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19 de Setembro, 19h: “Sonhos Cor-de-Rosa”

Realização: Marco Bellocchio

Intérpretes: Bérénice BejoValerio MastandreaFabrizio Gifuni

FRA/ITA, 2016, 134′  M/12

Turim, 1969. A infância idílica de Massimo, um menino de 9 anos, é pulverizada pela misteriosa morte da mãe. O rapaz recusa-se a aceitar a brutal perda, ainda que o padre lhe diga que a mãe está no Céu. Anos mais tarde, na década de 90, o Massimo adulto é um jornalista bem-sucedido. Depois de uma reportagem sobre a guerra em Sarajevo, começa a ter ataques de pânico. Quando começa a tratar da venda da casa dos pais, Massimo é obrigado a regressar ao seu passado traumático. Mas a compreensiva Dra. Elisa ajuda Massimo a abrir-se e a confrontar as suas feridas de infância… Baseado no livro “Tem Bons Sonhos” de Massimo Gramellini.

 

Bellocchio, drama e melodrama

Nem sempre nos recordamos dele, mas é um facto: Marco Bellocchio continua a ser um nome fundamental na paisagem do cinema italiano. Dele nos chega, agora, o magnífico “Sonhos Cor-de-Rosa”, adaptado de um romance de Massimo Gramellini.

Quem são os grandes clássicos do cinema italiano? Quem são os autores que ajudaram a definir tanto a sua concisão social como a capacidade de lidar com os enigmas do comportamento humano?

Sabemos responder, sem dúvida: de Roberto Rossellini a Michelangelo Antonioni, do neo-realismo às convulsões das “novas vagas”, o seu trabalho deixou marcas profundas dentro e fora de Itália… Mas porque é que, quase sempre, nos esquecemos de Marco Bellocchio?

Lembremos, para simplificar, que aos 77 anos (nasceu a 9 de Novembro de 1939, em Piacenza, na região da Emilia-Romagna) Bellocchio continua a ser um cineasta capaz de preservar uma tradição (melo)dramática que começa sempre no gosto por histórias capazes de expor as ambiguidades e contradições do factor humano.

Assim acontece em “Sonhos Cor-de-Rosa”, estreado o ano passado, em Cannes, integrando a programação da Quinzena dos Realizadores. Tendo como ponto de partida o romance homónimo de Massimo Gramellini (editado entre nós, pela Bertrand, como “Tem Bons Sonhos”), Bellocchio encena a trajectória de um adulto que continua a viver de forma palpável — e, por assim dizer, realista — a perda da mãe, ocorrida quando tinha apenas nove anos…

Como sempre através de uma excelente direcção de actores (Valerio Mastandrea, Bérénice Bejo, Dario Dal Pero, etc.), Bellocchio desmonta esse conflito, latente ou expresso, entre a identidade social dos seus protagonistas e as razões (mesmo as menos racionais…) das suas pulsões mais fundas. Escolhido para inaugurar a Festa do Cinema Italiano, “Sonhos Cor-de-Rosa” é, de facto, um exemplo modelar de uma produção que sabe falar do presente sem menosprezar a riqueza do seu património narrativo.

Crítica de João Lopes

07 abril ’17

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12 de Setembro, 19h: “Amor e Amizade”

RealizaçãoWhit Stillman

IntérpretesKate BeckinsaleChloë SevignyXavier Samuel

HOL/FRA/EUA/IRL, 2016, 92′  M/12

Lady Susan Vernon (Kate Beckinsale), uma jovem e bela viúva, decide passar uns tempos na propriedade dos sogros, ausentando-se assim dos salões da alta sociedade londrina que frequenta, de modo a dissipar alguns rumores coloridos que por lá circulam sobre os seus variados casos. Mas, embora supostamente recatada, Lady Susan pretende assegurar um marido para si e perspectivar outro para a sua elegível mas relutante filha, Frederica (Morfydd Clark). Ao fazê-lo, acaba por competir pelas atenções do jovem e bonito Reginald DeCourcy (Xavier Samuel), do rico e um pouco imbecil Sir James Martin (Tom Bennett) e do divinamente bonito, mas infelizmente casado, Lord Manwaring (Lochlann O’Mearáin), o que acaba por complicar os seus planos.

 

Verdades e aparências do séc. XVIII

Uma história do séc. XVIII?… É verdade: ao realizar “Amor e Amizade”, Whit Stillman, um símbolo do cinema independente americano, reencontra um certo espírito da produção clássica de Hollywood.

E se um dos genuínos acontecimentos do Verão cinematográfico fosse um filme “à-moda-antiga”, apostado em encenar as relações da alta sociedade londrina dos últimos anos do séc. XVIII?…

É verdade: baseado numa novela de Jane Austen, “Amor e Amizade” é um daqueles pequenos grandes acontecimentos que nos reconciliam com a ideia de um cinema romanesco, mais irónico que romântico, mais cómico que dramático.

Estreado no IndieLisboa, este é um objecto que, de facto, se demarca de qualquer tendência ou moda (incluindo o academismo televisivo que, não poucas vezes, predomina nas abordagens dos séculos XVIII/XIX). Dir-se-ia que estamos perante um teatro de ambiguidades: a saga de Lady Susan Vernon, apostada em induzir os casamentos mais “vantajosos” (incluindo o seu), é também um conto moral sobre as máscaras sociais.

Em boa verdade, o realizador Whit Stillman, símbolo exemplar da produção independente americana, está a retomar linhas de força inerentes ao resto da sua obra, em particular as primeiras longas-metragens: “Metropolitan” (1990) e “Barcelona” (1994) — trata-se de observar o labirinto das relações humanas, suas verdades e aparências, no limite discutindo a sedução do próprio conceito de felicidade.

Ironicamente, podemos reconhecer num filme como “Amor e Amizade” uma certa nostalgia de um cinema (melo)dramático enraizado em zonas remotas da história de Hollywood, em especial nas primeiras décadas do sonoro. Em tempos de tantos e tão repetitivos corpos digitais, este é um cinema atento à singularidade muito carnal de personagens e actores — Kate Beckinsale (no papel de Lady Susan), Chlöe Sevigny e Stephen Fry são alguns dos destaques obrigatórios.

Crítica de João Lopes

02 julho ’16

5 de Setembro, 19h: “Mulheres do Séc XX”

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Realização: Mike Mills

Intérpretes: Annette BeningElle FanningGreta Gerwig

EUA, 2016, 118′ M/12

EUA, finais da década de 1970. Dorothea Fields é uma mãe solteira de 55 anos que se esforça por educar Jamie, o filho de 15 anos, numa altura de grandes mudanças sociais e culturais. Apesar das dificuldades, terá a ajuda de duas mulheres muito diferentes de si mas com quem acaba por criar fortes laços de amizade: Abbie, uma artista punk que arrenda um quarto em sua casa; e Julie, uma adolescente inteligente e provocadora que vê o mundo de uma forma muito especial. As três vão ajudar Jamie a crescer, mostrando a sua visão sobre as mulheres, os relacionamentos ou a vida em si mesma.
Escrita e realizada por Mike Mills, e candidata ao Óscar de Melhor Argumento Original, uma comédia dramática sobre o sentido da existência que se inspira na vida da própria mãe do realizador – da mesma forma que “Assim É o Amor” (2010), o seu filme anterior, se inspirara na do pai. O elenco conta com a participação de Elle Fanning, Greta Gerwig, Lucas Jade Zumann, Billy Crudup e Annette Bening que, com esta interpretação, foi nomeada para o Globo de Ouro de Melhor Actriz num Musical ou Comédia. PÚBLICO

 

Nas fronteiras do melodrama

Histórias e emoções de uma família americana

A partir das personagens de uma família na Califórnia de finais da década de 1970, Mike Mills encena uma tocante procura de identidades — o elenco, liderado por Annette Bening, é decisivo para o brilhantismo dos resultados

Vai ser, infelizmente, um dos “vencidos” dos Oscars — porque só tem uma nomeação, para o realizador Mike Mills (na qualidade de argumentista), mas sobretudo porque a alegria com que aposta na recriação dos valores clássicos do melodrama tem passado ao lado da maior parte dos debates em torno do mérito dos filmes que, de uma maneira ou de outra, surgem na corrida aos prémios da Academia de Hollywood.

Aliás, a discreta maldição que se abateu sobre “Mulheres do Século XX” envolve também a admirável Annette Bening naquela que é, muito simplesmente, uma das interpretações do ano (tem um historial de quatro nomeações para os Oscars, sem nunca ter ganho). Bening assume a personagem de Dorothea, uma mulher da Califórnia que, em 1979, tenta dar um rumo certo à educação do seu filho adolescente…

Aquilo que Mills filma não é exactamente um simbolismo abstracto que, alguns, eventualmente, poderão detectar no título. Se há uma “generalização”, com o seu quê de irónico, em relação às mulheres do século XX, isso decorre do facto de cada ser humano existir sempre a partir de uma confluência de memórias em que, por assim dizer, o social e o familiar se combinam nas transparências e enigmas de cada identidade.

Contando também com excelentes composições de Lucas Jade Zumann (o talentoso intérprete do filho de Dorothea), Elle Fanning, Greta Gerwig e Billy Crudup, eis um objecto de cinema que resiste às ilusões de moda, distanciando-se de qualquer “modernismo”. Em última instância, “Mulheres do Século XX” assume-se como uma celebração da mais nobre tradição melodramática de Hollywood e, muito em particular, da sua capacidade para lidar com a pluralidade dos laços familiares — seria uma pena que um filme tão belo, por vezes tão emocionante, fosse anulado pelas facilidades mediáticas em torno dos Oscars.

Crítica de João Lopes, in CineMax – 17 fevereiro ’17

 

30 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Jackie”

Realização: Pablo Larraín

Intérpretes: Natalie PortmanPeter SarsgaardGreta Gerwig

ALE/Índia, 2015, 115′ M/12

Jacqueline Kennedy tinha apenas 34 anos quando o seu marido foi eleito presidente dos Estados Unidos. Elegante, chique e inescrutável, tornou-se instantaneamente num ícone, uma das mulheres mais famosas do mundo, com o seu gosto pela moda, decoração e artes amplamente admirado. Mas a 22 de Novembro de 1963, durante uma viagem de campanha a Dallas, John F. Kennedy é assassinado – e o fato cor-de-rosa de Jackie é manchado com o sangue do marido. Ao embarcar no Air Force One de volta a Washington, o mundo de Jackie – incluindo a sua fé – está completamente destruído. Traumatizada e transtornada, enfrenta na semana seguinte o inimaginável: consolar os seus dois filhos, desocupar a casa que tinha cuidadosamente restaurado, e planear o funeral do marido. Jackie rapidamente percebe que os próximos sete dias determinarão como a história irá definir o legado de seu marido – e como ela própria será lembrada. JACKIE é um retrato intransigente duma mulher tanto icónica quanto misteriosa, bem como uma reflexão sobre fé, história, mitologia e perda.

 

Filmando a tragédia de Jacqueline Kennedy

“Jackie”, de Pablo Larraín, é um prodigioso retrato da intimidade de uma mulher e do seu destino trágico.

De que falamos quando falamos de Jacqueline Kennedy? A pergunta justifica-se, entre outras razões, porque pressentimos que, de uma maneira ou de outra, a sua representação (nomeadamente em ficções televisivas) tem surgido quase sempre, não como uma personagem autónoma, mas “a reboque” da do Presidente John F. Kennedy. Compreendemos que assim seja, já que JFK é uma referência central no imaginário político americano — mas era tempo de dar, aliás, devolver uma vida própria à personagem.

Assim faz Pablo Larraín neste filme prodigioso que é “Jackie”. E não deixa de envolver alguma amarga ironia que tal aconteça, inevitavelmente, a partir de JFK — e, mais concretamente, do seu assassinato, em Dallas, no dia 22 de Novembro de 1963. De que se trata? Uma evocação/reconstituição à maneira dos convencionais telefilmes “históricos”? Nada disso: antes um vibrante e comovente reencontro com Jacqueline Kennedy, quer dizer, com um ser humano finalmente encenado a partir das convulsões da sua identidade.

O que Larraín propõe não é, por isso, uma narrativa linear, antes uma colagem (admiravelmente elaborada) em que uma entrevista dada poucos dias depois da morte de JFK nos conduz ao cerne de uma personalidade fragmentada. Jackie foi, afinal, o símbolo de um ideal conjugal, familiar e político, consagrado nas lendárias referências à mitologia do Rei Artur e de Camelot (e também ao musical homónimo da Broadway). Através da entrevista, ela aponta o cerne da questão. A saber: os contrastes vividos entre a celebração de uma miragem utópica e as verdades mais básicas da existência na Casa Branca.

Num certo sentido, Pablo Larraín, cineasta chileno, retoma aqui algumas das obsessões que já marcavam os seus filmes sobre a ditadura de Augusto Pinochet, em especial “Post Mortem” (2010), no qual se evoca o golpe que pôs fim ao governo de Salvador Allende. O confronto com a evidência indizível da morte acaba por funcionar como um radical desafio para Jackie — como lidar com o absurdo de uma existência subitamente despojada de todas as suas projecções imaginárias?

Através de um espantoso ziguezague de lugares e situações, integrando de forma admirável alguns documentos audiovisuais da época, Larraín faz um verdadeiro filme-de-luto em que a definição da personagem de Jackie é, necessariamente, central. Por isso mesmo, dizer que Natalie Portman (nomeada para o Oscar) começa por conseguir uma impressionante “duplicação” de Jacqueline Kennedy é francamente insuficiente: acima de tudo, ela sabe expor a ambivalência de uma mulher invulgar, oscilando sempre entre a figura idealizada e as componentes muito reais da sua condição de mãe e símbolo cultural — este é, em última instância, um filme que nos volta a ensinar a difícil arte de lidar com a complexidade dos seres humanos e das suas tragédias mais íntimas.

Crítica de João Lopes

publicado in CineMax, 08 fevereiro ’17

 

 

 

 

 

 

29 de Agosto, 19h: “Moonlight”

RealizaçãoBarry Jenkins

Intérpretes: Mahershala AliShariff EarpDuan Sanderson

EUA, 2016, 111′ M/16

Oriundo de uma família afro-americana de escassos meios financeiros, Chiron esforça-se por resistir aos maus-tratos da mãe e à constante perseguição das crianças do bairro pobre onde nasceu. Mas, apesar de todas as dificuldades que se vê obrigado a enfrentar, ainda vai encontrando rostos amáveis que lhe ensinarão o amor e o ajudarão a escapar a um destino de criminalidade quase inevitável.
Vencedor do Globo de Ouro para Melhor Filme Dramático e nomeado para oito Óscares, um filme sobre identidade e descoberta, com assinatura de Barry Jenkins. O argumento inspira-se na peça “In Moonlight Black Boys Look Blue”, da autoria de Tarell Alvin McCraney. Trevante Rhodes, André Holland, Janelle Monáe, Ashton Sanders, Jharrel Jerome, Naomie Harris e Mahershala Ali dão vida às personagens. PÚBLICO

 

“Moonlight”, uma epopeia intimista

“Moonlight”, de Barry Jenkins, consegue a proeza de retratar uma comunidade afro-americana a partir das convulsões de uma dramática história individual.

Razões históricas antigas — prolongadas em recentes batalhas ideológicas — têm feito com que a representação dos afro-americanos no cinema de Hollywood seja uma ferida sempre em aberto (que, evidentemente, envolve complexas ramificações que não cabem nestas linhas). Digamos, por isso, para simplificar que “Moonlight” é um filme centrado numa comunidade negra de Miami que vale, não por qualquer simbologia mais ou menos panfletária, mas sim por um tocante humanismo que se configura num prodigioso trabalho cinematográfico.

Curiosamente, o primeiro grande desafio que o filme envolve decorre da sua divisão em três partes claramente identificadas, seguindo a figura central, de seu nome Chiron, na infância, adolescência e idade adulta. Ou seja: como representar esse arco temporal sem “perder” a personagem nas suas transformações físicas? A resposta do filme é a mais básica, mas também a mais difícil: Chiron surge-nos através de três actores, todos eles magníficos — são eles, sucessivamente, Alex Hibbert, Ashton Sanders e Trevante Rhodes.

A história de Chiron vai adquirindo uma dimensão de epopeia individual e intimista em que, afinal, ecoam os dramas de toda uma comunidade, desde a degradação das habitações até à circulação da droga — daí, aliás, a importância da figura paterna de Juan (Mahershala Ali, nomeado para o Oscar de melhor actor secundário). Mais do que isso: com um pano de fundo tão drástico, “Moonlight” consegue a proeza de apresentar a descoberta da sexualidade por Chiron como um acontecimento cuja angústia não exclui, antes parece ampliar, uma delicada dimensão poética.

Barry Jenkins, argumentista e realizador, construiu o seu filme a partir da peça “In Moonlight Black Boys Look Blue”, de Tarell Alvin McCraney. E uma das mais espantosas componentes do seu trabalho nasce da capacidade de encenar Chiron e os que o rodeiam contornando clichés (brancos ou negros) e preservando a fascinante singularidade de cada gesto, cada acção, cada emoção.

“Moonlight” é, afinal, um filme que discute e supera as eventuais limitações de um clássico dispositivo “psicológico”, fazendo-nos ver também que qualquer discussão em torno da representação dos afro-americanos está muito longe de ser uma mera contabilização de “presenças” ou “ausências”… Com as suas oito nomeações para os Óscars (incluindo melhor filme do ano), esperemos que a sua inteligência não seja banalizada pelo sentido dominante dos ventos mediáticos.

Crítica de João Lopes

publicado in CineMax, 02 fevereiro ’17

23 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Hidden Figures – Elementos Secretos”

Realização: Theodore Melfi

Intérpretes: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst

EUA, 2016, 127′ M/12

Início da década de 1960. Os EUA e a União Soviética encontram-se em plena Guerra Fria. A disputa pela corrida espacial entre as duas potências é uma evidência e nenhum dos países está disposto a perder a oportunidade de colocar o primeiro homem no espaço. Katherine Johnson, Dorothy Vaughan e Mary Jackson são três mulheres afro-americanas cujos cérebros brilhantes lhes valeram cargos na NASA, apesar da segregação racial e sexual ser uma realidade. Numa época em que os computadores eram ainda muito rudimentares, foram as suas extraordinárias capacidades de cálculo matemático que definiram as complexas trajectórias que tornaram possível colocar na órbita da Terra o astronauta John Glenn, no dia 20 de Fevereiro de 1962. Tornou-se assim o primeiro norte-americano a fazê-lo (o soviético Yuri Alekseyevich Gagarin, a bordo da nave Vostok 1, já o tinha conseguido em Abril do ano anterior).
Com realização de Theodore Melfi (“Um Santo Vizinho”), segundo um argumento seu e de Allison Schroeder, um filme que se inspira na obra biográfica “Hidden Figures – The American Dream and the Untold Story of the Black Women Mathematicians Who Helped Win the Space Race”, em que a escritora de Margot Lee Shetterly relata a história das três visionárias que tiveram de lutar contra o preconceito numa época em que ser mulher e negra era ainda um grande entrave ao sucesso. Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Kirsten Dunst, Jim Parsons, Glen Powell e Mahershala Ali dão vida às personagens. PÚBLICO

 

 

 

 

 

22 de Agosto, 19h: “Irmãs Amadas”

Realização: Dominik Graf

Intérpretes: Hannah Herzsprung, Florian Stetter, Henriette Confurius

ALE/Áustria, 2014, 138′

Alemanha, século XVIII. As irmãs Charlotte e Caroline von Lengefeld são duas raparigas aristocráticas a viver sob as ordens de uma mãe autoritária na cidade de Rudolstadt. Quando ambas se apaixonam perdidamente pelo jovem poeta e filósofo Friedrich Schiller, optam por partilhar aquele amor, mesmo sabendo que estão a desafiar as convenções de uma sociedade profundamente tradicionalista. Entre os três nasce assim um triângulo amoroso consensual onde cada um desempenha o seu papel. Contudo, com o passar do tempo e à medida que a relação assume outras formas, o sentimento de posse ganha novas proporções e o pacto que lhes servira até aí é quebrado…
Com realização de Dominik Graf (“Assalto ao Banco”), um filme que se inspira na vida amorosa de Friedrich Schiller (1759-1805), poeta, filósofo, médico, historiador e um dos representantes máximos do Romantismo alemão. Florian Stetter, Hannah Herzsprung, Henriette Confurius e Claudia Messner assumem os principais papéis. PÚBLICO

Memórias do poeta Schiller

Eis uma produção alemã que esteve na competição do Festival de Berlim de 2014. Dominik Graf evoca um especialíssimo triângulo, constituído pelo poeta Friedrich Schiller (1759-1805) e as irmãs Caroline e Charlotte von Lengefeld.

Protagonizaram, afinal, uma espécie de pré-romantismo, no sentido em que a sua defesa da sensibilidade individual contra os valores do Século das Luzes os levou a conceber uma comunidade amorosa, idealmente capaz de existir fora das hipocrisias da sociedade (Schiller viria a casar-se com Charlotte).

O maior trunfo do filme é a sua ambígua ligeireza: através de uma narrativa em “quadros” mais ou menos teatrais, embora aplicando sempre ágeis movimentos de câmara, Graf vai instalando a sensação paradoxal de que o carácter radical do compromisso de Schiller, Caroline e Charlotte contém os elementos da sua própria decomposição. Tudo isto num contexto em que a nostalgia de uma natureza virginal se confronta com a crueldade dos tempos (e das notícias da Revolução Francesa). Enfim, um pequeno grande filme que merece ser descoberto.

Crítica de João Lopes, in DN/Artes – 5/10/2016