23 de Junho às 19h: “Alto Bairro”

Alto Bairro

Realizador: Rui Simões

98’ | M/12| Doc.|Port.| 2014

A dado momento do filme documental “Alto Bairro”, do realizador Rui Simões, que estreia a 18 de Junho, no Cinema Ideal, há um depoimento de uma mulher a rondar os 40 anos que está sentada numa cadeira de cabeleireiro, a ser sujeita a uma operação de coloração. Falando sobre o Bairro Alto, aquele que é seu desde sempre, indigna-se. “Há muita gente que diz mal das pessoas do Bairro Alto, que são isto e aquilo. As pessoas do bairro não fazem mal a ninguém. Quem vem cá partir as coisas e riscar as paredes com grafitti são os de fora”, acusa a senhora, despeitada. Uma clara demarcação do “nós” e do “eles” que, em grande medida, marca o filme. Isto apesar de a enorme porosidade do bairro tornar, muitas vezes, tais distinções assaz difíceis.

Essa é apenas uma das linhas directrizes desta obra, concluída já no ano passado. A outra é a da demarcação constante do “antes” e do “agora”, sendo que as duas correm quase sempre em paralelo. Mais do que isso, ao longo do filme vai-se evidenciando uma aliança entre o “nós” e o “antes”, contra a dupla formada pelo “eles” e pelo “agora”. No meio disto tudo, Rui Simões, 71 anos e autor de duas obras marcantes – “Deus, Pátria, Autoridade” (1976) e “Bom Povo Português” (1980) -, nunca toma partido. Embora se vá instalando, à medida que o tempo corre, a clara sensação de que ele simpatiza mais com a primeira. Isto é, com a ideia de que o Bairro Alto, antes da sua abertura desbragada ao mundo – iniciada a meio da década de 90 -, era um tempo-território mais feliz.

Antigamente é que era bom? Nem tanto. Até porque o par de obras do realizador citado no parágrafo anterior constitui uma das mais eloquentes demonstrações de arejamento de espírito e inconformismo, ambas feitas na ressaca do fim de quase cinco décadas de embotamento nacional. Por isso – ou, sobretudo, por isso – Rui Simões não faz grande esforço para ocultar o desencanto com o Bairro Alto, que tanto lhe diz. Cresceu ali, sempre o frequentou e mora na fronteira Rua da Misericórdia. “Conheço o bairro como os meus dedos”, diz, antes de admitir que, ainda assim, este o surpreende sempre. “De cada vez que saímos, perdemo-nos”, reconhece. “O bairro muda todos os dias”. Às vezes, porém, nem sempre para melhor.

O realizador tem dificuldade em se rever no que observa. O que lhe faz impressão é a paradoxal transformação de um território cuja imagem de boémia, afinal, abriu as portas a uma mercantilização incessante – em torno de um descaracterizado e massificado negócio de venda de bebidas -, ao ponto dessa boémia ser hoje pouco mais que uma evocação, utilizada como mera marca turística. Rui Simões é, por isso, sensível às queixas dos moradores e comerciantes, sobretudo dos que fazem vida diurna no bairro, relativamente à degradação geral do ambiente. Ruído, lixo, insegurança, paredes grafitadas, tráfico de droga, património vandalizado e tumultos passaram a fazer parte do quotidiano. Algo que não corresponde ao que sempre ali viu.

Apesar da já referida permanente mudança do Bairro Alto, o cineasta tem alguma dificuldade em perceber aquilo em que ele se tornou hoje – mesmo tendo “Alto Bairro” a ambição “de mostrar aquilo que o Bairro é hoje” e de que “fique como um documento para o futuro”. “Este bairro sempre foi um local de prazer, de gozar a vida, era conhecido pela prostituição, mas também pelos jornais e pelas suas mercearias, além de que tinha aqui a sua população. Mas tudo coabitava pacificamente, havia uma natural vizinhança, que se respeitava, ao contrário de hoje”, considera Rui Simões, antes de lamentar a “ignorância dos consumidores da noite, a maior parte dos quais são jovens que desaguam em massa na estação de metro da Baixa-Chiado, muitos vindos da periferia e que nem sabem bem para onde vão”.

A noite e a tal imagem de boémia parecem ter feito não muito bem a este conjunto de quarteirões edificado há cinco séculos. Ao longo do filme – que vive, essencialmente, de um dispositivo de depoimentos,  os dos anónimos e os dos conhecidos -, esta ideia vai sendo exposta e reiterada. Até por aqueles que ajudaram a criar o tal espírito de movida nocturna e cosmopolitismo, a partir dos anos 1980. São muitas as pessoas a aludir à “falta de respeito”. Uma senhora de idade avançada diz, logo no início do filme, que “hoje já não se pode andar na rua à noite”. O autor de “Alto Bairro”, que se confessa um “romântico”, salienta que as pessoas ainda gostam de ali viver, “mas querem ser respeitadas”.

Aliada à transformação em “parque de diversões nocturnas” está o surgimento de uma feroz indústria turística. E ela parece pouco disposta a fazer cerimónias no que toca a encontrar formas de sacar dinheiro aos forasteiros, à imagem do que vai sucedendo nos restantes bairros históricos da capital. As lojas de comércio despersonalizado multiplicam-se. “Se não se fizer nada para proteger o Bairro Alto e os outros bairros, eles vão ficar despersonalizados. Estão a destruir uma cidade fantástica”, lamenta Rui Simões, que confessa não perceber a permissividade da Câmara Municipal de Lisboa – entidade que, com a RTP, lhe concedeu algum apoio para a realização do documentário – face a esta onda turística.

“Eles não podem pensar só no lucro imediato, pois o tiro pode-lhes vir a sair pela culatra. Isto é tudo um exagero. Se hoje estão cheios, os hotéis podem vir a ficar vazios. Temos de saber se temos capacidade para receber tantos turistas”, diz o realizador do filme, que começa com uma cena de ficção, aludindo ao início do século passado, na qual se vê um adolescente a entrar num bordel, no qual iniciará a sua passagem à idade adulta. Prática comum noutras gerações e lembrança de um outro tempo do Bairro Alto. Hoje, em seu lugar, existe um “bairro da moda”, mas também o da “descaracterização urbanística”, queixam-se alguns dos entrevistados  – como o realizador José Fonseca e Costa – de um documentário que acaba por se revelar uma elegia por um tempo que já não volta.

Texto: Samuel Alemão

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