3 de Janeiro, 19h: “O Clube”

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RealizaçãoPablo Larraín

IntérpretesAlfredo CastroRoberto FaríasAntonia Zegers

Chile, 2015, 98′  M/18

Quatro homens moram juntos numa casa isolada, numa pequena vila à beira mar. Foram enviados para este lugar para expiarem pecados do passado. Vivem sob um rigoroso regime, debaixo do olhar atento de uma vigilante, até que o frágil equilíbrio desta rotina é interrompido pela chegada de um quinto homem, um companheiro recentemente caído em desgraça, trazendo com ele o passado que todos julgavam ter deixado para trás. Filme vencedor do Grande Prémio do Júri no último Festival de Berlim (2016), O CLUBE foi também nomeado para Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro.

Para lá da inocência e da culpa

Com intransigente rigor, Pablo Larraín continua a observar as convulsões da história do Chile — em “O Clube” (Urso de Prata no Festival de Berlim), encontramos um universo marcado pelas convulsões internas do catolicismo.

Na cena de abertura do filme “O Clube”, há um homem que treina um cão, intensamente, aplicadamente. Percebemos, pouco depois, que o homem pertence a um pequeno grupo que vai apresentar esse mesmo cão numa corrida, sendo o animal acompanhado por uma mulher… Estranhamente, o grupo não se envolve na corrida, matendo-se à distância, observando tudo através de binóculos…

A explicação para tão desconcertante comportamento virá pouco depois: os homens são padres católicos que foram acusados de crimes de pedofilia (ou de desvio de bebés de mães solteiras para os venderem a novas famílias); habitam uma casa (“o clube”) de uma praia esquecida da costa do Chile, sendo a mulher, a irmã Mónica, a sua única relação com o exterior — até que um homem que se identifica como uma das vítimas de um dos padres vem abalar aquele estado de coisas…

Não se julgue que “O Clube” procura qualquer efeito sensacionalista, típico de algumas reportagens (?) televisivas, inventariando vítimas e carrascos. Claro que estamos perante um objecto contundente que confronta o imaginário católico com algumas das suas perturbações mais fundas. Mas tudo isso se liga com uma questão eminentemente cinematográfica. A saber: como expor a claustrofobia daquele espaço, como transmitir o sentimento de um tempo que parece não passar?

Em boa verdade, nada disto é estranho à trajectória craitiva do realizador de “O Clube”, Pablo Larraín, em particular à sua visão obsessiva da história do Chile, com inevitável destaque para os efeitos da ditadura de Augusto Pinochet. Nessa medida, este é um filme que prolonga o realismo metódico e as perturbantes interrogações de “Tony Manero” (2008), “Post Mortem” (2010) e “Não” (2012).

Num universo marcado pelo desenho de uma fronteira nítida entre inocência e pecado, Larraín vai mais longe, filmando a consciência da volatilidade dessa fronteira e, mais do que isso, o labor da própria instituição no sentido de repor uma ordem que apazigue os seus fantasmas interiores, preservando uma imagem de harmonia para o exterior — “O Clube” é, enfim, um conto moral sobre os limites existenciais e simbólicos da própria moral e, desde já, um dos filmes maiores deste ano.

Crítica de João Lopes (Junho 2016)

 

 

 

 

 

 

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