22 de Janeiro, 19h: “O Caderno Negro”

Realização: Valeria Sarmiento

Intérpretes: Lou de Laâge, Stanislas Merhar, Victoria Guerra, Joana Ribeiro, Catarina Wallenstein

FRA/POR, 2018, 113′  M/12

O relato das aventuras, no crepúsculo do século XVIII, de um singular par formado por um pequeno órfão de origens misteriosas e pela sua jovem ama italiana, de nascimento igualmente incerto. Eles levam-nos na sua peugada, de Roma a Paris, de Lisboa a Londres, de Parma a Veneza. Sempre seguidos na sombra, por razões obscuras, por um sinistro Calabrês e um inquietante cardeal, fazem-nos testemunhar tenebrosas intrigas no Vaticano, a angústia de uma paixão fatal, um funesto duelo, a galanteria na corte de Versalhes, as convulsões da Revolução francesa e a ascensão do general Bonaparte.

 

Do cinema como folhetim
Camilo Castelo Branco volta a interessar o cinema, neste caso através da adaptação de “O Livro Negro do Padre Dinis” — a direcção está a cargo da cineasta chilena Valeria Sarmiento.

Será, talvez, um excesso de exigência. Em qualquer caso, ao descobrirmos o filme luso-francês “O Caderno Negro”, produzido por Paulo Branco, com realização da chilena Valeria Sarmiento, somos imediatamente levados a compará-lo com o magnífico “Mistérios de Lisboa” (2010), de Raúl Ruiz (1941-2011) — de facto, Sarmiento trabalhou na montagem de muitos títulos de seu marido Ruiz, incluindo esse.

O paralelismo envolve outros factores. Em ambos os casos, estamos perante adaptações de Camilo Castelo Branco — “O Caderno Negro” tem como base “O Livro Negro do Padre Dinis”; além do mais, num e noutro o essencial trabalho de adaptação/argumento está a cargo de Carlos Saboga.

Seja como for, o mais importante, e também mais sedutor, envolve uma dimensão fora de moda. Dito de outro modo: em cenários de finais do século XVIII, esta teia de aventuras e desventuras de um pequeno órfão e da sua jovem ama italiana, ambos de origens enigmáticas, tenta revalorizar o conceito, literário & cinematográfico, de folhetim.

Convenhamos que “O Caderno Negro” está muito limitado pela impossibilidade de figurar um esplendor que as imagens, de facto, raras vezes reflectem; e também por uma montagem que nem sempre gere da maneira mais eficaz as muitas elipses que a história contém.

Isto sem esquecer as diferenças de qualidade interpretativa que encontramos no elenco, liderado pela francesa Lou de Laâge, no papel da ama, confirmando a sua capacidade de contenção e sugestão (vimo-la, por exemplo, contracenando com Juliette Binoche, em “A Espera”, de Piero Messina, uma produção de 2015). Ainda assim, saúde-se o gosto por uma narrativa intimista, grave nas suas peripécias, sempre irónica pelo ambiguidade emocional ou moral que as situações contêm.

Crítica de João Lopes

 

 

 

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