14 de Outubro, 19h: “Ruina Azul”

Ruina AzulRealização: Jeremy Saulnier

Argumento: Jeremy Saulnier

Fotografia: Jeremy Saulnier

Intérpretes: Macon Blair, Eve Plumb, Devin Ratray, Amy Hargreaves, David W. Thompson, Bonnie Johnson, Stacy Rock e Kevin Kolack

EUA, 2013, 90’, M/16

Uma clássica história de vingança na linha dos melhores filmes dos irmãos Coen, RUÍNA AZUL foi o vencedor do prémio FIPRESCI da Crítica Internacional no Festival de Cannes 2013, onde foi exibido na Quinzena dos Realizadores.

O filme segue os passos de um homem misterioso, cuja pacata vida foi virada do avesso e que regressa ao seu local de infância para se vingar. Provando a si próprio não passar de um assassino amador, acaba por se ver envolvido numa luta brutal de forma a poder proteger a sua alienada família. Inteligente, despojado e arrebatadoramente impiedoso, RUÍNA AZUL é a confirmação de que uma história de vingança bem contada ainda consegue deixar o público à beira da cadeira.

 

Vencedor com «Ruína Azul» do prémio FIPRESCI da Crítica Internacional no Festival de Cannes 2013, onde foi exibido na Quinzena dos Realizadores, o jovem Jeremy Saulnier já é comparado aos irmãos Coen, David Fincher e Alfred Hitchcock. Ou seja, um realizador para acompanhar de perto

Thriller independente que tem alcançado os melhores elogios em dezenas de festivais, além de prémios em outros, como aconteceu em Cannes, «Ruína Azul» é a prova de que o cinema continua a ter uma enorme vitalidade, apesar de alguns defenderem o contrário.

A obra de Saulnier é forte, apaixonante e visceral. O realizador, que assina também o argumento, consegue construir uma trama simplesmente assombrosa e magnética, que prende o cinéfilo do início ao fim, desejoso de conhecer o desfecho da vida de Dwight (Macon Blair), que, após a morte dos pais, assassinados, abandona tudo e vira um sem-abrigo.

É precisamente na luta pela sobrevivência do protagonista que começa o filme, com Dwight em busca de alimentação. No entanto, a sua vida é alterada quando sabe, através da polícia, que o presumível assassino dos pais será libertado. Os fantasmas escondidos na sua mente regressam e, revoltado, o até então sem-abrigo decide vingar-se, embora não tenha nenhum plano concebido para tal.

Com mestria, Saulnier ignora por completo o passado de sofrimento de Dwight após a morte dos pais e centra-se por completo no presente, na retaliação, uma opção mais que acertada. O que passou… passou, e portanto a vingança é o tema central do filme. Introvertido e tranquilo, a obsessão do personagem define o seu comportamento, que acaba por determinar outros acontecimentos para além do imaginado por si.

Saulnier conta uma história com poucos diálogos mas com muita ira. Ao mesmo tempo, oferece ao cinéfilo um “vingador” que comete erros, ao contrário de outros filmes do género, em que os protagonistas se tornam, de um dia para o outro, especialistas em tudo. O realizador centra o seu argumento nas acções de Dwight e nas suas consequências, no duelo entre a obsessão e o racionalismo.

«Ruína Azul» tem humor negro, crítica social (sendo a principal o fanatismo armamentístico dos norte-americanos), realismo, uma nova linguagem cinematográfica e muitos outros pontos de interesse. Definitivamente, Jeremy Saulnier é um realizador que teremos de acompanhar nos próximos anos. (Pedro Justino Alves, in Diário Digital)

 

Vingança & Família, SA

Há já algum tempo que não se via um filme tão “seco” e “duro”. Família e vingança são temas cuja associação é clássica. Mas, aqui, Jeremy Saulnier oferece-nos um retrato desprovido de qualquer sofisticação ou encanto, apelando ao que de mais básico pode ter a natureza humana.
Estamos numa América ‘pura’, longe das cores e do glamour de Nova Iorque ou de Los Angeles e onde Dwight, um maltrapilho, vai sobrevivendo como pode, habitando um decrépito carro (azul) que lhe serve para tudo. Até que se apercebe que um determinado criminoso irá ser libertado. Incrédulo, vai até à porta da prisão, onde obtém a confirmação do seu receio: o homem condenado por lhe ter assassinado os pais, estava livre. Imediatamente só uma coisa lhe preenche o pensamento: vingança. Sem estabelecer qualquer plano, consegue atacar o assassino e matá-lo. O problema é que este acto vai desencadear uma outra vingança: a da família do assassino, tornado vítima, sobre a irmã e os sobrinhos de Dwight. Violência gera violência e ela, em “Ruína Azul”, não é apenas gráfica. É impossível não achar que existe alguma “justiça” nos actos de Dwight, basicamente um filho a tentar vingar a morte dos pais, substituindo-se a uma Justiça que pactuou com o criminoso. Esta empatia com a personagem é evidente, até pela própria ingenuidade das suas acções. Dwight poderia ser qualquer um, tal a simplicidade das suas acções.
Aliás, “simplicidade” é uma palavra que assenta como uma luva a este filme. Não há grandes considerações a tomar ou complexidades argumentativas. « ‘A’ assassinou familiares de ‘B’ que o quer matar por isso». Todas as acções são claras e lineares, não há planificação das opções. É caça pura, independentemente do “lado” em que as personagens se encontrem.
A tal “secura” de sentimentos que emana das personagens do filme evoca muito do universo dos irmãos Cohen, claro! Mas fizeram-me recordar uma outra pérola do cinema independente americano, “The Shotgun Stories/Crimes de Caçadeira”, de Jeff Nichols (que também “usou” este tipo de ambiente no brilhante “Procurem abrigo”, ambos com esse extraordinário actor que dá pelo nome de Michael Shannon). Também ali, na América profunda, muito para trás dos holofotes cosmopolitas, se narrava uma história de vingança familiar.
O cinema independente norte-americano continua a produzir filmes que fazem envergonhar a maior parte das grandes produções de Hollywood. Aqui não há fantasia, ‘happy-endings’ ou histórias de encantar. Há pedaços da vida de pessoas normais, com as angústias e os sofrimentos que as levam a tomar decisões que lhes podem levar a pôr fim à sua própria vida. Mas que também não conseguiriam continuar a viver se o não fizessem, pois ficariam com a vida em ruínas. Azuis.

Publicada a 26-05-2014 por Pedro Brás Marques, in Cinecartaz

 

 

 

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