28 de Março, 19h: “Loucamente”

Realização: Paolo Virzì

Intérpretes: Micaela Ramazzotti, Valeria Bruni Tedeschi, Valentina Carnelutti

FRA/ITA, 2016, 118′

Beatrice é uma mentirosa compulsiva e uma tagarela de porte exuberante. Donatella é uma jovem tatuada, frágil e introvertida. Residentes na Villa Biondi, uma instituição terapêutica para mulheres que padecem de problemas mentais, estas duas mulheres ficam amigas. Uma tarde, resolvem fugir, decididas a encontrar um pouco de felicidade no manicómio ao ar livre também conhecido por mundo de gente “sã”.

 

Realismo & melodrama

Paolo Virzì é um nome essencial no panorama da actual produção italiana – com “Loucamente”, ele arrisca filmar o universo perturbante da loucura, contando com duas admiráveis actrizes, Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti.

Importa não esquecer o cinema italiano. E não apenas porque, quando recuamos no tempo, começamos por deparar com a herança do neo-realismo, depois com mestres como Roberto Rossellini ou Michelangelo Antonioni e notáveis artesãos como Dino Risi ou Mario Monicelli. Também porque a pluralidade dessa tradição se mantém viva no presente, recebida e transfigurada por cineastas como Nanni Moretti, Daniele Luchetti ou Paolo Virzì — justamente, Virzì, autor de “Capital Humano” (2013), regressa às salas portuguesas com um filme brilhante.

“Loucamente” (título original: “La Pazza Gioia”) arrisca-se num terreno sempre delicado: o da loucura, ou melhor, da convivência entre os que representam a norma (social, conjugal, emocional) e os que a ela escapam. Mais exactamente, este é um filme sobre duas mulheres que querem libertar-se das obrigações decorrentes da instituição psiquiátrica onde estão internadas.

O menos que se pode dizer do trabalho de Virzì é que se fundamenta num valor essencial: o trabalho específico dos actores e a sua capacidade de gerar personagens que não podem ser reduzidas a esterótipos intermutáveis. Valeria Bruni Tedeschi e Micaela Ramazzotti (casada com o realizador) são admiráveis de subtileza e emoção, assumindo complexas personagens que procuram, respectivamente, reconquistar os seus privilégios sociais e encontrar o filho que foi adoptado.

Estamos perante um cinema que nasce de uma atenção obsessiva às contradições do tecido social sem que isso impeça, bem pelo contrário, uma celebração da irredutibilidade de cada ser humano. Daí o fascinante cruzamento de referências que encontramos no trabalho narrativo de Virzì — ele é, afinal, um realista na precisão da observação, mas também um herdeiro da mais nobre tradição melodramática. Os italianos aí estão.

Crítica de João Lopes

Integrado na Semana da Juventude em Tomar – Preço único 1€

 

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