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22 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Eu, Tonya”

Realização: Craig Gillespie

Intérpretes: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney

EUA, 2017, 120′  M/16

“Eu, Tonya” é um retrato, por vezes absurdo, trágico e hilariante, da mulher no centro dum dos maiores escândalos na história do desporto, Tonya Harding. Tonya (Margot Robbie) dominou o gelo com um brilhantismo sem precedentes, mas acabou por aparecer nas manchetes dos jornais por razões muito diferentes. Esta é a história de como Tonya, uma patinadora artística americana, viu o seu futuro no mundo do desporto posto em risco, quando a envolveram num violento ataque à sua rival, Nancy Kerrigan, mesmo antes das Olimpíadas de Inverno de 1994 em Lillehammer.

 

Tonya Harding, o vulgar e o sublime
Uma evocação de um escândalo no mundo da patinagem no gelo feita com assinalável contundência realista.

Em 1994, quando Nancy Kerrigan, rival de Tonya Harding na patinagem no gelo, foi agredida, Tonya foi ou não cúmplice do que aconteceu?… Não é verdade que a agressão foi montada pelo ex-marido de Tonya?… E porque é que ela nunca escondeu o seu menosprezo pela adversária?…
Eis algumas perguntas que podem definir um enigma policial, mas que não bastam para resumir um filme como “Eu, Tonya”, centrado, precisamente, naquela ocorrência. Isto porque estamos perante uma narrativa que, mais do que uma divisão absoluta e definitiva entre “inocentes” e “culpados”, procura ser fiel à infinita complexidade dos seres humanos.

Dito de outro modo: “Eu, Tonya” é uma ficção elaborada a partir de factos verídicos, mas com engenho e arte para conservar uma dimensão insolitamente documental. Aliás, o filme dirigido por Craig Gillespie (foi ele que, em 2007, assinou o também insólito e desconcertante “Lars e o Verdadeiro Amor”, com Ryan Gosling) organiza-se mesmo como uma hipotética investigação em que, pontualmente, as personagens dão o seu testemunho directamente para a câmara.

Estamos perante (mais) um sintomático objecto marcado por esse desejo de realismo hoje em dia transversal a muitas cinematografias — para nos ficarmos por um exemplo óbvio, recordemos o também recentemente estreado “15:17 Destino Paris”, de Clint Eastwood.

Como é óbvio, não tem nada de acidental que tudo isso aconteça através de uma subtil direcção de actores, parecendo certo que Allison Janey, no papel da mãe de Tonya, tem assegurado o Oscar de melhor actriz secundária. Sublinhemos, por isso, a excepcional performance de Margot Robbie, como Tonya, nomeada na categoria de melhor atriz — não é todos os dias que vemos uma actriz capaz de expor o vulgar e o sublime de uma mesma personagem.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

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21 de Agosto, 19h: “Frantz”

Realização: François Ozon

Intérpretes: Pierre Niney, Paula Beer, Ernst Stötzner, Anton von Lucke

FRA/ALE, 2016, 113′  M/12

Alemanha, 1919. O pesadelo da Primeira Grande Guerra chegou finalmente ao fim. Após a morte em combate do seu noivo, Frantz, Anna vive com os sogros numa pequena aldeia. Incapaz de lidar com a perda, todos os dias visita a campa do seu amado. Um dia, dá-se conta da presença de Adrien, um ex-soldado francês que afirma ser amigo de Frantz. Com o passar do tempo, sobre o luto do soldado morto, uma estranha ligação surge entre os dois…

 

O melodrama histórico de François Ozon

O que surpreende mais em Frantz é a sua afinadíssima combinação de melodrama com o thriller clássicos, seguindo o receituário dos mestres mais antigos e da sua (re)interpretação mais moderna. É verdade que o filme se inspira levemente num filme pouco visto de Lubitsch, mas não é a Lubitsch que Ozon vai buscar as suas referências. Diria que é algures entre John M. Stahl e Fassbinder, entre Hitchcock e Brian De Palma, que Frantz ganha corpo. Na realidade, ganha corpos. Dois, para ser mais exacto. A divisão, estrutural, é nítida: há um antes e depois da partida do misterioso Adrien Rivoire (notável presença de Pierre Niney). A partir dessa partida o filme refaz-se por dentro, alterando estrategicamente a posição das personagens entre si, insinuando mesmo um precipício dramático, tão vertiginoso quanto pungente, que faz gritar de susto – com medo do que se vai encontrar – ou que faz soltar uma lágrima – a intensidade melodramática nunca cai, é ela que sustém e eleva as personagens para lá do divertido jogo narrativo.

Portanto, Ozon está em território familiar. Na realidade, diria que Frantz reúne o melhor dos dois Ozons: o do olhar profundo sobre a psique feminina e aquele que dá uma atenção especial à composição de paisagens sentimentais – o seu melhor filme continua a ser Sous le sable (Sob a Areia, 2000)? -, bem como o que se caracteriza pelo divertimento lúdico que municia a intriga à antiga, repleta de momentos de espanto e orgulhosa das suas múltiplas reviravoltas – o anterior, e muito divertido e de palmanianoUne nouvelle amie (Uma Nova Amiga, 2014) ou, para citar outro título com a magnífica Charlotte Rampling para lá de Sous le sableSwimming Pool (2003). Frantz será o filme da maturidade de Ozon? Não, nada disso. Não queremos que Ozon ganhe essa tão desejada maturidade fílmica. O seu cinema vive mais intensamente em nós quando há jogo, um certo prazer lúdico quase infantil, uma vontade pugnaz de provocar o espectador. Portanto, deixe-se comover. Portanto, deixe-se espantar. Portanto, deixe-se ludibriar. Entre no jogo deste balancé paraclássico de emoções.

Luís Mendonça, in À Pala de Walsh

 

 

14 de Agosto, 19h: “As Guardiãs”

Realização: Xavier Beauvois

Intérpretes: Nathalie Baye, Laura Smet, Iris Bry, Cyril Descours

SUI/FRA, 2017, Cores, 138′  M/12

França, 1915. A Europa enfrenta a Primeira Grande Guerra e a maioria dos homens parte para o campo de batalha. Enquanto isso, mulheres, idosos e crianças lutam para manter as suas terras e servirem, com esforço e trabalho árduo, o seu país. Entre elas está Hortense, uma mulher de meia-idade que vê partir os seus três filhos e genro. Para ajudá-la a cuidar da quinta, decide contratar Francine, uma jovem órfã, que rapidamente se torna indispensável. Determinada a manter a união familiar até ao regresso dos homens, a protectora e autoritária Hortense vai impondo a sua vontade, desconsiderando muitas vezes as consequências das suas acções na felicidade dos que a rodeiam…

Estreado no Festival de Cinema de Toronto, um filme assinado pelo actor, realizador e argumentista Xavier Beauvois (“Dos Homens e dos Deuses”, “O Preço da Fama”) que se baseia no romance homónimo escrito, em 1924, por Ernest Pérochon.

 

Na retaguarda da Grande Guerra
Ainda que com resultados algo convencionais, o novo filme de Xavier Beauvois aponta para a revalorização de uma tradição narrativa eminentemente francesa: “As Guardiãs” apresenta uma visão pouco habitual da Primeira Guerra Mundial.

Xavier Beauvois (n. 1967) é um actor francês que continua a interessar-se pelas convulsões mais íntimas da história — e a tratá-las enquanto realizador. Assim aconteceu em “Dos Homens e dos Deuses” (2010), sobre uma pequena comunidade de monges numa zona da Argélia ameaçada por fundamentalistas religiosos; assim volta a acontecer através de “As Guardiãs”, um inesperado filme de guerra. 

E inesperado porque, de facto, a tradição mais forte faz com que o chamado filme de guerra seja, predominantemente, sobre a Segunda Guerra Mundial. Ora, neste caso, trata-se de recuar ao primeiro conflito mundial, a Grande Guerra 1914-18. Mais do que isso: em vez de uma evocação da frente de combate, Beauvois filma, literalmente, a retaguarda da vida rural — e nos campos quem ficou a assumir as principais tarefas de cultivo e sobrevivência foram as mulheres.
É pena que o filme nunca consiga superar um registo basicamente académico, construindo a sua narrativa como um registo de quadros mais ou menos “demonstrativos” de tão difíceis condições de existência, mesmo se importa valorizar a sua capacidade de tratar as componentes paisagísticas de modo a conferir-lhes um peso dramático específico — com destaque obrigatório para a direcção fotográfica de Caroline Champetier. 

Laura Smet, filha de Nathalie Baye e Johnny Hallyday, contracena com a própria mãe na composição de um par mãe/filha em que, por assim dizer, se projectam as convulsões de um tempo que abalou, necessariamente, modos de vida, valores individuais e colectivos. Ainda que com resultados algo convencionais, “As Guardiãs” aponta, afinal, para um património cinematográfico francês que, como se prova, pode ser revisitado e revalorizado.

Crítica de João Lopes

 

 

 

8 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Melodias de Django”

 

Realização: Étienne Comar

Intérpretes: Reda Kateb, Cécile De France, Bea Palya

FRA, 2017, 117′  M/12

Nascido em Liberchies (Bélgica), em 1910, no seio de uma família cigana, Django Reinhardt mudou-se com os pais para Paris (França) ainda durante a infância. Crescendo rodeado dos muitos músicos da sua comunidade, cedo começou a tocar diversos instrumentos, como o banjo, o violino ou a guitarra. Seria esta, porém, que o tornaria mundialmente famoso. Ainda adolescente, o seu virtuosismo atraía músicos reputados do outro lado do Canal da Mancha, curiosos por descobrir o prodígio. A sua lenda cresceria ao escapar a um incêndio na caravana que habitava com a primeira mulher, Florine Bella Mayer. Sobreviveu, mas dois dedos da sua mão esquerda acabariam por ficar paralisados devido à gravidade das queimaduras. Tal não o impediu de continuar. Adaptando o seu estilo à restrição física, tornar-se-ia nos anos seguintes um músico respeitadíssimo, tanto na Europa como no berço do jazz, os EUA. No seu percurso, destaca-se a parceria com o violinista Stéphane Grappelli, o reconhecimento de Louis Armstrong e Duke Ellington, com quem tocou em digressões americanas, ou Benny Goodman, que o convidou por duas vezes para a sua “big band”, sempre sem conseguir o compromisso do volátil Reinhardt. Quando se deu o início da Segunda Guerra Mundial, o músico encontrava-se em digressão em Inglaterra. Regressou rapidamente a Paris e foi na capital francesa que assistiu à invasão alemã. Quando a realidade da política de extermínio nazi se tornou evidente (terão sido assassinados mais de 500 mil ciganos em toda a Europa), Django Reinhart, enquanto continuava a tocar nos clubes de Paris, começou a planear a sua fuga…
Estreia na realização do produtor e argumentista Étienne Comar, uma biografia ficcionada sobre alguns dos momentos marcantes da trajectória do guitarrista e compositor cigano Django Reinhardt, considerado o pai do jazz europeu. O elenco inclui Reda Kateb, Cécile De France, Bea Palya, Bimbam Merstein, Gabriel Mireté e Xavier Beauvois.
Mário Lopes, PÚBLICO

 

 

 

 

7 de Agosto, 19h: “The Post”

Realização: Steven Spielberg

Intérpretes: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk

EUA, 2017, 115′  M/12

Um “thriller” político que recorda a posição assumida por Katharine Graham, proprietária do “The Washington Post”, quando o Governo de Nixon tentou impedir o jornal de prosseguir a publicação de uma extensa e ultra-secreta documentação sobre o envolvimento norte-americano na Guerra do Vietname que Daniel Ellsberg, um funcionário do Pentágono, fizera chegar clandestinamente à imprensa. O braço-de-ferro entre a Casa Branca e a imprensa desembocou numa histórica decisão do Supremo Tribunal, que considerou inconstitucionais os mandados emitidos para impedir a publicação dos documentos, autorizando os jornais a prosseguirem a sua divulgação. Aprovada por seis juízes, com os votos contra de outros três, ainda hoje a sentença tem sido interpretada como uma meia vitória que não protege decisivamente os “media” contra a invocação do argumento da segurança nacional.

 

Foi em 1971 que o jornal “The Washington Post” iniciou a publicação dos “Pentagon Papers”, contribuindo de forma decisiva para a reavaliação pública do envolvimento dos EUA no Vietname — Steven Spielberg evoca essa conjuntura em “The Post”, um grande filme fiel à tradição liberal de Hollywood.

Eis uma amarga ironia dos tempos: é bem verdade que a imagem mediática dominante do cinema de Hollywood envolve efeitos especiais e orçamentos de milhões… Mas não é menos verdade que, muito para além dessa imagem, é do cinema americano que continuam a surgir títulos fundamentais que, de uma maneira ou de outra, nos ajudam a lidar com o nosso próprio presente. Dito de outro modo: “The Post”, o filme de Steven Spielberg, sobre o jornal de “The Washington Post” em 1971 é um dos grandes objectos políticos do ano de 2017.

Seja como for, não simplifiquemos. Claro que qualquer espectador minimamente disponível encarará a exigência jornalística da verdade, tal como encenada em “The Post”, como uma atitude que remete para a América de Donald Trump e, em particular, para os conflitos abertos entre o presidente e a maior parte dos órgãos de informação (jornais e televisões). Ao mesmo tempo, Spielberg não explora paralelismos fáceis, centrando o seu trabalho na odisseia muito particular dos jornalistas de “The Washington Post” quando, a partir de 18 de Junho de 1971, o jornal começou a divulgar os lendários “Pentagon Papers”.
A conjuntura em que tudo aconteceu, convém lembrar, estava marcada pelo envolvimento militar dos EUA no Vietname, com a crescente desaprovação de muitos cidadãos americanos. Nos seus muitos milhares de páginas, os “Pentagon Papers” permitiam perceber, afinal, que a administração de Richard Nixon mascarava a situação real no terreno. Mais do que isso: o documento, que tinha sido encomendado por Robert McNamara, secretário da Defesa (interpretado no filme por Bruce Greenwood), reconhecia que não era possível vencer a guerra.
Dito isto, o essencial está, como é óbvio, muito para além de qualquer “inventariação” de factos que o filme contenha. Spielberg assume-se como herdeiro muito directo da grande tradição liberal do cinema de Hollywood, em particular na abordagem das tensões entre os interesses enraizados na cena política e as acções individuais. Não por acaso, o notável argumento do filme (assinado por Liz Hannah e Josh Singer) polariza as questões em duas personagens fulcrais: Ben Bradlee, chefe editor de “The Washington Post”, e Kay Graham, proprietária do jornal — interpretados, respectivamente, por Tom Hanks e Meryl Streep.
“The Post” consegue o mais difícil, porque mais subtil, na evocação de tão complexa conjuntura: fazer-nos compreender as dinâmicas colectivas que estavam em confronto — desde a gestão danosa de Nixon às questões legais e morais levantadas pela eventual publicação dos “Pentagon Papers” —, sem apagar as tensões inerentes aos mais importantes protagonistas individuais. Dito de outro modo: estamos perante um cinema de evocação histórica que é, indissociavelmente, um trabalho de exposição de delicadas, por vezes ambíguas, componentes psicológicas.
Muito se tem falado do valor “simbólico” do trabalho de Meryl Streep, assumindo esse misto de fragilidade e energia que caracterizava Kay Graham, compelida a gerir “The Washington Post” num universo de administradores em que, literalmente, não havia mais mulheres. É uma via possível para enquadrar os reflexos actuais da personagem de Graham, mas seria redutor encará-la em função de qualquer maniqueísmo panfletário. O que torna a sua composição tão admirável decorre da capacidade de expor as singularidades individuais sem esquematizar as atribulações sociais e políticas de um momento específico da história dos EUA e do mundo, irredutível a qualquer outro — fazer história e revalorizar o cinema como instrumento da história que fazemos, eis a lição, de ums só vez estética e política, clássica e moderna, de “The Post”.

Crítica de João Lopes

 

1 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Mudbound – As Lamas do Mississipi”

Realização: Dee Rees

Intérpretes: Garrett Hedlund, Carey Mulligan, Jason Clarke, Jonathan Banks

EUA, 2017, 134′  M/16

Mississípi, década de 1940. Dois jovens regressam a casa após combaterem na Segunda Grande Guerra. Jamie é branco e pertence ao clã McAllan, de linhagem tradicionalista; Ronsel é um dos filhos dos Jackson, uma família negra que sonha possuir uma terra que possa chamar sua. Num contexto onde o racismo predomina, a camaradagem entre os dois ex-soldados, cuja experiência no campo de batalha os aproximou, fará com que as duas famílias criem laços de amizade. Mas isso vai colidir com a mentalidade retrógrada da população, que não vê com bons olhos a mistura entre brancos e negros. Jamie e Ronsel terão de aprender a readaptar-se à vida depois da guerra, sobrevivendo às injustiças, ao mesmo tempo que se esforçam por esquecer as atrocidades a que foram obrigados a assistir durante o tempo que serviram o seu país.

 

Um retrato subtil do racismo
Eis um belo filme sobre as relações entre brancos e negros num contexto (Mississipi, depois da Segunda Guerra Mundial) marcado por muitas componentes racistas — “As Lamas do Mississipi”, de Dee Rees, não tem prémios, mas merece ser descoberto.

A vaga “social” em torno dos filmes que abordam temas ligados à história dos afro-americanos nos EUA está dominada por efeitos banalmente panfletários. Não que essses temas sejam banais ou indiferentes (bem pelo contrário). Não é essa a questão. Acontece que, sobretudo no contexto da chamada temporada de prémios, há títulos que são promovidos à condição de “emblemas”, outros que vão ficam esquecidos porque não cumprem os requisitos dessa condição…

Aí temos o exemplo do belíssimo “Mudbound”, entre nós lançado como “As Lamas do Mississipi” — chegou a ser citado como possível candidato a muitas nomeações, agora corre o risco de ser um objecto trucidado pelo automatismo dos mercados… Baseado no romance homónimo de Hillary Jordan, a sua história de dois soldados, um branco (Garrett Hedlund), outro negro (Jason Mitchell), regressados dos combates da Segunda Guerra Mundial demarca-se de clichés ideológicos e dramáticos para traçar o retrato incisivo, e muito subtil, do racismo no estado do Mississipi, nos tempos finais da década de 1940.

Um dos aspectos mais invulgares de “As Lamas do Mississipi” é a sua capacidade de dar a ver uma conjuntura de marginalização e repressão dos afro-americanos, não através de uma descrição “global”, antes explorando os distintos pontos de vista das personagens centrais, incluindo as duas mulheres interpretadas por Carey Mulligan e Mary J. Blige — daí o singular e envolvento espírito coral da narrativa.

A realizadora Dee Rees, também responsável pela adaptação do romance (em colaboração com Virgil Williams), consegue a proeza de revitalizar um modelo de saga histórica em que a percepção das dinâmicas colectivas se afigura tão importante como as diferenças individuais. Estamos, afinal, em linha directa com a grande tradição clássica de Hollywood — pelos vistos, os valores dessa tradição são indiferentes aos que estão a atribuir prémios.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

31 de Julho, 19h: “O Meu Belo Sol Interior”

Realização: Claire Denis

Intérpretes: Juliette Binoche, Xavier Beauvois, Philippe Katerine

BEL/FRA, 2017, 94′  M/14

Isabelle é uma mulher inteligente e sofisticada a viver em Paris. Divorciada há já vários anos, ela sente que, agora que chegou aos 50 anos e encontrou a estabilidade em várias áreas da sua vida, terá chegado o momento de procurar o amor verdadeiro. Porém, entre uma relação e outra, ela dá-se conta do quanto é difícil encontrar alguém que a preencha verdadeiramente…
Com realização de Claire Denis (“Chocolate”, “35 Shots de Rum”, “Uma Mulher Em África”) segundo um argumento seu e de Christine Angot, este filme inspira-se vagamente na obra “Fragmentos de um Discurso Amoroso”, de Roland Barthes. Com Juliette Binoche no papel principal, o elenco conta também com os actores Xavier Beauvois, Philippe Katerine, Josiane Balasko, Valeria Bruni Tedeschi e Gérard Depardieu, entre outros. PÚBLICO

 

O charme juvenil de Binoche

Juliette Binoche está naquele ponto da meia-idade em que só a presença no grande ecrã é sinónimo de inteligência emocional e performativa. Em O Meu Belo Sol Interior, essa inteligência afirma-se na pele e coloca-a a meio caminho entre o charme juvenil e a beleza madura.

Binoche é a luz íntima deste filme de Claire Denis. Um filme que não se prende a nenhuma estrutura ou configuração rígida, explorando esquinas narrativas assim como a protagonista explora as nuances do amor, à procura de uma cor primária, pura.

É essa negação de um enredo tradicional e a busca incessante e desesperada pelo amor com letra maiúscula o filme não trata de mais nada que dita a sua subtileza, na conjugação com a errância do corpo feminino. Airoso e sedutor, O Meu Belo Sol reserva ainda um afortunado momento com Gérard Depardieu, inusitadamente loquaz.

Inês N. Lourenço, in Diário de Notícias

https://www.dn.pt/artes/interior/o-charme-juvenil-de-binoche-9000785.html