9 e 16 de Dezembro, 19h: “Heimat – Crónica de uma Nostalgia” 1ª e 2ª Partes

Heimat blogRealização: Edgar Reitz

Intérpretes: Jan Dieter Schneider, Antonia Bill, Maximilian Scheidt, Marita Breuer, Rüdiger Kriese

Argumento: Edgar Reitz, Gert Heidenreich

ALE/FRA, 2013, 97’, M/12

 

O nascimento de uma nação: a Alemanha

Heimat, que começou por ser feita para a televisão – grande sucesso público –, tem neste quarto momento, Crónica de uma Nostalgia, o primeiro episódio feito a pensar nas salas de cinema.

Edgar Reitz é uma figura historica do moderno cinema alemão, de cujo texto fundador – o Manifesto de Oberhausen, em 1962, contra o “Papas Kino”, o “cinema do papá” – não só foi signatario como, com Alexander Kluge, um dos principais ideologos.

A sua obra, a partir dos anos 80, praticamente se confunde com uma série, Heimat, que começou por ser feita para a televisão – grande sucesso público – e tem neste quarto momento, Crónica de uma Nostalgia, o primeiro episoódio feito a pensar nas salas de cinema. Considerando as quatro vezes que Reitz voltou àsérie, existem já mais de 50 horas de Heimat, duração consentânea com a ambição do seu projecto de construir um reflexo histórico sobre o século XX alemão, entre o fim da I Guerra e a reunificação da Alemanha depois da queda do Muro de Berlim, sempre seguindo a saga da família Simon e da sua pequena vila, fictícia, algures na mesma Renânia onde Edgar Reitz nasceu.

Este quarto tomo, exibido em duas partes por opção do próprio Reitz, traz uma diferença de monta: faz um flash-back de século e meio para se instalar em meados dos 1800, na Alemanha rural, aristocrática e muito pouco liberal das vésperas das revoluções de 1848, altura a partir da qual, se épossível fazer “pausas” na História, se pode começar a encadear a sequência de acontecimentos que desembocaria na traumática primeira metade do século XX alemão, algo que Reitz obviamente teve em conta. Heimat, de resto, é um termo específico que todos os não-alemães se esforçam por traduzir com palavras aproximadas: não designa bem “pátria”, nem quer dizer “povo”, mas exprime o vínculo, vital e quase “natural”, entre um povo e a porção de terra que habita. Politicamente aproveitável enquanto condição e justificação para o nacionalismo, assim foi obviamente explorado pelos nazis e incorporado na sua ideologia, mas é uma ideia que os precede (e os ultrapassa: os “heimatfilm”, numa espeécie de “purificação pela ruralidade”, foram um dos géneros mais inócuos e populares no cinema alemão do pós-guerra, esse mesmo cinema contra o qual os signatários de Oberhausen se manifestaram).

Em todo o caso, se o trabalho sobre estas ambiguidades ésubjacente à geénese da série, aqui estamos ainda longe dos dramas do século XX. Fora uma breve sequência com duas raparigas nuas a rebolarem por uma ribanceira abaixo, Reitz nem faz muita referência àqueles “caminhos da força e da beleza” que, por exemplo nos filmes de Riefenstahl, consolidaram um imaginàrio “proto-nazi” nas primeiras décadas do cinema alemão. Menos analítico do que o seu amigo Kluge (que há poucos anos concluiu o seu monumental projecto em torno de O Capital, assim concretizando o sonho eisensteiniano de filmar os textos nucleares do marxismo), Edgar Reitz é sobretudo um “organizador”. Ou diríamos, um “curador”: este quarto Heimat é uma espécie de reconstituição museológica da ruralidade alemã do século XIX, onde tão importante como a narrativa éa descrição do dia a dia e das actividades (laborais, sociais) dos camponeses, como num grande “tableau” que se torna “tridimensional” pela agilíssima “steadycam” de Reitz, sempre a varrer e a redimensionar o espaço – pela época, pelo ambiente, pelo preto e branco e pelo “steadycam” vem à memória o Cavalo de Turim de Béla Tarr, mas a comparação não tem muito mais razão de ser (até porque, para sermos mais completos, o gesto cinematográfico de Reitz se situaria algures dentro dum triângulo formado por Tarr, Sokurov e Terrence Malick). Reitz tem a coragem – porque desde as rosinhas vermelhas de Spielberg na Lista de Schindler que o procedimento ficou empestado para todo o sempre – de pontuar o preto e branco com uns pequenos toques de cor, de simbologia às vezes obscura, mas nalguns casos transparente, como o raccord mental que se faz entre o vermelho duma ferradura em brasa, logo no princípio do filme, e as cores da futura bandeira alemã que a dada altura aparece, como se isto fosse a crónica do “nascimento de uma nação”.

Uma nação que é hoje a mais poderosa da Europa, pátria de acolhimento para gente vinda de todo o sítio, mas que não era assim no século XIX: esta é, num contraste com a época contemporânea que por todas as razões ressalta, a história de uma Alemanha que emigrava, e emigrava em especial – o filme acompanha esse processo de “sedução” – para o sul do Brasil. No final, outra velha glória do cinema alemão, Werner Herzog, aparece a encarnar o explorador Humboldt, quase um “gag”, porque nenhum realizador alemão explorou mais a América do Sul do que o cineasta de Aguirre e Fitzcarraldo. (Luis Miguel Oliveira, in Cinecartaz)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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