3 de Maio, 19h: “A Propósito de Llewyn Davis”

 

Llewyn Davis blog

RealizaçãoEthan CoenJoel Coen

IntérpretesOscar IsaacCarey MulliganJohn Goodman, Justin Timberlake

FRA/EUA, 2013, 105 ‘  M/12

1961. Llewyn Davis é um cantor de música folk que ambiciona dar-se a conhecer ao mundo. Com o Inverno a chegar a Nova Iorque, vagueia por Greenwich Village de guitarra na mão, em busca da grande oportunidade da sua vida. Até hoje, apenas pôde contar com a ajuda dos amigos, que lhe foram dando um lugar para dormir nas noites mais frias e inventando formas de o ajudar a sobreviver ao dia-a-dia. Apesar de nada parecer correr como o esperado, Llewyn tem agora uma última esperança: ir a Chicago para uma audição com o influente agente musical Bud Grossman.
Escrito e realizado pela dupla Joel e Ethan Coen (“Fargo”, “Este País Não é Para Velhos”, “Indomável”), o filme é vagamente inspirado na vida de Dave van Ronk, cantor folk norte-americano que liderou o cenário musical de Greenwich Village durante a década de 1960 e que inspirou outros grandes ícones, como Bob Dylan, Phil Ochs ou Joni Mitchell. Teve a sua estreia mundial no Festival de Cannes, a 19 de Maio de 2013, onde recebeu o Grande Prémio do Júri. Nos principais papéis surgem os actores Oscar Isaac, Carey Mulligan, John Goodman e Justin Timberlake. PÚBLICO

Um filme realmente com música

Não é exactamente um musical, mas sim um filme em que a música, mais precisamente as canções folk, são essenciais na definição de personagens e ambientes: com “A Propósito de Llewyn Davis”, os irmãos Coen revisitam Greenwich Village no começo da década de 60.

Há muito que o género musical constitui uma miragem nostálgica, de vez em quando actualizada por remakes nem sempre muito conseguidas (lembremos o incómodo de ver um elenco de luxo à deriva no patético “Nine”, de Rob Marshall). Pior do que isso: são raríssimos os filmes realmente com música, quero eu dizer, em que a matéria musical não é um adorno, mas um elemento fulcral da dramaturgia.

“A Propósito de Llewyn Davis”, de Joel e Ethan Coen, consegue essa maravilha de integrar uma colecção invulgar de canções folk, não como “pano de fundo” sonoro, antes na qualidade de elementos irredutíveis dos gestos, emoções e pensamentos das personagens. Certamente não por acaso, os irmãos Coen tratam o ambiente da folk, em Greenwich Village, no começo da década de 60, com uma concisão obsessiva, a ponto de, por regra, nos fazerem ouvir as canções na íntegra.
Llewyn Davis é uma personagem dilacerada, mesmo na bizarra ironia com que, por vezes, tenta recobrir as suas atribulações  — e que espantoso actor se revela Oscar Isaac, representando essa desconcertante indiferença como uma forma peculiar de sofrimento. Na sua condição de falhado compulsivo, Llewyn condensa uma componente visceral do universo dos Coen: através de uma época que estava “à espera” de Bob Dylan (veja-se o fim do filme), o American Dream surge como a utopia sempre presente, mas já sem possibilidade de inscrição num quotidiano de muitos desequilíbrios.
Além do mais, este é um filme em que, por assim dizer, nenhuma personagem, mesmo a de mais breve presença no ecrã, nos deixa a sensação de ser um secundário dispensável. Nada disso: cada ser humano emerge, aqui, como uma diferença de tom ou ritmo (a sugestão musical é inevitável), para mais consubstanciada através de actores tão talentosos como Carey Mulligan, John Goodman, Justin Timberlake, F. Murray Abraham ou Adam Driver.
Dir-se-ia que, com o passar do tempo, os Coen conseguiram libertar-se de uma certa ostentação formalista que, a meu ver, sempre limitou os seus projectos, mesmo os mais originais ou ousados. Filmes como “Destruir Depois de Ler” (2008), “Um Homem Sério” (2009) e “Indomável” (2010), reinventando de forma perversa os valores clássicos da comédia, da crónica social e do western, respectivamente, eram o sinal de uma contundente maturidade — creio que “A Propósito de Llewyn Davis” é a sua apoteose.
João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

 

 

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