9 de Junho, às 19h: “Pára-me de repente o pensamento”

para-me de repente o pensamento_09

Realização: Jorge Pelicano

Port/2014/98’/ M/12

O cinema, enquanto arte privilegiada de representação da vida, tem o incrível poder de mudar mentalidades e derrubar preconceitos. O olhar insistente do cinema sobre a doença mental advém em grande medida do fascínio humano pelo desvio, mas também da necessidade de compreender a dimensão sombria que a todos habita – a diferença entre normal e patológico será antes de mais uma questão de grau (Freud defendia que todos somos neuróticos). A tradição cinematográfica sobre doença mental é longa e os discursos sobre a loucura muito diversos. Na ficção, o doente mental é representado ora de uma forma positiva ou caricata – são disso exemploOne flew over the cuckoo’s nest (Miloš Forman), Rain man (Barry Levinson) ou As good as it gets (James L. Brooks) – ora de uma forma terrível – Psycho (Alfred Hitchcok) será o exemplo mais paradigmático, ao qual se soma uma vasta lista de thrillers psicológicos, um género muito popular.

Muitos desses filmes contribuíram realmente para normalizar a doença mental, promovendo o conhecimento dos diversos quadros clínicos e gerando um sentimento empático e de compreensão para com quem é diferente. No entanto, e apesar de um quinto da população sofrer de algum problema de saúde mental, essa empatia esgota-se muitas vezes na sessão de cinema e não tem qualquer correspondente no quotidiano. O estigma é ainda enorme. O convívio com os doentes mentais é muito difícil, mesmo para as próprias famílias – porque gera desconforto, dificuldades comunicacionais, frustração e responsabilidades acrescidas. Somos animais da razão, e por isso o nosso medo maior reside no incognoscível.

Mas aos pacientes do Hospital Conde de Ferreira parou-lhes de repente o pensamento. Perderam – ou nunca adquiriram – essa capacidade de elaboração cognitiva que permite pôr a hipótese à prova e organizar a realidade, enquadrando raciocínio, comportamento e norma. O pensamento lógico é incoerente, impreciso ou fragmentado. Uns vivem dentro dos seus delírios, outros numa particular forma de lucidez. Alguns aprendem muito sobre a doença que os aflige, entendem o quão limitados (e infelizes) ficariam caso abandonassem o hospital e por isso sentem-se ali seguros. Outros sonham com o dia em que pudessem evadir-se – para viver lá fora e ser feliz ou para saltar da ponte da Arrábida e abandonar a vida, e com ela o sofrimento. No Conde de Ferreira, a monotonia do dia-a-dia faz-se de pequenos gestos e rituais que raramente extravasam a alimentação e a higiene, a medicação, o café e o cigarro – estes últimos são os momentos altos do dia. O resto do tempo é preenchido por conversas, passeios e actividades, música, teatro, pintura, tapeçaria. No Conde de Ferreira há tempo para tudo. Para o convívio, para o riso, para a amizade e mesmo para o amor.

Pára-me de Repente o Pensamento parte de um poema do poeta Ângelo de Lima, que em 1894 esteve internado no Conde de Ferreira com o diagnóstico do que então se chamava delírio de perseguição. Mais tarde, foi internado em Rilhafoles (o Dr. Miguel Bombarda diagnosticou-o como inimputável e alienado), onde veio a falecer após 20 anos de internamento. Hoje, é o actor Miguel Borges que o encarna, preparando a sua personagem ao longo de uma estadia de três semanas no hospital. Os moradores do Conde de Ferreira, a maioria com o diagnóstico de esquizofrenia, ajudam-no a perceber o abismo súbito rasgado de que Ângelo de Lima falava no seu poema. Sem guião, o filme vai-se construindo. À excepção dos lindíssimos planos picados ou dos close-up que captam as extraordinárias expressões dos utentes, é um filme de intervenção mínima e de observação participada. Miguel é o espectador dentro do filme. Repara e questiona, sem se chocar, sem fazer julgamentos, às vezes maravilhado, às vezes impaciente, às vezes comovido. O elegante Sr. Abreu, homem dos sete ofícios, e o Alberto, com o seu riso contagiante, são os seus cicerones. A eles juntam-se o Joaquim, o Zé Pedro, a Rosa e tantos outros. Acolhem-no de espírito aberto, brincam ao observar uma fotografia de Ângelo de Lima, na qual ele “tinha mesmo ar de louco”. Fazem-no também sentir-se em casa, ensinam-lhe coisas que não vêm em livro nenhum. No fim, nós e o Miguel é que ficámos mais sábios.

Depois de Ainda Há Pastores (2006) e Pare, Escute, Olhe (2009), o novo documentário de Jorge Pelicano – vencedor do Grande Prémio, Prémio do Público e Prémio Melhor Realizador do festival Caminhos do Cinema Português – é uma consagração absoluta. Não apenas pela escolha do tema e pelo rigor técnico do trabalho, mas pelo respeito pela dignidade dos envolvidos e pelas histórias que têm para contar. Não é sensacionalista nem apela à piedade. Recusa a imagem estereotipada do doente mental. Não é intrusivo, respeitando a privacidade do que não deve ser contado. Não pretende ser informativo, explanar a sintomatologia dos quadros clínicos ou demorar-se em abordagens terapêuticas. Não é condescendente. Humaniza cada um dos intervenientes pelo simples acto de lhes dar voz. Pára-me de Repente o Pensamento fala apenas dos que vivem no Conde de Ferreira, através das suas palavras. Ganhamos com isso a representação possível do mundo interior da esquizofrenia e da campânula que enclausura o esquizofrénico – que ainda assim sonha até ao limite dessa parede de vidro e é capaz de uma generosidade que o homem lúcido perdeu. E recuperamos parte dela, por um momento, nos olhos de Miguel Borges.

Pára e fica na doida correria/ Pára à beira do abismo e se demora
E mergulha na noite escura e fria
Um olhar de aço que essa noite explora/ Mas a espora da dor seu flanco estria
E ele galga e prossegue sob a espora.
(Ângelo de Lima)

Edite Queiroz para Arte Factos.

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