12 de Fevereiro, 19h: “Raiva”

Realização: Sérgio Tréfaut

Intérpretes: Hugo Bentes, Sergi López, Catarina Wallenstein, Adriano Luz, Rogério Samora, Leonor Silveira, Isabel Ruth, Luís Miguel Cintra, Herman José

Alentejo, 1950. Nos campos desertos do sul de Portugal, fustigados pelo vento e pela fome, a violência explode, subitamente. Vários assassinatos a sangue frio têm lugar numa só noite. Porquê? Qual a origem dos crimes?

Adaptação de “Seara de Vento”, de Manuel da Fonseca, um clássico da literatura portuguesa do século XX.

POR/BRA/FRA, 2018, 84′  M/18

Alentejo, 1950. Nos campos desertos do sul de Portugal, fustigados pelo vento e pela fome, a violência explode, subitamente. Vários assassinatos a sangue frio têm lugar numa só noite. Porquê? Qual a origem dos crimes?

Adaptação de “Seara de Vento”, de Manuel da Fonseca, um clássico da literatura portuguesa do século XX.

 

“Raiva” de Sérgio Tréfaut é uma tragédia alentejana com origens históricas e uma mensagem de revolta social que ainda é relevante nos dias de hoje. Infelizmente, é bem capaz de ser uma mensagem que será sempre relevante enquanto a humanidade existir.

“Raiva”, a segunda aventura de Sérgio Tréfaut pela ficção numa carreira dominada pelo documentário, começa com uma das grandes sequências do ano. Trata-se de um prólogo sanguinário em que testemunhamos dois assassinatos na calada da noite. Quem morre é um grande senhor das terras alentejanas e seu filho. Assim é feito pela mão de um camponês cujo fado está traçado desde o momento em que prime o gatilho. Com fogo e tiros a rasgar a penumbra, monta-se um cerco, incendeia-se uma casa e o assassino encontra o seu fim. Depois disto, a narrativa circular do filme vai perscrutar tudo o que levou aos eventos dessa noite, que só por si representa uma história simples, quase folclórica, de retribuição e justiça violenta.
A economia e precisão formal que Trefáut traz a estes momentos evoca o classicismo cinematográfico de outros tempos e géneros, sendo uma sinfonia cinematográfica sem uma nota fora de sítio, perdida ou desperdiçada. É fácil imaginar que, se John Ford se tivesse aventurado pelas paisagens alentejanos ao invés do Monument Valley, os efeitos seriam algo semelhantes a esta abertura de “Raiva”. Certamente a fotografia de Acácio de Almeida transpira virtuosismo clássico na sua pintura do Alentejo em gradações cortantes de cinza, branco e preto. Quando se acrescenta a tal estética a severidade prototeatral da mise-en-scène do cineasta português, temos um cocktail estilístico que nos pode inicialmente lembrar Ford, mas deixa na língua o sabor de Bresson.
Tais comparações têm os seus limites, mas ajudam a aludir à atmosfera bem particular que Tréfaut e companhia conjuraram para esta tragédia alentejana. O filme é uma adaptação de “Seara de Vento”, romance do jornalista Manuel da Fonseca que foi originalmente publicado nos anos 50. Por sua vez, o livro foi baseado numa história verídica que o Estado Novo tentou apagar. Aconteceu em 1933, quando um camponês assassinou um proprietário e seu filho e depois se escondeu no casebre que partilhava com a família. A luta foi grande e teve até de ser chamado o exército que fez chover chumbo por cima do esconderijo desse homem que meses antes tinha sido preso por furto de cereais.
As autoridades triunfaram sobre o criminoso, mas, para espanto de muitos, seu funeral não foi o de um pária com sangue nas mãos, mas sim um concorrido evento de homenagem a um herói local. Daí floresceu o mito e o ideal romântico de um homem da terra a desafiar as hierarquias de poder quase feudalistas de um Portugal retrógrado e injusto. O livro perdurou tal noção, mas o filme de Tréfaut vem complicar esses idealismos. Não é que o cineasta negue ou contrarie a mensagem mitificada pelo legado popular da história. Simplesmente apresenta tais conceitos da forma mais seca imaginável.
À já mencionada severidade formal, junta-se um registo tonal que despe o enredo do seu potencial melodramático e deixa para trás uma documentação de sofrimento e miséria nunca contaminado pelos excessos do sensacionalismo sentimental. Considerando alguma da imagética da fita e o contexto histórico em que “Seara de Vento” se insere, seria fácil ver aqui uma manifestação de neorrealismo e até de miserabilismo narrativo. Contudo, essa conclusão é redutora, pois ignora o modo como Tréfaut, não obstante o seu uso de localizações reais e alguns atores amadores, tende a construir os seus projetos num gesto de distanciamento do real.
A depuração que o cineasta faz da tragédia não é uma procura pelo verismo cru, mas sim uma síntese dramática das ideias principais da narrativa através do mecanismo antinaturalista. O preto-e-branco é manifestação disso mesmo e a cuidadosa disposição do elenco nos tableaux de Tréfaut também. De certo modo, o realizador tira desta tragédia o artifício do realismo, encontrando aí algo meio primitivo e primordial, como se víssemos uma lenda antiga nascida da terra, do sangue e do suor de gerações ancestrais que muito precedem os eventos históricos.
Este é um filme que nos fala de fome, mas não se presume capaz de nos imergir na real experiência dessa dor através de gramáticas audiovisuais. Por isso, limita-se a dramatizar sem aparato e com austeridade solene a história de quem anseia ardentemente pelo sustento de um bocado de pão seco. Há dignidade em tal escolha e até é possível que assim se diga mais sobre a pobreza do que com escolhas mais aparatosas. Não é um discurso que apele a uma experiência sensorial ou fácil gratificação do espectador. Por outro lado, é um discurso cinematográfico que exige da audiência uma apreciação cerebral, mas não por isso menos visceral dos seus temas, sua história e seus sôfregos protagonistas.
Por outras palavras, “Raiva” não é um filme fácil e não convida, nem mesmo o público cinéfilo, a tirar prazer da sua construção. A história é triste e violenta, tão áspera e anti sentimental como a matriarca amarga a que Isabel Ruth dá vida, com aquele que é o desempenho mais extraordinário num filme recheado de admiráveis esforços por parte do elenco. Com isso dito, tal como o espectador não consegue resistir ao magnetismo cáustico de Ruth, também não ficará indiferente ao apelo de “Raiva”. O título é bem escolhido, pois Tréfaut tipifica bem essa emoção nesta obra, mesmo que não o faça de modo vistoso ou explosivo. Esta não é a raiva de quem grita e vocifera o seu descontentamento. É a raiva de quem passa uma vida a suportar injustiças de boca fechada, até ao dia em que todas as células do seu ser vibram com a fúria todo-poderosa que tanto torna homens em monstros como os transforma em mitos.

https://www.magazine-hd.com/apps/wp/raiva-critica-em-analise-sergio-trefaut/

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