Category Archives: Sessões Cineclubistas

23 de Abril, 19h: “Luz Obscura”

Realização: Susana de Sousa Dias

Documentário

POR, 2017, 76′  M/12

Que rede familiar se esconde por detrás de um único preso político? Como dar corpo a quem desapareceu sem nunca ter tido existência histórica? Partindo de fotografias da polícia política portuguesa (1926-1974), LUZ OBSCURA procura revelar como um sistema autoritário opera na intimidade familiar, fazendo emergir, simultaneamente, zonas de recalcamento actuantes no presente.

Para este documentário, a realizadora Susana Sousa Dias usou fotografias de cadastro de presos políticos pertencentes ao núcleo familiar do militante comunista Octávio Pato (1925-1999), cujo filho surge ao colo da mãe numa foto tirada pela PIDE. Inserido no trabalho de investigação dos arquivos da polícia política que a realizadora tem vindo a fazer sobre o Estado Novo – e que está também patente nos filmes “Natureza Morta” (2005) e “48” (2010) –, este filme volta a reflectir sobre os anos da ditadura em Portugal.

Depois de ter participado em vários festivais, “Luz Obscura” foi distinguido com a Menção Especial do Júri da Competição Internacional de Longas-Metragens da DocumentaMadrid, festival de cinema documental da capital espanhola, e com o Prémio de Melhor Som no Festival Caminhos do Cinema Português. PÚBLICO

 

Resistência.

Falar sobre a didatura e tudo o que de lúgubre e violento a envolve ainda é para o Portugal actual uma espécie de névoa recalcada. Cronologicamente bem determinado, em termos humanos poucas são as histórias sobre o regime que verdadeiramente convocam a cicatrização das feridas causadas por esse período. Em “Luz Obscura”, Susana de Sousa Dias retorna à temática dos presos políticos, depois do assombroso documentário “48”, para contar a história de Octávio Pato, activista e dirigente comunista, de vários membros da sua família e de como precisamente esse núcleo emocional é estilhaçado e humilhado pelo regime – não foi o único mas é nele que a realizadora escolher centrar-se.

Ideologicamente, o Estado Novo acarinhava fortes noções de Deus, Pátria e Família mas em “Luz Obscura” a família toma existência não só como rede de suporte mas também como veículo de chantagem, já que era através do núcleo familiar que a PIDE tentaria por diversas vezes capturar Octávio Pato. A crueldade de se ser confrontado com a utilização dos laços familiares para se chegar a um determinado indivíduo é um tema pouco explorado e, sobretudo, a questão das crianças que nasciam na clandestinidade e que eram depois igualmente presas, facto para o qual Susana de Sousa Dias foi alertada depois de se ter deparado com a fotografia de uma criança no Arquivo Fotográfico da PIDE. Partindo do desejo de entrevistar os 3 filhos de Octávio Pato, a realizadora acabou por integrar no documentário as fotografias existentes, quer do referido arquivo quer mesmo algumas fotografias de família, mesclando-as com as memórias de cada um deles. Admirável exercício de confrontação da realidade com a memória emocional de quem viveu a didatura do lado obscuro da luz, as memórias emocionais, os cheiros da infância, as diversas casas percorridas para fugir à constante perseguição, o pouco contacto com a rua, o gradual desaparecimento do pai e da mãe, constantemente presos, as relações calorosas mas contidas num grande silêncio de palavras que sendo indizíveis protegiam mais do que se fossem proferidas.

“Luz Obscura” é um relato impressionante do quanto viver escondido causa marcas intensas, sobretudo porque a maioria da vida de Álvaro, Isabel e Rui foi passada nessa imensa ausência das principais figuras das suas vidas, ao ponto de só terem os terem conhecido tarde ou já como se fossem apenas estranhos. Susana de Sousa Dias transporta também alguns dos espaços que já apenas a memória descreve para a existência, mostrando as ruinas metafóricas da casa onde habitavam os 3 irmãos com os avós. Entre prisões desenhadas no chão com um pequeno galho, ganha vida o sítio onde tanto o amor calado como a violência indizível tiveram lugar e é, de facto, impressionante que o discurso dos protagonistas seja tão presente que parecem descrever algo que aconteceu há muito pouco tempo. Aqui, em muitos momentos, os filhos de Octávio Pato surgem confrontando o espectador com o seu olhar longo e sofrido, ainda hoje sofrido, mas ao mesmo tempo forte e convocando a quem os olhe nos olhos que não os desvie e veja a realidade tão próxima de um país que ainda hoje teima em branquear a sua memória.

A memória é, aliás, uma presença muito forte neste documentário e Susana de Sousa Dias faz questão de deixar o espectador a sós e frente a frente com estas pessoas reais que viveram as agruras de nascer sem nome, sem pais e sem local de registo, de ter de escamotear as regras para poder sobreviver à sombra que o seu próprio pai lhes lançou, ironicamente em busca de uma liberdade que hoje em dia se desdenha ou a que pouca importância se dá porque existe, está aqui tão simplesmente mas não esteve durante 48 longos anos de neblina, colónias, prisões desterradas, perseguições políticas e violência física. O sofrimento provocado por essa vida diária de provações e medo para uma parte da população que optava por lutar secretamente contra o estado de coisas, surge também muito marcado nas fotografias tiradas em momentos mais recentes, depois da libertação da prisão, no olhar de cansaço e derrota da mãe. Igualmente presente o olhar da coragem e da resistência nos irmãos de Octávio Pato, recordados pelas memórias dos sobrinhos pequenos com aquele carinho de eternidade e infinitude caracterísitico de quando os mais novos olham para cima para os adultos que acarinham e tudo lhes parece sólido e permanente.

Sólida e permanente ditadura dos sentidos que condicionou a vida desta e de outras famílias e que a realizadora tenta mostrar de uma forma crua, sem quaisquer outros filtros que não os da realidade e, de facto, é um documentário curto mas que em intensidade emocional parece interminável. Susana de Sousa Dias permite ao espectador que interiorize lentamente as informações visuais e emocionais, levando-o a uma viagem dos sentidos, da memória, do tempo que passa tão lento passaram aqueles intermináveis 48 anos. Quase não se consegue aguentar o olhar ali tão intenso, no silêncio, tão presente, os próprios silêncios dos narradores são muitas vezes quase insuportáveis, tantas vezes interrompidos pelas lágrimas. Aliás, esse é um dos elementos mais notáveis e impressionantes, em que o rememorar e narrar daqueles momentos é seguido quase instantaneamente pelo choro, nem sempre visto, às vezes só discretamente ouvido. E depois fala-se abertamente sobre assassinato, sobre o homicídio de resistentes anti-fascistas nos longos interrogatórios, nas salas de tortura, às mãos da polícia política, com todas as letras para que não haja dúvidas e não se pense tratar-se apenas de um desaparecimento trágico. Esse é outro dos elementos mais importantes do desmistificar de uma ditadura branda em que havia respeito e tudo corria serenamente, o falar abertamente sobre a morte, real, sobre a tortura física e psicológica, igualmente reais, de pessoas que não entregaram os familiares e amigos ao regime.

“Luz Obscura” é um documentário propositadamente lento, que demora o seu tempo a contar as histórias que os intervenientes têm para contar. Não são histórias de embalar embora existam memórias felizes de infância, talvez fruto da esperança ou da natural ausência de maldade nas crianças. É também a história de como apesar de nem todas as famílias serem iguais aos olhos do Estado Novo, a resistência ao regime se fazia politicamente e emocionalmente para estas famílias que tinham inevitavelmente que viver longe do mundo. Baseada numa forte rede de pertença, a família de Octávio Pato resistiu para além dos laços de sangue, correndo o risco e perdendo os laços que se criam na convivência do dia-a-dia mas porque era preciso que a realidade fosse urgentemente outra. “Luz Obscura” é mais uma grande peça do puzzle que Susana de Sousa Dias tem construído acerca das memórias dos presos políticos, dando-lhes a voz que os arquivos e os documentos muitas vezes branqueiam e mostrando o outro lado da história.

Cátia Santos
Arqueóloga aposentada com amor à(s) arte(s)

“Luz Obscura”, de Susana de Sousa Dias

 

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16 de Abril, 19h: “Debaixo do Céu”

Realização: Nicholas Oulman

Documentário

POR, 2017,  79′  M/12

Onde estão hoje os refugiados que passaram por Portugal fugidos do nazismo? Quais são as suas memórias de fuga e como chegaram ao porto de abrigo no extremo da Europa? Como viam os portugueses que os acolheram? Como partilham hoje esse legado? Eis as perguntas que “Debaixo do Céu” procura responder numa longa-metragem que traz para o presente os dramas e aventuras dos refugiados judeus da II Grande Guerra. Realizado pelo português de origem judaica Nicolas Oulman (“Alain Oulman – Com Que Voz”), este documentário dá a conhecer testemunhos contados na primeira pessoa e inúmeros documentos escritos, fotografias e imagens de arquivo dos anos 1940.

Carlos Cipriano, PÚBLICO

 

Cinema documental, história e humanismo

No ano em que se assinalam os 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial, “Debaixo do Céu”, de Nicholas Oulman, apresenta-nos uma espantosa teia de memórias da experiência judaica, cruzando palavras e imagens.

Em anos recentes, diversas efemérides repuseram as memórias da Segunda Guerra Mundial na actualidade, não apenas social e política, mas também cinematográfica. 2019 voltará a ser um ano de reflexão em torno de tais memórias: assinalam-se os 80 anos de início do conflito (a 1 de Setembro de 1939, com a invasão da Polónia pelas tropas alemãs); o  Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto ocorre a 27 de Janeiro.

O filme “Debaixo do Céu”, de Nicholas Oulman, será, por certo, um objecto marcante nessa dinâmica, na sua dialéctica conhecimento/pensamento. Trata-se de revisitar as lembranças de pessoas de origem judaica que, com a chegada dos nazis ao poder, em 1933, abandonaram a Alemanha, procurando refúgio em diversos países (incluindo Portugal) — o filme é uma teia de memórias faladas que ecoam nas espantosas imagens de arquivo.

Estamos perante uma singular via do género documental. De facto, não é todos os dias que um filme prescinde da voz de um narrador, mais ou menos dominador, que se limita a “descrever” o que vemos nas imagens. Oulman registou os testemunhos de quem era ainda criança em meados da década de 30, mas que guarda uma memória muito viva das agressões nazis e da máquina de aniquilamento liderada por Hitler — as suas vozes, concisas e serenas, povoam a banda sonora.

Imagens como os jovens estudantes, ainda vivendo um ambiente de incauta alegria, ou os dantescos escombros de Berlim em 1945 são elementos tanto mais impressionantes quanto surgem “enquadrados” pelas palavras dos que sobreviveram e, agora, partilham connosco as suas experiências — “Debaixo do Céu” é um objecto exemplar do valor histórico, e também da vibração humanista, que o olhar documental pode envolver.

Crítica de João Lopes

 

9 de Abril, 19h: “Em Trânsito”

Realização: Christian Petzold

Intérpretes: Franz Rogowski, Paula Beer, Godehard Giese, Barbara Auer

FRA/ALE, 2018, 101′  M/12

Perseguido pelo regime, Georg encontra-se em Marselha e precisa de sair de França quanto antes. Com a vida em perigo e o tempo a escoar-se, apropria-se dos documentos de identificação de um escritor que recentemente cometeu suicídio e assume a sua identidade. Entretanto, numa das suas deambulações pela cidade, o seu destino cruza-se com o de Marie, a esposa do homem a quem roubou o nome. Fascinado, Georg apaixona-se por ela perdidamente. Mas Marie apenas quer encontrar o marido desaparecido.
Estreado no Festival de Cinema de Veneza, um filme dramático com argumento e realização do alemão Christian Petzold (“Barbara”, “Phoenix”), que transpõe para os nossos dias a obra com o mesmo nome publicada em 1944 por Anna Seghers (1900-1983), sobre as experiências dos exilados que procuravam fugir à Segunda Guerra Mundial.

 

O passado, aqui e agora
Prosseguindo a sua prospecção da história alemã e europeia, Christian Petzold encena “Em Trânsito” como uma memória da Segunda Guerra Mundial que se actualiza em cenários do nosso presente — uma experiência cinematográfica original e perturbante.

Nascido na cidade alemã de Hilden, em 1960, Christian Petzold tem-se distinguido pela capacidade de lidar com momentos críticos da história da Alemanha — lembremos os casos exemplares de títulos como “Barbara” (2012) ou “Phoenix” (2014). Assim volta a acontecer com “Em Trânsito”, com um twist francamente perturbante.
O filme tem como base o romance “Transit”, de Anna Seghers, publicado em 1942 — nele se faz o retrato da França ocupada pelos nazis a partir da narrativa de um sobrevivente dos campos de concentração. A narrativa segue a sua fuga para o Sul do país, para a região de Marselha, embora, agora, de forma assumidamente ambígua.

Porquê? Porque Petzold propõe uma insólita transfiguração: a acção surge situada em cenários do nosso século XXI… Daí a pergunta compulsiva: estamos perante um objecto de ficção científica? Não, claramente não: “Em Trânsito” apresenta-se mesmo como um lugar de coexistência & contaminação entre as memórias do passado e os sinais do presente.

Escusado será sublinhar que assim se estabelece um curto-circuito dramático entre refugiados dos dois tempos, mesmo se Petzold recusa estabelecer qualquer tipo de “equivalência” entre um tempo e outro — em vez de ter encenado uma acção concreta que se salda numa abstracção, “Em Trânsito” é um exercício abstracto que, pedagogicamente, nos devolve ao nosso aqui e agora.

Crítica de João Lopes

 

26 de Março, 19h: “Girl: O Sonho de Lara”

Realização: Lukas Dhont

Intérpretes: Victor Polster, Arieh Worthalter, Oliver Bodart

HOL/BEL, 2018, 109′  M/14

A determinada Lara, de 15 anos de idade, está empenhada em tornar-se bailarina profissional. Com o apoio do pai, mergulha nessa busca pelo absoluto na sua nova escola. As frustrações adolescentes de Lara e a sua impaciência aumentam quando percebe que o seu corpo não obedece facilmente àquela rígida disciplina porque ela nasceu rapaz.

 

Realismo à flor da pele
“Girl” segue a história de Lara que já se chamou Victor — distinguido em Cannes com a Câmara de Ouro, esta primeira longa-metragem de Lukas Dhont é um dos grandes filmes de 2018.

Eis um filme que, de forma mais ou menos inevitável, será visto como um sintoma das muitas discussões sobre as diferenças de género, transversais aos espaços da legislação, da política, dos usos e costumes.

E há razões para isso: este prodigioso “Girl” é, afinal, a história de Lara, rapariga que nasceu num corpo de rapaz (de nome Victor) e, através de um labirinto de alegrias e angústias, vive o seu processo de mudança de sexo.

Ainda sim, quanto mais não seja por uma questão de valorização dos filmes enquanto objectos de cinema (e não apenas através dos “temas” que convocam), importa dizer que tal valor sintomático está longe de esgotar a beleza, a serenidade e também as vibrações emocionais desta primeira longa-metragem do belga Lukas Dhont (distinguida com a Câmara de Ouro do Festival de Cannes de 2018).

Estamos muito longe das ficções militantes que, mesmo quando informadas pelo mais cândido discurso de exaltação das diferenças humanas, tendem a encerrar as personagens em esquemas “desmonstrativos” — como se a vida íntima dessas personagens se reduzisse a uma banal câmara de eco de debates públicos (mais ou menos televisivos).

Reeencontramos em “Girl” as razões de um realismo à flor da pele em que cada momento acontece através de uma peculiar vibração dramática. Lukas Dhont sabe filmar olhares, gestos e silêncios com a serena arte de quem procura a verdade radical de um ser que enfrenta as convulsões da sua própria identidade. O actor principal, Victor Polster, afirma-se, aliás, como um exemplo raro de encarnação radical de uma personagem — dir-se-ia que podemos contemplar os elementos conscientes e inconscientes da sua história desenhados nas nuances de um só corpo.

Fica, enfim, uma celebração e uma nota de desencanto: primeiro, reconhecendo que as convenções comerciais do “cinema-de-Natal” não excluíram a presença nas salas de um objecto tão precioso como “Girl”; depois, questionando as regras (ou a falta delas) que fazem com que, globalmente, o mercado tenha perdido a capacidade de dar a devida visibilidade a filmes como este.

Como defender — entenda-se: promover — os filmes que, como “Girl”, não se enquadram nos padrões dominantes do marketing? Eis uma interrogação que foi pontuando o ano de 2018. Eis uma dúvida que, incomodamente, se transfere para 2019.

Crítica de João Lopes

 

 

19 de Março, 19h: “Cold War – Guerra Fria”

Realização: Pawel Pawlikowski

Intérpretes: Joanna Kulig, Tomasz Kot, Borys Szyc

POL/GB/FRA,, 2018, 88′  M/14

Uma impetuosa história de amor entre duas pessoas de diferentes origens e temperamentos, fatalmente incompatíveis, mas destinadas a estar juntas.

Tendo como pano de fundo a Guerra Fria, nos anos 50, na Polónia, Berlim, Jugoslávia e Paris, o filme retrata uma história de amor impossível em tempos impossíveis, livremente inspirada na relação entre os pais do realizador.

Prémio de Melhor Realização no Festival de Cannes 2018.

Nomeado para três Óscares em 2019 (Melhor Realizador, Melhor Fotografia e Melhor Filme em Língua não Inglesa), que perdeu para Roma de Alfonso Cuarón.

 

A Polónia a preto e branco

Premiado em Cannes, “Guerra Fria”, de Pawel Pawlikowski, é um dos mais importantes exemplos da mais recente produção da cinematografia polaca — uma evocação subtil de tempos de grande tensão entre o Ocidente e o Bloco de Leste.

Foi você que disse Polónia?… É verdade. Só mesmo por distracção, ou vulgar altivez, se poderá ignorar a presença da produção polaca na história moderna do cinema europeu. Afinal de contas, entre os autores gerados pela Nova Vaga polaca está Roman Polanski. Isto sem esquecer os nomes emblemáticos de Andrzej Wajda, Krzysztof Kieslowski ou, mais recentemente, Pawel Pawlikowski (com o seu magnífico “Ida”, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro referente a 2013).

Pawlikowski, justamente, reaparece com um título já consagrado em Cannes, no passado mês de Maio (prémio de realização): “Guerra Fria” começa por ser aquilo que o seu título explicita. Que é como quem diz: um fresco histórico sobre um período de crescente tensão entre o Bloco de Leste e o Ocidente, tensão vivida de modo muito particular, entre a indiferença e o pânico, pelo cidadão comum.

No centro dos acontecimentos estão duas personagens que se cruzam no mundo da música e, em particular, nos eventos oficiais, de cariz propagandístico, com os agrupamentos da juventude comunista: Zula e Wiktor surgem, assim, como símbolos de uma sociedade conduzida pela frágil ilusão de uma unidade mítica e redentora.

A complexidade, desde logo afectiva (mas também ideológica e sexual), das relações entre Zula e Wiktor é tanto mais intensa quanto Pawlikowski volta a revelar-se um exemplar director de actores: Joanna Kulig e Tomasz Kot são brilhantes na caracterização de dois seres embrenhados nos ziguezagues de um tempo de muitas incertezas e ambiguidades.

Notavelmente fotografado a preto e branco (tal como “Ida”), “Guerra Fria” não é, por isso, um objecto nostálgico ou formalista. A fotografia surge, aqui, como elemento visceral de uma época que, em muitos aspectos, se viu, representou e imaginou a preto e branco. Aliás, importa combater o preconceito segundo o qual a “cor” é o estado natural do cinema… Em boa verdade, uma boa metade da história dos filmes existe a preto e branco.

Crítica de João Lopes

 

12 de Março, 19h: “Os Chapéus-de-Chuva de Cherbourg” in memoriam Michel Legrand

Realização: Jacques Demy

Intérpretes: Anne Vernon, Catherine Deneuve, Marc Michel, Nino Castelnuovo

FRA, 1964, 90′  M/12

Palma de ouro do Festival de Cannes de 1964, “Os Chapéus-de-Chuva de Cherburgo” é um dos mais belos filmes do cinema francês, com a sua atmosfera de mágica melancolia onde os apaixonados se cruzam e se perdem. Um filme totalmente cantado, sobre o efémero e a eternidade do amor. Texto: Cinemateca Portuguesa

 

Michel Legrand— morreu um gigante da música no cinema 

De uma versatilidade invulgar, deixa-nos uma obra monumental e fascinante, repartida por cerca de duas centenas de títulos — Michel Legrand faleceu aos 86 anos de idade.

Gostava de dizer que ter uma casa com um piano era suficiente para se sentir feliz…Michel Legrand, falecido em Paris a 26 de Janeiro (contava 86 anos), deixa-nos uma obra imensa, cruzada pela felicidade da música, de todos os estilos, de todas as cores.

A sua formação jazzística estava longe de ser um detalhe. Afinal de contas, de Miles Davis a Phil Woods, passando por John Coltrane ou Bill Evans, Legrand colaborou com figuras emblemáticas da história do jazz. Seja como for, no plano cinematográfico, o seu nome surge, antes do mais, associado a Jacques Demy — para ele compôs várias bandas sonoras, com destaque para “Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” (1964) e “As Donzelas de Rochefort” (1967).

Ganhou três Oscars:

— melhor canção, “The Windmills of Your Mind”, do filme “O Grande Mestre do Crime” (1968), de Norman Jewison ;

— melhor banda sonora, por “Verão 42” (1971), de Robert Mulligan.

— melhor banda sonora, por “Yentl” (1983), de e com Barbra Streisand.

 

“Os Chapéus de Chuva de Cherburgo” foi um acontecimento realmente excepcional no panorama francês da época. Catherine Deneuve e Nino Castelnuovo eram o par romântico que vivia uma atribulada história de encontros e desencontros, encenada em cenários de cores exuberantes. Com música de Michel Legrand, colaborador regular de Demy, o melodrama dizia-se, literalmente, por música — e o filme foi a Cannes e arrebatou a Palma de Ouro.

Textos de João Lopes

 

 

26 de Fevereiro, 19h: “O Amante de um Dia”

Realização: Philippe Garrel

Intérpretes:Éric Caravaca, Esther Garrel, Louise Chevillotte

FRA, 2017, 76′  M/14

Quase 50 anos após a estreia de “Le Révélateur”, o seu filme de estreia de 1968, Philippe Garrel regressa aos filmes para completar a sua chamada “trilogia do amor”, iniciada em 2013 com “Ciúme” e continuada dois anos depois com “À Sombra das Mulheres”. Centra-se em Gilles, um professor de filosofia interpretado por Ériv Caravaca que namora e vive com uma das suas alunas, Ariane (Louise Chevillotte). Tudo está bem até ao dia em que a filha de Gilles, Jeanne (Esther Garrel, filha do próprio realizador, além de irmã de Louis Garrel), da mesma idade de Ariane, vai morar com eles após acabar a relação em que estava.

 

Labirinto de amor e desamor
Fiel aos seus princípios temáticos e artísticos, o francês Philippe Garrel regressa com o muito simples, e muito belo, “O Amante de um Dia” — entre os principais intérpretes está a sua filha, Esther Garrel.

A sinopse de “O Amante de um Dia” tem tanto de esquemático como de insólito:  Gilles (Éric Caravaca) é um professor que se apaixona por uma das suas alunas, Ariane (Louis Chevillotte), bastante mais nova que ele; entretanto, Jeanne (Esther Garrel), filha de Gilles, instala-se em sua casa depois de o namorado ter rompido com ela — Gilles, Ariane e Jeanne vão definir um triângulo que evolui da indiferença ao ciúme, do segredo à confissão… 

Assim é o cinema de Philippe Garrel (nascido em 1948, em Paris), veterano do cinema francês, figura marginal de uma certa “pós-Nova Vaga”. Fiel aos princípios que, desde meados da década de 60, definem o seu universo temático e artístico, Garrel continua a filmar pequenas histórias de amor (literalmente: este filme tem pouco mais de 70 minutos de duração) que desafiam as evidências que parecem assombrá-las.
No caso de “O Amante de um Dia”, o facto de Ariane e Jeanne serem, afinal, da mesma idade introduz uma nota particular na melodia narrativa, mas está longe de se transformar num “tema” dominante. Aquilo que Garrel trabalha para expor, num misto de ternura e desencanto, é o labirinto dos amores e desamores que as personagens percorrem e, num certo sentido, prolongam — para além das regras tradicionais da psicologia, ele filma a própria insensatez de qualquer movimento amoroso.

Estamos perante um conto moral, exposto num renovado e obsessivo preto e branco — a direcção fotográfica é de outro veterano, o admirável Renato Berta (que, em 2012, fotografou “O Gebo e a Sombra”, de Manoel de Oliveira) — que, mais do que nostálgico, aponta para a memória de um realismo austero, à flor da pele. Sem esquecer que Esther Garrel, a intérprete de Jeanne é filha do realizador, de alguma maneira sublinhando a ambígua intimidade de todo este universo.

Crítica de João Lopes