Category Archives: Sessões Cineclubistas

23 de Janeiro, 19h: “O Quadrado”

RealizaçãoRuben Östlund

Intérpretes: Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West, Christopher Læssø

SUE/DIN/ALE/FRA, 2017, 142′

Christian é um homem respeitado que trabalha como curador num museu de arte contemporânea. É pai extremoso de duas crianças pequenas, conduz um carro eléctrico e contribui como pode em todas as causas humanitárias. Em suma, é um homem de bem.
Profissionalmente, o projecto que tem agora em mãos é “O Quadrado”, uma instalação peculiar que convida os visitantes a reflectir sobre altruísmo. Para o ajudar na promoção do evento, Christian conta com o departamento de relações públicas do museu. Mas os eventos que se sucedem acabam por lançar Christian numa crise que fará vir ao de cima uma versão menos “politicamente correcta” de si mesmo…
Palma de Ouro na 70.ª edição do Festival de Cannes, uma comédia negra com assinatura do sueco Ruben Östlund (“Força Maior”) e interpretações de Claes Bang, Elisabeth Moss, Dominic West e Terry Notary.
Vencedor de 5 European Film Awards 2017, entre os quais os de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Argumento.

 

A arte e as suas ambivalências

Foi com “O Quadrado” que o sueco Ruben Östlund arrebatou a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2017: uma crónica, entre o sério e o irónico, sobre as nossas relações com a arte e os objectos artísticos.

De que falamos quando falamos de arte contemporânea?… A acreditar no filme “O Quadrado”, falamos de uma grande confusão, tanto no plano individual como institucional. Ou seja: o filme do sueco Ruben Östlund, vencedor da Palma de Ouro de Cannes (no passado mês de Maio) lança uma série de pistas, umas realistas, outras mais ou menos burlescas, para nos confrontar com as ambivalências do nosso mundo mediatizado.

Tudo se passa em torno da personagem do director (Claes Bang) de um museu de Estocolmo que se descobre assombrado pelos mais variados incidentes, desde a carteira que lhe roubam na praça do próprio museu até à conservação de algumas insólitas peças que tem em exposição… Isto sem esquecer a presença insólita, misto de sedução e ameaça, de uma jornalista (Elizabeth Moss) que o quer entrevistar.

Östlund combina tudo isso numa teia a que não podemos deixar de reconhecer agilidade e alguns efeitos desconcertantes. Não parece que o seu filme esteja muito empenhado em “dizer” algo de muito consistente sobre aquilo que coloca em cena (a integração do tema dos refugiados soa mesmo a demagogia fácil). O certo é que, por vezes, em grande parte através dos actores, “O Quadrado” consegue expor a falsidade intrínseca de tantas relações do nosso tempo, supostamente construídas em nome da transparência e do “progresso”.

Certamente não por acaso, em Cannes, o filme foi visto por gente muito respeitável (a começar pelo júri presidido por Pedro Almodóvar) como um sugestivo reflexo de alguns impasses do nosso viver europeu… Talvez. Em todo o caso, nesse território e também na secção competitiva, “Happy End”, de Michael Haneke, distinguiu-se, creio, por outra subtileza e uma bem diferente perturbação — digamos apenas que, para já, não consta das listas dos distribuidores portugueses.

Crítica de João Lopes

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16 de Janeiro, 19h: “Lady Macbeth”

Realização: William Oldroyd

Intérpretes: Florence Pugh, Christopher Fairbank, Cosmo Jarvis, Ian Conningham

GB 2016, 89′  M/12

Inglaterra, 1865. Katherine (Florence Pugh), uma jovem que foi forçada a casar-se com um homem de meia-idade, herdeiro de uma grande fortuna industrial, sente-se confinada à casa rural que ambos partilham, sem grande satisfação na vida, nem sequer atenção do marido. Quando este vai para uma viagem de várias semanas, Katherine começa a libertar-se das amarras opressoras do casamento, que envolvem horários rigorosos e a impossibilidade de sair de casa, e envolve-se com um homem que trabalha na propriedade.

Baseado no romance homónimo do russo Nikolai Leskov, publicada no ano em que a história se desenrola, um drama que marca a estreia na realização de William Oldroyd, que fez carreira como encenador de teatro no Reino Unido. PÚBLICO

 

Lady Macbeth: A imoral da história

O encenador britânico William Oldroyd estreia-se no cinema com Lady MacBeth, um atípico filme de época, com um profundo sentido do drama e da tragédia

Lady Macbeth é o primeiro filme do encenador britânico William Oldroyd. A informação torna-se importante visto que há efetivamente algo de profundamente teatral nesta adaptação do conto Lady Macbeth of Mtsenskde, de Nikolai Leskov, também já passado para a ópera. Sobretudo através do desenho relativamente rígido das personagens e do modo como contracenam. A ação passa-se na Inglaterra rural e senhorial do século XIX. Mas sobressai uma certa ideia de anacronismo, como se as personagens coexistissem em tempos diferentes. Por um lado, há uma rigidez machista, quase medieval, na venda para casamento da rapariga a um rico proprietário, e pela forma como o marido lida com a esposa e como o sogro lida com a nora. Há toda uma brutidão explícita, que vai desde a bizarra relação íntima marido-
-mulher, até à exigente postura pública. Tudo isto faz-nos desejar a libertação de Katherine, transformando-o na máxima e maquiavélica ambição de todo o filme.

Tal acontece fruto do acaso, da oportunidade, com as viagens do marido e do sogro, em que ela se apaixona por Sebastian, um trabalhador negro. Sebastian é uma personagem do século XX. 
No discurso, no arrojo, na ambição. Quando os encontramos juntos avançamos oceanos de tempo, como quem diz que a liberdade e o verdadeiro amor nos tornam atemporais e por isso contemporâneos.

Os dilemas de Lady Macbeth assemelham-
-se, em parte, a O Monte dos Vendavais, mas a sua resolução é diversa e bastante mais pragmática. Ao desejar intensamente a libertação de Katherine, o espectador cai numa armadilha. Porque cedo se apercebe de que não há inocência na sua figura, bem pelo contrário, é a única personagem verdadeiramente perversa no sentido em que passa com demasiada facilidade da circunstância de vítima para a de carrasco. E o público, que tomou partido e foi convicto da ideia de que a violência sobre Katherine é horrenda, e de que é legítimo lutar pela sua libertação e felicidade amorosa, vê-se confrontado com um crescendo dilema moral. É forçado a responder à pergunta: até onde se poderá ir em nome dessa felicidade e dessa libertação? Cada um traçará a sua própria linha.

Com uma magnífica interpretação de Florence Pugh, Lady Macbeth é um atípico filme de época, com um profundo sentido do drama e da tragédia.

Manuel Halpern, in Visão Sete

9 de Janeiro, 19h: “Verão Danado”

Realização: Pedro Cabeleira

Intérpretes: Pedro Marujo, Lia Carvalho, Ana Valentim

POR, 2017, 127′ M/14

Chico (Pedro Marujo) acaba de terminar o curso. Com dificuldade em entrar no mercado de trabalho, ele e alguns amigos próximos passam um Verão em Lisboa, em busca de solução. Um pouco à deriva, Chico acaba por gastar o tempo em festas e noitadas constantes, de que não ficam de fora as drogas, as paixões e algumas desilusões amorosas.
Produzido quase sem orçamento, “Verão Danado” é a primeira longa-metragem de Pedro Cabeleira, um realizador saído da Escola Superior de Teatro e Cinema, que com este filme pretende propor um retrato da geração recém-licenciada à beira de entrar no mundo do trabalho.
O filme recebeu uma menção especial no palmarés da competição Cineasti del Presente (primeiras e segundas obras), no Festival de Cinema de Locarno (Suíça).
Nesta sessão contamos com a presença do realizador, Pedro Cabeleira
Verão Danado de Pedro Cabeleira é uma longa-metragem portuguesa vencedora de uma Menção Honrosa na última edição do Festival Internacional de Cinema de Locarno, e cujo argumento, também da autoria do realizador, relata um período na vida de Chico (Pedro Marujo). Nas suas tardes de lazer, drogas, desencontros amorosos e muita música tendo como palco a cidade de Lisboa, Chico (re)encontra alguns dos rostos do passado e do presente enquanto vive uma aparente descontracção para com o mundo “do outro lado”.
Depois da curta-metragem Estranhamento (2013), Pedro Cabeleira regressa à direcção, agora com uma longa-metragem (a sua primeira), numa história que, não querendo assumir-se como o conto de uma geração, lentamente se assume como um marco da mesma ou, neste caso, um retrato daqueles nascidos na já ida década de ’90. Do passado de “Chico” o espectador pouco conhece. Aliás, nem interessa para lá de um breve vislumbre sobre os seus dias de uma infância já perdida na “terra” que abandonou para vir estudar para Lisboa. Das tardes passadas com os avós que repete anualmente sempre que chega mais um Verão a um certo ambiente de idílica despreocupação vivida e sentida em Lisboa, “Chico” é aquilo que sempre quis ser ou, por outro lado, aquilo que as oportunidades lhe permitiram ser. E é nesta Lisboa que conhece e que agora é também sua que “Chico” se afirma e perde num caminho sem rumo… talvez por não existir… talvez por não ser procurado ou, até mesmo, por já não querer por ele procurar.
“Chico” passa pelos dias numa aparente rotina possibilidade pela ausência de uma qualquer outra. Se uns poucos – talvez afortunados – se podem preocupar com a firmação de um primeiro trabalho pós período estudantil ou até mesmo pensar naquela carreira para a qual dedicaram toda uma vida de estudo, “Chico” parece já ter ultrapassado a fase do envio sem fim de curriculums que em nada se traduzem para lá da desesperança que aumenta a cada dia que passa. Aumenta ao ponto de se tornar irrelevante, indiferente e naquela única certeza que o assola e a tantas como ele. Afinal, num país aparentemente desinteressado daqueles que tentaram um dia contribuir para o seu melhor nível de vida e que foram esquecidos tal como todas aquelas vãs promessas que foram em tempos feitas… de que serve pensar no “estudem que terão um emprego melhor” quando, na realidade, ou já ninguém se lembra de o ter dito? Porque concentrar todo um esforço diário em algo que, inconscientemente, já se compreendeu não (ir) existir?!
Dos jogos de futebol entre amigos aos ocasionais encontros anónimos em que um grupo de (mais ou menos) estranhos se reúne e come como que uma celebração destes tempos anónimos onde a natural interacção entre as pessoas parece cada vez mais fluir desse mesmo anonimato, “Chico” deambula pela cidade, por esses encontros fortuitos e ocasionais que, na realidade, em pouco ou mesmo nada irão resultar. Das relações ocasionais que apenas servem para se sentir vivo e estimular os seus dotes enquanto ser humano ainda vivo àquelas que estabelece apenas como escape para a sua sexualidade de jovem adulto, “Chico” fica tão indiferente ao (seu) mundo como aquela indiferença que já compreendeu dele receber. Afinal, valerá a pena lutar seja pelo que fôr?!
As (suas) amizades tão efémeras e de circunstância como qualquer outra relação que (se) estabelece neste século XXI, fazem de “Chico” e de todos os seus “amigos” que mais não são do que meros conhecidos, estranhos dos quais pouco ou nada se sabe. O espectador compreende, pelas próprias dinâmicas que são estabelecidas entre eles, que todos se conhecem por já se terem cruzado nalgum momento das suas vidas… tenha sido na universidade, numa qualquer relação de momento, num bar, numa discoteca ou mesmo através de amigos de amigos, todos sabem quem são sem, no entanto, saberem como e onde estão na vida. Por vontade, escolha ou mero desinteresse que é, no fundo, transversal a todas as suas actividades, não importa ou interessa saber mais do que o circunstancial… não interessam os laços, as ligações, as amizades ou o conhecimento do “outro”… tudo deixou de interessar para lá daquilo que satisfaz o momento… o instante… e o imediato.
Dos jantares cujo propósito é o “conhecer pessoas” às festas onde dançam ao som da “Canção do Engate” de António Variações como hino e ode à liberdade mais ou menos escolhida de uma geração sem um rumo aparente – e isto não como um julgamento sobre e para com a mesma – “Chico” e “Maria” (Lia Carvalho) seduzem-se, estimulam-se e satisfazem (uma vez mais) os seus ímpetos sexuais e a sua necessidade de, por breves momentos, estar junto a “alguém”… sem consequências, sem esperanças e até mesmo sem um sentimento maior que os transporte para um mesmo caminho num momento que facilmente identificaríamos como aquele de sedução tido entre “Charlotte” e “Bob” de Scarlett Johansson e Bill Murray em Lost in Translation (2003) quando, perdidos numa cidade que lhes era estranha, a ela se tentam adaptar enquanto se (re)conhecem e identificam como seres que esperam voltar a sentir lgo… por alguém… pelo “outro”.
Dos encontros ocasionais aos desencontros confirmados. As personagens passam por Verão Danado de forma fugaz ou sem grande consequência para o argumento ou para a continuidade da história. Todas elas têm a sua importância confirmada mas nenhuma permanece por muito tempo… no fundo como tantas outras relações sentimentais e de amizade que qualquer um de nós (re)conhece na realidade individual de cada um. “Chico” navega por Lisboa numa aparente despreocupação para com o seu futuro… As entrevistas são encaradas como “mais um” momento do qual se sabe pouco sair rentabilizado… para quê preocupar-se com um potencial trabalho quando já se sabe (ou espera) de antemão não ir resultar em nada? Sem grandes objectivos, propósitos ou preocupações, a certa altura apenas importa o social, as festas, os encontros e conhecer pessoas ainda que dali nenhuma delas poderá resultar em algo que possa criar raízes, Formam-se apenas ocasiões que facultam um necessitado alheamento da realidade tal como ela é, deixando apenas ter importância “o momento” que se espera descontraído, descomprometido e desinibido. Nas festas, tal como em todas as demais circunstâncias da (sua) vida ou nas quais marca presença, ele não é aquilo que aparenta ser opondo o que esperava e queria àquilo que tem e “usa” para (sobre)viver num mundo sem qualquer objectivo.
Mas, no fundo, Verão Danado pode ser uma reflexão sobre as aparências, sobre a solidão escolhida ou forçada, sobre a perda de desejos de longo prazo celebrando o imediato… “ninguém é ou não é, aquilo que aparenta ou não ser” como se escuta algures ou, como podemos encontrar na “Canção do Engate” que escutamos, “tu estás livre e eu estou livre” (..) “tu estás só e eu mais só estou” (…) “vem que o amor é o momento em que eu me dou em que te dás” (…) “Tu que buscas companhia, E eu que busco quem quiser”… Uma celebração a essa solidão nem sempre desejada mas que um dia chegou, que se abraçou e confirmou como a opção viável mas que, por breves instantes ao longo desse Verão se pensou como poderia ser quebrada… mas pelo descrédito do “outro” com quem se pensou poder avançar… se remeteu – “Chico” – à mesma indiferença e apatia que reinam nestas relações de circunstância. Tudo (o momento) em Verão Danado se relativiza e esse futuro que há-de chegar é francamente indiferente.
Independentemente de se querer ou não criar uma obra que seja o símbolo de uma geração – e a seu tempo Verão Danado sê-lo-á -, a longa-metragem de Pedro Cabeleira assume-se naturalmente como  tal. Não existe nada de redutor neste “carimbo”. Pelo contrário! Verão Danado está, tal como O Sítio Onde as Raposas Dizem Boa Noite (2014), de Rui Esperança e Uma Rapariga da sua Idade (2015), de Márcio Laranjeira como um desses filmes. A implícita mensagem sobre a perda de objectivos, ou a sua total isenção ou desconhecimento, sobre gerações de jovens perdidos entre sonhos adiados, perdidos ou ainda por descobrir, amores interrompidos, amores nunca confirmados e até uma apatia sentimental e sexual que a todos afasta de uma vida em tempos sonhada confirma-se nestas obras que reflectem um espaço, um tempo e, como já referido, uma geração. Se aqueles que nos 30’s se vêem cada vez mais concentrados na manutenção de um trabalho (quando existe) e distantes de relações sentimentais e afectivas, da parentalidade ou até mesmo da tal casa que sempre se sonhou ter, outros nos 20’s distanciam-se do compromisso, da relação, do trabalho que raramente existe e da busca do sonho que, em muitos casos, nem sequer chegou a existir.
O segredo para a interacção com tudo ao seu redor – de “Chico” como personagem principal – reside na abstracção criada, aliás, pela magnífica direcção de fotografia da jovem Leonor Teles – também responsável pelo já mencionado O Sítio Onde as Raposas Dizem Boa Noite – que opõe personagens que privam no mesmo espaço sem na realidade interagirem directamente. Os corpos estão lá mas as almas vagueiam por essa abstracção que comete o erro ou o desejado, o impensado e até o sentido em segredo e Pedro Marujo com o seu “Chico”, brilhante nesta abstracção pessoal e social, é a involuntária alma de uma história que persiste e insiste em esconder momentos, sentimentos, sonhos, desejos e até banalidades pela celebração do impessoal criando a mentalidade de que se pode estar em qualquer lugar sem que, na realidade, lá se esteja de facto.
Para lá de uma história que parece, ao primeiro e desarmado visionamento, criada para expôr o “nada”, Verão Danado surpreende por contar tanto possibilitando a aproximação e compreensão de um desespero silenciosamente vivido e tido (por alguns) como a única certeza ou conforto que uma vida pode conferir. Num país que arriscasse mais compreender os seus e em que ver cinema falado em português fosse mais do que ver umas quantas comédias sem graça no cinema, Verão Danado seria celebrado como um dos filmes do ano… da década e da tal geração que pretende (ou não) retratar.

Paulo Peralta in CinEuphoria

http://cineuphoria09.blogspot.pt/2017/09/verao-danado-2017.html

27 de Dezembro, 19h: “Top Hat – Chapéu Alto”

Realização: Mark Sandrich

Intérpretes: Edward Everett HortonFred AstaireGinger Rogers

EUA, 1935, 100′ M/12

Um dos momentos maiores do cinema musical e o mais popular do par Astaire-Rogers, onde se destacam os números Isn’t It a Lovely Day? e No Strings. Com os dois e, em especial o espectacular Top Hat, White Tie and Tails, com Astaire e uma legião de “clones”, que é uma perfeita homenagem ao grande bailarino. E a belíssima música de Irving Berlin com onze melodias, entre elas Cheek to Cheek (nomeada para o Óscar) e The Piccolino. Texto: Cinemateca Portuguesa
ENTRADA LIVRE

 

DANÇAR NAS ALTURAS, por Rui Pedro Vieira

O realizador Mark Sandrich dirigiu os bailarinos Fred Astaire e Ginger Rogers numa comédia romântica que é também o palco ideal para alguns dos números musicais mais famosos da década de 30. Com “Chapéu Alto”, o cinema demonstra a elegância de um “pezinho de dança”.

Filho de um imigrante austríaco, Fred Astaire começou por dar nas vistas em espectáculos da Broadway quando era ainda criança. No palco, o seu par era a irmã Adèle. A oportunidade de entrar para o universo do cinema surgiu duas décadas depois, quando a introdução do som permitiu criar o género musical, um dos mais populares nos anos seguintes à Grande Depressão de 1929. Em época de contenção, o espectador queria esquecer a realidade sinuosa e ser testemunha de um universo colorido e movimentado, com cenários luxuosos e uma história que terminava quase sempre em final feliz.

Quando Woody Allen recordou, em “A Rosa Púrpura do Cairo” (1985), este fascínio pela sétima arte em tempos difíceis, mostrando a personagem de Mia Farrow a deslocar-se diariamente ao cinema, o filme que é exibido é, precisamente, “Chapéu Alto/Top Hat” (1935). No ecrã, Fred Astaire e Ginger Rogers suspendem a acção enquanto deslizam ao som da música “Cheek to cheek”. A elegância dos seus movimentos realça o poder ilusório do cinema e esta obra, realizada por Mark Sandrich, tornou-se o maior êxito do estúdio RKO da década de 30 (rendeu mais de três milhões de dólares em todo o mundo).

Por diversas vezes elogiado pelos seus dotes de bailarino, Fred Astaire teve de enfrentar algumas recusas até conseguir um papel de destaque num filme musical. Num teste de representação, ficou famosa a crítica que um executivo dos estúdios da Paramount lhe fez: “Não sabe representar. Não sabe cantar. Vai ficar careca e sabe dançar um bocadinho.” O episódio tornou-se anedota, mas a única resposta perante aqueles que não apostaram na figura esguia de Astaire foi o treino intensivo e uma visão perfeccionista da profissão.

A confirmação do talento e da presença carismática surgiu ao lado de Ginger Rogers, uma estrela de espectáculos que fazia sucesso a solo ou ao lado do primeiro marido, o comediante Jack Pepper. Juntos, Astaire e Rogers protagonizaram dez musicais, dos quais se destacam “A Alegre Divorciada” (1933), “Ritmo Louco” (1936) e “Vamos Dançar?” (1937). Em “Chapéu Alto”, a dupla de bailarinos mais famosa do cinema envolve-se num jogo de falsas identidades que adia o romance inevitável entre as suas personagens.

Disponível para amar

A acção começa num silencioso clube londrino em que se fica a conhecer Jerry Travers (Fred Astaire), um bailarino norte-americano que se desloca a Inglaterra para tentar a sua sorte numa nova produção musical. O seu produtor, Horace Hardwick (Edward Everett Horton), quer manter o segredo em torno do luxuoso espectáculo, mas Travers não perde a oportunidade de revelar os seus dotes de dança, seja para realizar alguns números de sapateado ou cantar o tema “No strings (I’m fancy free)” no quarto de hotel de Hardwick.

Quem parece não achar muita graça ao ruído causado pelas coreografias espontâneas do artista é a desenhadora de moda Dale Tremont (Ginger Rogers), que quer a todo o custo adormecer. Ao confrontar o protagonista com a sua insatisfação, Travers apaixona-se. Assim que Tremont regressa ao seu quarto, o bailarino improvisa uma coreografia suave, num chão recheado de areia, para reproduzir um som de embalar.

Nos dias seguintes, as peripécias sucedem-se, quase sempre acompanhadas de mais um exuberante número musical. Uma sucessão de mal-entendidos levam Tremont a pensar que a personagem interpretada por Fred Astaire é, na verdade, Horace Hardwick, marido de uma amiga sua. O engano força-a a evitar a presença do protagonista, que tenta a todo o custo conquistar a sua atenção.

A história termina no clima romântico de Veneza, mas há ainda espaço para um falso casamento, discussões em catadupa e muito “glamour”. Embora a dança de “Cheek to cheek” seja o ponto alto deste musical, outras canções compostas por Irving Berlin, como “Isn’t this a lovely day (to be caught in the rain)?”, “Top hat, white tie and tails” ou “Piccolino”, servem de banda sonora para coreografias que a elegância de Astaire e Rogers imortalizaram. Neste romance que demora a concretizar-se, ficou ainda para a posteridade o desabafo de Jerry Travers: “Tudo é razoável no amor e na guerra, e isto é uma revolução!”

“Chapéu Alto” foi nomeado para quatro Óscares, incluindo o de melhor filme. O realizador Mark Sandrich recebeu rasgados elogios pelo modo como ajudou a rejuvenescer o género musical e o combinou com o melodrama e a comédia de enganos.

ENTRADA LIVRE

19 de Dezembro, 19h: “Loving Vincent – A Paixão de Van Gogh”

Realização: Dorota KobielaHugh Welchman

Intérpretes: Saoirse Ronan (Voz)Jerome Flynn (Voz)Aidan Turner (Voz)

GB/POL, 2017, 95′  M/12

“A Paixão de Van Gogh” é o primeiro filme do mundo totalmente pintado à mão. Uma investigação à vida e controversa morte de Vincent Van Gogh, contada através das suas pinturas e dos que com ele privaram. Joseph Roulin é o carteiro que Van Gogh pintou e com quem estreitou amizade. Não se convencendo da teoria do suicídio do pintor, envia o seu filho Armand entregar a última carta que o artista havia dirigido ao irmão, Theo. Ainda que resignado, Armand parte em missão. Quando descobre que o irmão tinha morrido pouco depois de Vincent, começa uma série de encontros com as várias personagens que cruzaram a vida do artista antes dele morrer. Quanto mais pessoas ouve, mais a teoria do suicídio lhe parece infundada. A quem poderá ele entregar a carta, quando todos parecem culpados da morte do pintor?

 

Habitando as pinturas de Van Gogh

É mesmo verdade que os recursos digitais estão longe de esgotar o campo da animação cinematográfica: “A Paixão de Van Gogh” é uma inovadora experiência cinematográfica, ou seja, um filme desenhado a partir das telas do próprio pintor

E se os desenhos animados não tiverem de ser executados com as novas técnicas digitais? Mais do que isso: e se os desenhos animados puderem até prescindir das mais tradicionais aguarelas?

O desafio de “A Paixão de Van Gogh” começa, justamente, na exploração dos terrenos alternativos que tais perguntas pressupõem. Nas notas oficiais da respectiva produção diz-se mesmo que estamos perante a primeira longa-metragem de animação totalmente executada através de pinturas.

Que se passa, então? Pois bem, a dupla de realizadores — Dorota Kobiela, polaca, e Hugh Welchman, inglês — dirigiu uma equipa de mais de uma centena de animadores a que, em boa verdade, podemos chamar pintores. O desafio consistiu em fazer um retrato de Vincent van Gogh (1853-1890) a partir de pinturas a óleo tratadas com “frames” de uma animação tradicional. Mais do que isso: aplicando a primitiva técnica da rotoscopia para registar previamente a performance dos actores e, a partir das imagens obtidas, conceber a sua identidade desenhada.

Proeza tecnicista? Delírio formalista? Nada disso. Kobiela e Welchman não estão, de modo algum, à procura de uma banal ostentação dos seus recuros. “A Paixão de Van Gogh” é mesmo um filme que coloca na sua linha de prioridades o levantamento de uma discussão sobre as condições em que terá ocorrido o suicídio do pintor: Van Gogh disparou um revólver contra si próprio, a 27 de Julho de 1890, vindo a falecer dois dias mais tarde, contava 37 anos — será que as condições em que aconteceu a sua agonia estão suficientemente esclarecidas?

Digamos que o filme deixa dúvidas em aberto, de algum modo ampliando a perturbação emocional que atravessa as telas do pintor. Não é um relato biográfico, em sentido estrito, antes a metódica construção de um universal visual directamente inspirado nos quadros de Van Gogh. Daí a singular energia que se desprende de “A Paixão de Van Gogh” — tudo acontece como se o cinema tivesse penetrado nos próprios quadros, habitando o mundo assombrado do pintor. O resultado é uma viagem dramaticamente invulgar, cinematograficamente inovadora.

Crítica de João Lopes

publicado in CineMax, 19 outubro ’17

12 de Dezembro, 19h: “Longe” + “Os Verdes Anos”

RealizaçãoPaulo Rocha

IntérpretesIsabel RuthPaulo RenatoRui GomesRuy Furtado

POR, 1963, 85′

Um rapaz de 19 anos, Júlio, vem para Lisboa a fim de tentar a sua sorte como sapateiro. No dia em que chega a Lisboa, um acidente fá-lo conhecer Ilda, uma rapariga da mesma idade, empregada doméstica num prédio perto do local de trabalho de Júlio. À medida que o filme se desenrola, vai nascendo um romance de amor entre os dois, mais forte da parte de Júlio, que ciumento, sentindo-se numa atmosfera estranha e hostil, desconfia permanentemente de Ilda, facto que a leva a romper o namoro. Num momento de cólera, impulsivo, Júlio acaba por matá-la.

Esta cópia corresponde ao restauro digital de “Os Verdes Anos” feito a partir de uma nova matriz de resolução 2K produzida ainda em vida do Realizador e por iniciativa deste. O material de imagem transcrito foi o negativo de imagem de 35mm, no qual foram enxertados alguns planos que tinham sido cortados por motivo de censura, neste caso obtidos numa cópia de 16mm tirada originalmente por iniciativa do Realizador para divulgação no Japão. A versão final com inclusão destes excertos obedece à montagem da versão que tinha sido restaurada analogicamente no laboratório da Cinemateca Portuguesa em 2006, aprovada pelo Realizador. O som foi restaurado digitalmente tomando como referência a mistura final do negativo de som óptico mas recuperando também bandas magnéticas parciais de som ambiente e música. Prosseguindo a colaboração inicialmente prestada a Paulo Rocha, as várias etapas do restauro tiveram a supervisão do Realizador Pedro Costa, a quem a Cinemateca Portuguesa  – Museu do Cinema manifesta o seu profundo agradecimento.

LONGE de José Oliveira
Portugal, 2016 | 36′ | HD | Cor | Optec Filmes

Com a presença do realizador

Um Homem vai-se aproximando de uma grande cidade pelos acessos mais secretos, áridos, selvagens. Chega e avista a cidade de Lisboa dos altos e por cima dos montes. Lá, de onde saiu há muitos anos, sente-se um estranho. Reconhece e não reconhece a paisagem e o ambiente. Que o atrai e o repele. Procura amigos, conhecidos, lugares, uma filha que lhe chegou por carta tanto tempo passado. Descobre e redescobre um último reduto onde se sente em casa. Mas parte, no fim, parte.

Em “Longe”, José Oliveira criou uma obra admirável na sua aparente simplicidade, sempre tão difícil de alcançar, e que deixa claro que a vontade do realizador para continuar a fazer cinema é imensa. 

O tempo avança, a geografia altera-se, novas tecnologias surgem, mas os temas essenciais da existência são quase sempre os mesmos desde que se começaram a narrar as primeiras histórias em todas as culturas do mundo. Uma boa história não é matéria suficiente para dar um bom filme, outros factores relacionados com o uso linguagem do cinema são mais decisivos, são esses que definem a importância de um filme.

Os primeiros planos de “Longe” definem de imediato a estrutura formal do filme: o rigor dos enquadramentos e os longos planos fixos. A acção desenrola-se dentro do plano e não é a câmara que procura a acção em piruetas ou outros efeitos de encher o olho, mas acompanhando à distância o périplo de um homem, de passado desconhecido, no regresso à grande cidade, a lugares, ao encontro de velhos amigos e de uma filha de quem só tinha conhecimento da existência por carta.
Com uma fotografia e som exemplares, mas sem música decorativa a preencher os vazios, apenas o som da água, do vento, do burburinho da cidade, das vozes ao longe ou dos personagens nas poucas falas. Este regresso a um cinema de narrativa linear clássica, depurado e resistente, estabelece um paralelo com o regresso do protagonista, que não sabemos de onde vem, nem as causas da sua ausência, tal como alguns personagens de antigos filmes.

José é o nome do homem que vem de longe. Dos canaviais junto às margens de um rio, apresenta-se de corpo inteiro, como um solitário fordiano que atravessa lentamente um território que já foi o seu em tempos idos.
Durante o caminho, transportando uma mala quase vazia e umas flores na mão, decide fazer uma pausa junto a uma linha de comboios, acenando qual Buster Keaton, quando velozmente passam. Nesta sequência, também se evoca Chaplin num ritual, não de um vagabundo, mas de um digno vencido da vida, quando da mala retira uma toalha onde pousa as flores e da carteira uma fotografia para lhe fazer companhia.

Avança da periferia com destino ao centro da grande cidade, observando com espanto as mudanças desses lugares, como uma zona industrial abandonada e um antigo bairro, onde pergunta a um dos habitantes se vivia ali há muito tempo e obtém como resposta “há tanto tempo que já não me lembro”. À porta de uma casa em ruínas avista a grande cidade ao longe. Já em Lisboa, acelera o passo e os planos são mais curtos, estamos ao ritmo do frenesim citadino. Numa associação recreativa, encontra um velho amigo e na sombra de uma esplanada, diz-lhe “cada minhoto, cada maroto”, esta frase indica uma suposta origem. Acompanham a conversa com uns copos de vinho, num dos poucos diálogos do filme sobre as recordações da juventude, da alegria dos bailes, do encantamento pela vida, do Benfica, e de tudo o que foram os outrora tempos de felicidade. “Como é que um velho com esta idade tem o cabelo todo e tu, uma criança já tás careca com os desgostos da vida…” José depois de ouvir esta frase, levanta-se para “ir mudar a água às azeitonas”, e num magnífico grande plano canta ao espelho uma canção popular do Cante Alentejano que termina com a quadra (também atribuída a António Aleixo), “Se a morte fosse interesseira/ Ai de nós o que seria/ O rico comprava a morte/ Só o pobre é que morria”. Num plano de uma força emotiva de estremecer, o rosto de José reflectido no espelho transmite toda a sua dor e desconsolo de um homem de coração cansado. Este momento deve tudo ao actor José Lopes, há muito tempo que não se via um olhar tão fundo e voz tão sofridos.

O homem que regressa de longe vai passar a noite sozinho, de novo junto ao rio, talvez seja aí que encontre a paz. No dia seguinte, à porta da instituição que recolheu a filha, consegue num quase silêncio envergonhado, perante a senhora que o atende a morada da filha. Emocionado e agradecido diz “…se a vir acho que a reconheço, nunca a vi, nunca peguei nela”.
A noite chega e dirige-se a um café de Bairro, ao balcão vemos uma mulher só, a quem oferece um cigarro, alguns poucos clientes nas mesas, não fala com ninguém, coloca na music box um velho tango, senta-se e escuta deliciado, enquanto fuma, tudo filmado num único longo plano de conjunto, que nos remete para uma cena de café de um filme de Aki Kaurismaki.
Chegamos ao penúltimo e longo plano do filme. José está em frente à casa da filha, vê-se luz numa janela, hesita, mas decide-se, toca à porta e entra. A acção desenrola-se no interior da casa, a câmara encontra-se no exterior, através da janela iluminada assistimos ao encontro entre o pai e a filha.
Neste exacto momento o plano sofre um corte abrupto e passamos de uma plano afastado sobre a casa para um plano de pormenor sobre a janela. Este corte é de alguma forma invasivo, porém simbólico, porque alude ao corte que provocou uma longa separação.
Talvez com outros meios financeiros um longo e lento travelling de aproximação à janela seria uma outra opção do reencontro, até ao abraço de despedida entre os dois.

No crepúsculo urbano, filmado no derradeiro e belíssimo longo plano, José continua o seu caminho solitário, que nos lembra outro crepuscular plano final, este, de um mundo rural, o do actor José Viana a subir uma ladeira no filme de 1993 de João Mário Grilo, “O Fim do Mundo”.
Ambos, filmes e planos inesquecíveis da solidão que se afasta para longe até ao fim do mundo.

Chegados ao fim do filme ficamos com uma certeza, que a vontade de José Oliveira para fazer cinema é imensa. Esperemos que de longe ou de perto venham os apoios que o cineasta precisa para continuar o seu caminho a fazer filmes. Daniel Curval, in https://unraccord.blogspot.pt/

“Longe” esteve presente nos seguintes festivais:
– Encontros de Cinema do Fundão, Portugal
– Festival de Cinema de Locarno. Fuori Concurso, Suíça
– BH International Film Festival, Brasil
– Festival Caminhos do Cinema Português, Coimbra

Contamos com a presença do realizador.

5 de Dezembro, 19h: “A Viagem a Itália”

Realização: Michael Winterbottom

IntérpretesSteve CooganRob BrydonRosie Fellner

GB, 2014, 108′  M/12

Cansado das responsabilidades que a paternidade pressupõe, Rob anseia por um momento de paz e sossego, de preferência longe da família. Steve, por seu lado, tem levado uma vida de trabalho árduo em Los Angeles, sem qualquer disponibilidade para si próprio. Quando o jornal “The Observer” lhes pede que vão a Itália fazer mais uma série de críticas gastronómicas, os dois encontram aí a oportunidade por que esperavam para uns momentos descontraídos, com o prazer da gastronomia aliado ao da companhia um do outro. Com isto em mente, seguem viagem de carro por Itália, percorrendo Ligúria, Toscana, Roma, Amalfi e Capri, onde terão de parar para um repasto especial nos mais interessantes restaurantes das respectivas cidades. No percurso, partilham não apenas as suas conquistas mas também as suas inseguranças mais profundas perante o inevitável envelhecimento.
Com realização de Michael Winterbottom (“24 Hour Party People”, “Um Coração Poderoso”, “O Império do Amor”), um “road movie” gastronómico que continua as aventuras que a dupla de actores Steve Coogan e Rob Brydon (transformados numa espécie de caricatura de si próprios) iniciaram em 2010 na aclamada série da BBC “A Viagem”, também da autoria de Winterbottom. PÚBLICO

A Itália, revista por ingleses.

Será um dado muitas vezes esquecido, mas os seus sinais são evidentes: a produção inglesa é das mais ágeis, mais ricas e mais diversificadas nas relações cinema/televisão. Mais do que isso: essas suas qualidades podem (ou poderiam) servir de padrão de reflexão para muitos países europeus com problemas mais ou menos antigos de estabilização da sua produção audiovisual.

“A Viagem a Itália”, de Michael Winterbottom, aí está como mais um exemplo desse dinamismo. Aquilo que começou por ser uma série da BBC, “The Trip” (2010), com Steve Coogan e Rob Brydon, transformou-se em filme: era a história de dois amigos que viajavam pelo norte de Inglaterra, recolhendo informações para que um deles pudesse escrever uma série de artigos sobre restaurantes, para o jornal “The Observer”. Agora, surge este “The Trip to Italy”, projecto montado de acordo com a mesma lógica (a descoberta da gastronomia italiana é o novo tema jornalístico), prolongando o mesmo ambiente de irónico on the road.
Há que dizer que os resultados, simpáticos e irónicos, são menos interessantes que os pressupostos. Dir-se-ia que o filme favorece um certo narcisismo dos actores, muito talentosos, sem dúvida, mas de algum modo atravessando o filme como uma hipótese de exibição dos seus dotes de improvisação (e também de imitação das vozes de algumas figuras muito conhecidas). Seja como for, sublinhe-se o exemplo: um cinema que nasce da televisão, sem que isso implique qualquer cedência à miséria humana da “reality TV” ou às regras das novelas.
Crítica de João Lopes