15 de Março, 19h: “Tangerinas”

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RealizaçãoZaza Urushadze

IntérpretesLembit UlfsakElmo NüganenGiorgi Nakashidz

Geórgia/Estónia, 2013, 87′, M/12

1992. As tensões étnicas entre abecásios e georgianos cresceram com os movimentos de independência da República da Geórgia. A guerra civil matou milhares de pessoas e a maioria dos sobreviventes partiu. Margus e Ivo, pelo contrário, decidiram ficar. O primeiro permanece para cuidar da sua plantação de tangerinas, o segundo decide não abandonar o único lar que conheceu. Certo dia, são apanhados no fogo cruzado entre abecásios e georgianos. No conflito, apenas dois soldados sobrevivem, um de cada facção. Decididos a não os abandonar à sua sorte, Margus e Ivo decidem levá-los para casa e cuidar dos seus ferimentos. Apesar de se detestarem e prometerem matar-se na primeira oportunidade, Ivo consegue uma trégua temporária. Mas à medida que se sentem recuperar, os dois inimigos começam a perceber a humanidade que existe no outro e a apaziguar a raiva que sentem dentro de si…
Com assinatura do realizador e argumentista georgiano Zaza Urushadze, “Tangerinas” teve uma nomeação para o Globo de Ouro e para o Óscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro (Estónia). PÚBLICO

Foi a primeira produção da Estónia a obter uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro — “Tangerinas” consegue a proeza de combinar os sinais de um realismo cru com as componentes de uma fábula política.

Dois homens querem garantir que as suas tangerinas serão colhidas no momento certo… Questão aparentemente rotineira e, por assim dizer, meramente agrícola. Acontece que os dois homens são estonianos e o seu pomar fica na Geórgia. Mais do que isso: tudo acontece num momento (1992-93) em que o país está abalado por violentos conflitos internos, desencadeados pelas discordâncias em torno de uma possível independência da região da Abkhazia.

Dir-se-ia que os dois protagonistas do filme “Tangerinas” estão no lugar errado — e na pior das circunstâncias. De tal modo que, depois de a sua propriedade servir de cenário a uma brutal troca de tiros, vão ver a sua casa transformada numa espécie de insólito asilo para dois homens que combatem para facções rivais… De tal modo que se assiste a um verdadeiro teatro político em que a fronteira entre a tolerância e a mútua destruição é mais ténue do que nunca.

Escrito e dirigido por Zaza Urushadze, “Tangerinas” resulta um caso exemplar e, de alguma maneira, didáctico de narrativa histórica. Por um lado, somos confrontados com um realismo descarnado em que a possibilidade de aniquilamento se pressente nos sinais mais discretos; por outro lado, a pouco e pouco, vai-se consolidando uma verdadeira fábula política — trata-se de saber até que ponto o reconhecimento do outro existe (ou não) para afirmar os valores mais básicos da convivência humana e humanista.

Para a história, “Tangerinas” ficou como a primeira produção do cinema da Estónia a obter, no princípio de 2015, uma nomeação para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Não ganhou (o polaco “Ida” foi o vencedor), mas é um facto que a sua simples presença nos prémios da Academia de Hollywood lhe conferiu uma merecida dimensão internacional — a sua estreia nas salas portuguesas é também um efeito dessa dimensão.
Crítica de João Lopes

 

 

 

 

 

 

 

 

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