26 de Julho, 19h: “O Homem Mais Procurado”

PSH

Realização: Anton Corbijn

Intérpretes: Rachel McAdams, Robin Wright, Philip Seymour Hoffman, Willem Dafoe

EUA/ALE/GB, 2014, 121′ M/12

Issa Karpov, filho de pai russo e mãe tchetchena, entra ilegalmente na Alemanha através do porto de Hamburgo. Issa pretende reclamar a herança paterna deixada no banco de um magnata. Para isso, e devido à sua condição precária de imigrante ilegal, apenas pode contar com o apoio de Annabel Richter, uma advogada idealista defensora acérrima dos direitos humanos, que se dedica a ajudar os mais desfavorecidos. Mas a chegada de Issa, considerado suspeito pelos serviços secretos internacionais, precipita a investigação do alemão Günther Bachmann e a pesquisa, iniciada pela norte-americana Martha Sullivan, sobre um pretenso financiador de terrorismo. A questão que se coloca é: será este homem uma vítima oprimida, como crê Annabel, ou um perigoso extremista com ligações ao terrorismo internacional?
Um “thriller” político, realizado por Anton Corbijn (“Control”, “O Americano”), sobre manipulação e poder, que conta com a participação dos actores Grigoriy Dobrygin, Willem Dafoe, Robin Wright, Rachel McAdams e Philip Seymour Hoffman (num papel memorável que ficará também marcado por ser a última aparição em cinema, antes da sua morte, em Fevereiro de 2014). “O Homem Mais Procurado” adapta ao grande ecrã a aclamada obra de John le Carré que, por sua vez, se inspira na história verídica de Murat Kurnaz. Cidadão turco e residente legal na Alemanha, foi capturado pelas autoridades norte-americanas – com conhecimento do Governo germânico – e levado para a base militar de Kandahar, no Afeganistão, seguindo posteriormente para a prisão de Guantánamo (na base naval norte-americana em Cuba). Durante o processo, ficou provado que Kurnaz esteve preso durante cinco anos sob nenhuma acusação legal. A sua libertação, em Agosto de 2006, aconteceu depois de um escândalo internacional. PÚBLICO

Viver e morrer em Hamburgo

Foi o filme final de um actor de génio chamado Philip Seymour Hoffman — “O Homem Mais Procurado”, dirigido por Anton Corbijn, aí está, retratando os labirintos da espionagem a partir de um romance de John le Carré.

Não creio que seja possível vermos um filme como “O Homem Mais Procurado” sem sentirmos um perturbante vazio — sabemos, afinal, que o seu protagonista, Philip Seymour Hoffman, veio a falecer poucos meses depois da respectiva rodagem (a 2 de Fevereiro de 2014, contava 46 anos), vítima de uma overdose.

Repare-se: não se trata de procurar “equivalências” entre a vida vivida e a vida representada — elas cruzam-se de forma inevitável —, mas sim de reconhecer um poder terrível, afinal gratificante, que o cinema pode envolver. É o poder de intensificar a própria vida, a ponto de um filme ser um território conquistado ao espaço da morte.
Aliás, a personagem de Hoffman, Günther Bachmann — um elemento dos serviços secretos da Alemanha a braços com a investigação de um suspeito proveniente do mundo árabe — é alguém que existe, por assim dizer, como um sobrevivente de um tempo outro, em que os segredos das nações não envolviam o trauma central da espionagem moderna. A saber: a herança do 11 de Setembro.
Respeitando por inteiro a lógica do romance de John le Carré em que se inspira, “O Homem Mais Procurado” revisita essa herança a partir de um lugar muito concreto: a cidade de Hamburgo. Foi lá que Mohamed Atta planeou os atentados do 11 de Setembro contra o World Trade Centre, em Nova Iorque, e os serviços secretos vivem, naturalmente, obcecados pela necessidade de não deixar repetir qualquer situação semelhante — é um desejo de vida todos os instantes assombrado pelas marcas da morte.
Confirmando a singularidade do trajecto do realizador Anton Corbijn — ele que começou com “Control” (2007), sobre Ian Curtis e os Joy Division, dirigindo depois o thriller “O Americano” (2010), com George Clooney —, “O Homem Mais Procurado” é, afinal, um regresso exemplar à tradição dos grandes labirintos da espionagem, ainda e sempre sustentado por um elenco invulgar, incluindo Robin Wright, Willem Dafoe e Nina Hoss. Num Verão de tanta banalidade “explosiva”, este é um dos filmes politicamente mais subtis — e também emocionalmente mais intensos.
Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

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