29 de Dezembro às 15h e 19h: “Pamplinas Maquinista”

 

The general

Realização e argumento: Clyde Bruckman | Buster Keaton

Intérpretes: Buster KeatonMarion MackGlen CavenderJim Farley

EUA, 1926, 67′, M/4

No jornal Público a 6 de Abril de 1995 Jorge Silva Melo publicava a crónica que transcrevemos de seguida. Hoje em dia, vinte anos depois, para quem não tem o exemplar do jornal, pode ler essa crónica no livro Século Passado editado pela Cotovia. Mas se passaram vinte anos, parece que o que Jorge Silva Melo escreveu numa noite de insónia sobre The General (Pamplinas Maquinista, 1927) de Buster Keaton continua igualmente premente – a mesma sensação de que se desistiu de procurar uma ficção para o nosso tempo.  (Ricardo Vieira Lisboa)

Escrevo já passa das onze da noite, hora de dormir fundo cá para mim (“À noite quem trabalha são as lâmpadas!” desabafou um motorista de taxi ao Alberto Seixas Santos e raras vezes ouvi sentença mais certeira). Mas estive a ver Pamplinas Maquinista de Buster Keaton – um dos meus filmes preferidos de um dos meu autores preferidos – e, olhem, perdi o sono. Tinha visto o filme há uns três anos e parecera-me igual ao que sempre vira. E, como sempre, tinha rido muito. Mas, hoje, lavei a louça, sentei-me a ver e não ri nada, é que nem uma só vez.

Terá Pamplinas Maquinista morrido como vão morrendo os poemas (ler Valéry sobre La Fontaine)? Que ideia, vi o filme de ponta a ponta, e a sua livre invenção, a sua dinâmica frenética tocou-me fundo, muito fundo, só que não ri.

Eu mudei, com certeza, nestes tês desamparados anos, mas juro que o filme também. Esta ode à velocidade, esta epopeia histérica de um homenzinho que também tinha dois amores – a locomotiva e a namorada – passou a ser agora um insustentável pesadelo. E o que eu hoje vi foi um filme de horror.

E vi Keaton hoje feito irmão de Kafka, aturdido na velocidade (vertigem, voracidade da máquina) como K. se perde nos corredores da burocracia ou na barriga para o ar do escaravelho. Sempre vira o filme como o apogeu do burlesco dos filhos de Mack Sennett, mas hoje estive muito mais perto do nó na garganta de Hitchcock [a pensar no The Wrong Man (Falso Culpado, 1956)]. E tive medo.

Claro que me emocionei com as mesmas coisas. Com a lindíssima partida do comboio, por exemplo, ele sentado na locomotiva e as alavancas a levantarem-no, maravilhosa poesia. Mas a angústia, isto que hoje me faz estar acordado, não querer ir dormir, a angústia hoje era a dos sonhos, daqueles pesadelos em que tudo corre e nós parados no mesmo local, daqueles pesadelos em que é preciso cumprir uma qualquer coisa e não, as pernas não chegam e transpira-se tanto. Mas já não rio disso, agora? Há três anos ria. E muito.

Talvez porque o conflito do homem com o progresso já não é o que era. Keaton dizia “à medida que o progresso dá um passo, Karl Marx perde a razão que tinha”. (É verdade: Keaton lia Karl Marx.) Mas “o progresso” estará ainda a dar passos? Foz Côa – não é? – de que lado está o “progresso”: dos que querem a barragem ou dos que não querem perder o “vale sagrado”? E de que serve correr, correr tanto para parar uma locomotiva? Em 1927 (ano da rodagem), havia a namorada que, no final do trajecto, esperava Keaton, como Eva Marie Saint mudará de beliche no final de North by Northwest (Intriga Internacional, 1959) ou Marika Green irá visitar o Pickpocket (O Carteirista, 1959) de Bresson (os grandes filmes sobre as linhas tortas sobre as quais direito escreve Deus). Tudo fazia sentido e o sofrimento (é do mais nocturno sofrimento que trata Pamplinas Maquinista) “valia a pena”, as almas não eram pequenas, os comboios andavam para a frente, o futuro existia.

Mas Kafka, esse Pamplinas de Praga, também não via nada ao fim dos túneis, nada depois de se alcançar a meta com os pés em chaga das maratonas – e nem sequer chegou ao fim de alguns dos seus belos romances. (Se pudesse, transcrevia esse extraordinário textinho dele sobre Prometeu, bem podia ser um texto sobre este Pamplinas a correr sem fim e já sem sequer ter uma águia a comer-lhe a barriga.) Kafka ilumina-me hoje Keaton. (Há uns anos, era o contrário.)

É porque, em 1995, a voraz velocidade da locomotiva e do filme parecem marcar passo à espera de uma catástrofe que só Deus sabe, e se calhar é uma não-catástrofe como no filme de Beckett com Keaton? Ou porque vemos agora que, em 1927, para Keaton, como para Karl Valentin (que, mais ou menos nesse ano, o disse) “antigamente o futuro era muito melhor”?

Ou foi só porque me pus a pensar que, em 1927, o cinema de Keaton era irmão do que de mais interessante se fazia nas artes todas, irmão de Malevitch e compondo os planos com El Lissitzky, irmão de Léger e das suas superfícies sem profundidade, das suas máquinas, irmão da espanhola Generación de 27, esses poetas audazes que tanta poesia a Keaton dedicaram, irmão de Moholy-Nagy e de Oskar Schlemer. Ah, pois foi.

Em 27, que foi quando Keaton saltava montes e vales neste filme sem psicologia nem argumento, sem personagens redondas nem enredo, andavam os jovens poetas Luis Cernuda, Garcia Lorca, Rafael Alberti, Pedro Salinas a homenagear Góngora, o maior dos poetas, o da pura superfície, o poeta da pura libedade que a Contra-Reforma e o puritanismo da autocrática Castela haviam de esmagar. E agora, em 1995, talvez possamos perceber o que perdemos no cinema que foi avançando para o “relevo romanesco”, atropelando esses gongóricos cineastas das lisas superfícies, Keaton, depois Straub ou Godard [Soigne ta droite (Atenção à Direita, 1987), o mais keatoniano dos testamentos].

Com o sonoro, o cinema de Keaton é um dos primeiros a morrer, e com ele a possibilidade de um cinema do movimento, de uma narrativa não psicológica, a possibilidade de inventarmos personagens do nosso tempo, colagens da pura superfícies (Malevitch, Góngora, Godard). A narrativa irá normalizar-se, as personagens arrendondar-se, o drama burguês modelar a ficção, o sentimentalismo reconquistar a “poesia”, a acção vai triturar o “movimento”, o espectáculo engolir o “teatro”. O romanesco europeu do mais aveludado dos academismos irá mesmo conquistar a China, essa terra da perfeita superfície poética, que agora se especializa em vender sagas fílmicas como alguns romances esquecidos.

Pois é, ando a gostar cada vez menos deste século. Começou com gente divertida a pôr bigodes na Gioconda, acaba com gente cientificamente pendurada em andaimes a repôr cores autênticas pagas por bancos, fundações, europas. (Ah, e eu que prefiro os bigodes!)

Fiquei tristonho, esta noite, ao ver o Pamplinas Maquinista. É que, em 1927, os comboios andavam imparavelmente para a frente. (Não deu bom resultado, eu sei, Berlim, 1933.)

Mas hoje em dia vejo tanta gente a desistir de procurar uma ficção para o nosso tempo, tanta gente a conformar-se com a normalização das personagens, dos corpos, da planificação, da volumetria, do claro-escuro, dos instrumentos reconstruídos tal qual, tanta gente a passar-se da criação ao restauro, da arte ao património.

O cinema já foi uma arte ao lado das outras, avançando. E agora entrou na solidão dos eremitas, de que o exílio de Godard em Rolle, Paulo Rocha nas Avenidas Novas ou os Straub em Roma serão o adiado sintoma.

Soledades, escreveu Luis de Góngora e começam assim:

Pasos de un peregrino son errantes

cuantos me dictó versos dulce musa:

en soledade confusa

perdidos unos, otros inspirados.

Jorge Silva Melo

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