Author Archives: ocinemaemtomar

22 de Maio, 19h: “A Festa”

Realização: Sally Potter

Intérpretes: Kristin Scott Thomas, Timothy Spall, Patricia Clarkson, Bruno Ganz, Cherry Jones, Cillian Murphy, Emily Mortimer 

GB 2017, 71‘  M/12

A FESTA – uma comédia envolta em tragédia – desenvolve-se em tempo real numa casa de Londres, nos dias de hoje. Janet recebe um grupo de amigos próximos para celebrar a sua promoção a “Ministro-Sombra” da Saúde do partido da oposição. Mas o marido, Bill, parece preocupado. À medida que os amigos chegam, alguns com notícias para partilhar, a noite vai-se desenredando. Um anúncio de Bill provoca uma série de revelações que rapidamente escalam em confronto aberto. Enquanto as ilusões das pessoas em relação a si próprias e umas às outras se vão desfazendo em fumo, tal como os canapés, a festa torna-se numa noite que começou com champanhe e acaba com sangue no chão.

 

Sobre a nudez moral
Eis um pequeno grande filme, dos melhores e mais estimulantes estreados entre nós nos últimos meses: em “A Festa”, Sally Potter desmonta o jogo de máscaras através do qual as suas personagens se relacionam — com um belo elenco liderado por Kristin Scott Thomas.

Em “A Festa”, Kristin Scott Thomas, actriz de uma versatilidade tecida de delicada contenção, surge a interpretar Janet, uma futura ministra da saúde. Mas a acção nada tem a ver com os cenários do seu trabalho político. Estamos, afinal, perante os dados tradicionais daquilo que parece uma não menos tradicional “comédia de costumes”: Janet convida alguns amigos — serão apenas sete personagens naquelas duas ou três divisões — para celebrar a sua promoção ao novo cargo. 

O menos que se pode dizer é que o filme dirigido pela britânica Sally Potter (famosa pelo seu “Orlando”, de 1992, segundo Virginia Woolf) conta com um elenco de gente de sofisticado talento, cada um deles sabendo compor a respectiva personagem como espelho da mais velha, e indomável, fraqueza humana: a de mascarar a verdade mais funda de cada identidade — além de Kristin Scott Thomas, o filme inclui Timothy Spall, Patricia Clarkson, Bruno Ganz, Cherry Jones, Emily Mortimer e Cillian Murphy.

Importa não revelar ao leitor/espectador o enigma que assombra o filme — há nele qualquer coisa de irónico e terrível, dir-se-ia à maneira clássica de Agatha Christie. Sublinhemos apenas que a celebração está longe de decorrer como previsto. Em breves minutos (até porque o filme é exemplarmente sintético: 71 minutos), aquele colectivo vai ser atingido pelo não-dito das suas relações, num processo de desnudamento moral que Potter filma com implacável precisão clínica.

Eis um filme atípico, fora de moda e precioso: um filme que acredita que as personagens nascem através dos corpos dos actores, não pela banal acumulação de efeitos digitais e bandas sonoras mais ou menos ruidosas… Fotografado num admirável preto e branco pelo mestre russo Aleksei Rodionov, “A Festa” é um dos mais vulneráveis produtos comerciais que, nos últimos meses, chegaram às salas portuguesas — e também um dos mais brilhantes.

Crítica de João Lopes

 

Anúncios

Festa do Cinema Italiano – Programação

À semelhança dos dois últimos dois anos, o Cineclube de Tomar apresenta na próxima semana uma extensão da Festa do Cinema Italiano, com filmes inéditos em Portugal, e que provavelmente não terão distribuição comercial no nosso país.

A programação será a seguinte:

15/05Fortunata, de Sergio Castellitto (ITA, 2017, 103′) – 19h

Fortunata (Jasmine Trinca) é uma mãe adolescente vivendo numa situação extremamente complicada e assombrada por um casamento fracassado. Como forma de mudar de vida, precisa lutar diariamente por seu sonho: abrir um salão de cabeleireiro desafiando seu próprio destino, numa tentativa de emancipar-se e adquirir sua independência e o direito à felicidade.

16/05Botticelli – Inferno, documentário de Ralph Loop (ITA/ALE, 2016, 86′)      http://www.botticelli-inferno.de/19h

17/05In Guerra per Amore, de Pif (ITA, 2016, 99′)  – 19h http://bogiecinema.blogspot.pt/2017/04/resenha-critica-in-guerra-per-amore-2016.html

19/05Pipi, Pupù Rosmarina e il Mistero delle Note Rapite, de Enzo D’Alò (ITA/FRA, 2017, 81′)  – filme de animação para crianças – 15.30h

Gatta Cenerentola, de Ivan Cappiello | Marino Guarnieri | Alessandro Rak | Dario Sansone (ITA, 2017, 86′) – filme de animação para maiores de 12 anos – 21.30h

https://bogiecinema.blogspot.pt/2018/04/critica-gatta-cenerentola-2017.html

 

 

08 de Maio, 19h: “Gatos”

10_-_kamil_in_kedi-embed

 

Realização: Ceyda Torun

Turquia, 2016, Cores, 79’, M/6

 

Um documentário que, mais do que ser sobre bichos fotogénicos, é sobre a identidade de uma cidade vista pelos olhos dos gatos.

A internet, como todos sabemos, foi feita para os gatos, bichos fotogénicos por excelência e com personalidades muito específicas que parecem saber quando uma câmara os está a filmar (não temos nada contra os cães, mas estamos a falar de um filme sobre gatos). Convirá por isso desde já deitar abaixo a ideia que o filme da turca Ceyda Torun, radicada nos EUA, é uma simples colagem de felinos a serem felinos, fazerem tropelias, perfeita para a estética dos clips partilhados nas redes sociais, porque não é na verdade nada disso. Gatos é, isso sim, uma exploração do quotidiano “real” de Istambul por meio dos gatos vadios que povoam a cidade, e do sentido de comunidade que estes animais ora altivos ora afectuosos ora brincalhões ajudam a cimentar.

Sem perder de vista a fotogenia inerente à capital turca, Torun evita ao mais possível o postal turístico e o lugar-comum exótico para se concentrar nos bairros populares, nos bazares e cafés e mercados e restaurantes que servem também de ponto de encontro de bairros ou comunidades. Os gatos funcionam aqui como “guias turísticos” que nos levam de zona em zona, mas também como “âncoras” da comunidade que todos alimentam, respeitam e tratam, numa simpatia natural e numa coabitação pacífica e mutuamente enriquecedora. É por isso que a chave do filme está, por exemplo, no pescador que toma conta de uma ninhada abandonada, ou nos vendedores de um mercado que sobrevive pelo meio das construções modernas, questionando o que acontecerá quando a ganância do imobiliário levar à destruição dos bairros mais antigos e pitorescos. Perguntam eles: o que será dos gatos quando isso acontecer?

E nessa preocupação com o futuro dos gatos está também uma preocupação com aquilo que caracteriza uma cidade e lhe dá a sua personalidade, aquilo que a faz viver e sentir. No filme de Ceyda Torun, os gatos — desde a “psicopata” ciumenta e asocial à “laranjinha” que não tem problemas em fazer-se à rua para dar de comer aos filhos, passando pelo “cavalheiro” que nunca entra no café mas fica à espera que o venham servir — são o sangue que dá vida a Istanbul. É certo que são um sangue fotogénico, fofinho, encantador, divertido — mas são parte integrante de uma identidade urbana que, como um pouco por todo o mundo, está em riscos de se diluir.

Escrito por Jorge Mourinha para Público.

21 de Abril, 15.30h: “Rudolfo, o Gatinho Preto”

Realização: Motonori Sakakibara, Kunihiko Yuyama

Versão dobrada em português

JAP, 2016, Cores, 89′  M/3

O gatinho Rudolfo cresceu com a dona na pequena cidade de Gifu, no Japão. Certo dia, acaba acidentalmente entre caixotes num camião de transporte de longa distância. Quando dá por si, está a centenas de quilómetros de casa, mesmo no centro da cidade de Tóquio. Sozinho e totalmente desprotegido, é acolhido por Tenhomuitos, o chefe dos gatos vadios. Apesar de simpatizar imediatamente com o seu novo amigo, fica espantado ao perceber que ele aterroriza a população felídea da zona. É então que Tenhomuitos lhe revela um segredo que pode significar algo importantíssimo para Rudolfo: consegue decifrar a escrita humana. Com esse conhecimento, talvez os dois consigam encontrar um modo de fazer o pequeno gatinho regressar para os braços da sua dona…
Um filme animado sobre a importância da amizade em tempos adversos, com realização de Motonori Sakakibara e Kunihiko Yuyama.  PÚBLICO

 

 

 

 

 

 

17 de Abril, 19h: “Além da Estrada”

Realização: Charly Braun

Intérpretes: Hugo Arias, Naomi Campbell, Esteban Feune de Colombi

BRA/Uruguai, 2010, 85′ M/12

Santiago (Esteban Feune de Colombi) é um jovem argentino que chega a Montevideu, Uruguai, para resolver algumas questões relacionadas com a herança dos seus pais, que morreram recentemente num trágico acidente de automóvel. A caminho de Punta del Este, o rapaz dá boleia a Juliette (Jill Mulleady), uma jovem belga que viaja em busca de um amigo numa comunidade neo-hippie. Juntos vão seguindo viagem e cruzando as belas paisagens uruguaias, ao mesmo tempo que vão desenvolvendo uma relação cheia de significado…
Um “road movie” que marca a estreia na longa-metragem do brasileiro Charly Braun, realizador das curtas premiadas “Quero Ser Jack White” e “Do Mundo Não Se Leva Nada”. PÚBLICO

 

“Além da estrada” explora bem o gênero “road movie”

Um homem, uma mulher e uma estrada. Você já viu esse “road movie” várias vezes. Ainda assim, o diretor carioca Charly Braun consegue, em seu primeiro longa-metragem, extrair frescor desses elementos tantas vezes recombinados pelo cinema.

O homem é Santiago (Esteban Feune de Colombi), um argentino de cerca de 30 anos que decide viajar ao Uruguai para conhecer um terreno deixado por seus pais, mortos em um acidente algum tempo antes. A mulher é Juliette (Jill Mulleady), uma belga que chega ao mesmo país atrás de uma paixão do passado.
Santiago dá uma carona para Juliette na capital, Montevidéu, e eles desbravam as famosas praias e o desconhecido interior do país. Parte do encanto de “Além da Estrada”, coprodução Brasil-Uruguai, vem do fato de que os sentimentos dos dois protagonistas estão perfeitamente espelhados na paisagem desolada.
Um território marcado não apenas pelos imensos vazios mas sobretudo pela impressão de estar aprisionado ao passado. Outra parte dos atrativos do filme surge da integração entre os momentos ficcionais e algumas passagens que namoram o documental. Isso pode ser visto em particular nos encontros entre Santiago e Juliette com figuras reais do interior uruguaio, que quebram a noção de desolamento.

Por fim, e talvez mais importante, os sentimentos dos personagens principais não parecem fabricados para atender a uma determinada carência do público, seja por romance, por belas paisagens ou por um pouco de fé na humanidade. Eles parecem brotar naturalmente na tela como reflexo de uma sensação de inadequação e nostalgia. Isso é reforçado pelos vídeos caseiros usados no fim do filme, em que o diretor ainda criança aparece em vários dos locais visitados por seus protagonistas.

“Além da Estrada” pode ser um filme irregular, que alterna sequências de grande força com algumas outras de menor interesse, mas é no balanço geral uma estreia muito promissora.

RICARDO CALIL
CRÍTICO DA FOLHA de S. PAULO

 

Filme integrado no projecto MOVTOUR, em parceria com os Institutos Politécnicos de Tomar e Santarém e Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

Entrada Livre para alunos e funcionários do IPT.

 

10 de Abril, 19h: “Por Aqui e Por Ali – A Walk in the Woods”

Realização: Ken Kwapis

Intérpretes: Robert RedfordNick NolteEmma Thompson

EUA, 2015, 104′  M/12

Após ter passado duas décadas em Inglaterra, o escritor de viagens Bill Bryson (Robert Redford) está de regresso aos Estados Unidos.

Em vez de aproveitar a companhia da esposa (Emma Thompson) e restante família, decide que a melhor forma de recuperar os laços com a pátria passa por uma caminhada pelo trilho dos Montes Apalaches, 3.540 kms através de algumas das mais intocadas, espectaculares e acidentadas paisagens da América.

Infelizmente para ele, a paz e tranquilidade que esperava encontrar não passa de um sonho desde o momento em que a única pessoa disposta a acompanhá-lo na caminhada é o seu amigo Katz (Nick Nolte), um mulherengo inveterado que depois de uma vida a enganar meio mundo, vê na viagem a forma de escapar a algumas dívidas e a hipótese de uma última aventura antes que seja tarde demais.

Robert Redford e Nick Nolte no Trilho dos Apalaches

Baseado no best-seller de Bill Bryson, “A Walk in the Woods” coloca em cena dois grandes actores, Robert Redford e Nick Nolte.

Bill Bryson (Robert Redford) é um escritor de viagens que está a marinar há vários anos e decide libertar-se da esposa e dos netos para embarcar num percurso pedonal de 3500 quilómetros da cordilheira Apalache que vai da Geórgia até ao Maine nos Estados Unidos. Na viagem leva Stephen Katz (Nick Nolte), um amigo inesperado, um velho companheiro das aventuras na Europa quando eram mais jovens. Bill perdeu o contacto com Stephen que esbanjou a sua vida com o álcool e as mulheres. Os dois homens, apesar da idade avançada, embarcam no percurso contra todas as expectativas de o terminarem com o seu passo de caracol. O filme infelizmente também mantém esse ritmo, intercala a viagem com cruzamentos com desconhecidos, uns mais felizes do que outros, que servem sobretudo de dispositivo de humor. Salva-se o cenário e alguns diálogos mais profundos de balanço das suas vidas, Nick Nolte por ter o personagem mais modelado está melhor em cena. É um daqueles casos em que o livro e a própria aventura deverão ser mais inspiradores, o filme tem a sua simpatia e serve para se desfrutar a paisagem e os dois bons intérpretes que fazem este percurso narrativo com um pé atrás das costas.

Jorge Pinto, in Metropolis

 

Filme integrado no projecto MOVTOUR, em parceria com os Institutos Politécnicos de Tomar e Santarém e Centro de Estudos Sociais de Coimbra.

Entrada Livre para alunos e funcionários do IPT.

 

3 de Abril, 19h: “Uma Mulher não Chora”

Realização: Fatih Akin

Intérpretes: Diane KrugerDenis MoschittoNuman Acar

FRA/ALE, 2017, 106′  M/16

Inesperadamente, a vida de Katja desmorona-se quando o marido Nuri e o filho Rocco morrem num atentado à bomba. Os amigos e familiares tentam apoiá-la em tudo o que conseguem e Katja consegue sobreviver ao funeral. Mas a busca pelos perpetradores e as razões que levaram ao atentado agravam o luto de Katja, abrindo feridas e dúvidas. Danilo, advogado e melhor amigo de Nuri, representa Katja no julgamento dos dois suspeitos: um casal neo-nazi. O julgamento leva Katja ao limite. Para ela não há outra alternativa senão fazer-se justiça.

 

Uma Mulher não Chora: Um filme para enfrentar os medos

Na verdade, Katja chora. Seria difícil não o fazer. Uma Mulher Não Chora, que ganhou o Globo de Ouro para Melhor Filme Estrangeiro, é sobre a perda e desgosto; o luto e o vazio que se transformam na necessidade de justiça perante um crime hediondo: a morte da sua família – Nuri, um turco, e o filho de ambos – num atentado.

É um papel exigente e Diane Kruger, na sua primeira produção germânica, tem o melhor desempenho da carreira, conquistando inclusive o prémio de Melhor Actriz em Cannes. Uma Mulher Não Chora é um filme que vive entre a actualidade política e social (o ressurgimento de grupos de extrema-direita e os consequentes ataques xenófobos; o pânico do terrorismo islâmico) e a estrutura clássica de um filme de vingança, em que a velha máxima de Nietzsche – “E se tu olhares durante muito tempo para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti” – é quase sempre aplicável.

O filme agarra o espectador e obriga-o a confrontar-se com as consequências do ódio, que alastra à vista de todos. Mas a verdade é que Fatih Akin demonstrou, nas suas duas obras-primas (Head-On – A Esposa Turca e Do Outro Lado), uma habilidade narrativa que lhe permite compreender as emoções que se escondem nos actos desesperados. Algo que em Uma Mulher Não Chora está quase ausente, como se não existisse espaço para a introspecção na violência e, à semelhança do olhar da sua protagonista, o mundo se transformasse num território contaminado pela impossibilidade de redenção. Não deixa de ser um regresso à forma do realizador mas nós, os fãs de Akin, sabemos que lhe deram o Globo pelo filme errado.

Crítica de Tiago R. Santos, in Sábado GPS