/07 – O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford

7/08 – Reviver o Passado em Montauk, de Volker Schlöndorff

14/08 – Conversa de Travesseiro, de Michael Gordon

21/08 – A Queda do Império Americano, de Denys Arcand

29/08 – O Rei dos Gazeteiros, de John Hughes

Crianças e Sócios – 1 €

Adultos – 2€

A última sessão será de ENTRADA LIVRE.

 

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25 de Junho, 19h: “A Portuguesa”

Realização: Rita Azevedo Gomes

Intérpretes: Ingrid Caven, Pierre Léon, Rita Durão, João Vicente, Luís Lucas, Marcelo Urgeghe, Mauro Soares, Clara Riedenstein

POR, 2018, 136′  M/12

Durante a disputa dos von Ketten pelo domínio do Principado Episcopal de Trento, no norte de Itália, o senhor von Ketten viaja até Portugal para encontrar uma esposa. Depois de realizado o casamento, o jovem casal regressa a Itália. Pouco depois, von Ketten é obrigado a partir para a guerra. Onze anos decorrem, entre contendas e escaramuças, com raros encontros entre os amantes. Até ao dia em que o Bispo de Trento morre. A partir desse momento, tudo se altera…
Estreado no Festival de Mar del Plata (Argentina) e apresentado na Berlinale (Alemanha), um filme histórico realizado por Rita Azevedo Gomes (“A Vingança de uma Mulher” e “Correspondências”) que adapta um conto do escritor austríaco Robert Musil (também autor de “O Homem sem Qualidades”). Em Março venceu o Festival Internacional de Cinema de Las Palmas.
Com diálogos da romancista Agustina Bessa-Luís, fotografia de Acácio de Almeida e música original de José Mário Branco, tem no elenco Clara Riedenstein, Marcello Urgeghe, Ingrid Caven, Rita Durão, João Vicente e muitos outros. PÚBLICO

 

História, símbolos e poesia

Com o filme “A Portuguesa”, a realizadora Rita Azevedo Gomes convoca-nos para o reencontro com uma tradição cinematográfica marcada pelo gosto da memória histórica. Ponto importante: as imagens assinadas por Acácio de Almeida.

Face a um filme como “A Portuguesa”, podemos perguntar como é possível “reconstituir” as atribulações de uma dama portuguesa (Clara Riedenstein) no século XVI, no norte de Itália, aguardando o regresso do seu marido (Marcello Urgeghe), um nobre de ascendência germânica que partiu para a guerra?

Valerá a pena começar por lembrar o óbvio. Que é também sempre o mais esquecido. A saber: nunca há “reconstituição” do que quer que seja — filmar é criar uma narrativa presente e para o presente. Eis algumas esclarecedoras palavras da realizadora, Rita Azevedo Gomes:

“(…) tudo o que se passa entre a Portuguesa e o marido (Von Ketten) assenta no não-dito. Ninguém sabe ao certo se realmente existiram ou não. Não é a veracidade disso que importa. Esta história, num determinado período da História, rente ao Principado Episcopal de Trento, liga-nos a uma série de factos que reflectem o tempo actual, partindo do princípio de que os nossos antepassados não eram diferentes, apenas estavam num lugar diferente. Não é tão difícil fazer do homem gótico ou do grego antigo o homem da civilização moderna.”

Redescobrimos, assim, as virtudes de um cinema que se enraiza nas memórias históricas para se ramificar num exercício de encenação e reflexão em que os ecos de tais memórias surgem contaminados por elementos de natureza simbólica e poética. Nesta perspectiva, talvez possamos inscrever “A Portuguesa” (adaptado de uma novela de Robert Musil) numa tradição cinematográfica em que podemos encontrar as referências emblemáticas de Manoel de Oliveira, Jacques Rivette ou Ermanno Olmi.

Sustentado por uma produção de recursos minimalistas, mas muito consistente, “A Portuguesa” distingue-se por um magnífico trabalho de direcção fotográfica, da responsabilidade de Acácio de Almeida. Ele é, afinal, um dos nomes centrais da história da fotografia no cinema português, com uma vasta filmografia que inclui títulos tão especiais como “O Passado e o Presente” (Manoel de Oliveira, 1972), “Brandos Costumes” (Alberto Seixas Santos, 1975) ou “A Cidade Branca” (Alain Tanner, 1983).

Crítica de João Lopes

COM A PRESENÇA DA REALIZADORA

18 de Junho, 19h: “Mais Um Dia de Vida”

Realização: Raúl de la Fuente, Damian Nenow

Vozes: Mirosław Haniszewski, Vergil J. Smith, Tomasz Ziętek, Olga Bołądź, Rafał Fudalej, Kerry Shale, Daniel Flynn, Youssef Kerkour, Lillie Flynn, Akie Kotabe

ESP/ALE/HUN/POL/BEL, 2018, 85 ‘  M/12

Um filme de animação assinado por Raúl de la Fuente e Damian Nenow, que adapta o livro homónimo do polaco Ryszard Kapuscinski (1932 – 2007), o famoso repórter de guerra que passou três meses a observar a Guerra Civil de Angola e publicou o seu relato em 1976. Depois de mais de cinco anos de rodagem, “Mais Um Dia de Vida” fez parte da selecção oficial do Festival de Cinema de Cannes. PÚBLICO

 

O jornalismo revisto em desenho animado

O trabalho de reportagem de Ryszard Kapuscinski na guerra civil de Angola é um clássica da literatura jornalística — agora, está na base de um filme de animação (incluindo alguns materiais de arquivo) assinado por Raúl de la Funete e Damian Nenow.

O livro “Mais um Dia de Vida”, do polaco Ryszard Kapuscinski (1932-2007), é muitas vezes encarado como um clássico ambíguo do jornalismo. Porquê ambíguo? Em primeiro lugar, porque, ao relatar as convulsões da guerra civil em Angola, corria o ano de 1975, Kapuscinski não prescinde de uma visão crítica dos acontecimentos; depois, porque o seu labor como repórter há muito foi reconhecido como um feito igualmente (e invulgarmente) literário.

Quando descobrimos o filme “Mais um Dia de Vida”, que Raúl de La Fuente e Damian Nenow realizaram a partir desse livro, não podemos deixar de pensar na sua dificuldade intrínseca. Trata-se, de facto, de evocar a experiência de Kapuscinski através de algumas entrevistas e materiais de arquivo mas, sobretudo, encenando tal experiência em… desenhos animados.

Interessante paradoxo, sem dúvida: por um lado, este é um objecto que tenta fazer passar uma sensação de realismo; por outro lado, o artifício inerente às técnicas de animação parece contrariar, desde o princípio, a própria consistência dramática do filme.

Nada de novo, afinal: em 2008, Ari Folman realizou “A Valsa com Bashir”, um belo “documentário” sobre a Guerra do Líbano, todo ele com imagens de animação… É pena que “Mais um Dia de Vida” pareça não acreditar nas suas próprias potencialidades, a ponto de ir pontuando a odisseia de Kapuscinski com muitas derivações “simbólicas”, mais ou menos esquemáticas e redutoras (p. ex.: o corpo do jornalista a vogar no espaço com algumas balas ou explosões em movimento).

Resta dizer que a banalidade técnica dos desenhos e movimentos também não ajuda… Fica, em qualquer caso, a expressão dessa vontade de lidar com a complexidade de uma determinada situação histórica — e, em particular, de um destino individual — através de uma linguagem que resiste ao determinismo simplista que, tantas vezes, marca o universo informativo.

Crítica de João Lopes

11 de Junho, 19h: “3 Rostos”

Realização: Jafar Panahi

Intérpretes: Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei

Irão, 2018, 100′  M/14

Behnaz Jafari, uma actriz iraniana muito popular, recebe um vídeo da jovem Marziyeh, a quem a família proibiu de estudar. O seu maior desejo é entrar no Conservatório de Teatro de Teerão e acha que, uma vez que a família gosta muito dos filmes da actriz, talvez ela os consiga convencer a deixá-la prosseguir os estudos. Comovida por essa história, Jafari contacta o realizador Jafar Panahi, seu amigo. Cúmplices, os dois seguem viagem até à aldeia de Marziyeh. No percurso, vão conhecer vários habitantes daquele lugar remoto, onde a generosidade das gentes se mistura com preconceitos e tradições profundamente enraizados.
Em competição pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes – onde recebeu o prémio de melhor argumento –, um drama em estilo “road movie” que conta com assinatura do aclamado realizador iraniano Jafar Panahi (“Fora-de-Jogo”, “Isto Não É Um Filme”, “Táxi”). PÚBLICO

 

3 Rostos: Jafar Panahi mais três mulheres no Irão remoto

Crítica de Eurico de Barros

Em 2010, Jafar Panahi foi preso juntamente com a mulher, a filha e mais um grupo de amigos e acusado de fazer propaganda contra o governo do Irão e a república islâmica. O realizador de “O Círculo” e “Sangue e Ouro” viu-se condenado a seis anos de cadeia (depois convertidos em prisão domiciliária) e proibido de fazer filmes durante 20 anos (cada um que fizer sem autorização, são mais seis anos de detenção), de escrever argumentos, de dar entrevistas à comunicação social iraniana e internacional e de deixar o país, menos se for para fazer tratamentos médicos ou ir em peregrinação a Meca (Panahi disse recentemente que pode sair do Irão, mas que não o faz por saber que não o deixarão voltar).

O seu compatriota e autor, historiador e professor Hamid Dabashi escreveu: “Panahi não faz o que lhe dizem. Na verdade, ele construiu uma carreira de sucesso a não fazer o que lhe dizem.” E insiste. Apesar da proibição, e porque as autoridades iranianas fazem vista grossa, são manifestamente incompetentes ou sabem do enorme prestígio internacional de que goza o realizador e abstém-se de mais represálias, Jafar Panahi, aproveitando também a portabilidade das câmaras digitais, já fez quatro filmes desde que foi condenado, quer dentro, quer fora de portas: “Isto não é um Filme” (2011), “Closed Curtain” (2013), “Táxi” (2015) e agora “3 Rostos”, todos exibidos e premiados em grandes festivais internacionais, e distribuídos comercialmente por todo o mundo.

Em “3 Rostos”, Panahi volta a pegar num volante, já não de um táxi como no filme anterior, mas sim de um jipe todo-o-terreno. Leva companhia, a grande atriz iraniana Behnaz Jafari, e vão ambos numa viagem claramente reminiscente das que fazem os protagonistas de alguns dos filmes de Abbas Kiarostami, de quem o realizador foi assistente e discípulo. Jafari recebeu um vídeo feito num telemóvel em que Marziyeh (Rezaei Marziyeh), uma jovem aspirante a atriz que vive numa remota aldeia junto à fronteira com o Azerbaijão, diz que a família não a deixa seguir o seu sonho e parece suicidar-se por enforcamento numa caverna. Preocupadíssima, Jafari arrebanhou Panahi para a conduzir até lá e averiguar da veracidade do vídeo e saber se a rapariga é morta ou viva.

Uma vez chegados, realizador e atriz começam a investigar, vivem algumas peripécias cómicas, insólitas e dramáticas, e conhecem quer a hospitalidade e generosidade dos locais, quer a forma como tradições e costumes ancestrais continuam profundamente enraizados no Irão rural, e constrangem aqueles que têm aspirações que fogem à norma e ao que é esperado deles. Em “3 Rostos”, Jafar Panahi continua a documentar os problemas e os males da sociedade iraniana (que aqui vão das queixas e carências dos habitantes da aldeia até à situação das mulheres), ao mesmo tempo que filma três mulheres, duas atrizes e outra que quer sê-lo, pertencentes a gerações diferentes, cada uma correspondendo a uma época específica da história recente do Irão, e do próprio cinema iraniano, passado, presente e futuro.
Temos Behnaz Jafari, a vedeta da atualidade, que é recebida com aplausos e pedidos de autógrafos e “selfies” mesmo naquele sítio recôndito; temos a velha atriz dos tempos pré-revolucionários, uma estrela da época do Xá, presença enigmática que o realizador só filma à distância e de costas, e que ali se foi refugiar para pintar; e temos a jovem Marziyeh, que deseja ardentemente sair dali e ser atriz em Teerão apesar dos obstáculos que lhe são postos (paradoxalmente, o Irão tem um “star system” e Behnaz Jafari é acolhida de forma entusiástica na aldeia, mas a filha da terra é chamada de “saltimbanca” por querer ir para o Conservatório, e o irmão reage como se ela tivesse anunciado que se ia prostituir para a capital), e a quem Panahi deixa uma réstia de esperança no plano final (o que lhe custa um para-brisas estilhaçado).
E há ainda, “last but not least”, o próprio Jafar Panahi, que volta aqui a pôr-se em cena e a esbater a linha entre realidade e ficção, num filme onde, mais uma vez, à intolerância que sobre ele pesa e às condições também elas constrangedoras da rodagem, contrapõe o seu conciso virtuosismo cinematográfico e impõe a coragem, a generosidade e o humanismo do seu olhar.

 

 

4 de Junho, 19h: “Girl: O Sonho de Lara”

Realização: Lukas Dhont

Intérpretes: Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart

HOL/BEL, 2018, 109′  M/14

A determinada Lara, de 15 anos de idade, está empenhada em tornar-se bailarina profissional. Com o apoio do pai, mergulha nessa busca pelo absoluto na sua nova escola. As frustrações adolescentes de Lara e a sua impaciência aumentam quando percebe que o seu corpo não obedece facilmente àquela rígida disciplina porque ela nasceu rapaz.

 

Realismo à flor da pele
“Girl” segue a história de Lara que já se chamou Victor — distinguido em Cannes com a Câmara de Ouro, esta primeira longa-metragem de Lukas Dhont é um dos grandes filmes de 2018.

Eis um filme que, de forma mais ou menos inevitável, será visto como um sintoma das muitas discussões sobre as diferenças de género, transversais aos espaços da legislação, da política, dos usos e costumes.

E há razões para isso: este prodigioso “Girl” é, afinal, a história de Lara, rapariga que nasceu num corpo de rapaz (de nome Victor) e, através de um labirinto de alegrias e angústias, vive o seu processo de mudança de sexo.

Ainda sim, quanto mais não seja por uma questão de valorização dos filmes enquanto objectos de cinema (e não apenas através dos “temas” que convocam), importa dizer que tal valor sintomático está longe de esgotar a beleza, a serenidade e também as vibrações emocionais desta primeira longa-metragem do belga Lukas Dhont (distinguida com a Câmara de Ouro do Festival de Cannes de 2018).

Estamos muito longe das ficções militantes que, mesmo quando informadas pelo mais cândido discurso de exaltação das diferenças humanas, tendem a encerrar as personagens em esquemas “desmonstrativos” — como se a vida íntima dessas personagens se reduzisse a uma banal câmara de eco de debates públicos (mais ou menos televisivos).

Reeencontramos em “Girl” as razões de um realismo à flor da pele em que cada momento acontece através de uma peculiar vibração dramática. Lukas Dhont sabe filmar olhares, gestos e silêncios com a serena arte de quem procura a verdade radical de um ser que enfrenta as convulsões da sua própria identidade. O actor principal, Victor Polster, afirma-se, aliás, como um exemplo raro de encarnação radical de uma personagem — dir-se-ia que podemos contemplar os elementos conscientes e inconscientes da sua história desenhados nas nuances de um só corpo.

Fica, enfim, uma celebração e uma nota de desencanto: primeiro, reconhecendo que as convenções comerciais do “cinema-de-Natal” não excluíram a presença nas salas de um objecto tão precioso como “Girl”; depois, questionando as regras (ou a falta delas) que fazem com que, globalmente, o mercado tenha perdido a capacidade de dar a devida visibilidade a filmes como este.

Como defender — entenda-se: promover — os filmes que, como “Girl”, não se enquadram nos padrões dominantes do marketing? Eis uma interrogação que foi pontuando o ano de 2018. Eis uma dúvida que, incomodamente, se transfere para 2019.

Crítica de João Lopes

ENTRADA LIVRE

 

 

28 de Maio, 19h: “À Sombra do Vulcão – in memoriam Albert Finney”

Realização: John Huston

Intérpretes: Albert Finney, Jacqueline Bisset, Anthony Andrews

MEX/EUA, 1984, 120′  M/14

Huston voltou às grandes adaptações literárias com a obra prima de Malcolm Lowry, comprovando, em Under The Volcano, a sua capacidade para filmar romances tidos como infilmáveis. Fê-lo no México, da sua eleição, onde Lowry situa a acção do seu romance, centrado na personagem de um cônsul britânico.

Texto: Cinemateca Portuguesa

À Sombra do Vulcão, de John Huston

Ao confessar seu desejo de ir embora, com exaltação, o cônsul aposentado Geoffrey Firmin logo volta atrás. Ele é inconsistente, não consegue manter a palavra. Seu universo é outro, no qual se deixa levar pela força da bebida. É alcoólatra.

Está no México – antes sozinho, depois com a mulher e o meio-irmão. Em algum momento, perdeu-se: tem dos outros o olhar de compaixão, como se olhassem ao homem que um dia foi. Em À Sombra do Vulcão, resta ao espectador apenas o presente, o alcoólatra e falastrão.

Há nele uma poesia perdida, alguém à velha moda do macho, um Hemingway quase levado à fraqueza, em meio a mexicanos estranhos e inconfiáveis.
Como lembra Paulo Francis, em um texto sobre o cineasta, “o cinema de Huston é macho, como ele”. Geoffrey tem essa gênese pouco a pouco enfraquecida, trêmula devido às intermináveis doses de bebida, às garrafas que acumula por todos os cantos.

Sabe-se ainda cedo, na abertura de À Sombra do Vulcão, que se trata de um homem condenado: aquele é o último dia de sua vida, com a mulher, o meio-irmão, nazistas, ciganas, prostitutas, artistas vestidos de deuses e diabos, além de atiradores.

Com seu terno branco, bengala, moedas sempre à mão, Geoffrey caminha entre túmulos. É o Dia dos Mortos. Esse culto flerta com o protagonista, dele não pode escapar. No cinema da cidade, o filme em cartaz é Dr. Gogol – O Médico Louco, justamente sobre a morte inescapável.

A partir do famoso livro de Malcolm Lowry, com roteiro de Guy Gallo, Huston leva o espectador a acompanhar o caminhar dessa personagem curiosa. Após passar por um bar, termina em uma festa, onde faz um discurso também sobre mortos.

Se devem ser cultuados, então que seja com bebida e exagero, parece pensar esse homem de exageros comuns. Gritos também. Seu sofrimento é tapado, escapa por outros espaços. Ele é alma desse grande filme, ainda que esta lhe falte.
Pelos outros, talvez seja possível ver alguma grandiosidade: sua mulher, a bela Yvonne (Jacqueline Bisset), observa-o com amor, ou com pena. Ela encontra nele o que ninguém vê, o outro homem oculto, e seus olhos mostram essa glória perdida.

Pois é nessa dificuldade de enxergar que o filme dribla o drama esperado, também as palavras de sofrimento. É no estado do macho que reside sua força e também toda sua fraqueza: o mergulho incontrolado nas bebedeiras, a fuga a lugar algum.

Sem enxergar, prestes a morrer, é também o homem à beira das transformações da Segunda Guerra Mundial. Ou seja, à beira do vulcão que logo deve acordar. O cônsul britânico de velhas roupas, à moda antiga, será então parte do passado.
O homem em cena é cidadão do mundo, o estrangeiro, o bêbado. Quando a nacionalidade de Rick é questionada, ao longo de Casablanca, ele tem a resposta perfeita: “Sou um bêbado”. Poderia ter saído da boca de Geoffrey.

Para vivê-lo, Huston escalou Albert Finney, um dos melhores atores de sua geração, alguém cuja fúria e malicia caminham lado a lado. Pode beijar o asfalto e, pouco depois, levantar com felicidade, com o rosto sujo de terra e sacar uma garrafa da mão da primeira pessoa que passa pela rua. Move-se assim para viver.
Huston adorava lugares distantes, exóticos, regados a rodas de bebedeira.

Francis de novo: “bebia como um gambá e fumava adoidado”. Adorava retratar os excessos, com gente perdida em terras distantes, apostadores e ambientes decadentes. São os locais que servem Geoffrey à perfeição em seu dia derradeiro.

21 de Maio, 19h: “As Asas do Desejo”

 

asas-do-desejo

Realização: Wim Wenders

Intérpretes: Bruno Ganz, Solveig Dommartin, Otto Sander

Alem/1987, 128′ M/12

Na programação especial que a Leopardo Filmes dedica a Wim Wenders, em cópias restauradas pela Fundação Wim Wenders, exibe-se agora As Asas do Desejo, possivelmente o filme mais marcante do cineasta alemão, aclamado em todo o mundo e vencedor do prémio de realização em Cannes, em 1987, numa altura em que já passou pelas salas o magnífico O Estado das Coisas, de 1982. Convém talvez precisar que antes de Asas Wenders já tinha havia feito o documentário Tokyo-Ga, dedicado a Ozu, e sobretudo Paris, Texas, de 1984, vencedor da Palma de Ouro, e cuja reposição está prevista para 16 de fevereiro. Já que aqui estamos, refira-se também uma outra reprise, a de A Mulher Canhota, de 1978, prevista para 9 de fevereiro, seguramente um filme importante para acompanhar com o que agora estreia, já que se trata da estreia do escritor Peter Handke, autor do guião de Asas.

Se é verdade que Wenders regressou a Cannes, agora com redobrado estatuto de culto, é ainda mais marcante este seu regresso a Berlim, uma cidade agonizante fotografada com o contraste marcado de Henri Alekan, responsável, por exemplo, pela fotografia de A Bela e o Monstro, de Cocteau, em 1946. É precisamente aqui que o cineasta alemão nos eleva à altura dos anjos para captar o tecido urbano de uma urbe ainda apertada pelo incompreensível cinto de betão que a dividia em duas partes. Muro esse que estaria prestes a ser derrubado, em 89, e que dividia um povo amaldiçoado e aturdido, descrito pela narrativa circular de Peter Handke a gritar por um novo olhar – a criança, quando criança, não tinha opinião sobre nada. Sim, este é um filme sobre uma Europa unida antes da queda do Muro.

O exercício narrativo contemplativo é amplamente conseguido ao tricotar a história ancestral dos anjos, passado pela memória da destruição de Berlim e a presente divisão geográfica, intrometendo ainda a história da rodagem de um filme – Wenders aparece como o assistente de realização (no filme verdadeiro é Claire Denis) – e a possibilidade de uma trama defendida pela personagem picaresca de Colombo obviamente fundida na pele de Peter Falk. No alto, os anjos observam e fazem o que podem pelos dramas e dilemas terrenos.

Enquanto recordam os primórdios do tempo, Damiel (Bruno Ganz) escuta e questiona-se sobre as possibilidades da vida humana, ansiando mesmo poder sentir o calor de um aperto de mão ou até o sabor do café sugerido por Falk, Colombo (não te vejo, mas sei que estás aí), acabando mesmo por ceder à mortalidade pela possibilidade da descoberta do amor por uma trapezista (Solveig Dommartin) com ‘asas de galinha’ num circo falido, o circo Alekan, em homenagem ao DdF; Cassiel (Otto Sander) é bem mais hesitante sobre essa possibilidade terrena, no seu deambular pela cidade tocando nos transeuntes, escutando o pensamento cinzento como a cidade.

No entanto, a cor irá tingindo essas sombras, à medida que a vida se irá sobrepondo, primeiros em pequenos flashes, a este pesadelo vivido por anjos.  Estará já em todo o seu esplendor com a passagem da equipa de Wenders num concerto de Nick CaveUm momento forte, ainda que algo desfasado e com o sabor a promoção do artista, com uma plateia entregue às vagas ondulantes de The Carny. É também aqui quando se unem as asas do desejo do anjo pela trapezista.

Quase três décadas depois, Asas dos Desejo ganhou já o estatuto de clássico, e ficou pouco marcado pelo tempo. Bem ao contrário do remake Cidade dos Anjos, feito dez anos depois, com Nick Cage e Meg Ryan a reviverem o romance etéreo. O fosso da História é implacável quando nos mostra o fosso aberto no coração de uma Berlim dividida a motivar o desconsolo do ator veterano Curt Bois (ele que entrou em Casablanca), aqui a despedir-se no seu derradeiro filme, ao interrogar-se, cansado, num sofá no meio de terra e lama “é isto a Potsdamer Platz?”, hoje o coração do festival de Berlim.

Paulo Portugal para Insider