23 de Agosto, 19h: “Carol”

carol-1

Realização: Todd Haynes

Intérpretes: Cate Blanchett, Rooney Mara, Sarah Paulson, Kyle Chandler

EUA/FRA/GB, 2015, 118′ M/14

Em Nova Iorque, no início da década de 1950, Therese Belivet (Rooney Mara) trabalha numa loja em Manhattan e sonha com uma vida mais gratificante quando conhece Carol Aird (Cate Blanchett), uma mulher sedutora presa a um casamento fracassado. Uma ligação surge entre ambas, levando a que a inocência do primeiro encontro dê lugar a uma relação profunda. Quando o envolvimento de Carol com Therese se torna público, o marido de Carol, Harge Aird (Kyle Chandler) retalia, pondo em causa a sua competência como mãe. Com Carol e Therese a fazerem-se à estrada, deixando para trás as suas respectivas vidas, um confronto vai colocar à prova as convicções de cada mulher sobre si mesma e o compromisso para com a outra. Baseado no romance de Patricia Highsmith.

Retrato de duas solidões

Expor a complexidade das personagens e revalorizar as nuances da narrativa — o cinema de Todd Haynes volta surpreender-nos através do magnífico “Carol”, adaptado de um romance de Patricia Highsmith.

Na história literária das relações entre pessoas do mesmo sexo, o romance “The Price of Salt”, de Patricia Highsmith, ocupa um lugar central. Publicado em 1952 (com o pseudónimo ‘Claire Morgan’), a sua visão directa e subtil do amor de duas mulheres conferiu-lhe um estatuto de culto que, de alguma maneira, ecoa na versão que Todd Haynes agora realiza, conservando o título da tradução francesa, “Carol”, que acabou por ser internacionalmente adoptado.

Daí a resumir o filme de Haynes numa qualquer atitude “panfletária” vai um passo que, em boa verdade, convém evitar — o que confere uma energia única e contagiante a “Carol” é a sua capacidade de expor as convulsões do impulso amoroso sem ceder a qualquer universalização dos seus sinais, muito menos dos seus “significados”. Este é um filme sobre uma relação que, importa não esquecê-lo, em 1952, era condenada pelos costumes e interdita pela lei.
A partir da admirável direcção fotográfica de Ed Lachman, exibindo as marcas de um certo romanesco clássico (em particular de alguns filmes de Douglas Sirk), “Carol” retrata a relação de duas mulheres, Carol (Cate Blanchett) e Therese (Rooney Mara), que, de facto, tudo separa: as classes sociais (a primeira é uma típica figura da classe média, a segunda trabalha num grande armazém), a postura pública, até mesmo a própria gestão do tempo.
Há na câmara de Haynes/Lachman qualquer coisa de deambulação documental que, ao mesmo tempo, envolve uma invulgar capacidade de expor as mais secretas emoções, sobretudo aquelas que os códigos sociais da época reprimem ou tentam ignorar. A performance das duas actrizes principais revela-se essencial para um belíssimo paradoxo: o de descobrirmos o radicalismo de duas solidões que, afinal, podem comunicar.
Em tempos dominados por visões mais ou menos “tecnicistas” do cinema e das suas possibilidades (em particular do cinema americano), “Carol” impõe-se como um objecto radical, capaz de revalorizar dois importantíssimos vectores: a construção de personagens que existem muito para além da sua figuração digital e um entendimento da narrativa, não como uma acumulação de clímaxes, antes como um processo de contínua descoberta dos enigmas do comportamento humano — é, muito simplesmente, e desde já, um dos grandes acontecimentos do ano cinematográfico.

João Lopes, in Cinemax

 

 

 

 

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s