Category Archives: Sessões Cineclubistas

22 de Agosto, 19h: “Irmãs Amadas”

Realização: Dominik Graf

Intérpretes: Hannah Herzsprung, Florian Stetter, Henriette Confurius

ALE/Áustria, 2014, 138′

Alemanha, século XVIII. As irmãs Charlotte e Caroline von Lengefeld são duas raparigas aristocráticas a viver sob as ordens de uma mãe autoritária na cidade de Rudolstadt. Quando ambas se apaixonam perdidamente pelo jovem poeta e filósofo Friedrich Schiller, optam por partilhar aquele amor, mesmo sabendo que estão a desafiar as convenções de uma sociedade profundamente tradicionalista. Entre os três nasce assim um triângulo amoroso consensual onde cada um desempenha o seu papel. Contudo, com o passar do tempo e à medida que a relação assume outras formas, o sentimento de posse ganha novas proporções e o pacto que lhes servira até aí é quebrado…
Com realização de Dominik Graf (“Assalto ao Banco”), um filme que se inspira na vida amorosa de Friedrich Schiller (1759-1805), poeta, filósofo, médico, historiador e um dos representantes máximos do Romantismo alemão. Florian Stetter, Hannah Herzsprung, Henriette Confurius e Claudia Messner assumem os principais papéis. PÚBLICO

Memórias do poeta Schiller

Eis uma produção alemã que esteve na competição do Festival de Berlim de 2014. Dominik Graf evoca um especialíssimo triângulo, constituído pelo poeta Friedrich Schiller (1759-1805) e as irmãs Caroline e Charlotte von Lengefeld.

Protagonizaram, afinal, uma espécie de pré-romantismo, no sentido em que a sua defesa da sensibilidade individual contra os valores do Século das Luzes os levou a conceber uma comunidade amorosa, idealmente capaz de existir fora das hipocrisias da sociedade (Schiller viria a casar-se com Charlotte).

O maior trunfo do filme é a sua ambígua ligeireza: através de uma narrativa em “quadros” mais ou menos teatrais, embora aplicando sempre ágeis movimentos de câmara, Graf vai instalando a sensação paradoxal de que o carácter radical do compromisso de Schiller, Caroline e Charlotte contém os elementos da sua própria decomposição. Tudo isto num contexto em que a nostalgia de uma natureza virginal se confronta com a crueldade dos tempos (e das notícias da Revolução Francesa). Enfim, um pequeno grande filme que merece ser descoberto.

Crítica de João Lopes, in DN/Artes – 5/10/2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8 de Agosto, 19h: “Café Society”

Realização: Woody Allen

IntérpretesJesse EisenbergKristen StewartSteve Carell

EUA, 2016, 96′

EUA, década de 1930. O jovem Bobby sonha conquistar fama e fortuna. Decidido a alcançar o estrelato, deixa Nova Iorque e ruma a Los Angeles, onde tenciona valer-se dos contactos do tio, Phil Stern, um famoso agente que fez carreira em Hollywood. Bobby consegue o emprego de mensageiro na empresa do tio. É então que conhece e se apaixona perdidamente por Vonnie, a belíssima secretária de Phil. Ao contrário de todos os que a rodeiam, ela olha com algum desdém para todo o “glamour” da indústria cinematográfica. Mas, para infortúnio de Bobby, ela está romanticamente envolvida com outra pessoa.
Com realização e argumento do veterano Woody Allen, uma comédia romântica que conta com Jesse Eisenberg, Kristen Stewart, Steve Carell, Parker Posey, Blake Lively, Corey Stoll, Jeannie Berlin, Ken Stott e Tony Sirico, entre outros. PÚBLICO

 

Melodrama em Hollywood

Foi o filme de abertura oficial do Festival de Cannes (2016)— com “Café Society”, Woody Allen revisita os eufóricos anos 30 de Hollywood, contando com um magnífico elenco liderado por Jesse Eisenberg e Kristen Stewart.

Não se pode dizer que Woody Allen seja um grande amante dos faustos de Hollywood. Apesar de já ter ganho quatro Oscars (os dois primeiros como realizador e argumentista de “Annie Hall”, em 1978), nunca esteve presente para os receber… E, no entanto, Hollywood continua a pontuar o seu trabalho.

É essa, pelo menos, a porta de entrada no magnífico “Café Society”, filme que nos transporta para os eufóricos anos 30, quando o cinema americano vivia as aceleradas transformações do mudo para o sonoro, com a consolidação de novos modelos narrativos e também do próprio star system. A sua personagem central, Bobby (Jesse Eisenberg), é mesmo um jovem que, através de ligações familiares, tenta a sua sorte na indústria dos filmes.

Repare-se, no entanto, na origem de Bobby: ele vem, afinal, de Nova Iorque e, em boa verdade, toda a sua existência em Los Angeles vai ser marcada pelas memórias da grande metrópole da costa Leste. Dir-se-ia que até mesmo o seu envolvimento amoroso com Vonnie (Kristen Stewart) se vai desenvolver como um confronto de duas sensibilidades geográficas e culturais.

Mais do que retratar Hollywood num período muito específico, Woody Allen aposta em recuperar a energia melodramática desse mesmo período, afinal fazendo um filme “antigo”, agora com o distanciamento de quem controla em absoluto as subtilezas das linguagens que convoca.

Será preciso sublinhar que, uma vez mais, isso acontece através de um elenco em estado de graça? Para além do par Eisenberg/Stewart, admire-se a subtileza das composições de Steve Carrell ou Blake Lively — afinal, este é um cinema enraizado nas singularidades dos seus intérpretes.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

1 de Agosto, 19h: “O Que nos Resta”

Realização: Hans-Christian Schmid

Intérpretes: Lars Eidinger, Egon Merten, Eva Meckbach

ALE, 2012, 85

Marko, um escritor na casa dos 30, vive em Berlim, na Alemanha, desde os tempos da universidade. A relação com a família nunca foi pacífica e hoje a convivência reduz-se a duas ou três visitas por ano. Desde muito novo que se sente pouco identificado com o modo de vida burguês de ambos os progenitores. Porém, decidido a não prejudicar a relação do seu próprio filho com os avós, aceita reunir-se na casa paterna para um fim-de-semana no campo. Mas o que se previra relativamente tranquilo ganha proporções inesperadas quando a mãe, uma pessoa mentalmente desequilibrada desde tenra idade, decide deixar de tomar a medicação. Os conflitos sucedem-se e as tristes recordações do passado vêm novamente ao de cima…
Em competição no Festival de Cinema de Berlim, um drama familiar realizado por Hans-Christian Schmid segundo um argumento de Bernd Lange. O elenco conta com a participação de Lars Eidinger, Sebastian Zimmler, Corinna Harfouch, Egon Merten e Eva Meckbach, entre outros.

 

Nas fronteiras do melodrama

Vemos pouco cinema alemão. E há na sua produção corrente muitos títulos que merecem ser descobertos. É o caso de “O Que Nos Resta”, um melodrama familiar dirigido por Hans-Christian Schmid e sustentado por um conjunto de magníficas interpretações.

A consagrada Corinna Harfouch. E também Lars Eidinger, Egon Merten, Eva Meckbach, Sebastian Zimmler e Ernst Stötzner. Eis uma colecção de nomes que não fazem parte das nossas referências correntes, mas que partilham uma mesma qualidade: são excelentes actores. Estão todos num título gerado no contexto de uma produção alemã que, afinal, conhecemos de forma muito limitada — integram o elenco de “O Que Nos Resta” (2012), um daqueles filmes que não merece ser esquecido no meio das avalanchas promocionais dos “blockbusters”…

Dirigido por Hans-Christian Schmid, a partir de um argumento assinado por Bernd Lange, este é um melodrama que, por assim dizer, desafia as suas próprias fronteiras. O ponto de partida relativamente convencional — uma reunião familiar durante um fim de semana — vai deslizando para uma estranheza (psicológica e simbólica) que se instala a partir do momento em que a mãe (Harfouch) dá conta do facto de ter deixado de tomar os medicamentos que lhe foram receitados por causa da sua depressão crónica…

O que faz com que o trabalho de Schmid supere os efeitos mais correntes do modelo que aplica é a sua resistência a qualquer definição determinista das personagens. Somos, por isso, convocados para um envolvente processo de descoberta — tanto quanto as personagens, também o espectador é confrontado com a dimensão mais irredutível dos laços humanos.

Acima de tudo, “O que Nos Resta” é um objecto que (re)afirma a possibilidade de um cinema que recuse qualquer fascínio tecnicista, não abandonando os valores mais primitivos de uma dramaturgia que, interessando-se pela complexidade das personagens, mantém uma relação exemplar com os actores. Nada de super-heróis, nem sequer de heróis… Por vezes, é bom saber que a vida vivida nos mobiliza.

Crítica de João Lopes

 

25 de Julho, 19h: “Félicité”

 

Realização: Alain Gomis

Intérpretes: Véro Tshanda Beya MputuGaetan ClaudiaPapi MpakaNadine Ndebo

BEL/Líbano/ALE/FRA/Senegal, 2017, 123′ M/12

A viver na cidade de Kinshasa (República Democrática do Congo), Félicité esforça-se por criar Samo, o filho de 16 anos. Os dois sobrevivem do pouco dinheiro que ela consegue obter cantando em bares. Um dia, Samo sofre um acidente grave e é internado no hospital. Para que possa ser operado, exigem-lhe uma grande quantia de dinheiro. Sem recursos de que possa dispor de imediato, Félicité vasculha a cidade em busca de amigos, conhecidos e desconhecidos que a possam ajudar a salvar a vida do filho…
Em competição pelo Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, onde arrecadou o Grande Prémio do Júri, um drama social escrito e realizado pelo senegalês Alain Gomis (“Aujourd’hui”). O elenco é composto por uma equipa de actores estreantes: Véro Tshanda Beya Mputu, Gaetan Claudia, Nadine Ndebo e Papi Mpaka. PÚBLICO

A tristeza nos olhos de ‘Felicité’

Alain Gomis, o francês de origem senegalesa, continua a trilhar um cinema de procura de uma certa identidade cultural, ao mesmo tempo que explora o realismo social das ruas de Kinshasa, onde ao cair da noite tudo se torna um pouco mais suportável, sobretudo depois da entrega aos ritmos e aos vapores etílicos.

Nesta sua quarta longa-metragem, a segunda em competição na Berlinale, depois de Aujourd’hui, em 2012, serve-se do drama pessoal de uma cantora de bar nocturno, para mostrar esse mundo feito de contrastes, mas onde as pessoas não têm outra alternativa a não ser adaptar-se. Felicité (impressionante Véro Tshanda Beya Mputu no seu primeiro trabalho como atriz) é essa intérprete de olhos tristes, que aceita a sua condição sem juízos ou julgamentos. Mesmo quando sofre o duro revés de saber que o filho teve um grave acidente de moto.

Ao aperceber-se que terá de arranjar um milhão de francos locais (aproximadamente 1500€) para a operação do filho, envereda numa luta contra o tempo para o salvar. É aí que acaba por aceitar a ajuda do mulherengo e alcoólico Tabu (Papi Mpaka), não só para ajudar a concertar as avarias crónicas do seu frigorífico, mas também para fazer uma espécie de part time da sua vida.

Neste frenesim que nos faz lembrar Rosetta, dos irmãos Dardenne, Gomis descreve com dedicação os dilemas de uma grande fatia da sociedade senegalesa, com a particularidade de conseguir imprimir uma certa magia e a dimensão quase épica desse povo. O problema é a narrativa desta co-produção entre a França, Senegal, Bélgica, Alemanha e Líbano, que acaba por perder parte do seu fulgor, sobretudo depois do filho sair do hospital. É nessa altura que o filme tenta ainda desesperadamente agarrar-se a uma âncora para cumprir os seus 90 minutos de duração, acabando mesmo por repisar a conclusão anunciada no início, que a noite funciona como uma esponja de anestesia que tudo parece curar. Ou como a metáfora do frigorífico permanentemente avariado a oferecer uma explicação para um povo suspenso num limbo.

http://www.insider.pt/2017/02/11/berlim-a-tristeza-nos-olhos-de-felicite/

 

11 de Julho, 19h: “O Grande Fúsi”

Realização: Dagur Kári

Intérpretes: Gunnar JónssonIlmur KristjánsdóttirSigurjón KjartanssonMargrét Helga Jóhannsdóttir

Islândia/DIN, 2015, 94′ M/12

Fúsi é um quarentão pacato e introvertido que chegou à idade adulta sem nunca ter amadurecido verdadeiramente. A morar em casa da mãe, sente consolo nas pequenas rotinas da sua vida, que pouco ou nada mudaram ao longo dos anos. Um dia, ao tentar a sua primeira aula de dança, conhece Sjöfn, uma mulher que, apesar de perturbada, o vai obrigar a quebrar velhos hábitos, alterando, para sempre, a monotonia em que tem vivido
Estreado na 65.ª edição do Festival de Cinema de Berlim, esteve também em competição no Festival de Tribeca (EUA), onde arrecadou os prémios para melhor filme, actor e argumento. A realização e argumento são da responsabilidade de Dagur Kári (“Nói, o Albino”, “O Bom Coração”). A dar vida às personagens estão actores como Gunnar Jónsson, Ilmur Kristjánsdóttir ou Sigurjón Kjartansson.

 

Gigante de bom coração

Há momentos em Desajustados (O Grande Fúsi ) que dá vontade de dar um chacoalhão no protagonista, Fúsi, tamanha sua apatia diante de injustiças, a grande maioria delas contra a sua pessoa. Mas não adiantaria nada e, na verdade, essa passividade serve como uma espécie de manto protetor para esse moço tão sereno. O desejo que o espectador sente de vê-lo revidar, por exemplo, o ataque dos bullies que o atormentam no trabalho, é típico de quem assiste a filmes americanos. A reação clichê para a situação vexatória que ele passa em um vestiário só poderia ser um surto de fúria. Mas essa é uma coprodução entre Dinamarca e Islândia e o que se vê na tela jamais cai na mesmice.

Como o leitor pode perceber nas imagens, Fúsi é imenso, forte, mas seu tamanho é proporcional à sua timidez. Aos 43 anos, ele ainda vive com a mãe a parece uma criança gigante. Seus passatempos são brincar com a garotinha que é sua vizinha ou se debruçar sobre a incrível recriação em miniatura de um combate da Segunda Guerra, hobby que compartilha com um amigo que também coleciona soldadinhos e tanques. A virgindade entra no pacote, obviamente, mas Fúsi não tem nenhum problema mental e sim um profundo acanhamento social. A solidão reflete em seu olhar de cachorro abandonado. É um personagem cativante, daqueles que estimulam o instinto maternal.

Sua monótona rotina tem inúmeras adversidades, mas ele não se queixa, vai levando. A chance da virada se insinua quando o namorado da mãe lhe presenteia com a matrícula de um curso de dança. E ali Fúsi conhece uma moça que vai tirá-lo do marasmo. Quem conta essa história é Dagur Kári, diretor de O Bom Coração (2009), em que Paul Dano faz um sem-teto abrigado pelo dono de bar vivido por Brian Cox. A mesma ternura impera em Desajustados, e o plural do título é uma dica de quem tem mais gente precisando de ajuda em cena.

O curioso nos créditos é a assinatura de Baltasar Kormákur como produtor. O diretor dos filmes de ação Dose Dupla (2013) e Evereste (2015) parece querer se reciclar nesse projeto independente que investe nas relações humanas. Desajustados é uma obra comovente que desvia das soluções fáceis, mas nem por isso perde a esperança. A produção foi bem no circuito de prêmios, com destaque no Festival de Tribeca de 2015, em que venceu como melhor narrativa, ator (Gunnar Jónsson) e roteiro.

http://revistapreview.com.br/critica/desajustados-gigante-de-bom-coracao/

 

 

 

 

 

4 de Julho, 19h: “California”

Realização: Marina Person

IntérpretesClara Gallo, Caio Horowicz, Caio Blat , Virginia Cavendish

BRA, 2015, 85′ M/12

Brasil, década de 1980. Estela, de 14 anos, é uma adolescente igual a tantas outras. O seu dia-a-dia é um esforço constante para gerir as expectativas familiares, a amizade e as paixões arrebatadas, tão características da idade. Carlos, seu tio, conselheiro e mentor, é um jornalista especializado em música que se encontra a trabalhar na Califórnia. Ansiosa para revê-lo e conhecer o mundo em que ele se move, a rapariga faz um acordo com os pais: em vez da festa dos 15 anos, quer conhecer os EUA. Mas os sonhos dela caem por terra quando Carlos, doente e debilitado, opta por voltar para o Brasil…
Com realização de Marina Person, segundo um argumento seu, de Francisco Guarnieri e de Mariana Veríssimo, um filme sobre as dores de crescimento, com Clara Gallo, Caio Blat, Caio Horowicz e Giovanni Gallo nos papéis principais. PÚBLICO

 

Ao assistir a Califórnia, um trabalho doce, nostálgico e sensível comandado por Marina Person, experimentei a curiosa sensação de perceber que minha juventude havia se transformado em filme de época. Ambientado na década de 80, o longa enxerga o período com cores saudosistas que sugerem um universo que, relativamente primitivo em suas tecnologias de comunicação, era, ainda assim (ou talvez por isso), marcado por uma curiosa inocência por parte dos adolescentes que o habitavam.

Trazendo um claro tom autobiográfico, o roteiro escrito por Person (filha de Luis Sérgio), Francisco Guarnieri (filho de Paulo e neto de Gianfrancesco) e Mariana Veríssimo (filha de Luis Fernando e neta de Érico) gira em torno de Estela (Gallo), que, aos 15 anos, é uma estudante do ensino médio (na época, “segundo grau”) que vive seus primeiros amores, experimenta curiosidades e receios acerca do sexo, enfrenta certo conservadorismo por parte do pai (Miklos) e sonha com a futura viagem à Califórnia – que ganhou em troca da festa de debutante – a fim de fazer uma road trip ao lado do tio Carlos (Blat). No entanto, quando este retorna inesperadamente dos Estados Unidos, a garota experimenta sentimentos conflitantes à medida que percebe que algo está errado – uma sensação que se torna mais intensa em função de seus próprios anseios com relação à paixão que vive por um rapaz popular de seu colégio.

Aliás, se cito o fato de os três roteiristas serem descendentes de artistas notáveis, não é com o objetivo de desmerecê-los (nem poderia; todos já construíram carreiras respeitáveis), mas para apontar como isto reflete a posição da protagonista – ela mesma profundamente influenciada pela sensibilidade artística e musical do próprio tio, ressaltando o aspecto autobiográfico da obra. Neste sentido, é claro que a ambientação na década de 80 é significativa – e a direção de arte de Ana Mara Abreu faz um trabalho fabuloso do geral aos detalhes. O quarto de Estela, por exemplo, chega a exibir certo exagero no número de itens icônicos do período, trazendo referências a E.T., objetos como o jogo eletrônico Genius, vitrola, cubo mágico e por aí afora, ao passo que, aqui e ali, personagens surgem segurando canetas quatro cores e ouvindo canções do Kid Abelha e da Blitz. (Aliás, a seleção musical do projeto é impecável.)

Compreendendo que o espaço ocupado por um adolescente é uma maneira de representar quem este é – ou, mais do que isso, quem quer ser -, Califórnia emprega o quarto de Estela como forma de apresentar ao espectador elementos da personalidade de sua personagem principal e também seus objetivos (o que torna perdoável o “certo exagero” que mencionei no parágrafo anterior). Assim, é interessante que, ao lado das referências musicais, um mapa do estado que dá título ao filme surja em destaque, já que simboliza os sonhos da garota, mas também (e discutirei isso adiante) o amadurecimento pelo qual passará ao longo da narrativa.

Vivida pela estreante Clara Gallo com uma naturalidade admirável, Estela jamais deixa de convencer como uma adolescente comum que passa o dia inteiro pendurada no telefone (não havia Whatsapp na época, garotada), que insiste para que o pai estacione na esquina por ter vergonha de ser vista ao seu lado pelos colegas e que fala sobre sexo com um misto de curiosidade, assombro e embaraço. Da mesma forma, é impossível não encarar com certa nostalgia (e ocasional desconforto diante das próprias lembranças constrangidas) os sarros desajeitados nos cantos escuros de festinhas da turma ou não se comover com o sofrimento provocado pelas inseguranças da moça. Neste sentido, é perfeito que a diretora de fotografia Flora Dias traga Estela sob uma escuridão sufocante que ressalta sua solidão ao se ver incapaz de transar com o garoto de quem gosta, já que, nesta idade, aquilo realmente representa um drama intenso e angustiante.

Enquanto isso, Caio Blat, um ator incapaz de viver um personagem sem conferir a este um profundo calor humano (e estou certo de já ter dito isso antes), transforma o Tio Carlos num homem cujo carinho pela sobrinha é palpável, o que apenas torna sua dor por saber que irá desapontá-la ainda mais tocante. É brilhante, diga-se de passagem, como Blat e a diretora Marina Person sugerem a homossexualidade do sujeito de forma sutil, demonstrando também cuidado ao retratar o preconceito inspirado pela ignorância acerca de sua doença, que o obriga a usar pratos e talheres separados, aumentando seu isolamento num momento em que o apoio alheio se tornava ainda mais fundamental.

O que nos traz ao mapa no quarto de Estela: se inicialmente a Califórnia ali representada remete aos sonhos e aspirações da protagonista, bem como ao idealismo juvenil acerca de seu futuro (e, afinal, é lá que fica a terra de sonhos hollywoodiana), aos poucos o estado norte-americano passa a assumir, por sua distância crescente, o choque e o peso da realidade – uma realidade que a garota (que lembra Person até fisicamente) apreende gradualmente ao pescar pontualmente um indício ou outro do mundo adulto que a espera. (E um plano particularmente memorável é aquele que a traz notando, entre os bancos do carro, um toque carinhoso de mãos entre seu tio e o namorado deste.)

Assim, quando chegamos aos últimos segundos deste belíssimo filme, é apenas natural que constatemos que, atrapalhada como são todas as jornadas adolescentes rumo à maturidade, a trajetória de Estela acaba por abrir-lhe definitivamente os olhos para o mundo à sua volta, despertando uma sensibilidade que afinal a levará, 30 anos depois, a dirigir uma obra tão tocante como este Califórnia.

Pablo Villaça, 18 de Setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/Critica/Filme/8220/california

27 de Junho, 19h: “Paula Rego, Histórias e Segredos”

Realização: Nick Willing

Documentário

GB, 2017, 92′

Conhecida por ser muito ciosa da sua privacidade, Paula Rego revela-se pela primeira vez neste filme, surpreendendo o seu filho, o cineasta Nick Willing, com histórias e segredos da sua vida excepcional, uma vida de luta contra o fascismo, um mundo da arte misógino e a depressão.
Nascida em Portugal, um país sobre o qual o pai lhe disse que não era bom para as mulheres, Rego usou as suas imagens poderosas como uma arma contra a ditadura antes de se estabelecer em Londres, onde continuou a abordar questões sobre a situação da mulher como o direito ao aborto. Mas, acima de tudo, as suas pinturas são um vislumbre críptico sobre um mundo íntimo de tragédia pessoal, fantasias perversas e verdades constrangedoras.
Nick Willing combina um grande arquivo de filmes caseiros e fotografias de família com entrevistas que percorrem 60 anos de vida e imagens de Rego a trabalhar no seu estúdio. E o resultado é um poderoso retrato pessoal da vida e obra de uma artista cujo legado vai sobreviver ao tempo, ilustrado visualmente em pastel, carvão e tinta a óleo.

 

Um belo acontecimento na área documental: Nick Willing dialoga com a sua mãe, Paula Rego — o resultado é, de uma só vez, um exercício de revelação humana e uma viagem através de um admirável universo pictórico.

Mais do que nunca, importa (re)valorizar o facto de o género documental ter deixado de ser um parente pobre no panorama corrente da exibição cinematográfica — passou mesmo a ser uma presença regular na oferta da distribuição/exibição.

A sua proliferação envolve, por vezes, alguns banais efeitos de moda? É verdade que sim, mas isso não nos impede de reconhecer as muitas revelações que têm vindo dessa área — “Paula Rego, Histórias & Segredos” pode ser uma magnífico exemplo.

Eis a questão: como filmar o universo de Paula Rego? Digamos que a pergunta pressente, desde logo, a complexidade artística e humana do que está em jogo. Mas importa acrescentar uma fascinante ambiguidade: como ser cineasta e filmar o universo criativo da sua mãe? É verdade: este é um filme dirigido por Nick Willing, filho de Paula Rego — e, como seria inevitável, isso está longe de ser um detalhe secundário.
Willing evita a facilidade de querer convencer o espectador de que o seu acesso privilegiado à personagem retratada lhe confere qualquer “vantagem”. Este é mesmo um filme construído, antes do mais, a partir da perplexidade do filho que, logo no início, nos confessa que ficou surpreendido com a disponibilidade de Paula Rego, num misto de desassombro e serenidade, falar de muitas memórias de absoluta intimidade — assistimos, assim, a um genuíno processo de revelações.
O mais notável é o modo como tudo isso se vai entrelaçando para gerar um invulgar retrato cinematográfico. “Paula Rego, Histórias & Segredos” é isso mesmo que está condensado no título. A saber: uma deambulação de palavras e imagens que nos ajuda a sentir (ainda mais) as vibrações internas de um admirável universo pictórico. Ou como o cinema se faz e refaz através da cumplicidade com as outras artes.
Crítica de João Lopes