27 de Setembro, 19h: “Cartas da Guerra”

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Realização: Ivo M. Ferreira

Intérpretes: Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira

POR, 2016, 105 ‘  M/12

Ano de 1971. António (Miguel Nunes), de 28 anos, é incorporado no exército português para servir como médico numa das piores zonas da Guerra Colonial, no Leste de Angola. Longe de Maria José (Margarida Vila-Nova), a mulher amada que se viu obrigado a deixar, ele vai matando as saudades através de longas cartas que durante dois anos lhe escreve. Através delas, o espectador vai conhecendo o homem solitário por detrás do soldado, as suas angústias, desejos e esperanças. Com o passar do tempo, António apaixona-se por África e toma posições políticas…
Um filme dramático escrito e realizado por Ivo M. Ferreira (“Águas Mil”, “Em Volta”), segundo um argumento seu e de Edgar Medina que se inspira em “D’Este Viver Aqui Neste Papel Descripto: Cartas da Guerra”, uma compilação de cartas que António Lobo Antunes (na altura um jovem alferes destacado para Angola) escreveu à mulher. O filme esteve já presente em vários festivais internacionais, entre eles o Festival de Cinema de Berlim (Alemanha), o Festival Internacional de Cine de Cartagena de Indias (Colômbia), Macau Literary Film Festival, Hong Kong IFF, Shanghai International Film Festival (China), Thessaloniki International Film Festival (Grécia), Sydney Film Festival e Brisbane Asia Pacific Film Festival (Austrália).

Na intimidade da Guerra Colonial

Grande filme, acontecimento realmente fora de série: “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira, adapta o livro de António Lobo Antunes para construir um fresco admirável sobre a nossa Guerra Colonial.

É bom encontrar um filme português em que se mostra que é possível lidar com os actores — Miguel Nunes, Margarida Vila-Nova, Ricardo Pereira, João Pedro Vaz, Simão Cayatte, etc. — sem os enclausurar nas tristes rotinas de telenovelas e seus derivados. Não é o único, felizmente. Mas é um facto que a vibração dos corpos, a singularidade dos gestos e os enigmas dos olhares adquirem especial ressonância em “Cartas da Guerra”, de Ivo M. Ferreira.

O desafio era imenso. Ou seja: partir do livro de António Lobo Antunes, “D’este Viver Aqui Neste Papel Descripto” (Leya), feito com as cartas escritas pelo autor a sua mulher durante uma comissão de serviço em Angola, para desenhar um fresco sobre a Guerra Colonial. No fundo, tratava-se de saber como articular o intimismo radical da escrita com a ambição de evocar uma tragédia que abalou a sociedade portuguesa (com sinais que, inevitavelmente, persistem no presente).

Ivo M. Ferreira teve dois aliados fundamentais em João Ribeiro (director de fotografia) e Sandro Aguilar (responsável pela montagem). Assim, este mundo assombrado pela beleza austera das imagens a preto e branco vai-se transfigurando numa fluidez narrativa em que, por assim dizer, todas as atitudes individuais se repercutem na dinâmica do colectivo, ao mesmo tempo que qualquer evento global adquire inusitado dramatismo quando sentido na solidão de cada um.

Estamos perante um acontecimento realmente fora de série, superando qualquer visão determinista da história, afastando-se de qualquer distribuição simplista de “culpas”. “Cartas da Guerra” é um filme vivo e perturbante que, por assim dizer, vai desvendando o seu próprio método de aproximação de uma complexa teia de factos e memórias, coisas concretas e coisas fantasmáticas. A maneira mais simples de o dizer será: estamos perante um dos acontecimentos maiores do ano cinematográfico de 2016.

João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

 

 

 

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