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15 de Novembro, 19h: “Regresso a Ítaca”

regresso-a-itacaRealização: Laurent Cantet

Intérpretes: Isabel Santos, Jorge Perugorría, Fernando Hechavarria

FRA/BEL, 2014, 95′ M/14

Um terraço em Havana. Cinco amigos encontram-se para festejar o regresso de Amadeo, depois de 16 anos de exílio. Do pôr ao nascer do sol, falam da juventude, da fé no futuro que tinham… mas também da desilusão do presente.
Um olhar francês sobre as memórias de CubaConsagrado em Cannes, em 2008, com “A Turma”, Laurent Cantet continua a ser um autor impossível de encaixar em qualquer imagem definitiva — agora, através de “Regresso a Ítaca”, apresenta um desencantado retrato de Cuba e, em particular, das suas memórias revolucionárias.

Laurent Cantet é um cineasta desconcertante — no melhor sentido, entenda-se. De facto, não parece possível encerrá-lo em qualquer padrão temático, de tal modo a sua obra vai ziguezagueando através das referências mais variadas. Ele é o autor de “A Turma”, visão desencantada do dia a dia de uma escola que lhe valeu a Palma de Ouro de Cannes/2008, mas é também, por exemplo, o arqueólogo cultural que, em “Foxfire” (2012), faz um retrato acutilante da década de 1950, nos EUA.

Com “Regresso a Ítaca”, Cantet tem como aliado o escritor cubano Leonardo Padura para construir uma ficção em que a linearidade do tempo se combina, de modo inesperado, com os ziguezagues da memória. Mais concretamente, esta é a crónica do reencontro de cinco amigos cubanos, motivado pelo regresso de um deles, depois de um período de 16 anos exilado em Espanha — tudo começa a meio da tarde de um dia para terminar no nascer do sol do dia seguinte.

“Regresso a Ítaca” é um daqueles filmes em que sentimos algo tão intenso quanto enigmático: na enérgica troca de palavras que motiva a recepção ao exilado, vamos detectando os sinais de um passado em que o crescente desencanto político não pode ser dissociado das convulsões das relações pessoais, por vezes as mais íntimas. No limite, é o imaginário da revolução que surge metodicamente decomposto, dando lugar a um profundo desencanto.

Uma vez mais, Cantet revela essa capacidade invulgar de colocar em cena subtis elementos de natureza realista — apetece dizer: quase documentais — sem que isso contrarie, bem pelo contrário, os ecos sociais, políticos e simbólicos das suas narrativas. Neste caso, a rodagem na própria cidade de Havana empresta ao filme uma pulsação muito própria, enraizada na indesmentível verdade física do lugar.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

8 de Novembro, 19h: “Trumbo”

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Realização: Jay Roach

Intérpretes: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren, Michael Stuhlbarg

EUA, 2016, 124′ M/14

Nos anos 40, a carreira de sucesso do argumentista Dalton Trumbo (Bryan Cranston) chega a um fim quando ele e outras figuras de Hollywood entram na lista negra pelas suas convicções políticas. TRUMBO (realizado por Jay Roach) conta a história da sua luta contra o governo norte-americano e os patrões dos Estúdios, numa guerra pelas palavras e a liberdade, que envolveu todos em Hollywood, desde Hedda Hopper (Helen Mirren) e John Wayne, até Kirk Douglas e Otto Preminger. Um filme com um fantástico elenco onde, para além de Bryan Cranston e Helen Mirren, encontramos Diane Lane e John Goodman.
Revisitando a história de Hollywood

Grande argumentista do classicismo de Hollywood, Dalton Trumbo foi uma das personalidades perseguidas e marginalizadas durante a época “maccartista” — o filme de “Trumbo”, com Bryan Cranston no papel central, revisita as memórias de um tempo de muitas clivagens.

 

Como fazer a história de Hollywood, um território inevitavelmente marcado pelas grandezas e misérias do star system? Pois bem, recordando que nem só de estrelas se faz a história do cinema americano. “Trumbo”, uma realização de Jay Roach, é um filme que sabe ver Hollywood para lá das suas imagens mais gloriosas ou espectaculares. Como? Relançando o valor essencial da memória.

Memória de Dalton Trumbo (1905-1976), entenda-se, notável argumentista duas vezes distinguido com o Oscar: primeiro com “Férias em Roma” (1953), de William Wyler, depois com “O Rapaz e o Touro” (1956), de Irving Rapper. Acontece que o nome de Trumbo não surgia nos respectivos genéricos: no primeiro, a autoria do argumento era atribuída a outro escritor, Ian McLellan Hunter; no segundo, surgia o pseudónimo de Robert Rich…

Na verdade, Trumbo (interpretado por Bryan Cranston, nomeado para o Oscar de melhor actor) foi um dos profissionais de Hollywood que, no período do “maccartismo”, se viu marginalizado por ser membro do Partido Comunista dos EUA. A chamada “caça às bruxas”, desencadeada no início da Guerra Fria com o bloco soviético, colocou-o na Lista Negra de Hollywood, impedindo-o de trabalhar (ou, pelo menos, de utilizar o seu nome nos trabalhos que foi escrevendo).

Escusado será dizer que a complexidade de tal história se traduziu em muitas clivagens internas, com figuras célebres como o actor John Wayne (David James Elliott) ou a cronista de “escândalos” Hedda Hopper (Helen Mirren) a apoiarem a marginalização dos chamados “Dez de Hollywood” (na qual estava incluído o nome de Trumbo). Mais do que isso: a situação só foi ultrapassada no começo dos anos 60, durante a presidência de John F. Kennedy, quando Kirk Douglas, actor e produtor de “Spartacus” (Stanley Kubrick, 1960), assumiu publicamente que Dalton Trumbo era o autor do respectivo argumento.

Sem ser um filme formalmente inovador, “Trumbo” possui a enorme vantagem de respeitar os labirintos desta teia histórica, acima de tudo procurando fazer o retrato de uma indústria cinematográfica que, por assim dizer, reproduziu os conflitos ideológicos que marcavam a cena política americana e internacional. É um filme com personagens de carne e osso que, além do mais, aconselha a compreender Hollywood muito para além da sua descrição beata como “fábrica de efeitos especiais”…

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

25 de Outubro, 19h: “Francofonia”

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Realização: Aleksandr Sokurov

Intérpretes: Louis-Do de Lencquesaing, Benjamin Utzerath, Vincent Nemeth

HOL/ALE/FRA, 2015, 88′ M/12

1940. As tropas Nazis tomam conta da cidade de Paris (França). Jacques Jaujard (Louis-Do De Lencquesaing), director do Museu do Louvre, e o Comandante Franz Wolff-Metternich (Benjamin Utzerath), chefe da comissão alemã para a protecção das obras de arte em França, vêem-se obrigados a colocar as suas diferenças de parte e aliam-se para preservar os tesouros do museu. Assim, ao mesmo tempo que os exércitos arrasam a cidade, eles fazem o que podem para proteger algumas das mais importantes criações da Humanidade.
Com realização do aclamado realizador Aleksandr Sokurov (“A Arca Russa”, “Pai e Filho”, “Alexandra”, “Fausto”), um filme sobre um período negro da História europeia, onde se reflecte sobre a arte, o poder e a cultura e a importância dos museus na preservação da identidade humana. PÚBLICO
A história já não é o que era

Correspondendo a uma encomenda do Louvre, Aleksandr Sokurov filma o lendário museu de Paris — o resultado é um filme capaz de transcender as regras tradicionais de documentário e ficção.

É verdade — fazer filmes sobre a história, contar histórias da história da humanidade, não é o mesmo que acumular adereços “de época” e colocar os actores a fazer pose fingindo que estão a viver muitos séculos atrás. O cinema é, afinal, a arte de problematizar a própria encenação da história.

No limite, Napoleão pode ser representado por um actor contemporâneo, a deambular pelo Museu do Louvre, deslumbrando-se com os seus próprios retratos…

Esta hipótese “napoleónica” não é delírio do crítico, podem crer (aliás, o mesmo se poderá dizer em relação à possibilidade de representar Marianne, símbolo da República Francesa). Assim acontece no maravilhoso “Francofonia”, filme com que o russo Aleksandr Sokurov corresponde a uma encomenda do Louvre para fazer um filme sobre o… Louvre.

Através de um calculado misto de reflexão histórica e distanciação irónica, esta é uma viagem em que a pontuação documental serve para sustentar uma elaborada visão do património artístico — e também das complicações que a sua defesa pode envolver.

Sokurov aborda, em particular, os tempos da Segunda Guerra Mundial e, mais concretamente, o período da ocupação alemã, com o Louvre a ser co-dirigido por uma improvável aliança: de um lado, o director do museu, Jacques Jaujard (Louis-Do de Lencquesaing), do outro Franz Wolff-Metternich (Benjamin Utzerath), o oficial nazi designado para a gestão do património. Os dois protagonizam, afinal, um drama muito antigo: como garantir a sobrevivência das produções artísticas da humanidade? Mais do que isso: como construir memória(s) a partir do seu conhecimento?

Com a agilidade de um verdadeiro experimentador, Sokurov combina materiais de arquivo com sofisticados mecanismos de encenação, no limite levando-nos a questionar o que somos através da própria arte que contemplamos. Tal interrogação envolve inevitavelmente os valores da nossa identidade europeia — afinal, percorrer os espaços do Louvre é também deparar com as convulsões dessa identidade.

P.S. – Isto sem esquecer, claro, que o mesmo Sokurov já filmou o Museu do Hermitage, em São Petersburgo, nesse filme magnífico que é “A Arca Russa” (2002).

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

18 de Fevereiro, 19h: “Amor Louco”

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Realização: Jessica Hausner

Intérpretes: Christian Friedel, Birte Schnoeink, Stephan Grossmann

Áustria/ALE/LUX, 2014, 95 ‘  M/12

Berlim, 1811. Pouco depois de completar 34 anos, o poeta e escritor Heinrich von Kleist (Christian Friedel) enfrenta sérias dificuldades financeiras. Profundamente triste e amargurado, planeia pôr fim à própria vida e fazer da sua morte um momento de elevação e entrega ao amor eterno. Com isso em mente, convence Henriette Vogel (Birte Schnoeink), a esposa de um empresário seu conhecido, a juntar-se a ele naquele momento solene. Henrich leva o seu plano até ao fim e, no dia 21 de Novembro desse mesmo ano, junto às margens de um lago, dá um tiro em Henriette e depois em si próprio…
Com assinatura da realizadora austríaca Jessica Hausner (“Lovely Rita”, “Lourdes”), um filme sobre as ambivalências do amor, livremente inspirado na verdadeira história do poeta e escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811). Apresentado na secção “Un Certain Regard” do Festival de Cinema de Cannes, “Amor Louco” venceu o Prémio de Melhor Filme no Lisbon & Estoril Film Festival. PÚBLICO

Cinema da razão e da emoção
A relação trágica de Heinrich von Kleist e Henriette Vogel volta a interessar o cinema: “Amor Louco”, da realizadora austríaca Jessica Hausner, é uma viagem fascinante pelos enigmas do amor e da morte.
Como é sabido pelos registos históricos, a relação entre o escritor romântico Heinrich von Kleist (Christian Friedel) e Henriette Vogel (Birte Schnöink) está marcada por uma violenta pulsão de morte — para von Kleist, o consumar do amor só podia conduzir a uma aceitação extrema, afinal serena, do fim da existência neste mundo. Ou ainda: esta é uma história indissociável da dramática transição do séc. XVIII para o séc. XIX, num universo de pensamento em que os tradicionais equilíbrios entre razão e emoção surgem profundamente transfigurados.

Até certo ponto, o filme da austríaca Jessica Hausner, “Amor Louco”, pode definir-se como um objecto biográfico — trata-se, afinal, de encenar a aproximação de von Kleist e Vogel, pressentindo o seu trágico desenlace. Em todo o caso, nada permite confundi-lo com muitos retratos deterministas que, obedecendo a formatações de raiz televisiva, apresentam a vida artística (?) como uma ilustração mecânica de “temas” ou “tendências”.
Nem se trata, entenda-se, de fazer uma “reconstituição” histórica (aliás, a própria designação omite o facto de qualquer narrativa ser um elemento novo e singular, não uma “repetição” do que quer que seja).
Hausner filma, afinal, tudo aquilo, material ou imaterial, que aproxima e afasta o par de protagonistas — e tudo passa pelo poder imenso da palavra, neste caso associado ao encantamento da música que Vogel interpreta.
Daí a estranha e fascinante transparência de um filme como “Amor Louco”: por um lado, deparamos com um mundo em que todos os equilíbrios — entre senhores e criados, arte e sociedade, vida e morte — parecem estar previstos, racionalizados e controlados; por outro lado, von Kleist e Vogel vivem uma odisseia que, em última instância, desafia todas as suas relações (privadas e públicas). É o mais discreto dos filmes, inclusive na sua beleza radical.

João Lopes, in CineMax

 

 

 

26 de Julho, 19h: “O Homem Mais Procurado”

PSH

Realização: Anton Corbijn

Intérpretes: Rachel McAdams, Robin Wright, Philip Seymour Hoffman, Willem Dafoe

EUA/ALE/GB, 2014, 121′ M/12

Issa Karpov, filho de pai russo e mãe tchetchena, entra ilegalmente na Alemanha através do porto de Hamburgo. Issa pretende reclamar a herança paterna deixada no banco de um magnata. Para isso, e devido à sua condição precária de imigrante ilegal, apenas pode contar com o apoio de Annabel Richter, uma advogada idealista defensora acérrima dos direitos humanos, que se dedica a ajudar os mais desfavorecidos. Mas a chegada de Issa, considerado suspeito pelos serviços secretos internacionais, precipita a investigação do alemão Günther Bachmann e a pesquisa, iniciada pela norte-americana Martha Sullivan, sobre um pretenso financiador de terrorismo. A questão que se coloca é: será este homem uma vítima oprimida, como crê Annabel, ou um perigoso extremista com ligações ao terrorismo internacional?
Um “thriller” político, realizado por Anton Corbijn (“Control”, “O Americano”), sobre manipulação e poder, que conta com a participação dos actores Grigoriy Dobrygin, Willem Dafoe, Robin Wright, Rachel McAdams e Philip Seymour Hoffman (num papel memorável que ficará também marcado por ser a última aparição em cinema, antes da sua morte, em Fevereiro de 2014). “O Homem Mais Procurado” adapta ao grande ecrã a aclamada obra de John le Carré que, por sua vez, se inspira na história verídica de Murat Kurnaz. Cidadão turco e residente legal na Alemanha, foi capturado pelas autoridades norte-americanas – com conhecimento do Governo germânico – e levado para a base militar de Kandahar, no Afeganistão, seguindo posteriormente para a prisão de Guantánamo (na base naval norte-americana em Cuba). Durante o processo, ficou provado que Kurnaz esteve preso durante cinco anos sob nenhuma acusação legal. A sua libertação, em Agosto de 2006, aconteceu depois de um escândalo internacional. PÚBLICO

Viver e morrer em Hamburgo

Foi o filme final de um actor de génio chamado Philip Seymour Hoffman — “O Homem Mais Procurado”, dirigido por Anton Corbijn, aí está, retratando os labirintos da espionagem a partir de um romance de John le Carré.

Não creio que seja possível vermos um filme como “O Homem Mais Procurado” sem sentirmos um perturbante vazio — sabemos, afinal, que o seu protagonista, Philip Seymour Hoffman, veio a falecer poucos meses depois da respectiva rodagem (a 2 de Fevereiro de 2014, contava 46 anos), vítima de uma overdose.

Repare-se: não se trata de procurar “equivalências” entre a vida vivida e a vida representada — elas cruzam-se de forma inevitável —, mas sim de reconhecer um poder terrível, afinal gratificante, que o cinema pode envolver. É o poder de intensificar a própria vida, a ponto de um filme ser um território conquistado ao espaço da morte.
Aliás, a personagem de Hoffman, Günther Bachmann — um elemento dos serviços secretos da Alemanha a braços com a investigação de um suspeito proveniente do mundo árabe — é alguém que existe, por assim dizer, como um sobrevivente de um tempo outro, em que os segredos das nações não envolviam o trauma central da espionagem moderna. A saber: a herança do 11 de Setembro.
Respeitando por inteiro a lógica do romance de John le Carré em que se inspira, “O Homem Mais Procurado” revisita essa herança a partir de um lugar muito concreto: a cidade de Hamburgo. Foi lá que Mohamed Atta planeou os atentados do 11 de Setembro contra o World Trade Centre, em Nova Iorque, e os serviços secretos vivem, naturalmente, obcecados pela necessidade de não deixar repetir qualquer situação semelhante — é um desejo de vida todos os instantes assombrado pelas marcas da morte.
Confirmando a singularidade do trajecto do realizador Anton Corbijn — ele que começou com “Control” (2007), sobre Ian Curtis e os Joy Division, dirigindo depois o thriller “O Americano” (2010), com George Clooney —, “O Homem Mais Procurado” é, afinal, um regresso exemplar à tradição dos grandes labirintos da espionagem, ainda e sempre sustentado por um elenco invulgar, incluindo Robin Wright, Willem Dafoe e Nina Hoss. Num Verão de tanta banalidade “explosiva”, este é um dos filmes politicamente mais subtis — e também emocionalmente mais intensos.
Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

21 de Julho, 21.30h – Piscinas: “O Caso Spotlight”

Spotlight blog

RealizaçãoTom McCarthy

IntérpretesMark RuffaloMichael KeatonRachel McAdamsLiev SchreiberStanley TucciJohn Slattery

EUA, 2015, 129 ‘  M/12

O The Boston Globe descobre um gigantesco escândalo que envolve o abuso sexual de crianças e o encobrimento pela arquidiocese local. O resultado da investigação jornalística abalou os alicerces da Igreja Católica em todo o mundo.

Contra o jornalismo tablóide

Recuperando a tradição de Hollywood apostada em dar conta da complexidade do verdadeiro trabalho jornalístico, “O Caso Spotlight” é um dos mais importantes títulos americanos de 2015 —  nomeado para seis Oscars, incluindo melhor filme (que ganhou)

Decididamente, importa contrariar a visão estereotipada da produção cinematográfica americana como uma fábrica apenas orientada para os “blockbusters” que estamos habituados a ver nos lugares da frente da contabilidade das bilheteiras… Há mais mundos. E há muito mais filmes que importa não secundarizar.

Este ano, mais do que nunca, basta passar os olhos pela lista dos principais nomeados para os Oscars para pressentirmos essa fascinante diversidade. Com seis nomeações — incluindo uma para melhor filme e duas nas categorias secundárias de interpretação (Mark Ruffalo e Rachel MacAdams) —, realizado por Tom McCarthy, “O Caso Spotlight” é um dos títulos que, de forma brilhante, ilustra uma tradição vital na história de Hollywood: a abordagem de grandes temas sociais a partir do trabalho jornalístico.
Trata-se, assim, de seguir a odisseia de um grupo, denominado ‘Spotlight’ (o título português é algo equívoco), pertencente ao jornal The Boston Globe, investigando uma série de casos de pedofilia que viria a ter dramáticas repercussões, tanto nos EUA, como a nível internacional — em questão estão as agressões sexuais a crianças perpetradas por membros da Igreja Católica. A publicação de vários artigos sobre o assunto, iniciada em 2001, veio a receber um Prémio Pulitzer de excelência jornalística.
Que está em jogo, então? Digamos, acima de tudo, que isto não é um banal “talk show” em que se exibem as vítimas para suscitar as mais primárias reacções de piedade. “O Caso Spotlight”, a meio caminho entre a crónica social e o “thriller”, segue, ponto por ponto, a investigação jornalística, expondo em particular a dificuldade de encontrar o tempo certo para uma decisão fulcral. A saber: quando chega o momento em que a acumulação de informações devidamente avalizadas pode (e deve) passar para a página do jornal, quer dizer, para o domínio público.
Em tempos de triunfo da irresponsabilidade do jornalismo tablóide, este é um filme apostado em mostrar e demonstrar que o genuíno trabalho jornalístico envolve, sempre, a capacidade de lidar com a complexidade do mundo e das relações humanas. Reencontramos, assim, uma tradição que passa por títulos como “O Grande Escândalo” (Howard Hawks, 1940), “América, América para Onde Vais?” (Haskell Wexler, 1969) ou “Os Homens do Presidente” (Alan J. Pakula, 1976) — “O Caso Spotlight” é um legítimo herdeiro da nobreza desses filmes.

João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

 

 

 

19 de Julho, 19h: “Três Recordações da Juventude”

Trois souvenirs de ma jeunesse blog

Realização: Arnaud Desplechin

Intérpretes: Quentin DolmaireLou Roy-LecollinetMathieu Amalric

FRA, 2015, 123 ‘  M/14

Paul Dédalus é um antropólogo de quarenta anos, que está de volta a França depois de uma longa ausência. Graças a este regresso, Paul relembra momentos da sua infância e juventude, e também momentos passados com a sua família, em Roubaix. No meio de tantas memórias, Paul recorda a altura em que viajou para a antiga URSS e ajudou um jovem judeu a fugir do país, e um romance que marcou o seu passado. O filme é uma viagem pelas memórias do protagonista, em sintonia com as mudanças constantes que marcaram a História contemporânea.

O romanesco segundo Arnaud Desplechin

 Na melhor tradição da Nova Vaga, Arnaud Desplechin continua a filmar as convulsões da juventude e, em particular, os dramas de passagem à idade adulta: “Três Recordações da Minha Juventude” é mais um exemplo brilhante de um dos mais interessantes autores do actual cinema francês.

Ciclicamente, a produção cinematográfica francesa leva-nos a evocar os tempos heróicos da Nova Vaga. E é bem verdade que, por vezes, tal evocação se limita a ser um exercício de boa vontade mais ou menos nostágica…

Acima de tudo, importa ter em conta que a eventual ligação de um cineasta a um determinado período ou movimento não é uma caução, antes um sintoma da (possível) riqueza da sua relação com o património cinematográfico.

É nessa perspectiva que importa (re)valorizar o universo de Arnaud Desplechin: o cineasta, natural de Roubaix (n. 1960), continua a ser um dos que, legitimamente, pode reivindicar a sua pertença a uma árvore genealógica que inclui, entre outros, François Truffaut e Claude Chabrol.

Truffaut, justamente, será a referência incontornável do mais recente trabalho de Desplechin, “Três Recordações da Minha Juventude”. Paul Dédalus, o jovem interpretado por Quentin Dolmaire (e também por Mathieu Amalric, nas cenas da idade adulta), pode ser visto como um herdeiro de Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud), em especial tal como Truffaut o filmou em “Beijos Roubados” (1968), nove anos depois de “Os 400 Golpes” (1959).
Num caso como noutro, a passagem da adolescência à idade adulta é vivida como uma prova de fogo, a meio caminho entre a tragédia e a farsa, em que o protagonista joga toda a sua identidade. Mais do que isso: a trajectória do “herói” masculino está, toda ela, marcada pelos enigmas colocados pelas personagens das mulheres — daí, no filme de Desplechin, a importância de Esther (Lou Roy-Lecollinet), figura tão fascinante quanto desconcertante que pontua todas as atribulações da vida de Paul.
Desplechin está, afinal, a fazer um filme (até certo ponto) autobiográfico, não sendo indiferente o facto de a juventude de Paul passar, toda ela, por Roubaix. Mas não é exactamente um filme confessional. Estamos perante um objecto capaz de reavivar a melhor tradição romanesca, resistindo a qualquer redução dos jovens (e também dos adultos) a clichés afectivos ou sociais. Tudo isto, como sempre, através de uma rigorosa direcção de actores, transmitindo a sensação insubstituível de uma genuína liberdade perante o olhar da câmara.

João Lopes, in CineMax