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21 de Novembro, 19h: “Comboio de Sal e Açucar”

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Realização: Licinio Azevedo

Intérpretes: Thiago Justino, Matamba Joaquim e Tonecas Xavier

Port/Fran/Bra/Afr Sul/Moç, 2017, 93′

Comboio de Sal e Açúcar. “Na guerra, todos são maus”

 

Numa guerra, uma viagem de comboio deixa de ser uma viagem de comboio para se transformar numa viagem de terror entre balas, explosões, violações e morte. Desta que conta no seu último filme, Licínio Azevedo ouviu falar ainda durante a guerra civil moçambicana, para o desejo de um documentário que nunca existiu. E que agora deu “Comboio de Sal e Açúcar”, acabado de chegar às salas.

Um dia Licínio Azevedo há ainda de fazer um filme sobre ele. Manuel António,curandeiro que deu origem ao movimento dos naparamas, guerreiros combatendo nus e munidos apenas de lanças e flechas do lado da Frelimo durante a guerra civil moçambicana, se diziam imortais, à prova de balas. Manuel António havia de acabar morto com 100 tiros, aos 28 anos – e a explicação será este filme que não existe ainda mas que o realizador já tem na cabeça. Por ora, naparama é este comandante Sete Maneiras (António Nipita), ao lado de Matamba Joaquim e de Melanie de Vales Rafael em “Comboio de Sal e Açúcar”, primeiro candidato moçambicano de sempre aos Óscares, chegado agora às salas portuguesas.

Sete Maneiras morre mas não morre e se isso é inverosímil é por ser assim a magia. “Aqui as pessoas não entendem, mas em África não há guerra sem magia.”, explica Licínio Azevedo, de visita a Lisboa para a apresentação deste seu último filme, depois de “Virgem Margarida” (2012). E na guerra, naquela guerra a que assistiu inteira em Moçambique, “havia uma terceira força, os naparamas, que lutavam do lado do governo mas eram guerreiros mágicos”. Achavam-se, todos achavam. “Não usavam armas de fogo, lutavam com armas tradicionais, mas bastava se aproximarem que o inimigo fugia.”

 

O sotaque vem já misturado mas esconde que antes de tudo Licínio Azevedo foi brasileiro. Antes de como jornalista ter trocado o Brasil e as viagens em reportagem por toda a América Latina, por uma vontade frustrada de chegar a Angola via Lisboa para acompanhar a independência que o levou à Guiné-Bissau e depois a Moçambique. O Brasil “está lá”, ficou, há 40 anos, naquele momento em que chegou a Maputo como jornalista, escritor, argumentista, no movimento de cineastas que chegavam com a criação do Instituto Nacional do Cinema, por Samora Machel, logo após a independência. Tanto ficou que Samora Machel não é um presidente, primeiro presidente de um país a libertar-se do poder colonial, é o seu. “Samora Machel, nosso primeiro presidente, era um visionário e sabia a força que tinha o Cinema num país onde havia ainda 93% de analfabetismo [dados da Unesco] e 30 línguas diferentes. Sabia que o Cinema teria um grande poder na construção de uma unidade e de uma identidade nacional. Foi uma época muito bonita, o Instituto do Cinema foi um exemplo, atraiu gente como Godard, Jean Rouch, cineastas do mundo inteiro.”

 

Licínio Azevedo, realizador moçambicano, que são moçambicanos os seus filmes, chegou como escritor para se fazer realizador, de documentários, primeiro, até à ficção que nunca ambicionou. A história de “Comboio de Sal e Açúcar” ouviu-a a primeira vez durante a guerra civil, ainda na década de 1980. “Hoje uma viagem que se faz num dia, 700 quilómetros do litoral até ao interior do país vizinho, o Malawi, podia na época levar um, dois, três meses, ou não chegar ao destino por causa dos ataques e sabotagens da linha”, que aquilo era uma guerra e uma guerra civil e nesses anos o açúcar que transportava tinha-se tornado num dos bens mais preciosos. Na época, ainda durante a guerra, tentou pôr essa viagem num documentário, mas não conseguiu apoios. “Ninguém queria pôr dinheiro num filme do qual não se sabia se voltávamos vivos. Se você é correspondente de guerra é uma coisa, vai sozinho. Ali era uma equipa, que com o equipamento era um alvo fácil.”

 

Terminada a guerra, fez-se a essa mesma linha, a essa viagem, e fê-la várias vezes, sozinho. Esses 700 quilómetros para trás e para a frente, entrevistas a passageiros, a militares, a quem encontrava nas localidades que as estações serviam, e dessa viagem saiu um livro que não foi de reportagem, foi um romance baseado em factos reais. No Cinema continuou a filmar, documentários seus, documentários educativos, que a sobrevivência de quem faz filmes em Moçambique “não é milagre”, é isso, até a crítica e os festivais o terem convencido que o que fazia não era documentário, era ficção com traços documentais. Daí à decisão de adaptar ao cinema “Comboio de Sal e Açúcar” – uma produção de 1,5 milhões de euros da portuguesa Ukbar Filmes, em coprodução com França, Brasil, África do Sul e Moçambique – foi menos de nada.

“Para mim o documentário é uma coisa no presente, ali não fazia já sentido, era já passado”, explica o realizador sobre a decisão de nunca ter chegado a cumprir a ideia inicial para este filme. “O contexto é real, os acontecimentos são reais, o comboio é aquele”, foi recuperado com o apoio dos caminhos-de-ferro moçambicanos. Também os figurantes de soldados são militares moçambicanos, as personagens com as suas histórias são ficcionadas, mas a partir do real. Como a história de Sete Maneiras ou Rosa, a enfermeira acabada de formar interpretada por Melanie de Vales Rafael. “Isso tem uma certa relação com a História.”, explica. “Samora Machel, nosso primeiro presidente, era enfermeiro. Não havia médicos, havia uns dez enfermeiros. O cargo máximo a que podia almejar um moçambicano era ser enfermeiro ou trabalhador dos caminhos-de-ferro. Era uma elite.” É uma das mulheres que viajam naquele comboio que vem explicá-lo a Rosa quando ela não vê naquela guerra mais do que uma replicação do sistema colonialista pelos próprios moçambicanos. Não é. “Naquele tempo não podias ter estudado para ser enfermeira.”

 

Estrear “Comboio de Sal e Açúcar” 40 anos depois em Maputo, numa das duas únicas salas de cinema do país, é poder ver salas encherem-se para ver o que continua sem se poder discutir. “A minha atriz [Melanie], que é jovem e não viveu esse período, conta que os pais tentaram sempre preservá-la da memória desse período, dessa guerra civil terrível, e que ela e os amigos dela foram ao cinema justamente para conhecer a História que não é contada. Há ainda esse receio de se falar sobre o passado, sobre os crimes cometidos, sobre a violência, então as salas estavam cheias de jovens que queriam justamente conhecer a sua História. E isto parece-me importante neste período em que está a haver de novo negociações. Porque foram cometidas atrocidades de ambos os lados, não há maniqueísmos. Não. Na guerra, todos são maus.”

 

Escrito por Cláudia Sobral para Sol.

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14 de Novembro, 19h: “A Fábrica de Nada”

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Realização: Pedro Pinho

Intérpretes: José Smith Vargas, Carla Galvão e Njamy Sebastião

Portugal, 2017, 177 minutos

Nada. Tudo. A oposição será evidente, bem sei, mas isso não a torna menos verdade: A Fábrica de Nada (2017) é um daqueles filmes em que o nada é tudo. O “nada” aqui refere-se, evidentemente, ao título do filme retirado da peça homónima da dramaturga holandesa, Judith Herzberg (que por sua vez inspirou a ideia de Jorge Silva Melo, que está creditado como “pai” da ideia principal do projecto), mas também a esse “nada” que os trabalhadores de uma fábrica de elevadores têm para fazer, depois de esvaziada de máquinas e depois de, mesmo assim, tomarem decisão de a ocuparem em protesto contra um processo de rescisões amigáveis que a administração quer levar a cabo. Já o “tudo” diz respeito à incrível quantidade de registos, ideias, episódios, géneros e nuances que o realizador Pedro Pinho coordena neste “filme colectivo”, como gosta de lhe chamar. Mas antes de explicitar um pouco mais estas relações “nada-tudo” no interior desta obra, que venceu o prémio Fipresci em Cannes este ano, importa esclarecer duas ideias de leitura do filme que me parecem um pouco apressadas.

Leio em alguns textos, sobretudo estrangeiros, a etiqueta de “filme sobre a crise”, uma espécie de quarto volume de As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes. É uma meia verdade. Se a relação com as noites tem alguma razão de ser, esta ligação faz-se mais por via da forma do que pelo seu conteúdo. A isto voltarei, ao fechar o texto. Mas não é verdade que A Fábrica de Nada seja um filme sobre a crise portuguesa, é antes um filme que procura perceber as razões e as soluções de outra crise, mundial de resto: a da mutação da forma genérica do trabalho, com a passagem da força laboral do braço à máquina.

Outra ideia que também me parece apressada é a de “colar” as intenções do Pinho e da sua equipa a um reaquecimento nostálgico (e sem nada de novo a propor) das ideias activistas de esquerda, efectuadas sobretudo nos anos 70, que se propunham reformular as relações laborais por via de várias açcões de luta, entre as quais ocupações fabris e outros projectos cooperativos. É certo que no filme vemos como (não) actores os próprios trabalhadores envolvidos na experiência de auto-gestão da Fateleva que até 2016 geriu a fábrica Otis e, como tal, há um lado de homenagem que contempla como inacabado um gesto positivo de emancipação. Também é certo que, ao conceber o filme como obra colectiva, nos vem à memória o Grupo Dziga Vertov do período marxista de Godard ou mesmo a experiência cooperativa, no cinema português, do “Centro Português do Cinema” (1969) e das várias que se lhe seguiram nos anos 70. Este duplo olhar retrospectivo – para uma forma de agir politica e artística – contém em si a questão de perceber qual o conteúdo da ocupação que Pinho filma, para lá do retrato histórico. E aqui entra o papel estratégico do “nada”.

  1. Nada

O filme sabe desse movimento de esvaziamento dos lugares tradicionais do trabalho e mostra que a ocupação é sobretudo uma solução, entre outras, anacrónica, uma vez que já não há para ocupar. Essa consciência está presente em vários momentos. Numa das camadas desta “cebola cinematográfica” temos um interlúdio, estrutura bem visível, que Pinho filma como observador e aluno, de uma conversa com várias pessoas acerca do futuro do capitalismo. Um dos comensais é o célebre filósofo alemão Anselm Jappe, especialista no pensamento de Guy Debord, e crítico desta estrutura reificada que faz embater a produção de valor por mão humana e o “desuso” desta pelo avanço tecnológico. A dada altura ele “entrega-nos” um dado relevante para compreender A Fábrica de Nada. A ocupação dos trabalhadores não é útil por ser radical, mas por não ser radical o suficiente. Quer dizer, ela ainda prolonga, pelo menos na relação com o espaço e os patrões subjugados e zangados, a relação de base que deve ser questionada.

Portanto, a fábrica é um espaço “contaminado”, que já não há que ocupar. Esse espaço onde se produz o “nada” deve ser transfigurado em palco e em outras possibilidades de produção de valor. Coreográfico, contributivo, emocional. A dada altura surge uma personagem enigmática que vem tornar ainda mais disruptivas as relações no interior do grupo de operários à beira de um ataque de nervos. Interpretada por Danièle Incalcaterra [realizador na vida real de um documentário, Fasinpat (Fábrica sin patrón) (2004)], a personagem incorpora um movimento paradoxal no filme: ao mesmo tempo que é aquele que incita os trabalhadores a continuarem a auto-gestão, ele é também o “Vincent Minnelli de serviço”, no cimo da grua a comandar as coreografias Busby Berkeley dos assalariados. No final, o tão só Zé, protagonista, brilhante presença ensimesmada de José Smith Vargas, há-de puxar-lhe as orelhas, porque isto “mexe com a vida das pessoas” e não há cá laboratoriozinhos de experiências sociais, nem embates majestosos esquerda/direita. Ninguém está disposto a abdicar para transformar o que quer que seja.

Se as mãos dos trabalhadores, mecanizadas no contacto com as máquinas fabris [já agora vale a pena ver acerca dessas presenças do corpo no metal da fábrica, o também brilhante Que ta joie demeure (2014) de Denis Côté], produzem o nada, há que reuni-lo, transfigurá-lo nesse tudo. Esse é o derradeiro movimento de ocupação que o colectivo da produtora Terratreme aspira: reocupar o espaço tornado obsoleto pela definição de trabalho e de valor, com outras hipóteses do que poderemos vir a equacionar como algo “produtivo” e algo com “valor”. Os trabalhadores como símbolo de um colectivo laboral, mas também os membros de uma equipa de cinema como colectivo artístico, a porem-se a si próprios o dever de experimentar hipóteses. Nesse sentido, A Fábrica de Nada, obra que nasce do nada para chegar ao tudo, é um filme cuja audácia é directamente proporcional ao risco que corre. Os seus autores sabem que, ao mostrar um filme cheio de hesitações, ritmos diversos, uma obra que tacteia, vacila, distende, comprime, dilata – em resumo, uma obra de suturas onde o colectivo se expõe – está a arriscar não ser uma obra assertiva, uma obra que será vista e tida mais como retórica do que “produtiva”. Mas, enfim, como rebentar a gasta noção de produção senão a partir do seu próprio interior?

  1. Tudo

Talvez por isso seja pouco ambicioso olhar-se para o tudo desta “fábrica” e concluir-se simplesmente com uma versão erudita do “quem tudo quer, tudo perde”. O derradeiro gesto produtivo de A Fábrica de Nada é montar uma verdadeira máquina de experimentação, heterogénea, de actividades, registos e teses que vão sendo destilados como hipóteses de… trabalho. Justamente. Por isso, mais do que esvaziar o todo pelo filtro do pragmatismo social, creio ser mais interessante descrever, o melhor possível, esse mesmo todo. O filme de Pedro Pinho é, como já se disse, uma homenagem a uma experiência histórica e por isso tem algo de documentário que recria uma realidade. O seu corpo é também teatral e musical, os antigos trabalhadores da fábrica, agora convidados a reviver momentos de tensão, mas também a dar à perna e à voz, não escondem os enganos, os trejeitos, os soluços e os olhares para a câmara. Estamos entre Brecht e Lars von Trier [Dancer in the Dark (2000)]. Mas também seguimos os dramas de “um Zé” e quando a câmara o segue para casa, pelas magnânimas paisagens industriais dos arredores lisboetas, com o seu filho pela mão, estamos no drama social-realista dardenniano. Uma câmara que sabe pousar no olho resfolegante do orgasmo da sua mulher, ou na marioneta-de-coelho-morto nas mãos do filho, quando passa um tempo com o avô.

Mas há mais camadas. Já referi a pausa para aula de filosofia política, mas poderíamos ainda referir as sequências impressionistas da libertação erótica do punk num concerto de cave, os momentos em que sentimos o pulso documental vagueando pela noite boémia lisboeta, os “tesouros” enterrados no mato como símbolo de um conflito de gerações, ou as aparições súbitas de animais ou de palavras em jogos de improvisação em que a personagem devém actor e viceversa. O filme deambula pela música, pelo grito de desespero, pela piadinha, pelo sublime e pelo rasca. Desse trajecto vão surgindo coisas, pedaços destacáveis, uns ritmos rápidos e pulsionais e outros lentos e quase intermináveis. Nesses solavancos, o filme vai vivendo da sua própria incerteza, mas alimentado pelo desejo de mostrar que é preciso inventar elevadores que não se limitem a subir e descer apenas na simbologia da ascensão social. Afinal de contas, por que razão uma câmara não se move apenas para cima e para baixo, antes movimentando-se por toda a parte?

  1. Coerente Incoerência

E agora um epílogo. Num brilhante texto, com cara de ironia e corpo de verdade, de cobertura da mais recente edição do Festival de Vila do Conde, o seu autor, Ricardo Vieira Lisboa, lançou a ideia de que o sucesso de Pedro Costa influenciou, estética e tematicamente, muito cinema português que se lhe vem seguindo. Evidência bem evidente, que também se aplica a outro nome aqui já referido, Miguel Gomes. Como o autor propõe, os filmes-filhos de Gomes seriam os filmes “engomados”. Não quero aqui discutir as estratégias de descoberta de um potencial fictício-redentor da realidade que, de facto, os filmes de Gomes (alguns) têm em comum com a A Fábrica de Nada. Queria aqui abordar antes a questão formal. Os episódios e os quase anárquicos raccords da trilogia de As Mil e Uma Noites, no fundo, contêm uma mesma ambição do filme de Pinho, o de compor sobre uma estrutura de heterogeneidade. Como aconteceu com os filmes de Gomes, A Fábrica de Nada expõe-se a ser varrida pelo discurso de facilitismo que não tem nada a dizer acerca da questão da estrutura heterogénea a não ser que ela é uma falta, um defeito.

Ora, creio que estes filmes cheios de espinhos, falhas e irregularidades põem à nossa frente – espectadores e críticos – a necessidade de encontrar uma forma de os ver que vá para além da dicotomia “regular-irregular”, “homogéneo-heterogéneo” e, porque não, “tudo ou nada”. Creio ser preciso desengatilhar a arma cinéfila que mede o lado “produtivo” de um filme, exclusivamente, a partir das suas rimas que homogeneizam um todo. Penso que é preciso repensar a questão da heterogeneidade, sem ser pela análise clássica (heterogéneo é um filme ao qual lhe falta homogeneidade), nem pela análise moderna (heterogéneo é o filme que assume a heterogeneidade como um elogio do fragmento). Talvez faça falta começar a perceber a heterogeneidade nem como falha, nem como ganho, mas sim como algo que possibilita a construção de uma “coerência incoerente”. Mas isto são questões que vão muito além dos filmes de Miguel Gomes ou de Pedro Pinho, ou por outra, não é uma crise (de pensamento) exclusivamente nacional.

Seja como for é da necessidade de encontrar esta forma de não rebaixar nem endeusar a heterogeneidade, que depende um mais justo olhar para exercícios que detêm, estética e politicamente, uma vontade transformadora. Não o fazer implica passar ao lado de filmes como A Fábrica de Nada, o mais ambicioso e inventivo filme português do ano.

Escrito por Carlos Natálio para “À pala de Walsh”

7 de Novembro, 19h: “Ama-San”

 

 

AMA-SAN Still 1

 

Realização: Cláudia Varejão

Intérpretes: Matsumi Koiso, Mayumi Mitsuhashi, Masumi Shibahara

Port/Jap, 2017, 112’

Cláudia Varejão prometeu-nos sereias, e à sua maneira, ofereceu-nos um grupo delas neste Ama-san (vencedor da Competição Portuguesa do Doclisboa 2016). Uma comunidade tradicional de mulheres que aventuram-se no mar para sustentar famílias, uma visão que tem seguido séculos e séculos de História nipónica.

O fio tecido que protege os avanços tecnológicos dos seus mergulhos, são as réstias dessa tradição abraçada com a sempre avante modernidade, mas nem por isso que o estatuto destas deixa-se desvanecer pela mudança dos tempos. Varejão compara-as com as “mulheres de Caxinas”, o exemplo português mais próximo desta sociedade falada no feminino, para depois aventurar num ensaio antropológico que interliga os dois estados destas figuras; o Mar, esse berço de vida que as envolve em tamanha doutrina, e o mundo civil, a família que têm à sua espera para afeiçoar.

 

 

 

Tal como o Japão, um país moderno que caminha lado a lado com a sua herança tradicional, Ama-san cria um paralelismo com a nação para depois seguir em “puro mergulho” num retrato de gestos e de costuras familiares. Mas a realizadora consegue, invejavelmente, com toda esta jornada a um Oriente pouco conhecido (a última vez que vimos esta comunidade no ecrã foi em 2009 numa curta-metragem de Amie Williams), uma estrutura narrativa quase ficcional no seio desta vertente de registo documental. Com a complementação das sequências submarinas que captam no espectador a sua faceta mais “zen”.

No geral, Varejão cumpre um belíssimo filme, contemplativo e nada apressado em “inundar” as audiências, faze-las sentir parte desta longa família, tão japonesa, com certeza. Sim, prometeram-nos sereias e aquilo que acabaram por nos dar foi o que de mais próximo temos destas mitológicas sirenias. Todavia, isto não se resume a alternativas, Ama-san é realmente um filme pelo vale a pena cedermos à sua delicada sedução.

 

O melhor: A viagem proporcionada por Cláudia Varejão

O pior: nada a apontar

Hugo Gomes

31 de Outubro, 19h: “Todos os Sonhos do Mundo”

Realização: Laurence Ferreira Barbosa

IntérpretesPaméla Constantino Ramos, Rosa da Costa, Antonio Torres Lima

FRA/POR, 2017, 108′

Paméla tem 18 anos. É filha de portugueses, mas nasceu e vive em França. Embora não saiba bem o que quer da vida, sabe que gosta de tocar piano e patinar no gelo. Entre França e Portugal, vai tentando encontrar o seu próprio caminho, longe do dos pais, sem perder o respeito nem por eles nem pela herança cultural do país que os viu nascer.
É esta a premissa do novo filme de Laurence Ferreira Barbosa, que também nasceu em França, filha de imigrantes portugueses, e faz cinema desde 1983. Paméla Ramos, a protagonista, foi descoberta por Laurence e, tal como o resto do elenco, não é actriz profissional. PÚBLICO

 

O drama e o melodrama de Paméla

A personagem central de “Todos os Sonhos do Mundo” é uma portuguesa de segunda geração, nascida em França, que parece acreditar que “Portugal” é o nome de uma utopia parada no tempo — o filme de Laurence Ferreira Barbosa narra a descoberta da realidade para além dos sonhos.

O título “Todos os Sonhos do Mundo” envolve qualquer coisa de irónico — numa dinâmica em que a ironia arrasta uma sentida ternura. Isto porque o novo filme de Laurence Ferreira Barbosa, cineasta francesa de ascendência portuguesa, se centra na personagem de Paméla (Paméla Constantino Ramos), uma jovem que experimenta todos os sonhos do (seu) mundo como se neles encontrasse uma ordem ideal para as pessoas e as coisas…

Acontece que nada é tão simples e Paméla vai perceber que o seu sonho — de nome: Portugal— existe, afinal, num universo incomparavelmente mais contrastado em que importa não encarar a felicidade como um dado adquirida. Ela é, afinal, uma portuguesa de segunda geração, nascida em França, que todos os anos vem passar férias à aldeia de onde é originária a sua família; dir-se-ia que, com desarmamente naturalidade, acredita nos clichés mais pitorescos da própria emigração: o campo redentor, as festas ingénuas, as relações nostálgicas, etc.
Sem nunca perder de vista os sinais de um realismo estrito (a que quase apetece chamar documental), Laurence Ferreira Barbosa coloca em cena as diferenças, por vezes as difíceis contradições, entre gerações. Para procurar o lugar de uma inocência primordial? Não, nada disso, antes para nos mostrar que não se trata de traçar uma fronteira entre “inocentes” e “culpados”, mas sim reconhecer que o destino de Paméla não se vai decidir através da dicotomia “Portugal/França”.
Reagindo aos lugares-comuns que, não poucas vezes, assombram este tipo de histórias, “Todos os Sonhos do Mundo” possui as vantagens (e também os limites) de um exercício dramático, tendencialmente melodramático, em que podemos descobrir cada ser à procura da sua verdade mais íntima. Nesse processo, o trabalho com os actores adquire um papel primordial, mesmo se as desigualdades de talento são evidentes — o destaque vai, necessariamente, para Paméla Constantino Ramos, ora misteriosa, ora transparente, resistindo a ser transformada em “modelo” ou “símbolo”.

Crítica de João Lopes

publicado 23:29 – 26 outubro ’17

24 de Outubro, 19h: “O Ilustre Cidadão”

Realização: Mariano CohnGastón Duprat

IntérpretesOscar MartínezDady BrievaAndrea FrigerioManuel Vicente

ESP/ARG, 2016, 118′ M/12

Depois de recusar importantes e prestigiosos prémios em todo o mundo, Daniel Mantovani, vencedor do Prémio Nobel da Literatura, aceita o convite para visitar a sua terra natal na Argentina, que tem sido a inspiração para todos os seus livros. Acontece que aceitar este convite foi a pior ideia da sua vida, quando Mantovani reencontra todos os fantasmas do seu passado. Pode esperar-se o inesperado quando se usa pessoas verdadeiras como personagens dos seus livros!

O Ilustre Cidadão, uma deliciosa comédia negra argentina, ganhou o prémio para Melhor Actor no Festival de Veneza do ano passado e agora chega aos cinemas portugueses.

O Ilustre Cidadão, o mais recente filme dos argentinos Gastón Duprat e Mariano Cohn, começa de forma electrizante. Mais especificamente, tem início com o seu protagonista, um celebrado escritor argentino chamado Daniel Mantovini, a receber o prémio Nobel da Literatura em Estocolmo. Nada disto implica uma abertura de grande valor cinemático ou de entretenimento, mas então Mantovini começa a falar e, ao invés de se mostrar grato e humilde como é costume neste tipo de cerimónia, as suas palavras estão cheias de desprezo e condescendência mal disfarçada. Para o escritor, o reconhecimento que a Academia Sueca lhe deu trata-se de uma incontestável prova de que o seu trabalho já não tem valor artístico, é uma confirmação do seu declínio enquanto criador.

A cereja no topo deste delicioso bolo de intransigência provocatória é o que Mantovini faz a seguir a terminar o seu discurso: ele coloca-se em frente aos membros da Academia e olha expectante para a audiência, até que estes começam a aplaudir e ele fica em pé sorridente e a banhar-se na adoração do seu público. A rebeldia antissistema deste artista é nada mais que uma comodidade para o jogo de fama e validação pública do protagonista. Assim termina o prólogo, a que se seguem cinco capítulos, o primeiro dos quais tem lugar cinco anos após o incendiário discurso do Nobel, em Barcelona onde Mantovini vive há décadas. Aí, encontramos o escritor laureado que, depois de recusar uma série de convites de inúmeras organizações internacionais, diz à sua fiel assistente que vai aceitar um pedido feito pela sua terra natal de Salas, cujo município o quer condecorar com a medalha de “Ilustre Cidadão”.

Apesar de Mantovini ter usado a localidade que o viu nascer como fonte de inspiração e cenário para todos os seus romances, desde a sua juventude que ele não lá põe os pés. Mesmo quando os seus pais morreram, o escritor recusou-se a regressar à Argentina, permanecendo no continente europeu, onde todo o seu sucesso literário foi obtido. Refletindo sobre essa mesma realidade, o autor confessa à assistente que as suas personagens nunca puderam escapar de Salas, e ele, pelo contrário, nunca foi capaz de regressar. Pelo menos, foi assim durante décadas, até que um impulso passageiro o levou de volta, talvez em busca da receção de um herói local e da adoração popular que, como vimos na primeira cena do filme, tanto alimenta o seu ego.

Quaisquer ideias de glória heroica são logo postas à prova quando, ao invés de uma escolta imponente, Mantovini encontra uma carripana a cair aos bocados para o levar a Salas e, como não podia deixar de ser, a meio do caminho o automóvel para de trabalhar. O facto do autor ter recusado qualquer presença de imprensa ou a companhia da sua assistente apenas piora a situação e ele e o seu companheiro de viagem são eventualmente obrigados a queimar os próprios livros do escritor para se aquecerem e a usá-los como papel higiénico. Chegado à localidade com um dia de atraso, Daniel acaba por ter a sua receção heroica, mesmo que o glamour possivelmente idealizado pelo espectador nada tem que ver com a miséria e ridículo saloio que marca todos os festejos à volta do escritor celebridade.

O Ilustre Cidadão vai-se assim revelando como uma história de choque cultural entre o escritor cosmopolita e os crescentes ridículos e absurdos com que ele se depara em Salas. O estilo realista, quase documental na sua crua filmagem digital, que os cineastas habituados a projetos televisivos empregam apenas sublinha o potencial cómico do guião e o mesmo acontece com as prestações de quase todo o elenco que se mantêm na precária corda bamba entre o naturalismo e a caricatura. Pelo menos esse é o equilíbrio que orienta o filme até uma hostil confrontação durante o julgamento de um concurso de pintura local, em que finalmente o filme traça claras linhas de batalha entre o seu protagonista intelectual e a comunidade regida por favores, cunhas, costumes antiquados, gostos conservadores, conformismo cultural e outros tantos vícios e defeitos que Mantovini observa com indignação elitista.

Desse modo, O Ilustre Cidadão deixa de ser uma comédia ligeira para se assumir como uma sátira fortemente política da sociedade argentina, aqui representada no microcosmos de Salas. Mais do que uma paródia da Hollywood dos anos 30, a narrativa do filme vai-se aproximando de modelos dramáticos como, por exemplo, A Visita de Friedrich Dürrenmatt e suas venenosas observações sociais sobre mesquinhez comunitária, a incapacidade de pessoas aceitarem o conceito de mudança e até sobre a corrupção que floresce entre locais como este. Mas o argumento desta obra não deixa que o seu olhar crítico incida somente sobre o povo provincial, também vendo com algum moralismo a figura indulgente de Mantovini que se está sempre a contradizer e cujas obras efetivamente minam Salas e sua comunidade como inspiração para obras aparentemente focadas em vícios humanos.

A certa altura, durante uma das palestras do escritor, uma senhora pergunta por que razão ele não escreve coisas bonitas. Podemo-nos rir da questão e nela encontrar provas de modos de vida conformistas e gostos filistinos, mas também há nessas palavras a implícita crítica este autor que delicia os académicos europeus com os seus relatos de miséria nas distantes comunidades rurais da Argentina.

Muitos críticos internacionais parecem ter ignorado quão o filme é uma espada de dois gumes, vendo nele somente uma comédia feita ao custo da dignidade do povo provinciano de Salas. No entanto, é difícil de ignorar quão o epílogo do filme paralela o seu prólogo, mostrando-nos, mais uma vez, como Daniel Mantovini está pronto a explorar polémica e denegrir Salas se isso lhe garantir fama, respeito e a notoriedade visualmente sintetizada nos flashes frenéticos de câmaras fotográficas.

Nem que fosse só pelo seu sorriso ambivalente aquando destes últimos instantes de O Ilustre Cidadão, o famoso Oscar Martinez teria plenamente merecido o prémio de Melhor Actor que ganhou no Festival de Veneza do ano passado. Mas, para além disso, a sua gloriosa prestação engloba todo os momentos do filme, servindo de âncora à mirabolante sátira que orbita à volta deste escritor honrado com o Nobel.

Cláudio Alves, in http://www.magazine-hd.com/apps/wp/ciudadano-ilustre-cidadao-em-analise-critica/

 

21 de Outubro, 16.30h: “Ozzy”

Realização: Alberto Rodríguez

Versão dobrada em português

ESP/CAN, 2016, 90′ M/6

Ozzy é um jovem beagle que sempre viveu feliz com a sua família humana. Quando recebem a notícia de que ganharam uma viagem ao Japão, os humanos não cabem em si de contentes. O problema surge no momento em que percebem que nessa viagem não são permitidos cães. Decididos a deixar o seu grande amigo em boas mãos, optam por inscrevê-lo no Blue Creek, um spa para cães que se assemelha ao paraíso (canino, claro). Mas o que ele descobre assim que os donos viram costas é aterrador: afinal, Blue Creek é uma prisão gerida pelo terrível Sr. Silva, onde impera a lei do mais forte, a mais injusta e arbitrária regra alguma vez criada. Agora, para conseguir sobreviver até ao regresso da família, o que o inexperiente Ozzy tem de fazer é manter-se longe de sarilhos e perceber em quem confiar…
Um filme de animação que marca a estreia na realização de Alberto Rodríguez e Nacho La Casa. Na versão dobrada em português, as vozes são de Tiago Teotónio Pereira, Filipa Areosa, José Mata e Diogo Valsassina. PÚBLICO

 

 

 

 

 

 

17 de Outubro, 19h: “As Donzelas de Rochefort”

Realização: Jacques Demy

Intérpretes: Catherine DeneuveDanielle DarrieuxFrançoise Dorléac

FRA, 1966, 120′  M/12

Catherine Deneuve e a sua irmã Françoise Dorléac (prematuramente desaparecida num trágico acidente) são as “donzelas de Rochefort”, outro porto francês amado e cantado por Jacques Demy. A história, em estilo de conto de fadas à volta de marinheiros e raparigas por eles apaixonadas, é uma celebração e homenagem ao musical americano que tanto fascinava Demy, e que se materializa na presença de Gene Kelly e do intérprete de “West Side Story”, George Chakiris. Texto: Cinemateca Portuguesa

 

A música e a magia de Jacques Demy

Grande acontecimento no mercado de Verão: “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” e “As Donzelas de Rochefort” regressam em cópias digitais restauradas — para reencontrar a magia do cinema musical segundo Jacques Demy.

… e o grande acontecimento do Verão cinematográfico tem o nome de Jacques Demy! É verdade: através de reposições em cópias digitais restauradas podemos redescobrir dois títulos fundamentais de uma certa ideia francesa de musical: “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” (1964) e “As Donzelas de Rochefort” (1967). Com eles, Demy celebrou a sua filiação na grande tradição de Hollywood, ao mesmo tempo inventando um cinema cantado e encantado que, afinal, marcou de forma indelével os anos 60 da Nova Vaga.

AS DONZELAS DE ROCHEFORT – Jacques Demy

Três anos depois do impacto de Os Chapéus de Chuva de Cherburgo (também em reposição – e que o Cineclube de Tomar irá passar no início de 2018), Jacques Demy (1931-1990) relançava e relançava-se no musical com aquele que é, provavelmente, o seu trabalho mais universal.

De novo com Catherine Deneuve, agora contracenando com a irmã Françoise Dorléac, este é um objecto mais próximo das matrizes clássicas de Hollywood, aliás presente através de dois nomes emblemáticos: Gene Kelly, mestre absoluto da idade de ouro do género, e George Chakiris que, em 1961, contracenara com Natalie Wood em West Side Story.

Atravessado pelas ilusões utópicas da paixão amorosa, As Donzelas de Rochefort consuma, além do mais, uma proeza rara: a de “ocupar” as ruas e praças de Rochefort como quem reinventa os recursos tradicionais do estúdio fechado – simples e genial.

Classificação: ***** (excecional)

João Lopes in CineMax e DN Artes