21 de Fevereiro, 19h: “A Comuna”

 

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Realização: Thomas Vinterberg

Intérpretes: Ulrich Thomsen, Fares Fares, Trine DyrholmHelene Reingaard Neumann

SUE/DIN, 2016, 111′, M/14

Dinamarca, década de 1970. Erik e Anna (Ulrich Thomsen e Trine Dyrholm, respectivamente) mudam-se com a filha para uma enorme casa pertencente à família dele, num dos bairros mais chiques de Copenhaga. Considerando o tamanho da habitação e um desejo antigo de viver em comunidade, o casal resolve criar uma comuna onde poderá partilhar não apenas o espaço, mas também ideias e formas de estar. É assim que vão conhecendo novas pessoas, diferentes de si em muitos aspectos mas idênticas no modo como anseiam levar a vida. Com o tempo, a casa torna-se um espaço comum, onde a amizade, a solidariedade e a tolerância predominam. Tudo corre como o esperado até ao momento em que Erik, com a autorização de Anna, traz a sua jovem amante para viver com eles…
Em competição no Festival de Cinema de Berlim – onde Trine Dyrholm arrecadou o Urso de Prata de Melhor Actriz –, um filme com realização do dinamarquês Thomas Vinterberg (“A Festa”, “Querida Wendy”, “A Caça”), com argumento seu e do compatriota Tobias Lindholm (realizador e argumentista de “Uma Guerra” que, em 2015, mereceu uma nomeação para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro).

 

Da utopia ao realismo

Thomas Vinterberg, companheiro de Lars von Trier no movimento ‘Dogma’, está de volta com “A Comuna”, sobre um grupo de adultos que decide construir uma comunidade livre — são memórias desencantadas da década de 1970.

O título do novo filme do dinamarquês Thomas Vinterberg, “A Comuna”, envolve, como é óbvio, uma calculada ironia. Isto porque não se trata de evocar a efémera experiência revolucionária da Comuna de Paris, em 1871, mas sim de colocar a acção numa espécie de rima simbólica (cerca de um século mais tarde), observando as atribulações de um grupo de adultos que decide construir um ideal comunitário numa casa em cuja gestão todos participam.

Há uma espécie de lógica paródica que serve para introduzir a acção — afinal de contas, numa das primeira reuniões (em que cada um vota de braço levantado), um dos temas a tratar é a administração do número de cervejas disponíveis na casa… O certo é que, a pouco e pouco, aquilo que parecia transparente e utópico vai sendo sujeito a uma dramática prova de real: ninguém parece ter pensado que as relações afectivas (e sexuais) não se deixam gerir por regras mais ou menos voluntaristas.

Através de uma desarmante frieza realista, Vinterberg vai construindo uma espécie de “reportagem” sobre este universo que, por assim dizer, se vê compelido a contemplar-se no espelho das suas empenhadas ilusões. Herdeiros das ilusões mais ou menos libertárias dos anos 60, as personagens de “A Comuna” descobrem que o destino é algo mais do que uma mera agenda de comportamentos.

De alguma maneira, Vinterberg regressa, assim, ao filme que o popularizou a nível internacional: “A Festa” (1998), realizado no âmbito do célebre movimento ‘Dogma’ (ou ‘Dogma 95’), arquitectado com vários companheiros dinamarqueses, incluindo Lars von Trier. Para ele, o essencial decorre da minuciosa atenção às diferenças e contradições dos comportamentos humanos, além do mais contando com um leque admirável de actores — Ulrich Thomsen, Tryne Dyrholm e Helene Reingaard Neumann são apenas alguns dos que nos levam a recordar que a mais nobre tradição escandinava passa, obviamente, pela arte de representar.

Crítica de João Lopes

 

14 de Fevereiro, 19h: “Ela”

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Realização:Paul Verhoeven

IntérpretesIsabelle HuppertLaurent LafitteAnne Consigny

ALE/FRA/BEL, 2016,, 130′ M/14

Michele (Isabelle Huppert) é uma mulher forte e determinada que sempre soube o que fazer à sua vida. A sua forma de ser tanto se aplica aos afectos como às responsabilidades enquanto chefe-executiva de uma grande empresa. Um dia, é atacada e violada por um homem mascarado, na sua própria casa. Em vez de chamar a polícia ou entrar em desespero, Michele limpa os estragos, toma banho e arquitecta um plano de vingança. Entre ela e o criminoso dá-se então início a um perigoso jogo de perseguição que depressa fica fora de controlo.

Um conto moral com Isabelle Huppert

Foi um dos momentos altos do ultimo Festival de Cannes: “Ela“, de Paul Verhoeven, chega às salas portuguesas, com aquela que é, seguramente, uma das grandes interpretações do ano — ela é Isabelle Huppert.

 

Quais as actrizes mais universais do cinema contemporâneo? Podemos fazer uma lista (não muito longa…) que será, quase inevitavelmente, liderada pela americana Meryl Streep. Seja como for, nos lugares de honra encontraremos, por certo, o nome da francesa Isabelle Huppert. Aliás, para além da questão fulcral do talento, vale a pena sublinhar que Huppert está a ser seriamente encarada como alguém que estará na corrida a uma nomeação para o próximo Oscar de Melhor Actriz (foi nomeada e, entretanto, já ganhou o Glogo de Ouro).

O “culpado” de tudo isso é o magnífico filme do holandês Paul Verhoeven, “Elle” — e saudemos o facto de, entre nós, se ter evitado um título mais ou menos “simbólico”, chamando-lhe apenas, sobriamente, “Ela”.

Que se passa, então? Ela é violada. É a cena de abertura do filme, fria, contudente, sem especulação. E escusado será dizer que tudo se vai gerar a partir daí — quem é aquele homem que irrompeu pela casa de Michèle (Huppert), agredindo-a e humilhando-a?

O que faz de “Ela” um filme realmente diferente é o facto de Verhoeven transfigurar os dados da situação, evitando qualquer vitimização fácil da protagonista e, ao mesmo tempo, devolvendo ao espectador, em formato de conto moral, o novelo da questão — quando Michèle arquitecta a sua vingança, de que modo vacilam as matrizes tradicionais do masculino e do feminino?

Dir-se-ia que Verhoeven regressa ao dispositivo do seu filme mais famosos: “Instinto Fatal” (1992), com Sharon Stone. Mais do que apaziguar a nossa visão através de uma “reposição” da ordem, o seu filme transcende o enigma policial e pergunta que valores sustentam essa ordem.

Huppert é genial na representação de tudo isso e das ambivalências que isso tudo envolve. Por um lado, partilhamos o seu desejo de reparação face à violência de que foi vítima; por outro lado, quanto mais a acção avança mais Michèle nos surge como uma máscara que não sabemos decifrar.

Foi um dos grandes filmes de Cannes/2016, capaz de nos fazer compreender, de modo inesperado e perturbante, a estranheza do nosso tecido social — sempre, convém não esquecer, com um bizarro e contagiante toque de humor.

Crítica de João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

7 de Fevereiro, 19h: “Páro quando Quiser – Génios à Rasca”

 

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RealizaçãoSydney Sibilia

IntérpretesEdoardo LeoValeria SolarinoValerio Aprea

ITA, 2014, 100′ M/12

Pietro Zinni é um engenheiro químico com provas dadas que, devido a cortes de orçamento na universidade onde sempre trabalhou, perde a bolsa de investigação. De um momento para o outro, este homem de 37 anos vê-se sem forma de sustento. É então que, ao perceber o preço dos estupefacientes, decide criar uma nova droga sintética que satisfaça as necessidades do mercado. Para tornar o negócio mais aliciante e lucrativo, convida para o seu novo “gang” uma série de colegas de várias áreas académicas que, apesar do seu brilhantismo, se debatem com a mesma precariedade. Os conhecimentos sobre macroeconomia, neurobiologia, antropologia, humanidades ou arqueologia revelam-se extraordinariamente úteis para esta nova actividade. De um momento para o outro, eles descobrem um mundo cheio de potencialidades, que lhes promete uma margem de lucro astronómica. O problema surge quando estes académicos pouco experientes no crime se vêem obrigados a lidar com os “verdadeiros” barões da droga…
Uma comédia italiana realizada por Sydney Sibilia, segundo um argumento seu e de Valerio Attanasio. Edoardo Leo, Valeria Solarino, Valerio Aprea, Paolo Calabresi, Libero De Rienzo, Stefano Fresi ou Lorenzo Lavia são alguns dos actores a dar vida a esta história. PÚBLICO

«Smetto quando voglio» (Páro Quando Quiser – Génios à Rasca) por Roni Nunes

O “páro quando quiser” do título refere-se às drogas, que passam a ser o centro da acção quando um grupo de investigadores universitários, afligidos pela falta de trabalho, resolve vender nas discotecas um estupefaciente inventado por um deles, Bartolomeo (Libero De Rienzo). Ele aproveita uma falha na legislação e os seus vastos conhecimentos de química para criar uma droga perfeita, reunindo os seus colegas para formar um gangue.

Para contar essa história, o realizador Sydney Sibilia, na sua primeira longa-metragem, carregou o visual do seu filme de cores fortes, edição acelerada, momentos cómicos e uma panóplia de imitações e referências a Hollywood – desde a montagem rápida, a aceleração de imagens e o slow motion – para além de recursos facilmente encontráveis em heist movies e em obras de cineastas como Guy Ritchie e o incontornável Quentin Tarantino.

Smetto quando Voglio parte de um pano de fundo social perfeitamente credível – somando-se a mais um exemplar que revela uma Itália convulsa de forma cinematograficamente atraente. Sempre divertido, traz uma crítica inequívoca a um contexto onde os grandes cientistas, em função dos cortes para pesquisas, são obrigados a trabalhar como empregados de mesa, nas bombas de gasolina ou a viver de expedientes mais ou menos ilegais.

Não deixa de ser notável como o vigoroso cinema italiano dos últimos anos consegue ser extremamente crítico, inteligente e, quando se propõe a ser cómico, efectivamente engraçado. Alguns lugares-comuns e umas piadas infelizes não arranham o resultado final. Um exemplo que bem podia ser seguido por estes lados quando voltar a existir cinema português.

 

O Melhor: cómico e crítico ao mesmo tempo

O Pior: alguns lugares-comuns e umas piadas infelizes

 

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31 de Janeiro, 19h: “Taklub”

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RealizaçãoBrillante Ma Mendoza

IntérpretesNora AunorJulio DiazAaron Rivera

Filipinas, 2015, 97′ M/12

A passagem do supertufão Haiyan passou por Tacloban, na região central das Filipinas, deixou um rasto de morte e destruição. Com ventos a atingir os 379 km/h e ondas de 15 metros de altura, foi um dos tufões com mais intensidade alguma vez registados – classificado na categoria cinco, a mais elevada na escala de Saffir-Simpson. Nesse cenário de devastação, várias personagens vão ver as suas vidas entrecruzar-se: Bebeth tenta identificar três dos seus filhos através de análise ao ADN dos corpos sepultados em valas comuns; Larry, que perdeu a mulher, encontra consolo ao aderir a um grupo de católicos devotos que carregam uma cruz pelas ruas da cidade; Erwin procura esconder da irmã mais nova a morte de ambos os pais. Ao mesmo tempo que tentam lidar com a perda, cada um vai ter de enfrentar uma série de acontecimentos que constantemente põem à prova a sua fé e ameaçam fazer desaparecer, para sempre, a esperança no futuro.
Um filme dramático realizado por Brillante Ma Mendoza (“Kinatay”, “Lola”, “Cativos”) segundo um argumento de Honeylyn Joy Alipio, que tem como cenário o rasto do supertufão Haiyan, que devastou as Filipinas em Novembro de 2013. PÚBLICO

Entre documentário e ficção

Brillante Mendoza continua a filmar os dramas do seu país, Filipinas, desta vez evocando a destruição gerada por um tufão: “Taklub” é um exemplo modelar de inscrição dos actores numa narrativa com muitas componentes documentais

Através de títulos como “Kinatay” ou “Lola” (ambos de 2009), o filipino Brillante Mendoza tem colocado o seu país no mapa internacional do cinema, nomeadamente através de emblemáticas presenças em grandes festivais — “Kinatay”, por exemplo, valeu-lhe o prémio de melhor realizador em Cannes.

Agora, podemos reencontrar o seu trabalho, sempre a meio caminho entre documentário e ficção, através de “Taklub”, uma realização de 2015 que dá conta da devastação gerada pela passagem do tufão Haiyan, em 2013.

O filme estava para ser, precisamente, um documentário puro, dando conta da destruição de vidas e habitações — e, em particular, da resistência dos sobreviventes. O certo é que Mendoza preferiu criar uma teia narrativa de calculada ambiguidade, em que a constatação dos estragos vai a par de uma ficção construída com actores.

Nora Aunor, a intérprete principal, assume a personagem de uma mulher que, através de análises de ADN, tenta perceber se os seus filhos estão, ou não, entre os muitos cadáveres. O resultado é um filme que surpreende pela crueza do testemunho, tanto quanto pela vibração emocional das relações humanas — um bom exemplo da vitalidade contemporânea do(s) realismo(s).

Crítica de João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

24 de Janeiro, 19h: “A Toca do Lobo”

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Argumento e RealizaçãoCatarina Mourão

Fotografia: Catarina Mourão João Ribeiro

Montagem: Pedro Duarte Catarina Mourão

Produção: Maria Ribeiro SoaresCatarina Mourão

POR, documentário, 2015, 102′

Catarina Mourão tem-se afirmado como um dos olhares mais delicados do cinema português. Depois de “Pelas Sombras”, um retrato da artista Lourdes Castro exibido no Indielisboa 2010, a realizadora centra-se agora numa outra figura da vida cultural portuguesa: o escritor e seu avô Tomaz de Figueiredo. Um olhar que abre as portas secretas de uma vida que deixou apenas o seu trabalho para a memória dos seus filhos e dos seus netos, tal como de uma família que se viu separada pela sua morte e marcada pelo dia-a-dia de um país ditatorial – um país duramente percorrido por quem escreveu sobre ele. Na sua antiga casa, vivem os segredos e os acontecimentos que nos falam, hoje, por um quarto fechado à chave – um quarto aberto pela câmara da realizadora e pelo movimento deste filme: a nossa intimidade.

 

“A Toca do Lobo” é o nome do romance mais conhecido de Tomaz de Figueiredo (1902-1970), escritor português que dirá pouco à maioria dos leitores de hoje, e avô de Catarina Mourão, que esta não conheceu. A ‘odisseia familiar’ a que nos referimos é a da realizadora. À partida, julgamos estar perante um invulgar álbum íntimo que vai unir quatro gerações da mesma família, recuando a uns anos 40 em que esta vivia confortavelmente em Lisboa, em pleno Estado Novo. Contudo, à medida que as dúvidas da cineasta se vão entrelaçando, levando-a a recorrer a material de arquivo (de home movies descobertos por acaso a uma ‘visionária’ entrevista a Tomaz de Figueiredo feita nos anos 60 para um programa da RTP), é a um fundo de thriller que o filme se entrega: em que circunstâncias, envoltas em segredo, terminou o avô os seus dias? Porque se separou ele da mãe da cineasta a dada altura? Porque não falam mãe e tia há mais de três décadas? E o que aconteceu ao tio, um resistente ao fascismo, preso pela PIDE, de quem a família evitava falar? Neste inquérito pessoal, necessariamente afetivo, “A Toca do Lobo” supera, afinal, o seu registo autobiográfico, revelando tabus e não-ditos de uma vida portuguesa sob a ditadura, bem como as suas consequências no presente.
[Fonte: Francisco Ferreira, Revista E do Expresso de 07-02-2015]  

 

Uma investigação familiar abre as portas ao passado

A Toca do Lobo é uma aproximação pessoal e documental à lógica, quase onírica, do melodrama. O melhor filme de Catarina Mourão desde A Dama de Chandor.

Uma investigação familiar que é, em primeiro lugar, um belo exercício sobre a “materialização” da memória (encontrada em objectos, documentos, fotos, filmes trazidos para dentro do filme) e o confronto com a sua “verbalização” (a voz off da realizadora, e sobretudo a presença da sua mãe).

É pelo encadeamento destes elementos, pela “textura” assim criada, que A Toca do Lobo adquire uma dimensão cinematográfica sólida, palpável, material. Mas depois há o mistério, o buraco criado por essa memória, como um movimento do particular para o geral, do pessoal para o colectivo, a criar também uma relação com a História – e é aí que A Toca do Lobo se completa.

Pensamos, e só será estranho para quem não vir o filme, naqueles “melodramas sombrios” da Hollywood antiga, onde objectos, tantas vezes um quadro ou um retrato, eram a porta para um passado que regressava em vagas fantasmáticas e inexplicadas: A Toca do Lobo é uma aproximação pessoal e documental à lógica, quase onírica, desse melodrama, e porventura o melhor filme de Catarina Mourão desde A Dama de Chandor.

Luis Miguel Oliveira, in Cinecartaz Público