Category Archives: Sessões Cineclubistas

10 de Julho, 19h: “Duas Horas na Vida de uma Mulher”

Realização: Agnès Varda

Intérpretes:Corinne Marchand, Dominique Davray, Antoine Bourseiller, Dorothée Blank

FRA 1962, 89′  M/12

“Cléo de 5 à 7” é um dos melhores filmes de Agnès Varda, e certamente um dos que melhor exprime um “espírito Nouvelle Vague”; de resto as deambulações parisienses da sua personagem principal não deixam de evocar “À Bout de Souffle”, como se Cléo fosse um contraponto feminino ao filme de Godard (que, por sua vez, aparece num curioso “filme no filme”).

Durante hora e meia acompanhamos os passos de Cléo (Corinne Marchand), uma famosa cantora, que espera ansiosamente o resultado de testes médicos. Cléo acredita ter cancro, convicção que é reforçada após uma visita a uma cartomante. Tenta então combater a depressão em que cai, primeiro indo Às compras, depois trabalhando um pouco em casa com os seus compositores, e por fim saindo para deambular por Paris, enquanto não são horas de ir ver o seu médico. Esta visita dá-se depois de conhecer Antoine (Antoine Bourseiller), um soldado de partida para a Argélia, que a distrai a caminho do hospital.

 

Análise:

Tendo-se estreado em 1955, com “La Pointe-Courte”, Agnès Varda era já uma realizadora com alguma experiência (sobretudo em curtas-metragens documentais) quando a Nouvelle Vague se tornou uma realidade. Tal concorreu para o seu estilo de contar histórias de forte componente realista e cariz feminino, como a que expressa na sua segunda longa-metragem de ficção, “Duas Horas na Vida de Uma Mulher”, estreada em 1962.

Com uma história passada em tempo real, que abarca hora e meia da vida de uma mulher (e não duas, como o título dá a entender), Varda, que também escreveu o argumento original, mostra-nos Cléo (Corinne Marchand) diminutivo de Cléopatre, o nome artístico de Florence, uma cantora pop de sucesso, que se vê ansiosamente à espera de um exame médico que pode decretar se sofre de alguma doença fatal.

No seu pessimismo, Cléo está convencida de que vai morrer, ideia que reforça na visita a uma cartomante (nas únicas imagens a cores do filme, que são as das cartas dispostas e voltadas sobre uma mesa). Daí Cléo segue com a secretária Angèle (Dominique Davray) para casa, depois de um ataque de choro num café, encontra o amante, recebe os seus compositores (Michel Legrand, o verdadeiro compositor do filme, e Serge Korber), sai de táxi, encontra a amiga Dorothée (Dorothée Blanck), visita um cinema, vagueia por Paris, e entra num parque, onde conhece Antoine (Antoine Bourseiller). Este, um soldado de partida para a Argélia, mete conversa com ela, e aos poucos Cléo vai-se sentindo bem com ele, confessando-lhe o seu medo, no que lhe vale a companhia de Antoine até ao hospital.

Quase como um documentário, Agnès Varda filma os movimentos de Cléo, seja em longos planos-sequência, seja em breves close-ups. Como habitual na Nouvelle Vague, os movimentos parecem improvisados (marcados por alguns jump-cuts), principalmente no que acontece nas ruas de Paris, onde se pode notar como nada foi planeado, e os figurantes são os transeuntes normais, que por vezes ficam a olhar a câmara, no que parece um documentário sobre a cidade.

Com uma interpretação sincera da bonita Corinne Marchand, “Duas Horas na Vida de Uma Mulher” vale sobretudo pelo modo como esta dá a transparecer a dor que sente e o quanto se sente perdida numa vida, que face à perspectiva de uma doença mortal, poderá não significar coisa nenhuma. Cléo é uma mulher famosa e bela, que o sabe e tenta capitalizar (na forma como fala de si, como constantemente examina a sua imagem, como mantém uma relação superficial com um amante que parece apenas um patrono), o que vem contrastar com a quase auto-descoberta que decorre no tempo do filme, em que tem de analisar o que significa a vida e a morte para si, passando dessa superficialidade inicial ao seu lado mais humano, nas conversas com o desconhecido Antoine. Os próprios diálogos decorrem a ritmo natural, como o pensar de alguém perturbado, vão-se sucedendo e atropelando. Abarcam temas como a mortalidade, a existência, o desespero, no que se aproximam das temáticas existencialistas que marcavam a Paris do seu tempo.

Tal como o título demonstra, há todo um sentido de insignificância como elemento central. São duas horas apenas na vida de uma mulher, como é apenas uma história humana na história da humanidade, e no entanto, nesse breve momento encapsula-se tanto do que significa essa mesma condição humana.

Destaque final para os cameos de alguns nomes importantes da Nouvelle Vague, como o realizador Jean-Luc Godard e os actores Anna Karina e Jean-Claude Brialy, todos no filme mudo surreal que é projectado dentro do filme principal para as personagens de Cléo e Dorothée.

https://ajanelaencantada.wordpress.com/2015/04/27/duas-horas-na-vida-de-uma-mulher-1962/

 

 

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03 de Julho, 19h: “Como Nossos Pais”

 

Realização: Laís Bodanzky

Intérpretes: Maria RibeiroClarisse AbujamraAntonia Baudouin

BRA, 2017, 102′  M/12

Rosa, de 38 anos, é uma típica mulher de classe média que se esforça por conciliar a profissão com a vida familiar, mas que se sente a fracassar em todas as áreas. É casada com Dado, um antropólogo demasiado metido consigo mesmo, e com ele tem duas filhas prestes a entrar na adolescência. A sua relação com a mãe sempre foi conflituosa, cheia de amarguras e palavras por dizer. Até que um dia, durante um almoço familiar, a mãe lhe confessa algo inesperado. Essa descoberta vai alterar tudo o que Rosa tomou como certo e vai levá-la numa busca por si mesma que a mudará para sempre…

 

Um outro Brasil

Subitamente, um belo exemplo da actual produção brasileira, bem distante das regras correntes do espaço telenovelesco: “Como Nossos Pais”, da realizadora Laís Bodanzky, mergulha no espaço de uma família em convulsão.

Brasil, nos nossos dias — uma família e as suas atribulações. Esta é a história de Rosa (Maria Ribeiro), frustrada por um emprego mais ou menos burocrático, desejando escrever peças de teatro… Há as infinitas tarefas a cumprir com as duas filhas pré-adolescentes, uma relação tensa com o marido (Paulo Vilhena), marcada por crescentes suspeitas de infidelidade, e ainda as súbitas e perturbantes confissões da mãe (Clarisse Abujamra)…

Digamos que podia ser material típico de uma telenovela — mas não. Decididamente, não. Há um outro Brasil, imenso, criativo, quase desconhecido no espaço português do audiovisual, que está longe de se esgotar nas matrizes formatadas das novelas. E o filme “Como Nossos Pais”, de Laís Bodanzky, aí está como esclarecedor e luminoso exemplo de um cinema atento às convulsões sociais e afectivas do presente, não abdicando de um rigor de encenação que o coloca em linha directa com o melodrama clássico.

Como sempre acontece nestas coisas, o trabalho com os actores revela-se decisivo. E Bodanzky sabe dirigir um elenco de muitos talentos, não falhando sequer nessa complexa tarefa que consiste em encenar crianças/adolescentes sem ceder às convenções do paternalismo mais ou menos pitoresco. O destaque vai necessariamente para Maria Ribeiro, no papel central da mãe, actriz de surpreendente capacidade de transfiguração face ao olhar frio da câmara.

Reflectindo uma tendência actual, detectável nos mais diversos contextos culturais, “Como Nossos Pais” assume um realismo directo, carnal, sempre interessado nas contradições das personagens e suas relações. E convém não simplificar a palavra realismo. Nada a ver com naturalismo ou qualquer ilusão televisiva de “espontaneidade” — ser realista é, aqui, estar atento à vida interior dos espaços que se filmam e à verdade plural, porventura indizível, das personagens que os habitam.

Crítica de João Lopes

 

26 de Junho, 19h: “Soldado Milhões”

 

Realização: Gonçalo Galvão TelesJorge Paixão da Costa

IntérpretesJoão ArraisMiguel BorgesRaimundo CosmeIsac GraçaTiago Teotónio PereiraIvo Canelas

POR, 2018, 85′  M/12

Como tantos outros portugueses, Aníbal Augusto Milhais foi enviado como soldado para Flandres (Bélgica) durante a Primeira Grande Guerra. Na madrugada de 9 de Abril de 1918, dezenas de divisões alemãs irromperam pelo sector defendido pela segunda divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP). Em poucas horas, naquela que ficaria conhecida como Batalha de La Lys, perderam-se mais de 7.500 homens. Contrariando ordens superiores e armado apenas com uma metralhadora Lewis, Milhais enfrentou sozinho sucessivas ofensivas alemãs, garantindo a retirada de vários companheiros. Pela coragem demonstrada no campo de batalha, foi premiado com a mais alta honraria nacional: a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. A 5 de Julho de 1924, o Parlamento alterou o nome da povoação de Valongo, a sua aldeia natal, no distrito de Vila Real, para Valongo de Milhais, em sua honra. No ano em que se assinala o centenário do fim da Primeira Grande Guerra (1914-1918), acompanhamos o percurso do soldado que “se chamava Milhais, mas valia milhões”, através de vários relatos e de uma intensa pesquisa documental.

 

‘Soldado Milhões’, o filme que conta a história do herói português da Primeira Guerra Mundial

A 9 de Abril de 1918 o soldado transmontano Aníbal Augusto Milhais, que nasceu em 1895, na aldeia de Valongo, concelho de Murça, integrou a 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português e enfrentou os alemães na batalha de La Lys (Flandres), durante Primeira Guerra Mundial.

Agora, a obra cinematográfica “Soldado Milhões”, produzida pela Ukbar Filmes e realizada por Gonçalo Galvão Teles e Jorge Paixão da Costa, vai retratar esse drama de guerra e contar a história de um Portugal esquecido e de um herói quase desconhecido. O actor João Arrais vai assumir o papel do Soldado Milhões e Miguel Borges, Carminho Coelho, Lúcia Moniz, Graciano Dias ou Isac Graça também fazem parte do elenco.

Aníbal Augusto Milhais foi um entre tantos soldados enviados para a Flandres durante a Primeira Guerra Mundial. Na Batalha de La Lys, contrariando ordens superiores, enfrentou sozinho sucessivas ofensivas alemãs de maneira a garantir a retirada dos seus companheiros. Milhais demorou vários dias até reencontrar o seu pelotão, em Saint-Venant, protegido apenas pela sua arma Luisinha (um amuleto da sorte oferecido pela sua amada).

A presença portuguesa na Primeira Grande Guerra é ainda desconhecida por muitos, assim como a existência de Aníbal Milhais, o Soldado Milhões. Os seus actos de coragem durante a Batalha de La Lys valeram-lhe a mais alta condecoração nacional – a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. O soldado estava longe de imaginar que se viria a tornar no maior herói português da Primeira Guerra Mundial.

Para recriar o ambiente de guerra, a equipa de filmagem do “Soldado Milhões” deslocou-se até vários locais espalhados por Portugal. Desde Murça, a aldeia onde nasceu Aníbal Milhais, até Ponte da Barca, Mafra, Cacilhas e, finalmente, o Campo de Tiro de Alcochete, onde foram reconstruidas as trincheiras da Batalha de La Lys. Foram também pós-produzidos mais de 500 planos digitalmente com efeitos especiais.

No ano em que se assinala o centenário da Primeira Guerra Mundial, temos assim a oportunidade de acompanhar o percurso do soldado Milhais, que valia milhões, através das suas memórias da guerra.

https://www.comunidadeculturaearte.com

 

19 de Junho, 19h: “Na Síria”

Realização: Philippe Van Leeuw

Intérpretes: Hiam Abbass, Diamand Bou Abboud, Juliette Navis

FRA/BEL/Líbano, 2017, 85′  M/16

Em Damasco (Síria), uma mulher tenta transformar o seu pequeno apartamento num refúgio para família e vizinhos. Num esforço de os proteger da guerra e das atrocidades que decorrem no exterior, recria uma espécie de normalidade nas suas vidas. Aterrorizados com a possibilidade de serem bombardeados a qualquer momento, com água e comida racionadas, eles vão tentando sobreviver, esperançosos de que o fim do conflito esteja para breve…
Com assinatura do belga Philippe Van Leeuw (“Le Jour où Dieu Est Parti en Voyage”), um drama claustrofóbico sobre os efeitos da guerra nas vidas das pessoas comuns, cuja acção decorre num único dia e cenário. Estreado no Festival de Cinema de Berlim, onde recebeu o Prémio do Público na Mostra Panorama (que resulta da votação dos espectadores), “Na Síria” conta com a participação dos actores Hiam Abbass, Diamand Bou Abboud e Juliette Navis, e também com alguns refugiados sírios, entre eles Mohsen Abbas, Ninar Halabi, Alissar Kaghadou, Jihad Sleik e Moustapha Al Kar. PÚBLICO

 

Um conto de sobrevivência
Distinguido com o prémio do público na secção Panorama do Festival de Berlim, “Na Síria” propõe um retrato íntimo de uma situação de perturbante intensidade trágica — a realização é do belga Philippe van Leeuw.

Como filmar a guerra na Síria? Se nos ficarmos pelo comodismo do senso comum, a pergunta pode até parecer insensata: então não vemos a guerra da Síria todos os dias nos ecrãs de televisão?… Ora, não se trata de desvalorizar o valor primordial dos meios de informação, mas importa questionar a própria formulação da pergunta: afinal, o que é que vemos? 

É de tal formulação que parte um filme como “Na Síria”, realizado pelo belga Philippe van Leeuw e distinguido com o prémio do público na secção Panorama do Festival de Berlim. Trata-se de saber, não apenas o que vemos, mas como vemos. E a opção de van Leeuw consiste em não favorecer qualquer tipo de generalização, política ou simbólica, mantendo-se encerrado (literalmente) no espaço de uma casa de Damasco onde algumas pessoas tentam sobreviver à tragédia em que estão inseridos.
“Na Síria” desenvolve-se, assim, como uma ficção cuja elaboração tende a produzir um fortíssimo efeito documental. Em boa verdade, dir-se-ia uma reportagem de um dia e uma noite, no interior de uma casa em que a simples aproximação de uma janela pode ser fatal. No limite, cada ser humano é peão de uma luta titânica contra a própria desumanização do lugar. 

Factor essencial para a eficácia emocional do filme é o seu sólido elenco, com destaque para o trio central de actrizes: Hiam Abbass (a dona da casa), Juliette Navis (a criada) e Diamand Bou Abboud (a vizinha com o bebé). Através do seu labor de representação, “Na Síria” resiste a qualquer formatação ideológica ou moral, nessa medida combatendo também os esquematismos que, por vezes, infelizmente, contaminam o espaço informativo — um filme, enfim, para nos ajudar a sentir o mundo à nossa volta.

Crítica de João Lopes

 

5 de Junho, 19h: “The Florida Project”

Realização: Sean Baker

Intérpretes: Brooklynn PrinceBria VinaiteWillem DafoeValeria Cotto

GB 2017, 71‘  M/12

Florida, EUA. Moonee tem seis anos e vive com Halley, a mãe, num motel de beira de estrada próximo do parque da Walt Disney. Ela é alegre e inteligente e os seus dias são passados a brincar com as crianças que ali habitam; já Halley é uma jovem inconsequente que sobrevive graças a subsídios estatais e alguns biscates mais ou menos legais. Mas é Bobby, o gerente, quem vai garantindo a segurança necessária àquele pequeno grupo de crianças, que o olham como se de um verdadeiro pai se tratasse…
Estreado no Festival de Cinema de Cannes, um filme dramático escrito e realizado por Sean Baker (“Tangerine”). No elenco participam os actores Brooklynn Prince, Christopher Rivera, Valeria Cotto, Aiden Malik, Bria Vinaite e Willem Dafoe, entre outros. PÚBLICO

 

Cenas de uma “outra” América

“The Florida Project” retrata o universo peculiar de um motel habitado por muitas personagens à deriva — realizado por Sean Baker, o filme valeu a Willem Dafoe uma nomeação para o Oscar de melhor actor secundário.

É sempre interessante encontrar um projecto cinematográfico que atribua real importância aos seus actores — afinal de contas, a presença de um corpo humano não se confunde com as proezas de uma qualquer figura digital… “The Florida Project”, retrato de um motel na Florida assinado por Sean Baker, é um desses projectos que aposta nos actores para gerar verdadeiras personagens.

Aliás, convém lembrar que Willem Dafoe, precisamente o intérprete do gerente do motel, foi nomeado para o Oscar de melhor actor secundário. Os seus confrontos com a pequena e fogosa Moonee, interpretada pela deliciosa Brooklynn Prince, são momentos tocantes de um mundo colorido, mas assombrado por muitas formas de decadência e solidão — em qualquer caso, a mais sofisticada composição do filme pertence a Bria Vinaite, no papel da mãe de Moonee.

Dito isto, não podemos deixar de lamentar que “The Florida Project” seja um daqueles filmes que confunde a criação pitoresca de um “ambiente” com a construção de um verdadeiro projecto narrativo. E se é verdade que personagens e lugares são genuínos, não é menos verdade que o filme se vai satisfazendo com um tom de “reportagem” superficial que, a certa altura, se torna repetitivo, dramaticamente inconsequente.

Sublinhemos, em qualquer caso, que este é um objecto capaz de expor as feridas emocionais de uma outra América, afinal lado a lado com as mitologias nacionais — recorde-se que o título evoca a construção do Disney World, situado nas imediações do motel em que decorre quase toda a acção. Existiria aqui, talvez, matéria suficiente para um grande filme realista.

Crítica de João Lopes

12 de Junho, 19h: “Ornamento e Crime”

Realização: Rodrigo Areias

Intérpretes: Vítor CorreiaTânia DinisDjin Sganzerla

POR/BRA, 2015, 90′  M/12

O detective Espada e a sua amante envolvem-se em esquemas de extorsão com a “máfia” da construção civil. Mas a verdade é que, entre trabalhadores das câmaras municipais, empreiteiros, polícias e mulheres fatais, o risco de algo correr mal parece demasiado elevado…
Uma história policial em ambiência “noir” realizado por Rodrigo Areias (“Estrada de Palha”, “Na Memória do Presente”), segundo um argumento seu e de Pedro Bastos. A fotografia é da responsabilidade de Jorge Quintela, a banda sonora de Rita Redshoes e The Legendary Tigerman, e o elenco inclui os actores Vítor Correia, Tânia Dinis, Djin Sganzerla, António Durães, Ângelo Torres, Ângela Marques e Valdemar Santos. PÚBLICO

 

Guimarães, arquitectura e cinema

Trabalhando a partir de Guimarães, Rodrigo Areias tem sido um exemplo modelar de criatividade e independência — no seu novo filme, “Ornamento & Crime”, os cenários da sua cidade servem de pano de fundo a uma redescoberta da tradição do cinema “noir”.

Por vezes, uma certa visão “automática” do cinema que se faz em Portugal gera descrições generalistas, pouco ou nada atentas à pluralidade interior da nossa produção. Na dupla qualidade de produtor e realizador, Rodrigo Areias é um magnífico exemplo dessa pluralidade, desenvolvendo a sua actividade através do colectivo Bando à Parte, sediado em Guimarães (em termos pessoais, recordo com todo o gosto que tive o privilégio de trabalhar com ele na programação/produção da área de cinema de Guimarães 2012 – Capital Europeia da Cultura).

Agora, Rodrigo Areias propõe um exercício de estimulante experimentalismo. Depois de “Estrada de Palha” (2012), a sua nova longa-metragem de ficção, “Ornamento & Crime”, aposta na possibilidade de reinventar as matrizes do clássico género “noir” de Hollywood, fazendo-o através de lugares e rostos de Guimarães. Dir-se-ia que há, aqui, um realismo insólito, no sentido em que realidade retratada é a abstracção do próprio cinema como máquina de produção de ficção.

É, obviamente, significativo que o título escolhido para o filme seja “roubado” ao ensaio do arquitecto austríaco Adolf Loos (1870-1933), publicado em 1913. Trata-se, afinal, de procurar estabelecer uma cumplicidade formal com uma arquitectura em que o rigor das linhas e o equilíbrio das composições dispensa o gratuito dos ornamentos. Dito de outro modo: este é um filme elaborado também a partir da memória do arquitecto português Fernando Távora (1923-2005), personalidade essencial na conservação e consolidação do património urbano de Guimarães.

Num contexto em que, mais do que nunca, importa defender — e, mais do que isso, preservar — a diversidade da produção cinematográfica portuguesa, “Ornamento & Crime” exemplifica uma atitude criativa descentralizada, independente e experimental. As suas singularidades merecem ser conhecidas e pensadas — a cinefilia começa, afinal, na disponibilidade do olhar e do pensamento.

Crítica de João Lopes

 

29 de Maio, 19h: “São Jorge”

RealizaçãoMarco Martins

Intérpretes: Nuno LopesMariana NunesDavid SemedoGonçalo WaddingtonBeatriz BatardaJosé RaposoJean-Pierre Martins

POR 2016, 112′  M/14

Jorge (Nuno Lopes) é um pugilista desempregado que tenta a todo o custo encontrar formas de garantir o sustento de Susana e Nelson (Mariana Nunes e David Semedo, respectivamente), a mulher e filho. Quando ela, emigrante brasileira, decide fugir da crise financeira que se instalou em Portugal e regressar ao seu país, Jorge fica sem saber o que fazer. Como último recurso, aceita um trabalho numa empresa de cobrança de dívidas. Usando o seu corpo treinado para a luta corpo a corpo, passa a intimidar pessoas que, tal como ele, se encontram numa situação desesperada. De um momento para o outro, vê-se a atravessar a fronteira da moralidade e a entrar num mundo de criminalidade gerada pela pobreza e pela falta de alternativas…
Terceira longa-metragem de Marco Martins – depois de “Alice” (2005), também protagonizada por Nuno Lopes, e de “Como Desenhar Um Círculo Perfeito” (2009) –, um filme dramático sobre os anos de intervenção da “troika” em Portugal, cuja acção se desenrola nos bairros da Bela Vista (Setúbal) e Jamaica (Seixal). O actor Nuno Lopes recebeu o Prémio Orizzonti para Melhor Actor no Festival de Veneza (2016) pela sua interpretação.

 

Um impulso realista

Algum cinema português continua a demarcar-se das vias mais medíocres de “colagem” ao universo telenovelesco — “São Jorge”, que valeu um prémio de interpretação a Nuno Lopes no Festival de Veneza, é um exemplo dessa atitude criativa.

De que falamos quando falamos de realismo cinematográfico português? Se considerarmos as respostas implícitas no filme “São Jorge”, de Marco Martins, diremos que falamos, antes do mais, do incremento obsessivo de sinais capazes de reflectir a degradação física e humana de um espaço socialmente marginal. Afinal de contas, a figura central, interpretada por Nuno Lopes, é um pugilista que não quer perder o seu filho, tentando sobreviver num mundo de violência latente (muitas vezes explícita), integrando uma empresa especializada em colectas de dívidas por meios nem sempre muito pacíficos…

Colocando esses elementos em jogo, o filme parece apostar num certo negrume — em sentido literal e simbólico — que não podemos deixar de associar a modelos de “thriller”, mais ou menos psicológico, enraizados na tradição de Hollywood. Desde a composição “neutra” de Nuno Lopes, como se fosse um fantasma errante e errático, até à valorização dos detalhes cenográficos, o impulso realista acaba por se desviar para uma certa ostentação maneirista: interessa menos a complexidade da realidade retratada e mais a valorização formalista dos seus sinais.

Tudo isto faria de “São Jorge” mais um exemplo de um cinema português que, apesar dos equívocos por resolver na sua démarche estética e narrativa, possui, pelo menos, o mérito de se demarcar da facilidade de outras propostas que se limitam a tentar rentabilizar (?) clichés, ora dramáticos, ora humorísticos, do esgotado panorama de telenovelas, “stand-up” e afins… Afinal de contas, a relação com o aqui e agora português constitui um desafio que vale sempre a pena enfrentar.

Acontece que o filme se apresenta também como uma reflexão sobre os tempos da Troika em Portugal, abrindo e fechando com legendas que referem esse período, inclusive com dados de natureza estatística. São informações que acabam por suscitar a necessidade de algum tipo de contextualização/discussão desse período que o filme, em última instância, não tem para dar (e que, provavelmente, nem sequer procura). Registe-se, apesar de tudo, a vontade de abordar a realidade portuguesa sem ceder aos lugares-comuns novelescos que dominam o nosso quotidiano social e cultural.

Crítica de João Lopes