29 de Julho, 19h: “Grand Central”

Grand Central blogRealização: Rebecca Zlotowski

Intérpretes: Léa Seydoux, Tahar Rahim, Olivier Gourmet, Denis Ménochet

FRA/AUS, 94ʼ, 2013

Gary é novo. É uma daquelas pessoas que não espera nada de ninguém. Entra para uma central nuclear, convencido de que aí encontrará uma equipa, sentido para a vida, dinheiro e heróis. Para ganhar dinheiro, não teme tornar-se num «saltador», de se aproximar o mais possível do reactor nuclear, em zonas onde a radioactividade é mais perigosa. Mas Karole, a mulher de um dos outros, também faz parte da equipa. Ambos lutam contra o seu amor proibido. Quando Gary atinge o limite de radiações aceitável, decide mentir, com medo de se separar dela. Entra num jogo mortal, em que cada dia passa a ser uma ameaça.

 

GRAND CENTRAL: BELÍSSIMA HISTÓRIA DE AMOR E DE REACTORES.

Les Inrockuptibles – Serge Kaganski

Léa Seydoux e Tahar Rahim, numa história de amor e átomos. Assunto forte e encenação física.

GRAND CENTRAL é o nome da estação principal de Nova Iorque mas, no filme, ancorado numa central nuclear à beira de um rio, evoca antes de mais a grandeza humilde e quotidiana dos trabalhadores sazonais da indústria nuclear.

Após o seu primeiro ilme, BELLE ÉPINE, Rebecca Zlotowski confirma o seu dom para os títulos com signiicados polissémicos, emblemas de um cinema que mistura realidade francesa e imaginário cinéilo franco-americano. Essa mistura encontra-se no nome do personagem encarnado por Tahar Rahim, Gary (como Cooper) Manda (como Reggiani, em CASQUE D’OR [AQUELA LOIRA]), enquanto que a Karole fanfarrona, interpretada por Léa Seydoux, parece uma descendente longínqua de Simone Signoret, no filme de Jacques Becker, e das mulheres lutadoras de Hawks.

Denis Ménochet tem aqui o ar de um primo frenchy de Robert Mitchum, apesar do nome próprio renoiriano: Toni.

Estas múltiplas radiações cinéfilas cruzadas fazem parte da beleza intoxicante de GRAND CENTRAL mas não constituem o essencial. Porque, longe do diorama de cinemateca, Rebecca Zlotowski conta uma trágica história de amor a três, absolutamente contemporânea da nossa época pós-Tchernobyl e Fukushima (nenhum oportunismo das autoras, com a catástrofe japonesa a acontecer quando a escrita estava já muito avançada).

Coleccionando pequenos trabalhos, Gary Manda é contratado para uma equipa que trabalha em regime freelance numa central. O filme documenta perfeitamente as condições de vida e de trabalho destes paioleiros do nuclear, que são bem pagos mas não beneficiam nem do prestígio, nem da segurança estatutária dos engenheiros e técnicos da EDF [Electricidade de França], mesmo estando expostos ao risco máximo de contaminação.

O filme faz-nos seguir os passos do chefe de equipa (Olivier Gourmet), no ventre maléfico da central, espécie de nave espacial em que o cenário todo branco e ultra técnico realça o grau de aflição, elevando ao máximo o sentimento de perigo latente e letal.

Nesta comunidade, que vive numa aldeia de caravanas à beira do rio, acampamento semifordiano, semi-renoiriano, Karole e Toni acabam de se casar. Mas Karole, corte de cabelo à rapazola e atitude de vaqueira, seduz abertamente Gary num jantar, fazendo um discurso musculado de boas-vindas ao novato, no qual os avisos sobre o perigo da radiação têm já um valor de declaração de amor inconsciente. Do inconsciente ao consciente, o passo será dado e o que deviaacontecer entre Karole e Gary acontece…

Toxicidade conjunta do átomo e do amor, fusão e fissão dos corações humanos e nucleares, influência invisível mas irresistível das radiações e do desejo sobre os corpos, este é o princípio que corrói os personagens, move o ilme, comove o espectador.

Assunto forte, encenação física e alimentada de memória cinéfila, só faltavam actores no seu melhor para acertar em cheio. Olivier Gourmet é gigante, já o sabemos desde LA PROMESSE [A PROMESSA], dos Dardenne; Denis Ménochet está em vias de se afirmar como a grande personalidade masculina que faltava ao cinema francês, depois dos erros de Depardieu; Léa Seydoux é, como sempre, genial; e Tahar Rahim faz a sua melhor interpretação desde UN PROPHÈTE [UM PROFETA].

Depois de ter plantado um belo espinho no campo do cinema francês, Rebecca Zlotowski está a caminho de ocupar o centro em grande.

 

 

 

 

 

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