28 de Junho, 19h: Três filmes de Manuel Mozos

28 de Junho 19h | “Cinzas e Brasas”

                               “A Glória de Fazer Cinema em Portugal”

                                  “Ruínas”

Realização: Manuel Mozos

“Cinzas e Brasas”

 

brazas

Intérpretes: Ana Ribeiro, Gustavo Sumpta, Isabel Ruth

Portugal 2015 | Ficção | 21’ | M/12

Dulce (Isabel Ruth) é uma escritora que vive isolada no campo. Algures no tempo Dulce (Ana Ribeiro) conheceu Rui (Gustavo Sumpta), detido por um qualquer crime e sobre quem quis escrever um romance.

Agora, largos anos depois de terem perdido contacto Rui, já em liberdade, volta para encontrar Dulce… por quem ainda tem uma tórrida atracção.

O argumento de Luís Lopes leva o espectador a uma estranha viagem sobre a solidão, o desejo, a beleza, a loucura e os excessos. A “Dulce” interpretada por Ana Ribeiro aparenta ser uma mulher ambiciosa, alguém capaz e disposta a tudo para que os seus objectivos mais primários sejam satisfeitos e, no seu caso, estes prendem-se com a vontade extrema em alcançar fama e sucesso. Por sua vez a mesma “Dulce”, agora interpretada por Isabel Ruth, é uma mulher por quem o tempo passou, alguém que nunca conseguiu – ou quis – estabelecer qualquer tipo de relação mais pessoal e que passou pela vida sem realmente a viver apenas cumprindo objectivos de interesses concretos.

Agora que a vida parece dissipar-se muito rapidamente, “Dulce” regista uma solidão incomparável; vive só e não contacta com ninguém até que “Rui” surge novamente na sua vida, mas enquanto que os anos claramente passaram por ela e o envelhecimento seja notório, “Rui” é um homem com o mesmo olhar intenso pelo qual os anos não parecem ter surtido qualquer tipo de efeito.

Entre as brasas – o desejo ardente – e as cinzas – o apagar de uma vida – “Dulce” vive nas margens de uma lagoa como que numa espera de uma vida que não tem e de uma morte que será incerta, qual purgatório.

Isabel Ruth é, para quem ainda tinha dúvida, uma força. A confiança com que agarra as suas personagens não tem limites e desde o primeiro instante percebemos que aquela mulher que interpreta é maior do que a própria vida – independentemente de concordarmos ou não com a forma como a vive. Despojada – ao que percebemos – voluntariamente de qualquer tipo e laços e ligações em nome de um sucesso obtido graças ao(s) seu(s) romance(s), a sua “Dulce” é uma mulher que vive numa margem entre o desejo e a amargura. Alguém que pode eventualmente ter sentido a necessidade de partilhar a sua vida com alguém mas que, ao mesmo tempo, percebe que ao fazê-lo iria “condenar” a sua total liberdade e objectivos. Intensa e sedutora, a curta-metragem Cinzas e Brasas é um firme e criativo regresso de Manuel Mozos à direcção de uma obra de ficção e mais um excelente marco representativo de uma diva do cinema nacional como o é Isabel Ruth.

Excerto do texto publicado por Paulo Peralta no dia 29 de Abril de 2015 no sítio Cineuphoria. (http://cineuphoria09.blogspot.pt/)

 

“A Glória de Fazer Cinema em Portugal”

 

glória

Intérpretes: António Salgueiro, Cidália Moreira, Filipe Lito, Filomena Filipe, João Pontes, José Nobre, Maria Adelaide Maio, Maria das Dores Arteiro, Pedro Cardoso, Ricardo Leite, Samuel Mira, Sérgio Costa

Portugal 2015 | Ficção | 16’ | M/12

O título é todo um programa: A Glória de Fazer Cinema em Portugal.

Vem de uma carta endereçada pelo escritor José Régio ao seu amigo Alberto de Serpa, e define também a mais recente curta-metragem de Manuel Mozos, na forma de uma investigação sobre a origem de uma misteriosa bobina de filme mudo descoberta em casa de um habitante de Vila do Conde. Essa bobina corresponderia à estreia por trás da câmara de Régio, que manifestara na tal carta a intenção de fundar um grupo de cinéfilos dispostos a introduzir em Portugal o cinema artístico. A bobina, cuja existência nunca teria sido confirmada, teria sido o único resultado prático dessa ambição, visto que daí para a frente o escritor apenas surgiria ligado ao cinema através da crítica que escrevia na lendária revista Presença, ou em adaptações cinematográficas de obras suas – várias delas (como O Meu CasoBenilde ou a Virgem Mãe) assinadas por um grande amigo e companheiro seu de tertúlia chamado Manoel de Oliveira.

Duas semanas após a estreia de Glória de Fazer Cinema em Portugal no Curtas Vila do Conde, que produziu o filme, Manuel Mozos, sentado numa pastelaria lisboeta, ri-se ao recordar a reacção de uma espectadora à saída da sala. “Uma rapariga, lá de Vila do Conde, disse-me: ‘você a mim não me engana! Eu compro peixe todos os dias a uma daquelas senhoras!'”

A reacção da espectadora confirma a definição que Mozos faz desta curta-metragem encomendada pelo festival, que é, na verdade, uma invenção à volta de factos e pessoas reais. “É um divertimento,” explica, “e foi essa a intenção que tivemos.” O projecto inicial era muito mais documental, centrado na ligação do escritor ao cinema. “Fizemos uma investigação, junto de pessoas ligadas ao Régio e ao Oliveira, e deparámos no Centro de Memória de Vila do Conde com a carta, que existe realmente. A ideia de não nos cingirmos a uma coisa exclusivamente documental partiu do Miguel Dias”, um dos directores do Curtas e produtor do filme. E com a entrada em cena do investigador e artista vimaranense Eduardo Brito, que trabalhou o argumento, o filme descolou “cada vez mais em direcção à ficção”. “Mas sempre com a intenção de deixar uma coisa um pouco dúbia: até que ponto seria uma ficção ou se haveria aqui um lado verídico…”

É em parte isso que explica as constantes piscadelas de olho cinéfilas, cúmplices, de A Glória de Fazer Cinema em Portugal, que é dedicado a Manoel de Oliveira, e a outro dos elementos da tertúlia regular de Régio, o padre João Marques (1929-2015), que foi director do Centro de Estudos Regianos. Mozos reconhece a presença tutelar de Oliveira, embora o lendário cineasta portuense não tenha estado envolvido no projecto: “A Glória acaba por ter a ver com um certo humor do Manoel, particularmente em alguns filmes mais próximos da memória dele e da sua relação com o norte do país. Mas não foi uma coisa pensada. O filme foi delineado em 2014, ainda ele era vivo, mas a questão de se falar com ele durante o processo de produção estava um bocadinho posta de parte, devido ao seu estado de saúde.”

Jorge Mourinha 

“Ruínas”

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Portugal 2009| Documentário | 60’ | M/12

O cineasta Manuel Mozos filmou edifícios em decadência e ofereceu-lhes histórias. Nesse cruzamento de imagens e de textos fala-se, em “Ruínas”, de um país mais de misérias do que de grandezas. Isto é Portugal. “De grandes esperanças mas, ao mesmo tempo, de uma certa mesquinhez, uma coisa de remediado”. Belíssimo.

Há quanto tempo ninguém andava por aqui? Quem se lembra ainda do que aqui se passou?
Manuel Mozos tem por hábito ir anotando num caderno coisas destas: lugares, uma notícia que leu numa revista, uma referência de um texto. O que queria fazer em “Ruínas” – o filme, uma produção de O Som e a Fúria – era cruzar essas coisas. Queria filmar os espaços vazios, sim, mas queria povoá-los, dar-lhes vozes, sons, fazê-los habitar por fantasmas que, se calhar, não eram os fantasmas desses espaços – eram outros, que obrigaram os primeiros a chegar-se para o lado e a deixá-los instalar-se também.

“Ruínas” é uma sucessão de imagens de espaços que o país deixou para trás, que esqueceu, mas que não desapareceram. Muitos permanecem, de pé, numa dignidade silenciosa, abandonados mas não vencidos. Ninguém passa por eles, mas eles ainda ali estão.
“O que me interessa, quer nos espaços quer nos outros materiais que utilizo no filme, é serem coisas que acho interessantes e que se diluem, se perdem. Achava importante dar-lhes alguma vida, tentar que não desaparecessem completamente”, diz o realizador. Não se trata de um olhar nostálgico ou saudosista, sublinha. “Mas são sítios que têm um lado poético, de coisas que existiram, que fizeram parte de histórias deste país.”

Inicialmente pensou usar excertos de filmes antigos, postais, ou até encontrar pessoas que pudessem contar histórias sobre aqueles sítios. Pensou, inclusivamente, em alargar o filme a outras coisas que estavam a desaparecer, “profissões, jardins, matas, falar da transformação de certas coisas, da construção de campos de golfe ou do efeito das auto-estradas nos percursos dos animais”, não numa perspectiva sociológica mas apenas como uma constatação de que é assim. Mas à medida que ia filmando foi abandonando essa ideia. O filme foi-se tornando cada vez mais depurado até chegar ao essencial: espaços vazios e sons.

Alexandra Prado Coelho (Jornal Público)

 Manuel Mozos nasceu em Lisboa, em 1959. Tem o Diploma da Escola Superior de Teatro e Cinema, especialização em Montagem, área principal em que desenvolveu a sua actividade enquanto técnico. Trabalha no ANIM – Cinemateca Portuguesa, Museu do Cinema.

Filmografia resumida, enquanto realizador: Cinzas e Brasas [2015] • A Glória de Fazer Cinema em Portugal [2015] • João Benard Da Costa – Outros Amarão As Coisas Que Eu Amei [2014] • Ruínas [2009] • 4 Copas [2008] • Aldina Duarte: Princesa Prometida [2008] • Xavier [1991-2002] • …QuandoTroveja [1998] • Cinema Português…? Diálogos Com João Benard Da Costa [1996] • Lisboa No Cinema – Um Ponto De Vista [1994] •

Um Passo, Outro Passo E Depois… [1990]

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