24 de Fevereiro, 19h: “João Bénard da Costa – outros amarão as coisas que eu amei”

joao-benard-da-costa-others-will-love-the-things-i-loved-2014-001-montage-with-photos-of-man-and-womanRealização: Manuel Mozos
Produção: Rui Alexandre Santos
Assistente de Realização e Montagem: Luis Nunes
Director de Fotografia: Inês Duarte
Som: Nuno Henrique

Portugal, 2014, 75′

Uma homenagem ao cinema a pretexto da extraordinária vida de João Bénard da Costa, director da Cinemateca Portuguesa durante 18 anos, mas também actor, cinéfilo, escritor inspirado e leitor criativo. Esta é uma inusual biografia que conta a vida do homem através dos seus amores, medos e contemplações, impressas na arte da pintura, do cinema e literatura. Da pintura barroca à literatura de Borges, OUTROS AMARÃO AS COISAS QUE EU AMEI é o amado diário de um homem universal.

Com a presença do realizador, Manuel Mozos.

 

JOÃO BÉNARD DA COSTA – OUTROS AMARÃO AS COISAS COISAS QUE EU AMEI, de Manuel Mozos (Portugal, 2014)

Outros amarão as Coisas que eu amei é um filme imenso, tão imenso que quase não cabe na tela. Tão imenso, que precisa de se socorrer de outros filmes, igualmente imensos, para que possa existir. Do mais belo Lubitsch, do mais completo Ray, do mais musical Minnelli, do mais poético Dreyer, dos excertos de Oliveira e Ruiz. E através dessas Coisas todas, que, no fundo, são apenas uma, o Amor de Bénard da Costa – e de Mozos – contagia quem o ouve. E infecta o íntimo, como um vírus que se alastra, sem cura nem salvação. Porque o Cinema só existe em quem o sente, em quem sobre ele fala, em quem sobre ele escreve.
E Ray, Lubitsch e Mankiewicz, mesmo depois de levados pelo Tempo, pelo «homem da ampulheta». continuam, entre nós, tão presentes como quando, em carne, o estavam. E, como nessa luminosa cena de Gigi, é a memória que os faz, e que faz deles deuses, que os perpetua além-túmulo. A letra mata, o espírito vivifica – e não será o celulóide, também, ele letra, e o espectador espírito?
Do milagre da memória, de que já falava Luís Costa no seu Fontelonga, poucos saberão tanto como Bénard da Costa, o homem que viu Johnny Guitar mais de sessenta vezes (sessenta e oito antes do final dos anos oitenta, se a memória não me falha), mas que sobre ele só conseguia falar «delirando». E é, outrossim, sobre a memória que outros dos filmes seleccionados, The Ghost and Mrs. Muir, versa, nesse solilóquio do Capitão Daniel Gregg reproduzido, que, como diria Régio, «é um vendaval que se soltou,/ É uma onda que se alevantou,/ É um átomo a mais que se animou…». Aliás. é sobre a memória, sobre o acto de rememorar, que Mozos constrói o seu Bénard da Costa, a sua carta de amor ao Homem que tudo nos deu sem nunca nos exigir nada em troca, nada senão o desejo de viver com ele o que ele vivia tão profundamente.
Acredite, amigo leitor, que tentei evitar ao máximo o patetismo do que aqui derramo. Tentei, mas tentei em vão. Porque o Cinema não vive só, nem sobretudo, do objectivo, do que está lá e do que deixa de estar, mas também do subjectivo, do que dele levamos quando abandonamos a penumbra e os fantasmas. E se arrisco o absolutismo de afirmar Outros amarão as Coisas que eu amei – e nenhum outro filme foi capaz de me fazer deixar a sala tão contente, tão desfeito, tão abalado nas minhas convicções, tão sem saber o que fazer – como sendo o mais belo filme de sempre, faço-o porque acredito que o seu objecto é, por sua vez, também ele o mais belo. Bénard da Costa, João, quis que outros amassem o que ele amou. Hoje, digo com toda a certeza que amamos. Talvez não o amemos tão intensamente, com tanta disponibilidade. Mas amamos. E isso já ninguém nos tira. Nem o Tempo…

«Quem não percebe, não percebe também a dimensão do que não percebe.» António Tavares de Figueiredo, no blog Matinée Portuense

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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