2 de Agosto, 19h: “A Espera”

A Espera blog

Realização: Piero Messina

Intérpretes: Juliette Binoche, Giorgio Colangeli, Lou de Laâge

ITA/FRA, 2015, 100′  M/12

Anna deixa-se levar pelo passar dos dias, percorrendo sem rumo a enorme mansão onde vive, na Sicília. Tudo à sua volta é silencioso e triste. Não fossem os poucos contactos que vai tendo com Pietro, o encarregado, e ela viveria em total reclusão. Um dia, chega Jeanne, uma jovem que diz ser namorada de Giuseppe, o filho de Anna. Segundo ela, os dois combinaram encontrar-se ali para os festejos da Páscoa. Enquanto esperam por ele, as duas mulheres aproveitam para se conhecerem e saberem outras facetas de Giuseppe. Porém, por mais que aguardem, parece que não há forma de ele retornar a casa…
Primeira incursão na realização a solo de Piero Messina, conhecido pelas suas participações como assistente de realização dos premiados “Este é o Meu Lugar” (2011) e “A Grande Beleza” (2013), ambos de Paolo Sorrentino. “A Espera” inspira-se vagamente em “La vita che ti diedi” e “La camera in attesa”, duas peças do nobelizado escritor italiano Luigi Pirandello (1867-1936). Juliette Binoche e Lou de Laâge dão vida às protagonistas.

Um drama de palavras e silêncios

Foi uma das boas surpresas da Festa do Cinema Italiano e já está nas salas: “A Espera” é uma deambulação pela intimidade de duas mulheres, revelando Piero Messina como um cineasta apostado em refazer uma certa tradição italiana.

Face a um filme tão delicado, e também tão clássico, como “A Espera”, apetece perguntar: de que falamos quando falamos de cinema psicológico? A pergunta justifica-se, quanto mais não seja porque vivemos assolados pela mediocridade dramática do espaço telenovelesco, todos os dias repetindo os mesmos clichés de personagens e situações… Ora, “A Espera” é um filme atraído pelo mais primordial dos temas: qual a nossa relação com a morte?

Qualquer resumo desta primeira longa-metragem de Piero Messina (uma das revelações da nona edição da Festa do Cinema Italiano) corre o risco de dizer demasiado… ou demasiado pouco. Trata-se de um encontro insólito: a jovem Jeanne (Lou de Laâge) que vem visitar o namorado e Anne (Juliette Binoche), a mãe do namorado que resiste a dar-lhe uma notícia trágica, colocando-a — e colocando-se — na teia de uma angustiada espera.

Tudo acontece, assim, num desconcertante registo de suspense em que o facto de o espectador saber um pouco “mais” do que Jeanne instala uma ambígua cumplicidade com Anna — talvez que, afinal, o irreversível se possa combater com o silêncio. O retrato psicológico deixa de funcionar como mera aplicação de padrões pré-determinados (psicológicos, precisamente), para atrair aquilo que, afinal, está para além de qualquer padrão cognitivo.

Daí que “A Espera” seja um filme de palavras escassas e muitos silêncios, sustentados por duas actrizes de impecável precisão e também, claro, por uma mise en scène que se afasta de qualquer facilidade mais ou menos moralista. Nesta perspectiva, talvez se possa dizer que Messina refaz os caminhos de alguns autores clássicos italianos, de Luigi Comencini a Dino Risi, passando por Ettore Scola. Em termos simples, vale a pena estarmos atentos ao seu segundo filme.

Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

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