9, 10 e 11 de Dezembro, 19h: As Mil e Uma Noites, de Miguel Gomes – Vol I, II e III

Vol 1Realização: Miguel Gomes

Intérpretes:

Vol IMiguel GomesCarloto CottaAdriano LuzRogério SamoraMaria Rueff

Vol IICrista AlfaiateJoão Pedro BénardIsabel Muñoz Cardoso

Vol IIICrista AlfaiateBernardo AlvesChico ChapasCarloto Cotta

POR/FRA/ALE/SUI, 2015; 125′, 131′, 125′; M/12

Encadeando histórias que vão das manifestações de rua ao silêncio dos estaleiros de Viana do Castelo, passando pelo desespero de um desempregado, pelas manobras do político euro(s)centrado, pelos incêndios de Verão ou mesmo pelo tradicional banho de Ano Novo, é traçado um retrato do Portugal real – mesmo que essa realidade tome por vezes uma aparência absurda e fantasiosa – que pulsa sob o jugo da austeridade.

Realizado por Miguel Gomes (“Aquele Querido Mês de Agosto”, “Tabu”), “O Inquieto” é o primeiro tomo de uma trilogia que se completa com “O Desolado” e “O Encantado”. A colecção toma o título – e a estrutura – dos famosos contos árabes clássicos em que a princesa Xerazade oferecia todos os dias, em troca da sua vida, uma história nova ao rei Shahriar. Todos os volumes d'”As Mil e Uma Noites” de Miguel Gomes são também narrados por uma Xerazade e começam por parafrasear a contadora de histórias original: “Escuta, ó venturoso rei, fui sabedora de que, num triste país entre os países…” As filmagens do tríptico decorreram ao longo de um ano, começando em Agosto de 2013, a partir de um guião em construção que tinha como base histórias recolhidas na sociedade portuguesa contemporânea por um grupo de jornalistas: Maria José Oliveira, Rita Ferreira e João Dias. O realizador descreve o projecto como um misto de “ficção e retrato social, tapetes voadores e greves”, lembrando que “imaginário e realidade nunca puderam viver um sem o outro (e Xerazade bem o sabe)”.
Desde a sua estreia na Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes, onde foi calorosamente recebido, “O Inquieto” percorreu os grandes festivais de cinema internacionais, arrecadando distinções como o Prémio da Crítica Internacional (Fipresci) ou o prémio máximo da selecção oficial do Festival de Cinema de Sydney. PÚBLICO

Volume 1, O Inquieto
No qual Xerazade dá conta das inquietantes maldições que se abatem sobre o país: “Oh venturoso Rei, fui sabedora de que num triste país entre os países, onde se sonha com sereias e baleias, o desemprego propaga-se. Em certos lugares, a floresta arde noite dentro apesar da chuva que cai; homens e mulheres anseiam por lançarem-se ao mar em pleno Inverno. Por vezes há animais que falam embora seja improvável que os escutem. Neste pais onde as coisas não são o que aparentam ser, os homens do poder passeiam-se em camelos e escondem uma permanente e vergonhosa ereção; aguardam pelo momento da colecta de impostos para poderem pagar a um certo feiticeiro que…”. E vendo despontar a manhã, Xerazade calou-se.

Volume 2, O Desolado
No qual Xerazade narra como a desolação invadiu os homens: “Oh venturoso Rei, fui sabedora de que uma juíza aflita chorará em lugar de ditar a sua sentença, na noite de três luares. Um assassino em fuga vagueará pelas terras interiores durante mais de quarenta dias e teletransportar-se-à para fugir à Guarda, sonhando com putas e perdizes. Lembrando-se de uma oliveira milenar, uma vaca ferida dirá o que tiver a dizer e que é bem triste! Moradores de um prédio dos subúrbio salvarão papagaios e mijarão em elevadores, rodeados por mortos e fantasmas; mas também por um cão que…”. E vendo despontar a manhã, Xerazade calou-se.

Volume 3, O Encantado
No qual Xerazade duvida que ainda consiga contar histórias que agradem ao Rei, dado que o que tem para contar pesa três mil toneladas. Por isso foge do palácio e percorre o Reino em busca de prazer e encantamento. O seu pai, o Grão-Vizir marca encontro com ela na roda gigante, e Xerazade retoma a narração: “Oh venturoso Rei, fui sabedora que em antigos bairros de lata de Lisboa, existia uma comunidade de homens enfeitiçados que, com rigor e paixão, se dedicava a ensinar pássaros a cantar…”.
E vendo despontar a manhã, Xerazade calou-se.

Que significa filmar o presente de um país?

Como filmar o presente de Portugal?
Quais as imagens dominantes do nosso presente e como escapar aos seus efeitos de normalização de olhares e pensamentos?
Provavelmente, estas são interrogações que gostaríamos de encontrar formuladas em muitos filmes portugueses… Em qualquer caso, “As Mil e uma Noites”, de Miguel Gomes, é um projecto que as integra, discute e reformula, num desafio ao mesmo tempo temático e narrativo que, finalmente, chega às salas.
É, desde logo, um desafio aos hábitos de consumo. Estamos, de facto, perante um filme em três partes que se propõe funcionar num tempo mais ou menos dilatado (a segunda parte chegará a 24 de Setembro; a terceira a 1 de Outubro). O primeiro volume agora estreado — com o subtítulo “O Inquieto” — funciona como um leque de experiências apostado em sublinhar as tensões inerentes à ideia central do projecto: procurar o realismo das crises sociais através de uma deambulação pelos labirintos das Mil e uma Noites e das histórias de Xerazade (interpretada por Crista Alfaiate).
Que país é este, então? Digamos que se trata de um território, entre o vivido e o imaginado, no qual descobrimos os dramas do desemprego, mas também as atribulações de um exterimador de vespas… o ritual do primeiro banho do ano, mas também o poder encantatório das histórias de Xerazade…
É sintomático que, a certa altura, logo na abertura deste vol. 1, Miguel Gomes se encene, ele próprio, como um cineasta-em-fuga… Não quer, não pode ou não sabe fazer o seu filme e, por isso, tenta escapar à sua própria equipa — são momentos saborosamente burlescos que, em última instância, nos dizem que não há nada de automático na decisão de filmar/tocar as feridas mais fundas da nossa tão propalada “crise”.
Daí a singular experiência que “As Mil e uma Noites” envolve, desenvolve e partilha. Não estamos, assim, nem no território audiovisual das notícias, nem no país formatado das telenovelas. Nada disso: esta é uma viagem cinematográfica capaz de questionar, de uma só vez, as fronteiras do nosso real e o labor cinematográfico para as desenhar, redesenhar e habitar. Cinema nosso, visceral.
João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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