4 de Julho, 19h: “California”

Realização: Marina Person

IntérpretesClara Gallo, Caio Horowicz, Caio Blat , Virginia Cavendish

BRA, 2015, 85′ M/12

Brasil, década de 1980. Estela, de 14 anos, é uma adolescente igual a tantas outras. O seu dia-a-dia é um esforço constante para gerir as expectativas familiares, a amizade e as paixões arrebatadas, tão características da idade. Carlos, seu tio, conselheiro e mentor, é um jornalista especializado em música que se encontra a trabalhar na Califórnia. Ansiosa para revê-lo e conhecer o mundo em que ele se move, a rapariga faz um acordo com os pais: em vez da festa dos 15 anos, quer conhecer os EUA. Mas os sonhos dela caem por terra quando Carlos, doente e debilitado, opta por voltar para o Brasil…
Com realização de Marina Person, segundo um argumento seu, de Francisco Guarnieri e de Mariana Veríssimo, um filme sobre as dores de crescimento, com Clara Gallo, Caio Blat, Caio Horowicz e Giovanni Gallo nos papéis principais. PÚBLICO

 

Ao assistir a Califórnia, um trabalho doce, nostálgico e sensível comandado por Marina Person, experimentei a curiosa sensação de perceber que minha juventude havia se transformado em filme de época. Ambientado na década de 80, o longa enxerga o período com cores saudosistas que sugerem um universo que, relativamente primitivo em suas tecnologias de comunicação, era, ainda assim (ou talvez por isso), marcado por uma curiosa inocência por parte dos adolescentes que o habitavam.

Trazendo um claro tom autobiográfico, o roteiro escrito por Person (filha de Luis Sérgio), Francisco Guarnieri (filho de Paulo e neto de Gianfrancesco) e Mariana Veríssimo (filha de Luis Fernando e neta de Érico) gira em torno de Estela (Gallo), que, aos 15 anos, é uma estudante do ensino médio (na época, “segundo grau”) que vive seus primeiros amores, experimenta curiosidades e receios acerca do sexo, enfrenta certo conservadorismo por parte do pai (Miklos) e sonha com a futura viagem à Califórnia – que ganhou em troca da festa de debutante – a fim de fazer uma road trip ao lado do tio Carlos (Blat). No entanto, quando este retorna inesperadamente dos Estados Unidos, a garota experimenta sentimentos conflitantes à medida que percebe que algo está errado – uma sensação que se torna mais intensa em função de seus próprios anseios com relação à paixão que vive por um rapaz popular de seu colégio.

Aliás, se cito o fato de os três roteiristas serem descendentes de artistas notáveis, não é com o objetivo de desmerecê-los (nem poderia; todos já construíram carreiras respeitáveis), mas para apontar como isto reflete a posição da protagonista – ela mesma profundamente influenciada pela sensibilidade artística e musical do próprio tio, ressaltando o aspecto autobiográfico da obra. Neste sentido, é claro que a ambientação na década de 80 é significativa – e a direção de arte de Ana Mara Abreu faz um trabalho fabuloso do geral aos detalhes. O quarto de Estela, por exemplo, chega a exibir certo exagero no número de itens icônicos do período, trazendo referências a E.T., objetos como o jogo eletrônico Genius, vitrola, cubo mágico e por aí afora, ao passo que, aqui e ali, personagens surgem segurando canetas quatro cores e ouvindo canções do Kid Abelha e da Blitz. (Aliás, a seleção musical do projeto é impecável.)

Compreendendo que o espaço ocupado por um adolescente é uma maneira de representar quem este é – ou, mais do que isso, quem quer ser -, Califórnia emprega o quarto de Estela como forma de apresentar ao espectador elementos da personalidade de sua personagem principal e também seus objetivos (o que torna perdoável o “certo exagero” que mencionei no parágrafo anterior). Assim, é interessante que, ao lado das referências musicais, um mapa do estado que dá título ao filme surja em destaque, já que simboliza os sonhos da garota, mas também (e discutirei isso adiante) o amadurecimento pelo qual passará ao longo da narrativa.

Vivida pela estreante Clara Gallo com uma naturalidade admirável, Estela jamais deixa de convencer como uma adolescente comum que passa o dia inteiro pendurada no telefone (não havia Whatsapp na época, garotada), que insiste para que o pai estacione na esquina por ter vergonha de ser vista ao seu lado pelos colegas e que fala sobre sexo com um misto de curiosidade, assombro e embaraço. Da mesma forma, é impossível não encarar com certa nostalgia (e ocasional desconforto diante das próprias lembranças constrangidas) os sarros desajeitados nos cantos escuros de festinhas da turma ou não se comover com o sofrimento provocado pelas inseguranças da moça. Neste sentido, é perfeito que a diretora de fotografia Flora Dias traga Estela sob uma escuridão sufocante que ressalta sua solidão ao se ver incapaz de transar com o garoto de quem gosta, já que, nesta idade, aquilo realmente representa um drama intenso e angustiante.

Enquanto isso, Caio Blat, um ator incapaz de viver um personagem sem conferir a este um profundo calor humano (e estou certo de já ter dito isso antes), transforma o Tio Carlos num homem cujo carinho pela sobrinha é palpável, o que apenas torna sua dor por saber que irá desapontá-la ainda mais tocante. É brilhante, diga-se de passagem, como Blat e a diretora Marina Person sugerem a homossexualidade do sujeito de forma sutil, demonstrando também cuidado ao retratar o preconceito inspirado pela ignorância acerca de sua doença, que o obriga a usar pratos e talheres separados, aumentando seu isolamento num momento em que o apoio alheio se tornava ainda mais fundamental.

O que nos traz ao mapa no quarto de Estela: se inicialmente a Califórnia ali representada remete aos sonhos e aspirações da protagonista, bem como ao idealismo juvenil acerca de seu futuro (e, afinal, é lá que fica a terra de sonhos hollywoodiana), aos poucos o estado norte-americano passa a assumir, por sua distância crescente, o choque e o peso da realidade – uma realidade que a garota (que lembra Person até fisicamente) apreende gradualmente ao pescar pontualmente um indício ou outro do mundo adulto que a espera. (E um plano particularmente memorável é aquele que a traz notando, entre os bancos do carro, um toque carinhoso de mãos entre seu tio e o namorado deste.)

Assim, quando chegamos aos últimos segundos deste belíssimo filme, é apenas natural que constatemos que, atrapalhada como são todas as jornadas adolescentes rumo à maturidade, a trajetória de Estela acaba por abrir-lhe definitivamente os olhos para o mundo à sua volta, despertando uma sensibilidade que afinal a levará, 30 anos depois, a dirigir uma obra tão tocante como este Califórnia.

Pablo Villaça, 18 de Setembro de 1974, é um crítico cinematográfico brasileiro. É editor do site Cinema em Cena, que criou em 1997, o mais antigo site de cinema no Brasil. Também é professor de Linguagem e Crítica Cinematográficas.

http://cinemaemcena.cartacapital.com.br/Critica/Filme/8220/california

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