30 de Junho às 19h: “Yvone Kane”

Yvone Kane

Realizadora: Margarida Cardoso

117’| M/12 | Fic | Moç/Por/Bra | 2014

Em Kuxa Kanema – o nascimento do cinema (2003) Margarida Cardoso foi a Moçambique descobrir como o projecto Kuxa Kanema de Samora Machel conseguiu (ou não) transmitir a ideia de uma nação através do cinema, num jornal semanal propagandístico que circulava semanalmente pelo país em 16mm tentando construir uma ideia de Moçambique pela ideologia e pelo terror da guerra que se iniciava com a África do Sul e a Rodésia. Aliás, após a revolução uma das primeiras medidas do novo governo foi exactamente a fundação do instituto do cinema moçambicano por Machel saber da importância desse meio na unificação do país. 11 anos depois Margarida Cardoso regressa a Moçambique [acompanhada de Beatriz Batarda também de regresso depois de A Costa dos Murmúrios (2004) – no reencontro das duas mulheres] de novo através do cinema, naquilo que ele melhor consegue produzir: os mitos. Yvone Kane (2014) é sobre isso mesmo, sobre uma procura pela origem do mito, ou melhor, pela figura que o mito esconde – a pessoa que foi, para lá da imagem que a película dela fixou.

A estratégia da realizadora é tradicional, uma jornalista com necessidade de abandonar o seu quotidiano por causa de um trauma (filmado com a maior da suavidades, é raro ver-se o horror de forma tão contemplativa) embarca numa investigação sobre a história “verdadeira” da morte de Yvone Kane, uma activista da independência moçambicana que terá sido assassinada em estranhas circunstâncias. Mas se o facto de se tratar de uma mulher activista não é de somenos, o que realmente interessa a Margarida Cardoso parece ser a forma como a história é reescrita ao sabor da vontade dos vitoriosos. E de como todos os outros ficam perdidos nos confins do arquivo, no meio da papelada, apenas existentes como vagas figuras intocáveis – arquétipos de si mesmos. É sobre a passagem da memória ao slogan e de como se pode (e deve)  percorrer o caminho inverso que Margarida Cardoso, através de Batarda, se detém. Esse percurso é feito, nem de propósito, através dos arquivos do referido e agora desaparecido instituto moçambicano de cinema (destruído num incêndio), arquivo esse que Batarda investiga frame frame na moviola (qual polícia de investigação criminal ou académico dos estudos fílmicos) ou na sala de projecção lado a lado com os testemunhos dos que conheceram essa tal Kane (tão real como o botão de rosa do outro cidadão), que a acompanharam pela selva em projectos educativos, que com ela privaram ou que com ela tentaram combater a corrupção do tráfico de armas. E é nesses momentos em que a jornalista entrevista que o filme se sente mais próximo, mais vivo. Quando a câmara filma esses momentos de conversa entre Batarda e os vários homens e mulheres que a ajudam a formar o puzzle que foi Yvone Kane sentimos o desejo documentarista, a vontade de ouvir, de registar. Esses momentos são raros, Margarida Cardoso opta quase sempre por outros caminhos, por outros enquadramentos que nos colocam numa posição sempre intermédia entre os personagens – uma estratégia de distanciação que funciona aqui não só como respeito pelo luto (feito ou previsto) dos personagens, mas também como posição simbólica da distância entre Portugal e Moçambique e entre o registo da câmara e o real.

Margarida Cardoso filma assim sempre (ou quase) no entre. No encontro entre dois personagens a câmara filma muitas vezes o reflexo de uma (num espelho, num vidro, numa membrana dorskyana) e a sombra da outra, isto é, filma aquilo que separa as personagens, mas que paradoxalmente as junta no ecrã. É esse o devir da câmara em Yvone Kaneaquele que filma a distância num só enquadramento, que encontra o afastamento na união, que no fundo percebe o cinema como o espaço de congregação dos múltiplos “reais” e os faz confluir. Assim a câmara filma Gonçalo Waddington e Batarda no encontro de uma janela (cada um na sua mágoa, mas os dois juntos mesmo assim) num dos primeiros planos, estratégia que seguirá consistentemente ao longo de todo o filme.

Mas se essa é a estratégia com a personagem de Batarda e tudo e todos os que a rodeiam, a personagem de Irene Ravache funciona em sentido oposto, o país que é o seu já não a quer, as pessoas que sempre amou naquele mundo afastam-na e abandonam-na. E por isso mesmo a câmara nunca a filma em encantadoras sobreposições luminosas, pelo contrário, com ele estamos no território do campo/contra-campo. A esse propósito há uma sequência que exemplifica exactamente esta ideia: Jaime é o filho adoptivo de Ravache que a repudia e lhe desaparece, os dois encontram-se através das ruínas de um edifício onde se inscreveu um rosto de Yvone Kane e outro de Che Guevara, de um lado Jaime, do outro Ravache, tenta-se uma comunicação, mas já não é possível porque o que outrora foi o sonho de uma unificação agora são apenas as ruínas que afastam o passado idílico do presente frustrado. Assim Yvone Kane faz-se deste vai e vem entre a proximidade dos testemunhos, a impossibilidade de comunicação entre gerações, e a utopia de uma câmara que tenta (talvez não em vão) fundir estas distâncias num quadro só, num ecrã, numa película (num ficheiro…). Que ousa fixar a sobreposição de relatos, de olhares, de rostos, do académico e do narrativo, do artístico e do histórico.

Yvone Kane começa num cemitério e termina num enterro (literal e simbólico), no entremeio temos todo o processo do desenterrar (também literal e também simbólico) do que aconteceu à activista para lá da bonita história de mártir que dela se escreveu. Desenterrar para enterrar, ou melhor, partir para reconstruir, este é o trabalho do historiador, mas é também o papel do cineasta. Margarida Cardoso faz literal e simbolicamente (d)os dois.

De Ricardo Vieira Lisboa

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