23 de Julho, 19h: “Os Olhos de Orson Welles”

Realização:Mark Cousins

Documentário

GB, 2018, 115′  M/12

Ao ter acesso exclusivo a centenas de desenhos e pinturas de Orson Welles, o cineasta Mark Cousins mergulha no trabalho visual do actor e realizador mítico para revelar o retrato de um artista como nunca o tínhamos visto – através do seu próprio olhar, desenhado com a sua própria mão, pintado com os seus pincéis. Dá vida às paixões e ao poder deste showman do século XX e explora a forma como o génio de Welles continua hoje a ressoar na época de Trump, mais de 30 anos depois da sua morte.

 

Na companhia de um cinéfilo

O crítico de cinema irlandês Mark Cousins volta a convocar-nos para uma fascinante viagem cinematográfica: em “Os Olhos de Orson Welles”, tudo passa pelos desenhos e pinturas do autor de “O Mundo a Seus Pés”.

A história do cinema não é, nem de longe nem de perto, um inventário de “filmes” e “autores” que se leia como a ilustração de uma qualquer lógica determinista. O crítico de cinema irlandês Mark Cousins já o tinha demonstrado com a sua notável obra documental “História do Cinema: Uma Odisseia”, um monumento de meticulosa investigação ao longo de 15 horas de duração (disponível no mercado do DVD).

Dir-se-ia que, através de “Os Olhos de Orson Welles”, Cousins acrescenta um capítulo à sua história, confirmando que os seus sentidos (históricos, precisamente) não são um fim em si mesmo, antes se confundem com uma questão sempre em aberto. Dito de outro modo: através da cumplicidade da filha do cineasta, Beatrice Welles, Cousins acedeu a um imenso espólio de desenhos e pinturas que nos leva a descobrir um “novo” Welles.
Em boa verdade, tais desenhos e pinturas surgem como pontuações, ora didácticas, ora irónicas, descritivas e analíticas, daquilo que Welles ia vendo ou imaginando. Muitas das obras têm, como é óbvio, uma relação directa com os filmes, em particular com os “shakespeareanos”, com destaque para “As Badaladas da Meia-Noite” (1965), antecipando guarda-roupa ou cenários — mas há sempre nelas uma visão suplementar que, de alguma maneira, nos permite aceder ao Welles visionário.
“Os Olhos de Orson Welles” consegue, em última instância, ensinar-nos a compreender que qualquer história dos elementos cinematográficos se escreve sempre para lá da especificidade desses elementos. Em tempos de aceleração do marketing dos filmes e apagamento de muitas memórias cinematográficas, Cousins é um bom companheiro cinéfilo.
Crítica de João Lopes
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16 de Julho, 19h: “As Herdeiras”

Realização:Marcelo Martinessi

Intérpretes: Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova

ALE/FRA/BRA/Paraguai, 2018, 98′  M/12

Ambas descendentes de famílias com dinheiro de Asunción, no Paraguai, Chela e Chiquita mantêm uma relação há 30 anos. A fortuna de família, contudo, vai-se dissipando, e vêem-se obrigadas a vender parte das suas posses. Chiquita é entretanto condenada por fraude, o que deixa Chela, que é mais introvertida do que a parceira, sozinha pela primeira vez em décadas e a obriga a começar um serviço de transporte de senhoras mais velhas com dinheiro. Ao mesmo tempo, conhece também uma mulher mais nova, que lhe dá uma nova perspectiva sobre a vida.
Um filme de Marcelo Martinessi, que até agora tinha uma carreira feita de documentários e curtas-metragens, e que valeu a Ana Brun, a actriz principal, um Urso de Prata de Melhor Actriz na Berlinale de 2018 (um dos três prémios que o filme ganhou no festival). PÚBLICO

 

 

Há filmes assim, com um encanto sereno, a correr o risco de passar despercebidos. As Herdeiras, um tocante registo no feminino, não merece esse crivo. Quanto mais não seja pela oportunidade que nos dá de tomar conhecimento com raridade do cinema do Paraguai. Apresentado no festival de Berlim, mas de 2018, portanto há mais de um ano, As Herdeiras logo nos despertou a atenção pela sua especificidade cultural, a primeira longa metragem do realizador Marcelo Martinessi, por sinal vencedor da curta documental na secção Horizontes, do festival de Veneza, de 2016. Chega finalmente às nossas salas, graças à coragem e iniciativa de uma pequena distribuidora, a Nitrato, de Américo Santos, com um trabalho de teimosia e qualidade evidenciado no cinema Trindade, no Porto, mas também com os ecos possíveis em Lisboa.

Um ano depois revemos o filme, e o texto produzido durante a Berlinale em que conquistou o prémio Fipresci, da crítica internacional, para além da interpretação feminina para a estreante Ana Brun e ainda o galardão Alfred Bauer, pela contribuição artística por “abrir novas perspetivas da arte cinematográfica”.

Um ano depois, desgravamos também a intensa entrevista que fizemos a Martinessi  e que nos atualiza sobre a realidade daquele país do interior da América Latina. Em particular, o esclerosamento de classes sociais atrofiado pelos 35 anos de chumbo da ditadura de Alfredo Stroessner, de certa forma retomada pelo atual Horacio Cartes, a quem Martinessi não tem pudor a apelidar de “traficante de droga”. Na verdade, no filme são até relatados casos que rimam com as recentes decisões do nosso juíz Neto de Moura. Por tudo isto, mas não só por isto, vale a pena não deixar de ver As Herdeiras.

O filme acompanha a deriva de auscultação da realidade patriarcal do seu país, num filme integralmente defendido por mulheres, e em que os escassos homens recebem apenas a condição de meros figurantes. A história assenta em duas amigas que obviamente tiveram uma longa vida em comum, embora Martinessi não se sente forçado a explicar a sua relação, tal como várias outras coisas no filme, deixando esses espaços em branco para o espetador refletir e eventualmente preencher.

Chela (a estreante Ana Brun) e Chiquita (atriz com larga experiência no teatro) são duas sexagenárias que perceberam que a vida desafogada do passado terá de passar a ser enquadrada por uma nova realidade e um novo suporte financeiro. Ao serem forçadas a sair de casa, percebem também uma nova realidade. Chela acaba por utilizar o seu carro para transportar amigas e conhecidas acabando por ter aí alguma compensação financeira. Ao passo que Chiquita, incapaz de pagar as suas dúvidas e forçada a conhecer a realidade de uma prisão para mulheres. No fundo, Chela sai de casa e Chiquita entra para outra realidade, mas onde acaba por ser também a ‘rainha’ que era em casa.

Martinessi ausculta de forma peculiar a pulsação da realidade feminina, caracterizada pelo seu fechamento – Martinessi sugere mesmo uma “idade das trevas” – propondo estas novas possibilidades, ainda que não abdicando de um cinema que mantém esse lado fechado. Talvez por isso, a primeira imagem do filme seja uma câmara furtiva, como que a espreitar o que se passa, com algum pudor, numa porta entreaberta, como se tivesse medo de sair da escuridão. Mas é precisamente essa escuridão que absorve a condição social no seu país e que nos é descrito de uma forma muito subtil, sem necessitar de fazer passar o peso da mensagem de eternizada e vincada sociedade. Foi uma bela surpresa de um cineasta que confirma o que de melhor se esperava.

(artigo originalmente escrito durante o festival de Berlim 2018, onde o filme passou em competição. Agora revisto e acrescantado)

Paulo Portugal, in Insider.pt

2 de Julho, 19h: “A Casa Junto ao Mar”

Realização: Robert Guédiguian

Intérpretes: Ariane Ascaride, Jean-Pierre Darroussin, Gérard Meylan, Jacques Boudet, Anaïs Demoustier, Robinson Stévenin, Yann Trégouët, Geneviève Mnich, Fred Ulysse, Dioucounda Koma

FRA, 2017, 107′  M/12

Numa pequena baía perto de Marselha fica uma pitoresca “villa” detida por um velho senhor. Os seus três filhos juntam-se na aldeia para os últimos dias do pai: Angela, uma actriz a viver em Paris, Joseph que se apaixonou por uma mulher com metade da sua idade e Armand o único que nunca saiu de Marselha e que gere o pequeno restaurante da família. É tempo de aferir o que cada um herdou dos ideais do pai e do espírito de comunidade que o mesmo criou neste lugar mágico. A chegada de um grupo de refugiados ao largo irá transformar estes momentos de reflexão num turbilhão de emoções.

 

«La Villa» (A Casa Junto ao Mar) por Jorge Pereira

http://www.c7nema.net/critica/item/49261-la-villa-a-casa-junto-ao-mar-por-jorge-pereira.html

Há três elementos destacáveis na cinematografia de Robert Guédiguian: as suas personagens mostram sempre as suas convicções e exalam as suas ideias de forma afincada, mas sempre com naturalidade, introspecção e um sentido intelectual no debate; a sua postura e ideais de “esquerda” frequentemente levam-no a um cinema denso com temas sociais abordados e organizados por camadas (mesmo nas incursões históricas de época), sempre com um grande sentimento, familiaridade e humanismo, provavelmente fruto de inspiração biográfica, já que é filho da “classe trabalhadora”; ao recorrer tantas vezes aos seus atores fetiche – Ariane Ascaride e Jean-Pierre Darroussin. – cria uma forte consistência na sua obra e verdadeiras marcas de autor..

Neste A Casa Junto ao Mar, Guéguidan leva-nos novamente às suas raízes ao mostrar a região das calanques de Marselha, onde após um velho homem ter um enfarte, é visitado pelos familiares. De um lado temos a filha, Angèle (Ariane Ascaride), uma atriz que após a morte da sua própria filha há 20 anos – quando ela estava ao cuidado do seu pai – levou ao seu distanciamento. Do outro temos Joseph (Jean-Pierre Darroussin), um homem que surge com a namorada muito mais nova, Béràngere (Anaïs Demoustier). Há ainda um outro filho, que nunca abandonou a região que outrora estava sempre cheia de vida e que agora se transformou num pouso turístico sazonal, onde apenas alguns ainda vão, tendo uma vida na pesca, ou então em pequenos estabelecimentos.

Este é um filme sobre o sarar de feridas, não só familiares, mas sociais, de laços de amizade e até de relacionamentos amorosos tardios, tudo marinado sobre uma grande dose de nostalgia sem esquematismos, sendo pelo meio debatidos temas como a desertificação humana, a pressão turística sobre os habitantes que restam, a pressão dos bancos, o racismo, a xenofobia e derradeiramente até mesmo questões contemporâneas que assolam a Europa. E Guéguidan faz tudo isso de forma apaixonante e introspetiva, com uma boa dose de cabeça e coração, não se quedando na superficialidade dos temas, embora nunca os explore exaustivamente.

O resultado final é um filme aparentemente simples, de revisitar o passado e repensar o futuro, mas existe uma complexidade em cada personagem, nos temas e na própria localidade (que o realizador diz que lhe lembra um palco teatral) que gera um apaixonante e esperançoso drama de reflexão.

 

 

 

Cinema ao Ar Livre 2019 – Programação

À semelhança dos últimos anos, o Cineclube de Tomar vai realizar sessões de Cinema ao Ar Livre nas Piscinas Vasco Jacob (ao lado do ex-Parque de Campismo), nas noites das 4ªs feiras de Julho e Agosto (21.30h), a partir do dia 17 de Julho.

A programação será a seguinte:

17/07 – Green Book, de Peter Farrelly

24/07 – Ladrão de Casaca, de Alfred Hitchcock

31/07 – O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford

7/08 – Reviver o Passado em Montauk, de Volker Schlöndorff

14/08 – Conversa de Travesseiro, de Michael Gordon

21/08 – A Queda do Império Americano, de Denys Arcand

29/08 – O Rei dos Gazeteiros, de John Hughes

Crianças e Sócios – 1 €

Adultos – 2€

A última sessão será de ENTRADA LIVRE.

 

25 de Junho, 19h: “A Portuguesa”

Realização: Rita Azevedo Gomes

Intérpretes: Ingrid Caven, Pierre Léon, Rita Durão, João Vicente, Luís Lucas, Marcelo Urgeghe, Mauro Soares, Clara Riedenstein

POR, 2018, 136′  M/12

Durante a disputa dos von Ketten pelo domínio do Principado Episcopal de Trento, no norte de Itália, o senhor von Ketten viaja até Portugal para encontrar uma esposa. Depois de realizado o casamento, o jovem casal regressa a Itália. Pouco depois, von Ketten é obrigado a partir para a guerra. Onze anos decorrem, entre contendas e escaramuças, com raros encontros entre os amantes. Até ao dia em que o Bispo de Trento morre. A partir desse momento, tudo se altera…
Estreado no Festival de Mar del Plata (Argentina) e apresentado na Berlinale (Alemanha), um filme histórico realizado por Rita Azevedo Gomes (“A Vingança de uma Mulher” e “Correspondências”) que adapta um conto do escritor austríaco Robert Musil (também autor de “O Homem sem Qualidades”). Em Março venceu o Festival Internacional de Cinema de Las Palmas.
Com diálogos da romancista Agustina Bessa-Luís, fotografia de Acácio de Almeida e música original de José Mário Branco, tem no elenco Clara Riedenstein, Marcello Urgeghe, Ingrid Caven, Rita Durão, João Vicente e muitos outros. PÚBLICO

 

História, símbolos e poesia

Com o filme “A Portuguesa”, a realizadora Rita Azevedo Gomes convoca-nos para o reencontro com uma tradição cinematográfica marcada pelo gosto da memória histórica. Ponto importante: as imagens assinadas por Acácio de Almeida.

Face a um filme como “A Portuguesa”, podemos perguntar como é possível “reconstituir” as atribulações de uma dama portuguesa (Clara Riedenstein) no século XVI, no norte de Itália, aguardando o regresso do seu marido (Marcello Urgeghe), um nobre de ascendência germânica que partiu para a guerra?

Valerá a pena começar por lembrar o óbvio. Que é também sempre o mais esquecido. A saber: nunca há “reconstituição” do que quer que seja — filmar é criar uma narrativa presente e para o presente. Eis algumas esclarecedoras palavras da realizadora, Rita Azevedo Gomes:

“(…) tudo o que se passa entre a Portuguesa e o marido (Von Ketten) assenta no não-dito. Ninguém sabe ao certo se realmente existiram ou não. Não é a veracidade disso que importa. Esta história, num determinado período da História, rente ao Principado Episcopal de Trento, liga-nos a uma série de factos que reflectem o tempo actual, partindo do princípio de que os nossos antepassados não eram diferentes, apenas estavam num lugar diferente. Não é tão difícil fazer do homem gótico ou do grego antigo o homem da civilização moderna.”

Redescobrimos, assim, as virtudes de um cinema que se enraiza nas memórias históricas para se ramificar num exercício de encenação e reflexão em que os ecos de tais memórias surgem contaminados por elementos de natureza simbólica e poética. Nesta perspectiva, talvez possamos inscrever “A Portuguesa” (adaptado de uma novela de Robert Musil) numa tradição cinematográfica em que podemos encontrar as referências emblemáticas de Manoel de Oliveira, Jacques Rivette ou Ermanno Olmi.

Sustentado por uma produção de recursos minimalistas, mas muito consistente, “A Portuguesa” distingue-se por um magnífico trabalho de direcção fotográfica, da responsabilidade de Acácio de Almeida. Ele é, afinal, um dos nomes centrais da história da fotografia no cinema português, com uma vasta filmografia que inclui títulos tão especiais como “O Passado e o Presente” (Manoel de Oliveira, 1972), “Brandos Costumes” (Alberto Seixas Santos, 1975) ou “A Cidade Branca” (Alain Tanner, 1983).

Crítica de João Lopes

COM A PRESENÇA DA REALIZADORA

18 de Junho, 19h: “Mais Um Dia de Vida”

Realização: Raúl de la Fuente, Damian Nenow

Vozes: Mirosław Haniszewski, Vergil J. Smith, Tomasz Ziętek, Olga Bołądź, Rafał Fudalej, Kerry Shale, Daniel Flynn, Youssef Kerkour, Lillie Flynn, Akie Kotabe

ESP/ALE/HUN/POL/BEL, 2018, 85 ‘  M/12

Um filme de animação assinado por Raúl de la Fuente e Damian Nenow, que adapta o livro homónimo do polaco Ryszard Kapuscinski (1932 – 2007), o famoso repórter de guerra que passou três meses a observar a Guerra Civil de Angola e publicou o seu relato em 1976. Depois de mais de cinco anos de rodagem, “Mais Um Dia de Vida” fez parte da selecção oficial do Festival de Cinema de Cannes. PÚBLICO

 

O jornalismo revisto em desenho animado

O trabalho de reportagem de Ryszard Kapuscinski na guerra civil de Angola é um clássica da literatura jornalística — agora, está na base de um filme de animação (incluindo alguns materiais de arquivo) assinado por Raúl de la Funete e Damian Nenow.

O livro “Mais um Dia de Vida”, do polaco Ryszard Kapuscinski (1932-2007), é muitas vezes encarado como um clássico ambíguo do jornalismo. Porquê ambíguo? Em primeiro lugar, porque, ao relatar as convulsões da guerra civil em Angola, corria o ano de 1975, Kapuscinski não prescinde de uma visão crítica dos acontecimentos; depois, porque o seu labor como repórter há muito foi reconhecido como um feito igualmente (e invulgarmente) literário.

Quando descobrimos o filme “Mais um Dia de Vida”, que Raúl de La Fuente e Damian Nenow realizaram a partir desse livro, não podemos deixar de pensar na sua dificuldade intrínseca. Trata-se, de facto, de evocar a experiência de Kapuscinski através de algumas entrevistas e materiais de arquivo mas, sobretudo, encenando tal experiência em… desenhos animados.

Interessante paradoxo, sem dúvida: por um lado, este é um objecto que tenta fazer passar uma sensação de realismo; por outro lado, o artifício inerente às técnicas de animação parece contrariar, desde o princípio, a própria consistência dramática do filme.

Nada de novo, afinal: em 2008, Ari Folman realizou “A Valsa com Bashir”, um belo “documentário” sobre a Guerra do Líbano, todo ele com imagens de animação… É pena que “Mais um Dia de Vida” pareça não acreditar nas suas próprias potencialidades, a ponto de ir pontuando a odisseia de Kapuscinski com muitas derivações “simbólicas”, mais ou menos esquemáticas e redutoras (p. ex.: o corpo do jornalista a vogar no espaço com algumas balas ou explosões em movimento).

Resta dizer que a banalidade técnica dos desenhos e movimentos também não ajuda… Fica, em qualquer caso, a expressão dessa vontade de lidar com a complexidade de uma determinada situação histórica — e, em particular, de um destino individual — através de uma linguagem que resiste ao determinismo simplista que, tantas vezes, marca o universo informativo.

Crítica de João Lopes

11 de Junho, 19h: “3 Rostos”

Realização: Jafar Panahi

Intérpretes: Behnaz Jafari, Jafar Panahi, Marziyeh Rezaei

Irão, 2018, 100′  M/14

Behnaz Jafari, uma actriz iraniana muito popular, recebe um vídeo da jovem Marziyeh, a quem a família proibiu de estudar. O seu maior desejo é entrar no Conservatório de Teatro de Teerão e acha que, uma vez que a família gosta muito dos filmes da actriz, talvez ela os consiga convencer a deixá-la prosseguir os estudos. Comovida por essa história, Jafari contacta o realizador Jafar Panahi, seu amigo. Cúmplices, os dois seguem viagem até à aldeia de Marziyeh. No percurso, vão conhecer vários habitantes daquele lugar remoto, onde a generosidade das gentes se mistura com preconceitos e tradições profundamente enraizados.
Em competição pela Palma de Ouro no Festival de Cinema de Cannes – onde recebeu o prémio de melhor argumento –, um drama em estilo “road movie” que conta com assinatura do aclamado realizador iraniano Jafar Panahi (“Fora-de-Jogo”, “Isto Não É Um Filme”, “Táxi”). PÚBLICO

 

3 Rostos: Jafar Panahi mais três mulheres no Irão remoto

Crítica de Eurico de Barros

Em 2010, Jafar Panahi foi preso juntamente com a mulher, a filha e mais um grupo de amigos e acusado de fazer propaganda contra o governo do Irão e a república islâmica. O realizador de “O Círculo” e “Sangue e Ouro” viu-se condenado a seis anos de cadeia (depois convertidos em prisão domiciliária) e proibido de fazer filmes durante 20 anos (cada um que fizer sem autorização, são mais seis anos de detenção), de escrever argumentos, de dar entrevistas à comunicação social iraniana e internacional e de deixar o país, menos se for para fazer tratamentos médicos ou ir em peregrinação a Meca (Panahi disse recentemente que pode sair do Irão, mas que não o faz por saber que não o deixarão voltar).

O seu compatriota e autor, historiador e professor Hamid Dabashi escreveu: “Panahi não faz o que lhe dizem. Na verdade, ele construiu uma carreira de sucesso a não fazer o que lhe dizem.” E insiste. Apesar da proibição, e porque as autoridades iranianas fazem vista grossa, são manifestamente incompetentes ou sabem do enorme prestígio internacional de que goza o realizador e abstém-se de mais represálias, Jafar Panahi, aproveitando também a portabilidade das câmaras digitais, já fez quatro filmes desde que foi condenado, quer dentro, quer fora de portas: “Isto não é um Filme” (2011), “Closed Curtain” (2013), “Táxi” (2015) e agora “3 Rostos”, todos exibidos e premiados em grandes festivais internacionais, e distribuídos comercialmente por todo o mundo.

Em “3 Rostos”, Panahi volta a pegar num volante, já não de um táxi como no filme anterior, mas sim de um jipe todo-o-terreno. Leva companhia, a grande atriz iraniana Behnaz Jafari, e vão ambos numa viagem claramente reminiscente das que fazem os protagonistas de alguns dos filmes de Abbas Kiarostami, de quem o realizador foi assistente e discípulo. Jafari recebeu um vídeo feito num telemóvel em que Marziyeh (Rezaei Marziyeh), uma jovem aspirante a atriz que vive numa remota aldeia junto à fronteira com o Azerbaijão, diz que a família não a deixa seguir o seu sonho e parece suicidar-se por enforcamento numa caverna. Preocupadíssima, Jafari arrebanhou Panahi para a conduzir até lá e averiguar da veracidade do vídeo e saber se a rapariga é morta ou viva.

Uma vez chegados, realizador e atriz começam a investigar, vivem algumas peripécias cómicas, insólitas e dramáticas, e conhecem quer a hospitalidade e generosidade dos locais, quer a forma como tradições e costumes ancestrais continuam profundamente enraizados no Irão rural, e constrangem aqueles que têm aspirações que fogem à norma e ao que é esperado deles. Em “3 Rostos”, Jafar Panahi continua a documentar os problemas e os males da sociedade iraniana (que aqui vão das queixas e carências dos habitantes da aldeia até à situação das mulheres), ao mesmo tempo que filma três mulheres, duas atrizes e outra que quer sê-lo, pertencentes a gerações diferentes, cada uma correspondendo a uma época específica da história recente do Irão, e do próprio cinema iraniano, passado, presente e futuro.
Temos Behnaz Jafari, a vedeta da atualidade, que é recebida com aplausos e pedidos de autógrafos e “selfies” mesmo naquele sítio recôndito; temos a velha atriz dos tempos pré-revolucionários, uma estrela da época do Xá, presença enigmática que o realizador só filma à distância e de costas, e que ali se foi refugiar para pintar; e temos a jovem Marziyeh, que deseja ardentemente sair dali e ser atriz em Teerão apesar dos obstáculos que lhe são postos (paradoxalmente, o Irão tem um “star system” e Behnaz Jafari é acolhida de forma entusiástica na aldeia, mas a filha da terra é chamada de “saltimbanca” por querer ir para o Conservatório, e o irmão reage como se ela tivesse anunciado que se ia prostituir para a capital), e a quem Panahi deixa uma réstia de esperança no plano final (o que lhe custa um para-brisas estilhaçado).
E há ainda, “last but not least”, o próprio Jafar Panahi, que volta aqui a pôr-se em cena e a esbater a linha entre realidade e ficção, num filme onde, mais uma vez, à intolerância que sobre ele pesa e às condições também elas constrangedoras da rodagem, contrapõe o seu conciso virtuosismo cinematográfico e impõe a coragem, a generosidade e o humanismo do seu olhar.