Author Archives: ocinemaemtomar

16 de Outubro, 19h: “A Casa”

 

A Casa

Realização: Rui Simões

Intérpretes: Rute Batalha Pires, Leandro Pires, Reinaldo Colombo

Port, 2017, 80′, M/12

Documentário de Rui Simões sobre a Casa dos Estudantes do Império, criada por Salazar em 1944 e encerrada em 1965

Nascida no Estado Novo para controlar os estudantes ultramarinos, a Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa e com delegações em Coimbra e Porto, foi fundamental nas lutas de independência das colónias portuguesas. Por aquele ponto de encontro passaram futuros líderes dos movimentos de libertação como Agostinho Neto e Amílcar Cabral.
O documentário A Casa recupera memórias de testemunhos dos sobreviventes da Casa, ficcionalizando paralelamente excertos de “A Geração da Utopia”, de Pepetela.

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09 de Outubro, 19h: “Aparição”

Aparição

Realização: Fernando Vendrell

Intérpretes: Jaime Freitas, Victoria Guerra e Rita Martins

Port, 2018, 115′, M/12

Esta sessão contará com a presença do Realizador.

“Aparição”: Fernando Vendrell fala de história de amor e morte na Évora dos anos 50

A adaptação da obra de Vergílio Ferreira mergulha na vida de Évora dos anos 50, abordando a vida de um jovem professor idealista cujo destino cruza-se com o de três irmãs dentro de um ambiente repressivo e conservador.

O SAPO Mag conversou com o realizador, Fernando Vendrell, sobre a sorte de ter Victória Guerra como o vulcão feminino que provoca o descontrole do protagonista (vivido por Jaime Freitas, protagonista de outro trabalho recém-estreado, “Amor Amor”), as muitas questões agradavelmente filosóficas propostas pelo material de origem e até alguns episódios caricatos, como “um obsessivo grafiteiro de Évora” que andou a atrapalhar a produção…

RECUO NO TEMPO E NO ESPAÇO

“Este filme representa uma rutura na minha carreira”, diz Vendrell.

“As minhas três primeiras longas-metragens [“Fintar o Destino”, 1998; “O Gotejar da Luz”,  2002; “Pele”, 2006] fecham entre si um ciclo africano, que abordava questões de identidade e colonialismo”, recorda.

A preocupação de estar a adaptar uma obra que pudesse parecer fora de tempo ao espectador atual esteve presente desde o início.

“Nós fizemos um esforço para ser contemporâneo. No início havia essa ideia de estar a adaptar um romance datado, de estar a produzir um filme que as pessoas veriam por obrigação – até por ser muito difícil para os atores falarem da forma como os diálogos estavam no livro”, explica o realizador.

Com esse sentimento em mente, o guião inicial, que reproduzia vários diálogos do próprio livro, foi sendo reescrito.

“Hoje pode-se perceber no filme que existe um grande diálogo com a contemporaneidade – de uma forma diversa há muitos temas que permanecem. Hoje não há censura, castração, repressão, mas ainda existem sistemas na sociedade que não nos obrigam a pensar, dificultam a afirmação da diferença e não capitalizam da melhor forma as valências e energias próprias da juventude”, observa.

DO HUMANISMO AO INDIVIDUALISMO

Sem atirar-se de uma forma cega no “fait-divers”, “Aparição” não descura os elementos filosóficos. Nos anos 50, o humanismo e a fé no futuro iam cedendo terreno a outros valores e a própria obra de Vergílio Ferreira trata essa transição.

Como analisa o cineasta, “essa obra é em si já um momento de mudança na carreira do escritor, que caminha em direção ao neorrealismo, onde havia questões humanísticas de alguma forma ligadas a questões sociais de igualdade, solidárias. E passou para um conteúdo muito mais filosófico, mais ligado ao individualismo, à sua maneira de ser e ao significado da vida”.

Assim, “no romance ele auto ironiza-se, pois projeta-se, para além do protagonista, em personagens de pendor neorrealista que acham um absurdo ele estar com essas preocupações idiossincráticas e filosóficas, quando o que é importante é que o homem tenha pão para comer, tenha orgulho próprio”.

AMOR E MORTE

Há romance e morte.

Antes do amor, “Aparição” apresenta uma aguda perceção do protagonista masculino acerca de sua transitoriedade.

Explica Vendrell: “Há essa ideia da experimentação da morte, de confrontação, no sentido de descobrir um lado irascível para se sentir vivo. O que ele chama de ‘aparição’ é um ato filosófico, de dissociação entre ele a realidade que o cerca, entre ele e a sua vida”.

E então há a paixão, particularmente personificado por Victória Guerra a fazer de Sofia, uma de três irmãs que, de certa forma, vão interferir na vida do professor.

“A Sofia é uma força brutal do livro. Ela dá uma mancha muito forte na vida dele através da sua imprevisibilidade, da sua incapacidade de controlo. Ela representa paixão, carnalidade, espírito vivo”, detalha o realizador.

Certamente cabe aqui também à atriz, um dos jovens talentos da produção audiovisual portuguesa, dar vida de forma intensa à essa personagem explosiva.

“A Victoria Guerra foi uma ‘aparição’”, brinca o realizador. E acrescenta: “Foi uma sorte ter conseguido conciliar a agenda para fazer o filme, pois ela própria tem uma força pessoal enorme que certamente ajudou na caracterização da personagem”.

O GRAFITEIRO DE ÉVORA

Para a escolha de Évora numa fase muito inicial do projeto contou o fascínio da arquitetura local.

“Ela tem aquele exotismo, mas não é uma cidade mediterrânica típica, uma vez que apresenta também alguma monumentalidade ligado ao classicismo. Fui escolhendo os ‘décors’ em função de uma cidade imaginária, como se estivesse perdido num labirinto arquitetónico”, lembra Vendrell.

Se a arquitetura já lá estava, utilizá-la não foi assim tão simples, apesar de alguns “golpes de sorte”: o icónico café Arcádia, por exemplo, está muito modificado e a cena onde ele entra foi filmada em Montemor. Há o turismo endémico, automóveis, marcas no chão e… um grafiteiro – compondo um episódio desagradavelmente anedótico da produção.

“Tivemos apoio da Câmara para limpar as paredes, mas quando chegávamos para filmar no dia seguinte as superfícies estavam pintadas outra vez! Havia um grafiteiro obsessivo em Évora!” [risos], conclui.

In Sapo Mag

 

 

02 de Outubro, 19h: “Fátima”

 

Fátima

Realização: João Canijo

Intérpretes: Anabela Moreira, Rita Blanco, Cleia Almeida

Port, 2017, 153′, M/12

O caminho para Fátima não é bonito. João Canijo filmou-o sem filtros

 

João Canijo coloca a natureza humana e a beatitude da devoção no mesmo plano e o resultado é, como a vida, complexo e contraditório. “Fátima” convida cada espectador a construir o seu próprio quadro.

Quando as luzes do cinema se apagam, somos convidados a transformar-nos numa pequena mosca. Pelo menos, é assim que Anabela Moreira gosta de imaginar o espectador de “Fátima“, um filme que a levou até ao limite. “Foi uma prova de superação das mais difíceis em 41 anos de vida.” A actriz acredita que quem nunca fez o caminho não pode ter ideia do que é uma peregrinação a Fátima. “As pessoas não conhecem esta realidade, pensam que é outra coisa.”

Na história que agora chega aos cinemas, 11 mulheres partem de Vinhais, Trás-os-Montes, para nove dias de caminho até Fátima. O que acontece nesses 400 quilómetros é um novelo de complexidades e contradições. Como a vida. “É o paradoxo entre a vida humana e a necessidade de Deus, ou a necessidade do transcendente”, resume o realizador João Canijo, em conversa com a Renascença.

Primeiro nasceu a ideia de provocar uma situação extrema, de “colocar um grupo de mulheres a experimentarem os seus limites numa relação de grupo de onde não podiam fugir”, conta o realizador. Depois, veio a justificação. “Ao procurar essa situação, apareceu-me a epifania da coisa mais portuguesa que há, que é a peregrinação a Fátima a pé”.

Fingir a realidade

O filme foi desenhado para ser confundido com um documentário, construído a partir de situações reais. “A realidade transforma-se em ficção a partir do momento em que há um olhar sobre ela. Portanto, porque é que a ficção não se há-de tornar realidade da mesma maneira?”, questiona o realizador. “Foi isso que tentei, e acho que consegui.”

Em 2014, todas as actrizes integraram grupos diferentes de peregrinos e foram a Fátima a pé. No fim de cada dia “gravavam um diário no iPhone e mandavam por e-mail” ao realizador, “para não se esquecerem das coisas que tinham acontecido”. Da reunião de todos os diários “saiu um primeiro tapete” para o filme, conta Canijo, enquanto aplana uma base imaginária com as mãos.

A actriz Anabela Moreira teve a tarefa acrescida de gravar entrevistas a quem ia encontrando pelo caminho, durante a sua peregrinação. Mas o exercício só se revelou realmente frutífero no fim. “Nas minhas primeiras investigações, todas as pessoas me diziam ‘foi maravilhoso; rezávamos, cantávamos, maravilhoso, abençoado’”, conta. Só depois de a actriz terminar o seu percurso – que calhou ser num grupo onde houve rupturas pelo caminho – é que os entrevistados começaram a perder o pudor inicial, aceitando contar também o lado mais cru da experiência.

No ano seguinte fizeram uma peregrinação falsa, só com as actrizes, e esta foi filmada. Canijo volta a aplanar o ar com um sorriso. “Deu muito trabalho, mas transcreveu-se tudo” o que saiu desse exercício de improviso contínuo na estrada. “Daí nasceu o segundo tapete”.

Antes da rodagem, as actrizes ainda passaram dois meses em Vinhais, nos arredores de Bragança, a estagiar com as mulheres que inspiraram as personagens. Aí “ficou o tapete todo muito aspiradinho”.

 

A verdade das personagens. Sem julgamentos

 

O processo foi fundamental para Rita Blanco, que interpreta uma das mulheres de Vinhais. “Nós íamos ter diálogos feitos por nós e mesmo as situações do filme eram construídas por nós. Logo, fazendo uma peregrinação, podemos escolher ideias, aproveitar situações que nos parecem interessantes e acrescentar às nossas personagens ou mesmo ao próprio filme”.

 

Rita Blanco construiu a sua “Ana Maria”, uma mulher “de gancho” com veia para líder do grupo. “O que é importante é que vocês, quando olharem para aquela Ana Maria, vejam a maneira de pensar daquela transmontana. Não é de uma transmontana. É daquela transmontana. E é isso que eu quero: que haja alguma verdade nas personagens que eu faço”.

As personagens de Rita Blanco e de Anabela Moreira destacam-se entre o grupo de 11 mulheres, como protagonistas… e antagonistas. A “Céu” a que Anabela Moreira dá corpo – e para a qual ganhou bastantes quilos – é “uma mulher sensível” que vai “acumulando ressentimentos” até atingir um limite.

Anabela sabe que “há pessoas que vão dizer que ela é a chata do grupo, outras que é a louca, outros que é a sensível, outros que é a má”. Mas em “Fátima” não há propriamente um herói e um vilão e era essa a intenção do realizador. “Este é o meu filme ‘matissiano’. Porque o Matisse tinha uma ambição, que era em cada quadro não haver um elemento preponderante e ser o espectador a construir o seu próprio quadro. Eu tentei fazer isso e consigo nas cenas dos acampamentos bastante bem. Por isso é que eu gosto mais da versão longa, porque tem mais acampamentos”.

O elenco completa-se com as actrizes Cleia Almeida, Vera Barreto, Teresa Madruga, Ana Bustorff, Teresa Tavares, Alexandra Rosa, Íris Macedo, Sara Norte e Márcia Breia. Chegou às salas de cinema três anos depois de ter dado os primeiros passos.

Catarina Santos para Rádio Renascença

25 de Setembro, 19h: “O Terceiro Assassinato”

Realização: Hirokazu Koreeda

Intérpretes: Masaharu Fukuyama, Kôji Yakusho, Shinnosuke Mitsushima

JAP, 2017, 124′  M/12

Shigemori (Masaharu Fukuyama), um advogado conceituado, foi designado para defender Misumi (Kôji Yakusho), um homem que cometeu um duplo homicídio há 30 anos e que, segundo parece, voltou a matar. O caso é particularmente complexo para o advogado, uma vez que o seu cliente já confessou o crime. A sentença, caso se prove o homicídio, é a pena de morte. Contudo, à medida que conhece mais intimamente Misumi e todos os que o rodeiam, Shigemori começa a ter sérias dúvidas acerca da sua culpabilidade.
Estreado no Festival de Cinema de Veneza, um “thriller” dramático escrito e realizado pelo pelo japonês Hirokazu Koreeda (“Ninguém Sabe”, “Andando”, “O Meu Maior Desejo”, “Tal Pai, Tal Filho”). PÚBLICO

 

Um conto moral japonês
Hirokazu Kore-eda é um cineasta japonês que continua a marcar presença nas salas do nosso país; o seu filme mais recente, “O Terceiro Assassinato”, aborda de forma especialmente subtil a investigação de um crime.

Há filmes que nos convocam através de modelos conhecidos, acabando por nos surpreender pelo modo como transfiguram e superam as regras desses modelos. “O Terceiro Assassinato”, escrito e realizado pelo japonês Hirokazu Kore-eda, é um desses filmes — começa como um policial, desenvolve-se como um drama de tribunal, desembocando, enfim, num subtil e perturbante conto moral. 

Em princípio, a personagem central é Misumi (Koji Yakusho), acusado de matar o patrão. E faz sentido dizer em princípio porque, de facto, a pouco e pouco, é o advogado de defesa Tomoaki Shigemori (Masaharu Fukuyama) que vai adquirindo o lugar central da intriga. Porquê? Porque ele próprio não sabe como lidar com o seu cliente…
O filme coloca o problema como uma espécie de efeito perverso da cena inicial, em que nos é mostrado o assassinato perpetrado por Misumi. Digamos, para simplificar, que Kore-eda consegue mesmo instalar uma dúvida sobre a verosimilhança da abertura do seu filme. De tal modo que essa dúvida atinge, inevitavelmente, a visão do próprio Shigemori.

Deambulamos, assim, entre o que vemos e o que não sabemos, o que é dito e o que permanece no silêncio: Shigemori — e, com ele, o espectador — é levado a questionar a relação que se estabelece (ou não) entre a letra da lei e a verdade dos factos. Em última instância, Kore-eda expõe as contradições de um leque de relações em que essa verdade é disputada como uma forma de poder — para não nos esquecermos, enfim, que há grande cinema feito no Japão.

Crítica de João Lopes

 

18 de Setembro, 19h: “Quando se Tem 17 Anos”

 

Realização: André Téchiné

IntérpretesSandrine KiberlainKacey Mottet KleinCorentin Fila

FRA, 2016, 116′  M/12

Esta história, que se desenrola nos Pirenéus franceses, foca-se em Damien (Kacey Mottet Klein), um adolescente que mora com a mãe médica (Sandrine Kiberlain) enquanto o pai militar está destacado em África. Um dia, é “obrigado”, por iniciativa dela, a viver com Thomas (Corentin Fila), o “bully” que o atormenta na escola. Isto porque a mãe de Thomas, paciente da mãe de Damien, é hospitalizada. A relação entre os dois acaba por se tornar muito mais próxima do que poderia parecer à partida. Um drama romântico sobre o despertar da sexualidade adolescente, co-escrito (com a ajuda de Céline Sciamma, a realizadora de “Bando de Raparigas”) e realizado pelo veterano francês André Téchiné, responsável por “A Minha Estação Preferida”, “Os Juncos Silvestres” e “Os Ladrões”, entre muitos outros filmes. PÚBLICO

 

No labirinto da adolescência

Nem sempre muito bem tratado pelo mercado, André Téchiné continua a assinar filmes admiráveis: “Quando Se Tem 17 Anos” é mais uma subtil abordagem do universo da adolescência, fazendo lembrar o seu “Os Juncos Silvestres”.

Quem preserva, hoje em dia, a herança de Jean Renoir (1894-1979)? Haverá, por certo, diversas respostas, desde logo no interior do cinema francês. Em todo o caso, será difícil encontrar alguém que, como André Téchiné, mantenha um trabalho, ao mesmo tempo tão coerente e tão diversificado, capaz de herdar e transfigurar a pedagogia humanista do autor de “A Regra do Jogo”. Para Téchiné, como para Renoir, a natureza humana é um elemento que importa discutir para além da sua… naturalidade.

Obviamente não por acaso, desde o começo da sua obra, em finais da década de 60, passando pela referência exemplar de “Os Juncos Silvestres” (1994), Téchiné tem-se interessado pelas convulsões específicas da adolescência. Com uma reserva que importa lembrar: não se trata de promover a “juventude” à condição de “tema”, mas sim de encenar personagens cuja idade desencadeia uma interrogação de identidade(s) e um processo de (des)conhecimento dos outros — o belíssimo “Quando Se Tem 17 Anos” (2016), agora lançado nas salas portuguesas, constitui mais um caso modelar do seu labor criativo.

Tudo se passa entre Damien e Thomas — interpretados, respectivamente, pelos magníficos Kacey Mottet Klein e Corentin Fila —, alunos de uma mesma escola que tudo parece separar, excepto uma intensa atracção. Mais do que a descoberta da sexualidade, Téchiné filma o cruzamento labiríntico das emoções mais íntimas com as regras de organização social (sendo, por isso mesmo, tão importante a personagem da mãe de Damien, interpretada por Sandrine Kiberlain) — no limite, apetece dizer que este é um cinema da “sociologia” do desejo.

Evitemos, porém, qualquer generalização fácil, de tipo telenovelesco. Téchiné não é um cineasta dependente de qualquer formatação televisiva, sendo totalmente avesso às definições maniqueístas das personagens (tanto no plano estritamente social como na dimensão sexual). “Quando Se Tem 17 Anos” é mais uma proeza excepcional de tal visão, para mais preservando essa aparente ligeireza, muito renoiriana, que faz com que os sobressaltos da ficção pareçam evoluir através de uma descrição de tipo documental — grande cinema para descobrir nas salas portuguesas.

Crítica de João Lopes

11 de Setembro, 19h: “Colo”

 

Colo

Realização: Teresa Villaverde

Intérpretes: João Pedro Vaz, Alice Albergaria Borges, Beatriz Batarda

Port, 2017, 136’, M/16

 

Colo: estamos todos a precisar do colinho de Teresa Villaverde

Estreia finalmente em Portugal o novo filme de Teresa Villaverde, mais de um ano depois da sua estreia mundial no festival de Berlim, na edição de 2017, onde foi um dos filmes mais marcantes da Competição Oficial. Talvez este Colo necessite de alguma precisão, tal como a crise vivida por uma família de classe média lisboeta careça de ajuda para perceber o que se passou. É a vergonha escondida do desemprego paterno, o trabalho a dobrar materno e também às dores de crescimento da filha adolescente, bem como da sua amiga. No meio disso tudo, temos o cinema pausado e observador de Teresa Villaverde, e do que sucede neste momento de realismo social nacional.

 

 

Algures nos andares cimeiros de um prédio no bairro dos Olivais, o pai (João Pedro Vaz) já vai denotando os indícios de perturbações mentais que uma permanência forçada em casa vai facilitando, isto enquanto a mãe (Beatriz Batarda) procura manter a cabeça organizada ao mesmo tempo que mantém dois trabalhos. No meio de tudo isto, a jovem Marta (Alice Albergaria Borges) vive na bolha dos desafios naturais permitidos pelos seus 17 anos. É com a amiga Julia (Clara Jost) que sente mais empatia, ela que por sua vez enfrenta os primeiros meses de uma gravidez inesperada, e ainda com o namorado (Tomás Gomes que interpreta e assina a banda sonora do filme), musico numa banda.

 

“Eu não tenho a resposta exata sobre a necessidade de colo no filme”, procurou precisar a cineasta à nossa pergunta. Mas lá foi garantindo que “estamos todos num momento confuso em que não sei se todos precisamos de alguma coisa que não sei se sabemos exatamente o que é.” Talvez seja mesmo colo, um conforto necessário para apaziguar a alma daqueles que não sabem o que fazer ao tempo. Algo que, de resto, Teresa admite partilhar com as suas personagens.

Por essa errância e por essa falta de rumo passaram de resto várias das suas personagens que atravessam uma filmografia coerente, ainda que esparsa, com sete filmes em 26 anos, desde A Idade Maior (1991), passando por Três Irmãos (1994)  ou Os Mutantes (1998), mas também com o lado mais pesado da vida de Transe (2006). O seu trabalho anterior, Cisne (2011) pertencerá a uma outra aresta, a das atrizes que sempre dominam os seus filmes. Aí a coerência é total.

 

Também aqui são elas que dominam a nossa atenção. Marta e Julia reclamam essa vertigem da adolescência, a experimentação e a liberdade. Algo que acaba por ser também transversal ao cinema português de autor. De resto, Colo começa com uma imagem que nos parece remeter para o clássico Os Verdes Anos, de Paulo Rocha, de 1963, com aqueles vestígios de aldeia enfiados dentro e Lisboa e a mirada do monte a olhar para os prédios da Avenida de Roma. Há aqui a Avenida de Roma, mas também o campo, ali mesmo, no Vale do Silêncio, nos Olivais. Foi de resto esse bairro que João Salaviza habitou em Montanha (2015), com personagens também a precisar de colinho. E há ainda uma cabana onde se conseguirá encontrar parte dessa liberdade impossível.

 

Teresa Villaverde filma tudo isso – excelente a fotografia de Acácio de Almeida e excelente o som de Vasco Pimentel, de certa forma os olhos e o ouvido do cinema português – bem como as assoalhadas e os corpos que parecem querer sair dos seus donos. Seja o passarito de Marta, o corpo de Julia habitado por um novo corpo que já parece sentir, mas é também esse corpo, o seu, o corpo de grupo, que chegará a aproximar do precipício.

Há ainda decisões algo insólitas que se irão tomar, mas essas são coisas que só Teresa poderá explicar. Ainda assim, Colo é essa sugestão de um país que deixou tantas pessoas perdidas numa crise que não consegue explicar e para a qual elas não estavam preparadas. É por isso mesmo um filme que continua.

Escrito por Paulo Portugal para a Insider.

4 de Setembro, 19h: “Esplendor”

RealizaçãoNaomi Kawase

IntérpretesMasatoshi Nagase, Ayame Misaki, Tatsuya Fuji

FRA/JAP, 2017, 101′  M/12

A jovem Misako faz versões de filmes para pessoas com deficiência visuais. Ela esforça-se para transpor a beleza das imagens em palavras, para que todos os possam sentir verdadeiramente. Num dos seus trabalhos conhece Nakamori, outrora um fotógrafo conceituado, que está lentamente a perder a visão. Pelas circunstâncias, os dois tornam-se cúmplices. Mas à medida que Nakamori perde a sua principal forma de conexão com o mundo, vai também adquirindo novas formas de lidar com ele. E a relação que surge entre ambos vai levá-los a olhar as suas vidas sob uma perspectiva absolutamente diferente.
Nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes – onde recebeu o Prémio Ecuménico -, um filme sobre a delicadeza dos sentidos assinado por Naomi Kawase, a realizadora japonesa responsável por “A Quietude da Água” (2014) e “Uma Pastelaria em Tóquio” (2015), entre outros. Os actores Ayame Misaki  e Masatoshi Nagase dão vida aos protagonistas. PÚBLICO

 

Em busca da tradução perfeita, por Francisco Russo

Delicadeza, teu nome é Naomi Kawase. Sem exagero. É através de sua principal característica que a diretora japonesa traz uma história situada em um universo tão próximo, mas também tão pouco retratado no cinema: o da criação de legendas para versões de filmes para cegos, de forma que eles não apenas possam compreender o que acontece, mas também a subjetividade de tais imagens. Só que, na verdade, Kawase deseja falar sobre como lidar com a subjetividade na própria vida.

Tal iniciativa tem como vértices dois personagens: um fotógrafo que está perdendo a visão e uma jovem tradutora, que possui questões familiares mal resolvidas e sofre a cada nova crítica recebida no trabalho. É comovente acompanhar sua dedicação não só em compreender o porquê das reclamações mas também em se aprimorar, o que a leva à contundente conversa com o diretor do filme ao qual legenda. “Gosto de um cinema que me traz esperança”, ela diz. “A vida nem sempre é assim”, ele responde.

Adaptar-se aos tombos provocados pela vida é o grande objetivo a ser alcançado, e assim também o é para Nakamori, crítico mais contundente da jovem. É ele o fotógrafo à beira da perda da visão, inevitavelmente rancoroso e buscando, de alguma forma, se agarrar ao que lhe resta. Através do respeito, eles se aproximam de forma que ela seja tragada ao seu mundo cada vez mais turvo. Esteticamente, Kawase aborda tal turbulência através de muita câmera na mão para retratar uma certa desorientação, assim como o uso de câmera subjetiva para mostrar seu olhar perante o mundo.

Pontuado por uma bela trilha sonora e com boas atuações de seus protagonistas, Ayame Misaki e Masatoshi Nagase, Hikari é um filme de fundo poético que explora, bastante, o que há por trás da luz e da imagem. Trata-se sobretudo de um roteiro bastante sensível, escrito pela própria diretora, onde através da compreensão e da aceitação busca-se ver com o coração o que não é possível obter através dos olhos. Belo filme.

http://www.adorocinema.com/filmes/filme-252153/criticas-adorocinema/