13 de Outubro, 19h: “Gett – O Processo de Viviane Amsalem”

Gett Realização: Ronit Elkabetz, Shlomi Elkabetz

Intérpretes: Ronit Elkabetz, Simon Abkarian, Gabi Amrani

Israel/ALE/FRA, 2014, 115 ‘  M/12

Há já vários anos que Viviane (Ronit Elkabetz) abandonou o lar. Agora, quer oficializar a separação, de modo a deixar de ser marginalizada pela sociedade conservadora em que vive. Em Israel, os matrimónios civis não existem e ainda é aplicada uma lei religiosa ancestral que estipula que só o marido ou o tribunal rabínico pode conceder o divórcio. Apesar disso, Viviane quer poder contar com o sistema judicial para obter aquilo que considera ser um direito seu: um divórcio legal. O marido (Simon Abkarian), mesmo ciente de que nunca terá o seu amor e que aquela união não faz sentido para nenhum dos dois, recusa-se terminantemente a deixá-la seguir a sua vida. Apesar das dificuldades, ela está determinada a conquistar os seus direitos e a mudar mentalidades, independentemente do preço que tenha de pagar por essa decisão…

 

Um homem, uma mulher e um tribunal

Depois da sua apresentação na Mostra de Cinema e Cultura Judaica, “Gett: O Processo de Viviane Amsalem” chega às salas — o espantoso retrato íntimo de um divórcio que acabou por se transformar no centro de um debate na sociedade israelita.

Há qualquer coisa de simultaneamente enigmático e deslumbrante quando um filme consegue colocar em cena uma particularíssima situação, enraizada num universo cultural específico, simbolicamente muito distante do nosso, gerando um efeito universal e universalista. “Gett: O Processo de Viviane Amsalem” é um desses filmes — o relato minucioso, minuciosamente obsessivo, de um caso de divórcio em Israel, capaz de desencadear ondas de choque em qualquer espectador de sensibilidade realmente disponível (o filme chega às salas depois da sua passagem na Judaica).

A situação envolve um inusitado dramatismo. Tudo se passa em torno de Viviane Amsalem e do marido Elisha. De facto, eles já não vivem juntos há três anos — e durante esse período, a mulher tem insistido para que o marido lhe conceda o divórcio. E é disso mesmo que se trata: sem a concessão do homem, o divórcio não pode ser decretado, uma vez que a tradição (legislativa e religiosa) confere ao marido o poder único de aceitar ou não a consumação do divórcio.

Há outra maneira de descrever esta dinâmica: tudo se concentra no espaço do Tribunal Rabínico, a ponto de “Gett” ser um filme que vive a partir de uma radical teatralidade. Neste sentido: no interior daquelas quatro paredes, desenvolve-se uma acção em que o peso da tradição — e das palavras que a sustentam — vai ser posto à prova pelo confronto desigual entre a vontade individual da mulher e o poder simbólico do homem. Em última instância, na austeridade formal de “Gett”, assistimos à luta de Viviane para que as suas palavras possam ser postas em pé de igualdade com a lei sustentada pelo marido.

E não é todos os dias, de facto, que deparamos com um filme capaz de colocar em cena uma situação deste teor, evitando qualquer facilidade descritiva ou mesmo panfletária, porventura “feminista”. A realização dos irmãos Ronit Elkabetz e Shlomi Elkabetz — sendo também Ronit Elkabetz a notável intérprete de Viviane — sabe estar atenta às mais delicadas manifestações das emoções humanas, ao mesmo tempo expondo o modo como um “banal” divórcio pode envolver o peso de toda uma imensa herança histórica. Por alguma razão, “Gett: O Processo de Viviane Amsalem” se transformou num verdadeiro fenómeno de debate no interior da sociedade israelita.

Crítica de João Lopes, in CineMax

 

 

 

 

 

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