6 de Janeiro, 19h: “Ida”

IDA blogRealização: Pawel Pawlikowski

Argumento: Paweł Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz

Intérpretes: Agata Kulesza, Agata Trzebuchowska, Joanna Kulig

POL/DIN, 80ʼ, 2013, M/14

Polónia, 1962. Anna é uma bonita jovem de 18 anos que irá em breve celebrar os votos definitivos para se tornar freira no convento onde vive desde que ficou órfã em criança. A madre obriga-a a conhecer antes da celebração dos votos a única familiar viva, a tia Wanda. Juntas, as duas mulheres embarcam numa viagem à descoberta de si próprias e do passado que têm em comum. Anna descobre que é judia e que o seu verdadeiro nome é Ida. Esta revelação leva-a a dar início a uma jornada para desvendar as suas raízes e confrontar a verdade sobre a sua família. Ida terá de escolher entre a sua identidade biológica e a religião que a salvou dos massacres provocados pela ocupação Nazi na Polónia. E Wanda terá de confrontar as decisões que tomou durante a guerra quando optou por colocar a lealdade à causa à frente da sua família.

 

 

Através do labirinto do passado

Pouco representado no mercado português, o cinema polaco reaparece através de um filme belíssimo: “Ida”, de Pawel Pawlikowski, revisita as memórias trágicas da Segunda Guerra Mundial, partindo de uma história situada na década de 60.

Andrzej Munk, Jerzy Kawalerowicz, Roman Polanski, Andrzej Wajda, Jerzy Skolimowski… Nos anos 60, a “nova vaga” da Polónia teve uma representação significativa nas salas portuguesas. Será que podemos dizer o mesmo dos nomes marcantes da história mais recente do cinema polaco. Krzysztof Zanussi? Krzysztof Kieślowski? Sim, em parte. Ao mesmo tempo, não podemos deixar de sentir que esta é uma das cinematografias que continuamos a (des)conhecer de forma irregular.

Daí, sem dúvida, o significado especial da estreia de “Ida”, de Pawel Pawlikowski. Desde logo, porque há nele uma emoção muito particular, centrada na demanda da personagem referida no título, empenhada em saber o que aconteceu à sua família judaica durante a guerra; depois, porque “Ida” confirma que existe, de facto, uma tendência plural — tanto em termos geográficos como estéticos — no sentido de revisitar a Segunda Guerra Mundial para além das regras clássicas do “filme-de-guerra” (“Lore”, de Cate Shortland, e “The Monuments Men/Os Caçadores de Tesouros”, de George Clooney, podem ser excelentes exemplos).

A história de Ida  (Agata Trzebuchowska) é, afinal, a saga de um ser humano — e, por extensão, toda uma nação — em conflito com o seu próprio passado. Na companhia da tia Wanda (Agata Kulesza), Ida parte à descoberta do labirinto de factos e memórias que ajude a explicar o facto de ter sido entregue, ainda criança, a um convento. Mais do que isso: para Ida, trata-se de perceber como é que a máquina de morte montada pelos nazis atingiu a sua família.

Nada é simples nem linear neste processo. A situação da acção na década de 60 acaba por introduzir uma componente duplamente perturbante: não só o passado envolve coisas terríveis; o presente de uma sociedade comunista gerida por uma brutal frieza normativa é também determinante na aventura cognitiva de Ida e Wanda, por assim dizer à deriva numa paisagem de débeis sinais de calor humano.

Pawlikowski é um austero realista. E não apenas porque filma “Ida” em belíssimas imagens a preto e branco (da responsabilidade de dois directores de fotografia: Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski). Sobretudo porque a sua visão da história resiste a dissolver as singularidades individuais nas forças colectivas, para mais cruzando a reconstrução “abstracta” do passado com os sinais muito vivos da revelação da sexualidade. Em resumo: vale a pena (re)descobrirmos o cinema que vem da Polónia. (João Lopes, in CineMax)

 

 

 

 

 

 

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