4 de Agosto, 19h: “Johnny Guitar”

 

Johnny Guitar

Realização: Nicholas Ray

IntérpretesJoan CrawfordSterling Hayden , Mercedes McCambridgeWard BondErnest BorgnineJohn Carradine 

EUA, 1954, Cores, 110 ‘  M/12

A utilização do termo western para descrever Johnny Guitar parece desadequada, como aliás tudo parece desadequado em Johnny Guitar. Simplesmente porque é redutor chamar-lhe um western quando contém em si quase todas as tipologias de filme, pelo que o melhor é esquecer as etiquetas para ver Vienna, a protagonista, e o seu pistoleiro. Com Johnny Guitar  (ou melhor, Johnny Logan), forma par amoroso aparentemente impossível e rege o saloon homónimo com mão de ferro, tentado manter afastados os habitantes conservadores de conservadora cidade na fronteira do Arizona.
Verdadeira self made woman, não é totalmente esclarecido em que medida ou em que bases é feita a construção sofrida do seu enclave, embora Vienna dê a entender que foi tarefa árdua. Instalada em ambiente hostil, o seu saloon não tem enquadramento físico explícito (que fica em segundo plano), como quase todas as sequências, não sendo, contudo, necessário que esse enquadramento seja feito. Apenas sabemos que àquela cidade irá, um dia, chegar o comboio e que será o ponto de viragem para todos – apenas Vienna o deseja, os restantes habitantes e, sobretudo, a sua nemesis Emma Small tentam a todo o custo afastar a vinda da civilização.

Interessante ainda que no cerne de Johnny Guitar não esteja quem dá nome ao filme mas sim duas personagens femininas. A importância concedida a Johnny Guitar no título, o pistoleiro que substituiu as armas pela guitarra que transporta, será perceptível à medida que vamos conhecendo o seu passado com Vienna. Ao contrário do que se espera num western clássico, é uma mulher que se encontra no centro de todos os acontecimentos, assumindo inclusivamente uma posição preponderante e dominante logo nos primeiros minutos de filme: Vienna assoma do topo das escadas, dirigindo-se a quem a interpela sempre naquele local, o segundo andar do saloon. Raramente surge armada e refere que não acredita na força das armas mas a personalidade de tal modo forte faz com que esse pormenor seja relegado para segundo plano. Vienna não usa armas nem anda a cavalo, assim como também não é a típica meretriz – não sendo, claramente, o estereótipo da mãe de família que commumente surge neste tipo de filmes.
Quem é Vienna? Ou, melhor dizendo, o que é Vienna? Uma mulher que subiu a pulso na vida, está à frente de um saloon/casa de jogo mas não acredita na sorte. Repetidas vezes pede apenas para ouvir a roleta unicamente pelo som que emite. É também uma mulher que sofre por amor e, embora possa parecer estranho, é essa ligação que representa a grande razão de ser de Johnny Guitar. Aliás, são as várias ligações amorosas as causadoras de sentimentos de vingança e ódio presentes em Dancin’ Kid (também pistoleiro e gangster) e Emma Small, as personagens despeitadas – o primeiro por nunca ter conseguido que Vienna o amasse verdadeiramente, a segunda pelos ciúmes dessa ligação (ainda que o que o liga a Vienna seja superficial e passageiro).
Na base, são duas mulheres em confronto e é em torno de ambas que as forças vitais do filme se movimentarão. Emma Small (pequena em apelido e literalmente) deixará para trás o luto pelo irmão acidental e misteriosamente assassinado para assumirem definitivo o seu papel vingador ainda que não justiceiro porque sem fundamento objectivo, quer destruir Vienna e isso é quanto basta. O seu carácter mesquinho e pequeno fica bem representado no momento do discurso às “tropas” que perseguem Vienna e Johnny Guitar (em fuga após a tentativa de linchamento público perpetrada sobre Vienna), quando o seu rosto surge em grande plano mas parcialmente obscurecido pela sombra da árvore sob a qual se posta.
A oposição entre Vienna e Emma é finalmente assumida quando a primeira surge vestida totalmente de branco, tornando-se claro o posicionamento de ambas, dado que Emma envergará até ao final o vestido de luto – que, sem o véu, toma aparência religiosa no sentido fanático. Branco e preto em oposição, o bem e o mal delineados na totalidade e sem zonas cinzentas.
Quando o saloon de Vienna é alvo de fogo posto, torna-se quase impossível não pensar na Segunda Grande Guerra, quando finalmente Viena de Áustria sucumbe às mãos dos aliados e é irmãmente dividida pelos mesmos. À altura das filmagens de Johnny Guitar, estava-se em plena Guerra Fria e a todo o vapor pela era McCarthy, de caça às bruxas – todos os simpatizantes ou ligados de alguma forma ao Partido Comunista eram perseguidos. É por esse motivo que ainda hoje um dos grandes mistérios que envolve Johnny Guitar se prende com o verdadeiro guionista: reza a lenda que o nome que vem nos créditos apenas lá se encontra para encobrir um dos perseguidos da grande caça às bruxas, que não pôde tornar o seu nome público.
Em Johnny Guitar existem inúmeros géneros ou até inúmeros filmes. Em primeiro plano, um triângulo amoroso pouco intenso – Joan Crawford na sua frieza típica confere um afastamento a Vienna que não permite que as emoções transpareçam. Em segundo plano, um caso complicado de despeito, o de Emma, apaixonada por Dancin’ Kid, querendo contudo vê-lo morto juntamente com Vienna, a eterna rival.
Trata-se de um mundo visto de modo maniqueísta, preto no branco, aparentemente simplista nesse jogo em que se move mas complexo porque baseado em emoções. O duelo que opõe as duas mulheres é um duelo sem armas, apesar de, a espaços, armas sejam utilizadas – mas estritamente quando necessário. Ironicamente, Johnny Guitar é um gritante filme de gritantes cores (e o primeiro a cores do realizador Nicholas Ray), fazendo quase esquecer as oposições simplistas, saturado mas trazendo para primeiro plano a inesquecível personalidade de Joan Crawford – também inesquecível a imagem de marca de lábios intencionalmente pintados de vermelho e fora das linhas naturais. O extravagante uso da cor não faz esquecer os cenários inverosímeis e infantilmente desenhados, contudo ajuda a mitigar alguns dos desvios pelos quais é pouco provável que o olhar não siga.
Johnny Guitar não representa o típico western em nenhum aspecto mas isso também é perceptível num contexto de renovação linguística por que este género cinematográfico passava à época. A introdução de personagens centrais femininos, longe dos estereótipos masculinos e da linguagem clássica, os laivos de musical – visíveis no tema final, interpretado por Peggy Lee -, a secundarização das armas com recurso a mais subtis mecanismos de vingança (apesar de se poder assistir com clareza à morte de um personagem com um tiro na cabeça), um certo imobilismo dos personagens (que circulam em espaços restritos de acção) levam para longe da mente aquilo que se entende por western na acepção mais pura do género.
Vienna constrói o saloon incrustado na rocha, base sólida, e aguarda pacientemente a chegada do movimento, não se trata aqui de longas perseguições no deserto, resgatar o território ou chacinar nativos americanos. Vienna permanece num ponto fixo e a busca vem até si, por força de carácter ou do decorrer natural dos eventos.
A roleta da sorte pára no momento em que o confronto, a tensão, estão prestes a estalar mas permanece em funcionamento ao longo de Johnny Guitar, não só de meios próprios e concretos vive uma mulher.

 

 

 

 

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