24 de Maio, 19h: “Difret”

 

Difret blog

RealizaçãoZeresenay Mehari

IntérpretesMeron GetnetTizita HagereAbel Abebe

Etiópia/EUA 2014, 99′, M/12

Etiópia, década de 1990. Hirut (Tizita Hagere), uma estudante de 14 anos, é raptada a caminho da escola por um grupo de homens a cavalo. Ela é uma das milhares de vítimas de uma antiga tradição etíope chamada “talefa” que implica o rapto para casamento. Hirut é violada pelo seu futuro marido e trancada num quarto. Ao tentar escapar, pega numa espingarda, mata o seu violador e foge. Agora, ela é acusada de homicídio e o facto de ter agido em legítima defesa não tem qualquer significado na comunidade onde vive. Meaza Ashenafi (Meron Getnet), por seu lado, é uma jovem e corajosa advogada em Adis Abeba, a capital. Decidida a ajudar mulheres e crianças pobres, abriu uma rede de representação jurídica gratuita. Quando sabe do caso de Hirut, segue até à remota aldeia onde ela se encontra e, enfrentando todo o tipo de preconceitos e tradições seculares, inicia uma longa batalha judicial para provar que a criança é uma vítima de uma tradição bárbara e não pode ser responsabilizada por aquele crime.
Inspirado numa história verídica, um filme dramático que conta com argumento e realização do etíope Zeresenay Berhane Mehar. Em 2014, “Difret” arrecadou o Prémio do Público quer no Festival de Cinema de Sundance, quer na Berlinale. PÚBLICO

A saga de uma rapariga etíope

“Difret” é um filme diferente do que estamos habituados a ver: um drama da Etiópia em que é exposto o exercício comum de uma “tradição” particularmente violenta contra as mulheres — o filme tem produção executiva de Angelina Jolie.

Há filmes cujo valor cinematográfico é indissociável de um inequívoco e irrecusável testemunho moral.

É o caso de “Difret”, uma história da Etiópia centrada numa “tradição” antiga: o rapto de uma mulher-criança — a personagem central, Hirut Assefa, interpretada por Tizita Hagere, tem 14 anos — pelo homem que, mais tarde, a tomará como esposa…
Mais concretamente, esta é uma versão dramatizada de um caso que criou um importante precedente moral e jurídico, já que depois do seu julgamento a lei passou a proibir tal prática
Realizado por Zeresenay Berhane Mehari, o filme tem como virtude principal o sentido didáctico da sua exposição. Assim, não se trata tanto de construir uma “tese” mais ou menos abstracta, mas sim de seguir a saga de Hirut, desmontando as tensões e contradições que a pontuam. Nesta perspectiva, é fundamental a personagem Meaza Ashenafi (Meron Getnet), advogada, militante dos direitos humanos, que defende Hirut em tribunal.

Encontramos, assim, uma pulsão realista que não é estranha a uma lógica de retorno ao real que, nos mais diversos contextos, tem tentado contrariar as visões mais ou menos voluntaristas, tantas vezes favorecidas por clichés dramáticos enraizados no espaço televisivo — “Difret” é um filme que confere renovado valor ao espírito social do cinema, dimensão que levou Angelina Jolie [video: depoimento] a apoiar a sua produção (surge, aliás, no genérico com o estatuto de produtora executiva).
Distinguido, em 2014, com os prémios do público nos festivais de Sundance e Berlim (secção: “Panorama”), “Difret” é um objecto frágil, comercialmente desamparado, que, em todo o caso, consegue chegar agora às salas portuguesas. Mais do que nunca, a sua estreia pode e deve ser celebrada como modelo de uma diversificação que enriquece e valoriza o próprio mercado.
Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

 

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