Author Archives: ocinemaemtomar

20 de Fevereiro, 19h: “Rosas de Ermera”

Realização: Luís Filipe Rocha

Documentário

POR, 2017, 125′  M/12

“Rosas de Ermera”, que em Maio encerrou o IndieLisboa, conta uma parte da história da família do músico José Afonso e dos irmãos, Maria e João, quando estiveram separados dos pais no período da Segunda Guerra Mundial.

“Por detrás deste filme está uma longa e profunda amizade com o Zeca e com a família e uma base de confiança que me foi depositada”, disse o realizador à agência Lusa em Maio.

A partir das memórias dos irmãos Maria e João, ancoradas em cartas e fotografias, o realizador conta um episódio de separação da família Afonso dos Santos em 1939 em Moçambique. Os pais e a filha mais nova partem para Timor-Leste, por razões profissionais, e os dois irmãos viajam para Coimbra.

Pouco depois da separação, em 1939, inicia-se a Segunda Guerra Mundial, na qual se envolverá o Japão, que ocupou a ilha de Timor-Leste e criou dois campos de concentração, onde estiveram presos portugueses, incluindo os pais e a irmã de José Afonso.

A família, que se julgava separada para sempre, voltou a reencontrar-se seis anos depois, no fim da guerra.

O documentário divide-se em duas partes, uma das quais com depoimentos de Maria e João Afonso dos Santos, com as memórias daquela época, e a outra com uma visita a todos os locais de Timor-Leste onde aquela família viveu, incluindo as localidades de Ermera, onde passaram férias, e o campo de concentração em Liquiçá.

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17 de Fevereiro, 15.30h: “O Gangue do Parque 2”

Realização: Cal Brunker

Versão dobrada em português

CAN/EUA/Coreia do Sul, 2017, 91′  M/6

“O Gangue do Parque” está de volta com a excitante sequela do enorme sucesso de animação de 2014! Quando finalmente podiam estar descansados com a quantidade de mantimentos que tinham conseguido apanhar, algo inesperado acontece: a loja dos frutos secos explode e com ela toda a comida. Para piorar ainda mais a situação, Flecha e o seu gangue ficam a saber que o diabólico Presidente da Câmara quer demolir o Parque da Liberdade para construir um parque de diversões. Juntos com os seus novos aliados, os animais precisam de agir depressa para o impedir, antes que percam o seu santuário para sempre. PARTIDA, LARGADA, TODOS PELO PARQUE!
O GANGUE DO PARQUE 2  na versão original, conta com as vozes de Will Arnett, Katherine Heigl, Maya Rudolph, Bobby Cannavale, Jackie Chan, Bobby Moynihan, Isabela Moner, Peter Stormare, Gabriel Iglesias, Jeff Dunham e Sebastian Maniscalco. Já na dobragem em português, as vozes são de Manuel Marques, Mila Belo, Ricardo Carriço, Sónia Tavares, Tiago Teotónio Pereira, Filipa Areosa, José Mata, Ricardo Monteiro, Bruno Ferreira e José Jorge Duarte.

 

 

 

 

 

 

6 de Fevereiro, 19h: “Lucky” – in memoriam Harry Dean Stanton

Realização: John Carroll Lynch

Intérpretes: Harry Dean Stanton, David Lynch, Ron Livingston

EUA, 2017, 88′  M/12

Lucky, de 90 anos, vive numa pequena cidade do Texas (EUA). Os seus dias seguem iguais, com a constante repetição das rotinas: fuma os seus cigarros, toma o pequeno-almoço no café, faz palavras cruzadas, faz compras na mercearia e bebe um copo no bar com alguns amigos. Certo dia, cai na cozinha. Este incidente vai desencadear uma reflexão sobre toda a sua existência e a inevitável aproximação do fim…
Com Harry Dean Stanton como protagonista – numa das suas últimas aparições em cinema antes da morte, a 15 de Setembro de 2017 –, um filme dramático que marca a estreia na realização do actor John Carroll Lynch. Logan Sparks e Drago Sumonja também se estreiam como argumentistas. No elenco estão mais alguns veteranos da sétima arte: Ron Livingston, Ed Begley Jr., Tom Skerritt, Beth Grant, James Darren e David Lynch, entre outros. PÚBLICO

 

Um filme que acredita nos actores
Foi um derradeiros filmes interpretados por Harry Dean Stanton: “Lucky”, estreia na realização de John Carroll Lynch, é uma bela homenagem e também uma intransigente defesa de um cinema de actores.

A imagem de Harry Dean Stanton a dialogar com David Lynch poderá fazer-nos pensar que estamos num filme do próprio Lynch. Afinal de contas, o emblemático actor americano, falecido no passado dia 15 de Setembro, contava 91 anos, foi uma figura cúmplice dos enigmas lynchianos, tendo ainda surgido na nova temporada de “Twin Peaks”. Mas não: estamos perante um dos títulos finais de Harry Dean Stanton, “Lucky”, realizado por John Carroll Lynch (actor a estrear-se na realização). 

”Lucky” talvez se possa definir como um objecto que nasce, justamente, da presença de Harry Dean Stanton, ou melhor, do facto de o seu envelhecimento se adequar de forma singularmente realista ao envelhecimento da própria personagem central. Não por qualquer lógica voyeurista, antes porque o actor aceita que a sua performance favoreça também uma espécie de documentário surreal sobre as vivências daquela cidadezinha made in USA em que tudo acontece. 

E lembramo-nos da tradição clássica do “western”, em particular dos seus lugares de escassos habitantes em que as rotinas do dia a dia parecem favorecer uma reflexão mais ou menos irónica sobre a fragilidade da vida e a certeza da morte. Embora situado num tempo que reconhecemos cúmplice do nosso, “Lucky” mobiliza essas memórias, de desencantada nostalgia, revisitando o imaginário de um tempo que não pode ser repetido, muito menos mimado.

Lynch (John Carroll, neste caso) consegue, afinal, celebrar os pequenos incidentes da existência humana, com eles e através deles defendendo uma ideia de cinema que passa, justamente, antes do mais, pela fisicalidade dos actores. Em tempo de tantos delírios gratuitos dos (chamados) efeitos especiais, “Lucky” é uma declaração de amor pelos actores e pelas respectivas personagens — acreditando ainda num cinema humano, porventura demasiado humano.

Crítica de João Lopes

Memórias de Harry Dean Stanton
Com mais de duas centenas de títulos em cinema e televisão, Harry Dean Stanton é um dos grandes secundários do último meio século do cinema americano — o actor faleceu em Los Angeles, contava 91 anos.

Nas memórias dos cinéfilos, ele é, antes do mais, essa figura atormentada que descobrimos a deambular no deserto, na abertura de “Paris, Texas” (1984), de Wim Wenders: Harry Dean Staton faleceu em Los Angeles, no dia 15 de Setembro — contava 91 anos.

Em 2014, muitos terão ficado surpreendidos quando o actor lançou o álbum “Partly Fiction”, uma antologia de canções em parte ligadas ao documentário com o mesmo título, sobre a sua carreira, revelado dois anos antes. Aí cantava assim, por exemplo, o tema  “Tennessee Whiskey”.

De facto, Harry Dean Stanton não tinha apenas formação nas artes da representação. Era também alguém que estudara música, tendo mesmo começado como baterista — aliás, ao longo das décadas, nunca extinguiu a sua banda, mantendo uma actividade regular de concertos. O certo é que, desde os primeiros anos da década de 50, passou a trabalhar em televisão e cinema, iniciando uma filmografia monumental que viria a ultrapassar as duas centenas de títulos. 

Para várias gerações de espectadores, ele é, antes do mais, a figura que caminha, erraticamente, no começo de “Paris, Texas”. Contracenando com Nastassjia Kinski, a sua interpretação pode simbolizar a sua maior virtude: a arte de manter a máxima contenção, sempre na procura da máxima intensidade emocional.

Raramente assumindo papéis principais, Harry Dean Stanton foi, de facto, um sofisticado secundário, um típico character actor que, como escreveu Anita Gates em “The New York Times”, “se transformou numa estrela”. Outro exemplo inesquecível das suas qualidades poderá ser a participação em “Alien: O Oitavo Passageiro” (1979), sempre lembrada através da cena em que é descoberto pelo monstro.

Na sua impressionante trajectória, foi dirigido várias vezes por cineastas como Francis Ford Coppola, por exemplo em “Do Fundo do Coração” (1981), e David Lynch, nomeadamente em duas derivações de “Twin Peaks”: a longa-metragem “Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer” (1992) e o revival da série televisiva, já neste ano de 2017 [leia-se a evocação publicada no site de The Criterion Collection]. 

Entre os seus pequenos, mas essenciais, papéis encontramos participações em “O Presidiário” (1967), de Stuart Rosenberg, “Two-Lane Blacktop” (1971), de Monte Hellman, “A Última Tentação de Cristo” (1988), de Martin Scorsese, “The Green Mile/À Espera de um Milagre” (1999), de Frank Darabont, “Alpha Dog” (2006), de Nick Cassavetes, “Este é o Meu Lugar” (2011), de Paolo Sorrentino, e “Os Vingadores” (2012), de Joss Whedon.

Mesmo com tão longa e multifacetada carreira, nunca chegou às nomeações para os Oscars (nem sequer aos Globos de Ouro). Em 2000, o conjunto dos actores de “The Green Mile”, em que estava incluído, foi nomeado pelo Screen Actors Guild para o prémio de melhor elenco.

por João Lopes

 

30 de Janeiro, 19h: “A Escolha do Rei”

Realização: Erik Poppe

Intérpretes: Jesper ChristensenAnders Baasmo ChristiansenKarl Markovics

NOR, 2016, 133′  M/12

A ESCOLHA DO REI baseia-se na história verídica dos três dias dramáticos, em Abril de 1940, em que o rei da Noruega recebe um ultimato impensável das forças armadas alemãs: rendição ou morte. Com a Força Aérea e os soldados alemães no seu encalce, a família real é forçada a fugir da capital. Decidem tomar caminhos separados, sem saber se alguma vez se vão voltar a ver. Märtha, a princesa real, deixa a Noruega com os filhos, procurando refúgio na Suécia, enquanto que o rei Haakon e o príncipe herdeiro Olav ficam, para combater os alemães. Após três dias de tentativas desesperadas de se esquivarem aos alemães, o rei Haakon toma a sua decisão final: recusa a capitulação, ainda que isso possa custar a vida a si, à sua família e a muitos noruegueses.

 

O homem que preferiu dizer ‘não’

O filme de Erik Poppe, A Escolha do Rei, é um poderoso testemunho da resistência do rei Haakon VII à ocupação nazi da Noruega, encetada em Abril de 1940

Não se trata de mais um filme sobre a Segunda Guerra Mundial e os horrores da máquina nazi. Tão pouco é, na sua essência, um filme sobre a “conquista” da Noruega pelas forças do exército alemão. Em A Escolha do Rei, 
a realidade histórica serve apenas como pano 
de fundo para contar um episódio pouco conhecido dessa invasão ao país escandinavo 
– e que merece ser lembrado: a renúncia do rei Haakon VII à ocupação alemã e ao governo imposto por Hitler.

Centrado num período de três dias – 9, 10 e 11 de Abril, de 1940 –, o filme acompanha a tentativa de resistência do rei e da sua família, explorando sobretudo os conflitos éticos e morais com que o monarca se depara à medida que o “ultimato” se aproxima: com as principais cidades da Noruega controladas pelo exército alemão, e na ausência de uma resposta militar à altura, resta-lhe render-se (como fez o seu irmão Christian X, rei da Dinamarca), ou sofrer as consequências.

Não sendo surpreendente em termos de linguagem cinematográfica, A Escolha do Rei cumpre bem a função de filme-testemunho; de “farol simbólico” da luta pela soberania de um país, como aparece escrito nas declarações finais. É de realçar a personagem principal, interpretada de forma convincente pelo dinamarquês Jesper Christensen, na pele de um rei humanizado, 
tão preocupado com os netos como com o povo que o elegeu (nas primeiras eleições após a independência total da Suécia, em 1905).

Mas talvez o grande rasgo do filme venha de Curt Bräuer, papel desempenhado pelo austríaco Karl Markovics (a lembrar muito Christoph Waltz, na sua versão mais severa). Entalado entre o dever de obediência ao führer e a vontade de ajudar o rei a preservar a política de neutralidade da Noruega, o enviado nazi acrescenta complexidade e fulgor à trama, trazendo para o filme as inquietações de alguém que só agora começa a perceber do que a grande máquina de Hitler é capaz.

Um dos momentos altos do drama de Erik Poppe resulta precisamente do confronto entre estas duas figuras (Haakon VII e Bräuer), numa cena memorável que põe a nu as convicções de cada um: de um lado, um rei que recusa entregar o destino do seu país “numa sala, em privado” (sem a legitimidade do Executivo e do povo); e de outro lado, um diplomata que acredita estar ao serviço da paz ainda sem imaginar a dimensão da guerra que tomará conta da Noruega, e do mundo, até 1945.

Carolina Freitas, in VisãoSete

23 de Janeiro, 19h: “O Quadrado”

RealizaçãoRuben Östlund

Intérpretes: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Christopher Læssø

SUE/DIN/ALE/FRA, 2017, 142′

Christian é um homem respeitado que trabalha como curador num museu de arte contemporânea. É pai extremoso de duas crianças pequenas, conduz um carro eléctrico e contribui como pode em todas as causas humanitárias. Em suma, é um homem de bem.
Profissionalmente, o projecto que tem agora em mãos é “O Quadrado”, uma instalação peculiar que convida os visitantes a reflectir sobre altruísmo. Para o ajudar na promoção do evento, Christian conta com o departamento de relações públicas do museu. Mas os eventos que se sucedem acabam por lançar Christian numa crise que fará vir ao de cima uma versão menos “politicamente correcta” de si mesmo…
Palma de Ouro na 70.ª edição do Festival de Cannes, uma comédia negra com assinatura do sueco Ruben Östlund (“Força Maior”) e interpretações de Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West e Terry Notary.
Vencedor de 5 European Film Awards 2017, entre os quais os de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento.

 

A arte e as suas ambivalências

Foi com “O Quadrado” que o sueco Ruben Östlund arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2017: uma crónica, entre o sério e o irónico, sobre as nossas relações com a arte e os objectos artísticos.

De que falamos quando falamos de arte contemporânea?… A acreditar no filme “O Quadrado”, falamos de uma grande confusão, tanto no plano individual como institucional. Ou seja: o filme do sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro de Cannes (no passado mês de Maio) lança uma série de pistas, umas realistas, outras mais ou menos burlescas, para nos confrontar com as ambivalências do nosso mundo mediatizado.

Tudo se passa em torno da personagem do director (Claes Bang) de um museu de Estocolmo que se descobre assombrado pelos mais variados incidentes, desde a carteira que lhe roubam na praça do próprio museu até à conservação de algumas insólitas peças que tem em exposição… Isto sem esquecer a presença insólita, misto de sedução e ameaça, de uma jornalista (Elizabeth Moss) que o quer entrevistar.

Östlund combina tudo isso numa teia a que não podemos deixar de reconhecer agilidade e alguns efeitos desconcertantes. Não parece que o seu filme esteja muito empenhado em “dizer” algo de muito consistente sobre aquilo que coloca em cena (a integração do tema dos refugiados soa mesmo a demagogia fácil). O certo é que, por vezes, em grande parte através dos actores, “O Quadrado” consegue expor a falsidade intrínseca de tantas relações do nosso tempo, supostamente construídas em nome da transparência e do “progresso”.

Certamente não por acaso, em Cannes, o filme foi visto por gente muito respeitável (a começar pelo júri presidido por Pedro Almodóvar) como um sugestivo reflexo de alguns impasses do nosso viver europeu… Talvez. Em todo o caso, nesse território e também na secção competitiva, “Happy End”, de Michael Haneke, distinguiu-se, creio, por outra subtileza e uma bem diferente perturbação — digamos apenas que, para já, não consta das listas dos distribuidores portugueses.

Crítica de João Lopes

20 de Janeiro, 15.30h: “O Gangue do Parque”

Realização: Peter Lepeniotis

Versão dobrada em português

CAN/EUA/Coreia do Sul, 2014, 85′  M/6

Flecha é um esquilo que se tornou célebre pela sua personalidade enérgica e, mais ainda, pela sua infinita capacidade de se meter em sarilhos. Depois de uma situação que deixa a comunidade onde vive sem provisões para a próxima estação, Flecha é expulso. Desanimado e bastante infeliz, abandona o parque onde nasceu e segue em direcção à cidade grande, repleta de mistérios e onde os perigos espreitam a cada esquina. Lá chegado, e contra todas as probabilidades, depara-se com um lugar que sempre julgou existir apenas em contos de fadas: a mítica “Cidade Perdida de Avelândia”, onde os humanos se abastecem durante todo o ano dos mais variados tipos de frutos secos, desde os saborosos amendoins, avelãs e amêndoas até aos magníficos cajus fritos de que toda a vida ouviu falar. Mas esta loja, para grande infelicidade dos roedores da zona, não está propriamente ao abandono… Decidido a ultrapassar esse pequeno detalhe, Flecha tem de reunir um grupo de corajosos e elaborar um plano de assalto para chegar à comida que lhes irá garantir a sobrevivência para o Inverno que se prevê rigoroso… e que não tarda a chegar.
O GANGUE DO PARQUE conta com um impressionante elenco de personagens às quais dão voz Manuel Marques, Mila Belo, Pedro Granger, Sónia Tavares, Clara de Sousa, José Jorge Duarte, Bruno Ferreira, Marta Gil, Tiago Teotónio Pereira, José Nobre, Ricardo Monteiro e José Campos e Sousa.

 

 

 

 

 

 

16 de Janeiro, 19h: “Lady Macbeth”

Realização: William Oldroyd

Intérpretes: Florence Pugh, Christopher Fairbank, Cosmo Jarvis, Ian Conningham

GB 2016, 89′  M/12

Inglaterra, 1865. Katherine (Florence Pugh), uma jovem que foi forçada a casar-se com um homem de meia-idade, herdeiro de uma grande fortuna industrial, sente-se confinada à casa rural que ambos partilham, sem grande satisfação na vida, nem sequer atenção do marido. Quando este vai para uma viagem de várias semanas, Katherine começa a libertar-se das amarras opressoras do casamento, que envolvem horários rigorosos e a impossibilidade de sair de casa, e envolve-se com um homem que trabalha na propriedade.

Baseado no romance homónimo do russo Nikolai Leskov, publicada no ano em que a história se desenrola, um drama que marca a estreia na realização de William Oldroyd, que fez carreira como encenador de teatro no Reino Unido. PÚBLICO

 

Lady Macbeth: A imoral da história

O encenador britânico William Oldroyd estreia-se no cinema com Lady MacBeth, um atípico filme de época, com um profundo sentido do drama e da tragédia

Lady Macbeth é o primeiro filme do encenador britânico William Oldroyd. A informação torna-se importante visto que há efetivamente algo de profundamente teatral nesta adaptação do conto Lady Macbeth of Mtsenskde, de Nikolai Leskov, também já passado para a ópera. Sobretudo através do desenho relativamente rígido das personagens e do modo como contracenam. A ação passa-se na Inglaterra rural e senhorial do século XIX. Mas sobressai uma certa ideia de anacronismo, como se as personagens coexistissem em tempos diferentes. Por um lado, há uma rigidez machista, quase medieval, na venda para casamento da rapariga a um rico proprietário, e pela forma como o marido lida com a esposa e como o sogro lida com a nora. Há toda uma brutidão explícita, que vai desde a bizarra relação íntima marido-
-mulher, até à exigente postura pública. Tudo isto faz-nos desejar a libertação de Katherine, transformando-o na máxima e maquiavélica ambição de todo o filme.

Tal acontece fruto do acaso, da oportunidade, com as viagens do marido e do sogro, em que ela se apaixona por Sebastian, um trabalhador negro. Sebastian é uma personagem do século XX. 
No discurso, no arrojo, na ambição. Quando os encontramos juntos avançamos oceanos de tempo, como quem diz que a liberdade e o verdadeiro amor nos tornam atemporais e por isso contemporâneos.

Os dilemas de Lady Macbeth assemelham-
-se, em parte, a O Monte dos Vendavais, mas a sua resolução é diversa e bastante mais pragmática. Ao desejar intensamente a libertação de Katherine, o espectador cai numa armadilha. Porque cedo se apercebe de que não há inocência na sua figura, bem pelo contrário, é a única personagem verdadeiramente perversa no sentido em que passa com demasiada facilidade da circunstância de vítima para a de carrasco. E o público, que tomou partido e foi convicto da ideia de que a violência sobre Katherine é horrenda, e de que é legítimo lutar pela sua libertação e felicidade amorosa, vê-se confrontado com um crescendo dilema moral. É forçado a responder à pergunta: até onde se poderá ir em nome dessa felicidade e dessa libertação? Cada um traçará a sua própria linha.

Com uma magnífica interpretação de Florence Pugh, Lady Macbeth é um atípico filme de época, com um profundo sentido do drama e da tragédia.

Manuel Halpern, in Visão Sete