Category Archives: Cinema ao Ar Livre

21 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “A Queda do Império Americano”

Realização e argumento: Denys Arcand

Intérpretes: Maxim Roy, Éric Bruneau, Vincent Leclerc

CAN, 2018, 127′  M/14

Pierre-Paul Daoust, 36 anos, é um intelectual com um doutoramento em filosofia que se vê forçado a trabalhar como estafeta para conseguir viver decentemente. Um dia, durante uma entrega, é apanhado no meio de um assalto que corre terrivelmente mal: dois mortos e milhões em duas malas de dinheiro caídas no chão. Pierre-Paul é confrontado com um dilema: partir de mãos a abanar, ou agarrar no dinheiro e fugir?

 

Da comédia social ao conto moral
Denys Arcand, veterano da produção cinematográfica do Canadá, está de volta ao mercado português: “A Queda do Império Americano” é mais um capítulo da sua visão (dramática & cómica) das relações sociais canadianas.

Tantas vezes nos esquecemos que, desde o mestre da animação Norman McLaren até ao nosso contemporâneo David Cronenberg, há, de facto, um cinema canadiano pleno de invenção e também de recursos de produção — por alguma razão os estúdios dos EUA escolhem muitas vezes o Canadá para os seus projectos. Vale a pena, por isso mesmo, saudar o reencontro com Denys Arcand (n. 1941), um dos nomes essenciais de uma certa “vaga” que, sobretudo ao longo dos anos 70/80, assumiu uma visão crítica do seu próprio país.

O novo filme de Arcand, “A Queda do Império Americano”, envolve mesmo um jogo de memórias cruzadas com o seu próprio trabalho. Estamos, assim, perante o capítulo final de uma trilogia iniciada com “O Declínio do Império Americano” (1986) e prolongada através de “As Invasões Bárbaras” (2003), este um dos títulos canadianos com maior projecção internacional graças à sua consagração com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

No plano temático, a trilogia de Arcand pode definir-se através de algumas linhas essenciais, das tensões sociais e simbólicas entre homens e mulheres até à hipocrisia de um sistema de relações alicerçado numa verdadeira luta de classes. Desta vez, o pano de fundo do dinheiro (presente em todos os filmes) adquire especial importância, já que esta é uma história algo rocambolesca que começa num assalto falhado que irá beneficiar um empregado de uma empresa de entrega de encomendas que, por acaso, estava no local em que tudo acontece…

Através de um conjunto de peripécias mais ou menos cruéis, pontuadas por muitas formas de sarcasmo, o que Arcand filma é, em última instância, a fraqueza congénita do próprio imaginário social: das ilusões geradas pelo dinheiro até à perversidade do seu poder, este é um mundo em que cada um se perde na inconsistência do colectivo a que pertence. Em resumo: uma feliz combinação de comédia social e conto moral.

Crítica de João Lopes

 

 

 

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7 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Reviver o Passado em Montauk”

Realização: Volker Schlöndorff

Intérpretes: Stellan Skarsgård, Bronagh Gallagher, Nina Hoss

ALE/IRL/FRA, 2017, 106′  M/12

O escritor alemão Max Zorn chega a Nova Iorque, com a jovem e bela esposa, para promover a sua mais recente obra, inspirada numa história de amor ali vivida, muitos anos antes, com uma mulher chamada Rebeca. Assombrado por recordações, Max não consegue parar de pensar no que teria acontecido se não tivesse deixado para trás o que ainda considera o grande amor da sua vida. Quando descobre que ela continua a viver em Nova Iorque, resolve visitá-la. Embora, a princípio, pareça imperturbável, Rebeca acaba por o convidar para a acompanhar numa curta viagem a Montauk (Long Island), onde tenciona comprar a casa de praia de uns amigos. Como ambos se recordam, foi naquela cidade que viveram os momentos mais felizes do seu curto romance. E apesar do tempo que os separou, aquele lugar está repleto de recordações, o que inevitavelmente os faz regressar à sua história.

Com realização do alemão Volker Schlöndorff (“Golpe de Misericórdia”, “O Nono Dia”, “Diplomacia”), segundo um argumento seu e de Colm Tóibín, um filme dramático que se inspira na obra autobiográfica “Montauk”, do aclamado escritor e dramaturgo suíço Max Frisch (1911-1991). O elenco conta com Stellan Skarsgård, Nina Hoss, Bronagh Gallagher, Niels Arestrup e Susanne Wolff. PÚBLICO

 

O grande amor da vida dele

Nem filme de velho, nem filme de velhinho moderno: o veterano alemão Volker Schlöndorff assina um sereno drama clássico à moda antiga.

Faz parte da ironia do tempo que passa que aquilo que foi ontem aclamado como inovador ou vanguardista seja hoje considerado bafiento: as “novas vagas” de ontem são os convencionalismos anquilosados de amanhã. Ainda não há muito tempo, Bertrand Tavernier, na sua belíssima Viagem pelo Cinema Francês, demonstrava como tudo isso não passa de uma etiqueta fugaz ou prática que serve para “arrumar” filmes em gavetas sem prestar necessariamente atenção ao que os singulariza. O veterano Volker Schlöndorff (O Tambor, 1979) começou precisamente como assistente de realizadores franceses como Louis Malle ou Alain Resnais, foi um dos nomes de ponta do jovem cinema alemão dos anos 1960 e 1970 a par de Herzog ou Wenders, mas hoje é visto como um cineasta menor que se deixou seduzir pelo exacto conformismo contra o qual se erguia.

Depois de um já muito recomendável Diplomacia (2014), Reviver o Passado em Montauk é a melhor prova de que Schlöndorff não está nem anquilosado nem conformado. Sim, é verdade que o filme se instala num subgénero perfeitamente delimitado — o drama adulto literário que terá tido o seu “momento alto” nos anos 1970. (Nem por acaso, o filme foi co-escrito com o romancista irlandês Colm Tóibín, e cita um romance do suíço Max Frisch.) Sim, é verdade que é daqueles filmes que transpiram todo um conforto burguês, levantando aquela questão eternamente lançada por Morrissey: “Isto não tem nada que ver com a minha vida!” Mas até tem, porque Reviver o Passado em Montauk é um filme subterrâneo sobre o remorso e a culpa, sobre a tentação do abismo que nos atrai a todos — como poderia ter sido o caminho que nunca tomámos? No caso, conta-se a história de um escritor que, de passagem por Nova Iorque para lançar um livro, procura reencontrar o grande amor da sua vida que deixou escapar; Max quer perceber se há hipótese de reparar esse mal, mas Rebecca sabe que não é esse exactamente o verbo certo.

Crítica de Jorge Mourinha

 

 

 

Cinema ao Ar Livre 2019 – Programação

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas noites das 4ªs feiras de Julho e Agosto (21.30h), a partir do dia 17 de Julho.

A programação será a seguinte:

17/07 – Green Book, de Peter Farrelly

24/07 – Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

31/07 – O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford

7/08 – Reviver o Passado em Montauk, de Volker Schlöndorff

14/08 – Conversa de Travesseiro, de Michael Gordon

21/08 – A Queda do Império Americano, de Denys Arcand

29/08 – O Rei dos Gazeteiros, de John Hughes

Crianças e Sócios – 1 €

Adultos – 2€

A última sessão será de ENTRADA LIVRE.

 

22 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Eu, Tonya”

Realização: Craig Gillespie

Intérpretes: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney

EUA, 2017, 120′  M/16

“Eu, Tonya” é um retrato, por vezes absurdo, trágico e hilariante, da mulher no centro dum dos maiores escândalos na história do desporto, Tonya Harding. Tonya (Margot Robbie) dominou o gelo com um brilhantismo sem precedentes, mas acabou por aparecer nas manchetes dos jornais por razões muito diferentes. Esta é a história de como Tonya, uma patinadora artística americana, viu o seu futuro no mundo do desporto posto em risco, quando a envolveram num violento ataque à sua rival, Nancy Kerrigan, mesmo antes das Olimpíadas de Inverno de 1994 em Lillehammer.

 

Tonya Harding, o vulgar e o sublime
Uma evocação de um escândalo no mundo da patinagem no gelo feita com assinalável contundência realista.

Em 1994, quando Nancy Kerrigan, rival de Tonya Harding na patinagem no gelo, foi agredida, Tonya foi ou não cúmplice do que aconteceu?… Não é verdade que a agressão foi montada pelo ex-marido de Tonya?… E porque é que ela nunca escondeu o seu menosprezo pela adversária?…
Eis algumas perguntas que podem definir um enigma policial, mas que não bastam para resumir um filme como “Eu, Tonya”, centrado, precisamente, naquela ocorrência. Isto porque estamos perante uma narrativa que, mais do que uma divisão absoluta e definitiva entre “inocentes” e “culpados”, procura ser fiel à infinita complexidade dos seres humanos.

Dito de outro modo: “Eu, Tonya” é uma ficção elaborada a partir de factos verídicos, mas com engenho e arte para conservar uma dimensão insolitamente documental. Aliás, o filme dirigido por Craig Gillespie (foi ele que, em 2007, assinou o também insólito e desconcertante “Lars e o Verdadeiro Amor”, com Ryan Gosling) organiza-se mesmo como uma hipotética investigação em que, pontualmente, as personagens dão o seu testemunho directamente para a câmara.

Estamos perante (mais) um sintomático objecto marcado por esse desejo de realismo hoje em dia transversal a muitas cinematografias — para nos ficarmos por um exemplo óbvio, recordemos o também recentemente estreado “15:17 Destino Paris”, de Clint Eastwood.

Como é óbvio, não tem nada de acidental que tudo isso aconteça através de uma subtil direcção de actores, parecendo certo que Allison Janey, no papel da mãe de Tonya, tem assegurado o Oscar de melhor actriz secundária. Sublinhemos, por isso, a excepcional performance de Margot Robbie, como Tonya, nomeada na categoria de melhor atriz — não é todos os dias que vemos uma actriz capaz de expor o vulgar e o sublime de uma mesma personagem.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

8 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Melodias de Django”

 

Realização: Étienne Comar

Intérpretes: Reda Kateb, Cécile De France, Bea Palya

FRA, 2017, 117′  M/12

Nascido em Liberchies (Bélgica), em 1910, no seio de uma família cigana, Django Reinhardt mudou-se com os pais para Paris (França) ainda durante a infância. Crescendo rodeado dos muitos músicos da sua comunidade, cedo começou a tocar diversos instrumentos, como o banjo, o violino ou a guitarra. Seria esta, porém, que o tornaria mundialmente famoso. Ainda adolescente, o seu virtuosismo atraía músicos reputados do outro lado do Canal da Mancha, curiosos por descobrir o prodígio. A sua lenda cresceria ao escapar a um incêndio na caravana que habitava com a primeira mulher, Florine Bella Mayer. Sobreviveu, mas dois dedos da sua mão esquerda acabariam por ficar paralisados devido à gravidade das queimaduras. Tal não o impediu de continuar. Adaptando o seu estilo à restrição física, tornar-se-ia nos anos seguintes um músico respeitadíssimo, tanto na Europa como no berço do jazz, os EUA. No seu percurso, destaca-se a parceria com o violinista Stéphane Grappelli, o reconhecimento de Louis Armstrong e Duke Ellington, com quem tocou em digressões americanas, ou Benny Goodman, que o convidou por duas vezes para a sua “big band”, sempre sem conseguir o compromisso do volátil Reinhardt. Quando se deu o início da Segunda Guerra Mundial, o músico encontrava-se em digressão em Inglaterra. Regressou rapidamente a Paris e foi na capital francesa que assistiu à invasão alemã. Quando a realidade da política de extermínio nazi se tornou evidente (terão sido assassinados mais de 500 mil ciganos em toda a Europa), Django Reinhart, enquanto continuava a tocar nos clubes de Paris, começou a planear a sua fuga…
Estreia na realização do produtor e argumentista Étienne Comar, uma biografia ficcionada sobre alguns dos momentos marcantes da trajectória do guitarrista e compositor cigano Django Reinhardt, considerado o pai do jazz europeu. O elenco inclui Reda Kateb, Cécile De France, Bea Palya, Bimbam Merstein, Gabriel Mireté e Xavier Beauvois.
Mário Lopes, PÚBLICO

 

 

 

 

1 de Agosto, 21.30h – Piscinas: “Mudbound – As Lamas do Mississipi”

Realização: Dee Rees

Intérpretes: Garrett Hedlund, Carey Mulligan, Jason Clarke, Jonathan Banks

EUA, 2017, 134′  M/16

Mississípi, década de 1940. Dois jovens regressam a casa após combaterem na Segunda Grande Guerra. Jamie é branco e pertence ao clã McAllan, de linhagem tradicionalista; Ronsel é um dos filhos dos Jackson, uma família negra que sonha possuir uma terra que possa chamar sua. Num contexto onde o racismo predomina, a camaradagem entre os dois ex-soldados, cuja experiência no campo de batalha os aproximou, fará com que as duas famílias criem laços de amizade. Mas isso vai colidir com a mentalidade retrógrada da população, que não vê com bons olhos a mistura entre brancos e negros. Jamie e Ronsel terão de aprender a readaptar-se à vida depois da guerra, sobrevivendo às injustiças, ao mesmo tempo que se esforçam por esquecer as atrocidades a que foram obrigados a assistir durante o tempo que serviram o seu país.

 

Um retrato subtil do racismo
Eis um belo filme sobre as relações entre brancos e negros num contexto (Mississipi, depois da Segunda Guerra Mundial) marcado por muitas componentes racistas — “As Lamas do Mississipi”, de Dee Rees, não tem prémios, mas merece ser descoberto.

A vaga “social” em torno dos filmes que abordam temas ligados à história dos afro-americanos nos EUA está dominada por efeitos banalmente panfletários. Não que essses temas sejam banais ou indiferentes (bem pelo contrário). Não é essa a questão. Acontece que, sobretudo no contexto da chamada temporada de prémios, há títulos que são promovidos à condição de “emblemas”, outros que vão ficam esquecidos porque não cumprem os requisitos dessa condição…

Aí temos o exemplo do belíssimo “Mudbound”, entre nós lançado como “As Lamas do Mississipi” — chegou a ser citado como possível candidato a muitas nomeações, agora corre o risco de ser um objecto trucidado pelo automatismo dos mercados… Baseado no romance homónimo de Hillary Jordan, a sua história de dois soldados, um branco (Garrett Hedlund), outro negro (Jason Mitchell), regressados dos combates da Segunda Guerra Mundial demarca-se de clichés ideológicos e dramáticos para traçar o retrato incisivo, e muito subtil, do racismo no estado do Mississipi, nos tempos finais da década de 1940.

Um dos aspectos mais invulgares de “As Lamas do Mississipi” é a sua capacidade de dar a ver uma conjuntura de marginalização e repressão dos afro-americanos, não através de uma descrição “global”, antes explorando os distintos pontos de vista das personagens centrais, incluindo as duas mulheres interpretadas por Carey Mulligan e Mary J. Blige — daí o singular e envolvento espírito coral da narrativa.

A realizadora Dee Rees, também responsável pela adaptação do romance (em colaboração com Virgil Williams), consegue a proeza de revitalizar um modelo de saga histórica em que a percepção das dinâmicas colectivas se afigura tão importante como as diferenças individuais. Estamos, afinal, em linha directa com a grande tradição clássica de Hollywood — pelos vistos, os valores dessa tradição são indiferentes aos que estão a atribuir prémios.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

25 de Julho, 21.30h – Piscinas: “Ammore e Malavita”

Realização: Antonio Manetti, Marco Manetti

Intérpretes: Claudia Gerini, Carlo Buccirosso, Serena Rossi, Giampaolo Morelli, Raiz

TA, 2017, 133′  M/12

Depois de mais um incidente com uma bala em que o mafioso Don Vincenzo, também conhecido na camorra por “Rei dos peixes”, quase perdeu a vida, a sua esposa decide que é chegado o momento de mudar de vida. Para isso, engendra um plano infalível: assassinar um sapateiro seu conhecido – por sinal, um sósia perfeito de Don Vincenzo –, encenar o funeral do marido e partir com ele para as Caraíbas, onde ambos tencionam ser felizes para sempre. Tudo parecia correr na perfeição até Fátima, uma enfermeira que lhe tratou os ferimentos de bala na altura em que foi hospitalizado, dizer para quem quiser ouvir que, na verdade, Don Vincenzo nunca chegou a morrer. Ciro e Rosario, dois dos mais fiéis capangas do clã de Don Vincenzo, são então encarregues de eliminar a jovem. Para mal dos pecados de Ciro, quando ele dá de caras com Fátima reconhece-a como um grande amor do passado. Depois de anos sem se verem, a paixão reacende-se. Determinado a salvá-la, Ciro esconde a rapariga em casa de um tio e resolve eliminar todos os membros do clã napolitano, outrora família mas agora transformados em seus inimigos mortais…
Com Giampaolo Morelli, Raiz, Claudia Gerini, Carlo Buccirosso e Serena Rossi nos papéis principais, uma comédia musical realizada pelos irmãos Antonio e Marco Manetti, também responsáveis por “Paura 3D” (2012) ou “Song ‘e Napule” (2013). PÚBLICO