14 de Junho, 19h: “Axilas”

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Realização: José Fonseca e Costa

Portugal | 2016, 97′, M/16

Para quem teve o privilégio de conhecer Fonseca e Costa e trabalhar com ele, dar os primeiros passos no mundo do cinema português acompanhado por um mestre, conviver com o realizador e também com o ser humano que olhava em redor e via o mundo a seu modo, com uma realidade acutilante que lhe despertava massivas críticas e que o inspirava nas suas obras, pode sentir ter sido bafejado pela sorte num mundo em que boa parte das pessoas são cobardes por não quererem enfrentar as realidades que passam em cortejo à nossa volta.

Na obra que José Fonseca e Costa nos legou quase tudo isso está lá. O importante são as pessoas, as de coragem e as cobardes. Ali não existem bons nem maus, somente pessoas e o resultado em imagens e sons apreendidos no gizar da obra que se formava peça a peça, frame a frame, no imenso cinecérebro do criativo Fonseca e Costa.

Foi fazer “fitas” para outro lado e deixou-nos este Axilas – não como um ponto final mas sim como garantia de continuidade. Talvez que agora o passem a conhecer e dar o devido valor. Para onde foi deverá ser muito mais e devidamente bem considerado. Mais e melhor do que aqui neste Portugal pequenino, abafante, de compadrios, onde um tão grande do cinema não cabia. Liberdade, enfim, Zé. (MM / PG)

Sinopse de Axilas

Lázaro de Jesus é o filho adoptado de uma senhora rica de Lisboa, a quem chama Avó. É ela que o apresenta ao Padrinho, um grande empresário que o toma como seu protegido, e a Angelina, a mulher com quem a Avó pretende que ele se case. Mas Lázaro tem outros interesses ocultos, o mais importante dos quais é uma fixação obsessiva pelas axilas femininas. Quando vê a violinista Maria Pia a tocar, Lázaro apaixona-se de imediato e passa a viver em função dela, o que irá precipitar um final absolutamente imprevisível.

Perante o enigma do feminino

Foi o filme final de José Fonseca e Costa (1933-2015): “Axilas”, baseado num conto de Rubem Fonseca, faz o balanço de uma temática centrada na relação entre o desejo masculino e o carácter insondável das personagens femininas.

Filme paradoxal, sem dúvida, este “Axilas”. Desde logo, porque sabemos que será, para sempre, um objecto marcado por uma ausência: José Fonseca e Costa faleceu em Novembro de 2015 e já não o pôde concluir — num trabalho de invulgar paciência e dedicação, Paulo MilHomens rodou as cenas que faltavam e organizou a montagem.

Depois, porque mesmo reconhecendo que “Axilas” nem sempre encontra o equilíbrio necessário entre um dramatismo demasiado “simbólico” e uma ironia algo bizarra, à beira do burlesco, talvez seja inevitável reconhecer também que estamos perante um objecto eminentemente pessoal — dir-se-ia que Fonseca e Costa quis sistematizar o tema (nuclear no seu universo) da relação entre o desejo masculino e o carácter insondável das personagens femininas.

Nesta perspectiva, creio que se pode considerar que “Axilas”, baseado num conto de Rubem Fonseca, estabelece uma relação muito directa com “Os Cornos de Cronos” (1991). Em ambos encontramos uma personagem masculina à deriva que enfrenta o enigma do universo feminino num misto de atracção e distanciação.

A personagem de Lázaro de Jesus, a que Pedro Lacerda procura emprestar uma calculada ambivalência dramática e moral, surge, assim, como uma espécie de herói sem heroísmo, uma marioneta da sua própria imaginação. Com todas as suas fragilidades (por exemplo, na desigual performance dos elementos do elenco), “Axilas” fica como um testamento imperfeito de um cineasta que sempre perseguiu uma ideia de perfeição.

Crítica de João Lopes, RTP, em Cinemax

 

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