Category Archives: Cinema ao Ar Livre

Cinema ao Ar Livre 2020 – Programação

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas noites das 4ªs feiras de Julho e Agosto (21.30h), a partir do dia 15 de Julho, com o apoio logístico da Câmara Municipal de Tomar.

Devido à actual situação sanitária, haverá várias limitações, a começar com o número de espectadores, que será limitado a 50.

Para não haver aglomerados à porta das Piscinas, os bilhetes estarão à venda no Posto de Turismo, em frente à Mata dos Sete Montes, a partir de 2.ª feira, até às 17h do dia da sessão, 4.ª feira.

À entrada alguém orientará as pessoas para os respectivos lugares.

A programação será a seguinte:

– 15/07 – A Incrível História da Pera Gigante, de Amalie Næsby Fick, Jørgen Lerdam, Philip Einstein Lipski  (dobrado em português) – filme infantil, para M/6

– 22/07 – Alice e o Presidente de Nicolas Pariser 

– 29/07 – Wild Rose – Rosa Selvagem, de Tom Harper

– 05/08 – Ramen Shop – Negócio de Família, de Eric Khoo

– 12/08 – Le Mans 66: O Duelo – Ford vs Ferrari de James Mangold

– 19/08 – O Paraíso, Provavelmente, de Elia Suleiman

– 26/08 – Mulherzinhas, de Greta Gerwig

 

Crianças (até aos 18 anos) e Sócios – 1 €

Adultos não sócios – 2€

 

 

21 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “A Queda do Império Americano”

Realização e argumento: Denys Arcand

Intérpretes: Maxim Roy, Éric Bruneau, Vincent Leclerc

CAN, 2018, 127′  M/14

Pierre-Paul Daoust, 36 anos, é um intelectual com um doutoramento em filosofia que se vê forçado a trabalhar como estafeta para conseguir viver decentemente. Um dia, durante uma entrega, é apanhado no meio de um assalto que corre terrivelmente mal: dois mortos e milhões em duas malas de dinheiro caídas no chão. Pierre-Paul é confrontado com um dilema: partir de mãos a abanar, ou agarrar no dinheiro e fugir?

 

Da comédia social ao conto moral
Denys Arcand, veterano da produção cinematográfica do Canadá, está de volta ao mercado português: “A Queda do Império Americano” é mais um capítulo da sua visão (dramática & cómica) das relações sociais canadianas.

Tantas vezes nos esquecemos que, desde o mestre da animação Norman McLaren até ao nosso contemporâneo David Cronenberg, há, de facto, um cinema canadiano pleno de invenção e também de recursos de produção — por alguma razão os estúdios dos EUA escolhem muitas vezes o Canadá para os seus projectos. Vale a pena, por isso mesmo, saudar o reencontro com Denys Arcand (n. 1941), um dos nomes essenciais de uma certa “vaga” que, sobretudo ao longo dos anos 70/80, assumiu uma visão crítica do seu próprio país.

O novo filme de Arcand, “A Queda do Império Americano”, envolve mesmo um jogo de memórias cruzadas com o seu próprio trabalho. Estamos, assim, perante o capítulo final de uma trilogia iniciada com “O Declínio do Império Americano” (1986) e prolongada através de “As Invasões Bárbaras” (2003), este um dos títulos canadianos com maior projecção internacional graças à sua consagração com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

No plano temático, a trilogia de Arcand pode definir-se através de algumas linhas essenciais, das tensões sociais e simbólicas entre homens e mulheres até à hipocrisia de um sistema de relações alicerçado numa verdadeira luta de classes. Desta vez, o pano de fundo do dinheiro (presente em todos os filmes) adquire especial importância, já que esta é uma história algo rocambolesca que começa num assalto falhado que irá beneficiar um empregado de uma empresa de entrega de encomendas que, por acaso, estava no local em que tudo acontece…

Através de um conjunto de peripécias mais ou menos cruéis, pontuadas por muitas formas de sarcasmo, o que Arcand filma é, em última instância, a fraqueza congénita do próprio imaginário social: das ilusões geradas pelo dinheiro até à perversidade do seu poder, este é um mundo em que cada um se perde na inconsistência do colectivo a que pertence. Em resumo: uma feliz combinação de comédia social e conto moral.

Crítica de João Lopes

 

 

 

7 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Reviver o Passado em Montauk”

Realização: Volker Schlöndorff

Intérpretes: Stellan Skarsgård, Bronagh Gallagher, Nina Hoss

ALE/IRL/FRA, 2017, 106′  M/12

O escritor alemão Max Zorn chega a Nova Iorque, com a jovem e bela esposa, para promover a sua mais recente obra, inspirada numa história de amor ali vivida, muitos anos antes, com uma mulher chamada Rebeca. Assombrado por recordações, Max não consegue parar de pensar no que teria acontecido se não tivesse deixado para trás o que ainda considera o grande amor da sua vida. Quando descobre que ela continua a viver em Nova Iorque, resolve visitá-la. Embora, a princípio, pareça imperturbável, Rebeca acaba por o convidar para a acompanhar numa curta viagem a Montauk (Long Island), onde tenciona comprar a casa de praia de uns amigos. Como ambos se recordam, foi naquela cidade que viveram os momentos mais felizes do seu curto romance. E apesar do tempo que os separou, aquele lugar está repleto de recordações, o que inevitavelmente os faz regressar à sua história.

Com realização do alemão Volker Schlöndorff (“Golpe de Misericórdia”, “O Nono Dia”, “Diplomacia”), segundo um argumento seu e de Colm Tóibín, um filme dramático que se inspira na obra autobiográfica “Montauk”, do aclamado escritor e dramaturgo suíço Max Frisch (1911-1991). O elenco conta com Stellan Skarsgård, Nina Hoss, Bronagh Gallagher, Niels Arestrup e Susanne Wolff. PÚBLICO

 

O grande amor da vida dele

Nem filme de velho, nem filme de velhinho moderno: o veterano alemão Volker Schlöndorff assina um sereno drama clássico à moda antiga.

Faz parte da ironia do tempo que passa que aquilo que foi ontem aclamado como inovador ou vanguardista seja hoje considerado bafiento: as “novas vagas” de ontem são os convencionalismos anquilosados de amanhã. Ainda não há muito tempo, Bertrand Tavernier, na sua belíssima Viagem pelo Cinema Francês, demonstrava como tudo isso não passa de uma etiqueta fugaz ou prática que serve para “arrumar” filmes em gavetas sem prestar necessariamente atenção ao que os singulariza. O veterano Volker Schlöndorff (O Tambor, 1979) começou precisamente como assistente de realizadores franceses como Louis Malle ou Alain Resnais, foi um dos nomes de ponta do jovem cinema alemão dos anos 1960 e 1970 a par de Herzog ou Wenders, mas hoje é visto como um cineasta menor que se deixou seduzir pelo exacto conformismo contra o qual se erguia.

Depois de um já muito recomendável Diplomacia (2014), Reviver o Passado em Montauk é a melhor prova de que Schlöndorff não está nem anquilosado nem conformado. Sim, é verdade que o filme se instala num subgénero perfeitamente delimitado — o drama adulto literário que terá tido o seu “momento alto” nos anos 1970. (Nem por acaso, o filme foi co-escrito com o romancista irlandês Colm Tóibín, e cita um romance do suíço Max Frisch.) Sim, é verdade que é daqueles filmes que transpiram todo um conforto burguês, levantando aquela questão eternamente lançada por Morrissey: “Isto não tem nada que ver com a minha vida!” Mas até tem, porque Reviver o Passado em Montauk é um filme subterrâneo sobre o remorso e a culpa, sobre a tentação do abismo que nos atrai a todos — como poderia ter sido o caminho que nunca tomámos? No caso, conta-se a história de um escritor que, de passagem por Nova Iorque para lançar um livro, procura reencontrar o grande amor da sua vida que deixou escapar; Max quer perceber se há hipótese de reparar esse mal, mas Rebecca sabe que não é esse exactamente o verbo certo.

Crítica de Jorge Mourinha

 

 

 

Cinema ao Ar Livre 2019 – Programação

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas noites das 4ªs feiras de Julho e Agosto (21.30h), a partir do dia 17 de Julho.

A programação será a seguinte:

17/07 – Green Book, de Peter Farrelly

24/07 – Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

31/07 – O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford

7/08 – Reviver o Passado em Montauk, de Volker Schlöndorff

14/08 – Conversa de Travesseiro, de Michael Gordon

21/08 – A Queda do Império Americano, de Denys Arcand

29/08 – O Rei dos Gazeteiros, de John Hughes

Crianças e Sócios – 1 €

Adultos – 2€

A última sessão será de ENTRADA LIVRE.

 

22 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Eu, Tonya”

Realização: Craig Gillespie

Intérpretes: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney

EUA, 2017, 120′  M/16

“Eu, Tonya” é um retrato, por vezes absurdo, trágico e hilariante, da mulher no centro dum dos maiores escândalos na história do desporto, Tonya Harding. Tonya (Margot Robbie) dominou o gelo com um brilhantismo sem precedentes, mas acabou por aparecer nas manchetes dos jornais por razões muito diferentes. Esta é a história de como Tonya, uma patinadora artística americana, viu o seu futuro no mundo do desporto posto em risco, quando a envolveram num violento ataque à sua rival, Nancy Kerrigan, mesmo antes das Olimpíadas de Inverno de 1994 em Lillehammer.

 

Tonya Harding, o vulgar e o sublime
Uma evocação de um escândalo no mundo da patinagem no gelo feita com assinalável contundência realista.

Em 1994, quando Nancy Kerrigan, rival de Tonya Harding na patinagem no gelo, foi agredida, Tonya foi ou não cúmplice do que aconteceu?… Não é verdade que a agressão foi montada pelo ex-marido de Tonya?… E porque é que ela nunca escondeu o seu menosprezo pela adversária?…
Eis algumas perguntas que podem definir um enigma policial, mas que não bastam para resumir um filme como “Eu, Tonya”, centrado, precisamente, naquela ocorrência. Isto porque estamos perante uma narrativa que, mais do que uma divisão absoluta e definitiva entre “inocentes” e “culpados”, procura ser fiel à infinita complexidade dos seres humanos.

Dito de outro modo: “Eu, Tonya” é uma ficção elaborada a partir de factos verídicos, mas com engenho e arte para conservar uma dimensão insolitamente documental. Aliás, o filme dirigido por Craig Gillespie (foi ele que, em 2007, assinou o também insólito e desconcertante “Lars e o Verdadeiro Amor”, com Ryan Gosling) organiza-se mesmo como uma hipotética investigação em que, pontualmente, as personagens dão o seu testemunho directamente para a câmara.

Estamos perante (mais) um sintomático objecto marcado por esse desejo de realismo hoje em dia transversal a muitas cinematografias — para nos ficarmos por um exemplo óbvio, recordemos o também recentemente estreado “15:17 Destino Paris”, de Clint Eastwood.

Como é óbvio, não tem nada de acidental que tudo isso aconteça através de uma subtil direcção de actores, parecendo certo que Allison Janey, no papel da mãe de Tonya, tem assegurado o Oscar de melhor actriz secundária. Sublinhemos, por isso, a excepcional performance de Margot Robbie, como Tonya, nomeada na categoria de melhor atriz — não é todos os dias que vemos uma actriz capaz de expor o vulgar e o sublime de uma mesma personagem.

Crítica de João Lopes