15 de Julho, 19h: “Mãe e Filho”

Mãe e filho blogRealização: Calin Peter Netzer

Intérpretes: Luminita Gheorghiu, Bogdan Dumitrache e Natasa Raab

ROM, 2013, 112’

A relação entre Cornelia e Barbu, mãe e filho, é conflituosa e disfuncional. Barbu, já com 34 anos, odeia o círculo social dos pais, cujos amigos vivem da política ou de negócios pouco claros. Cornelia, que sempre investiu todo o amor e atenção no único filho, não se conforma com a sua constante rejeição. Quando Barbu atropela e mata um rapaz de 13 anos, e corre o risco de ser preso por homicídio, a mãe usa todos os estratagemas para o ajudar.

Mas, surpreendentemente, e apesar de todo o dinheiro e influência de que dispõe, Cornelia não consegue persuadir a única testemunha do acidente a mudar o seu depoimento. Assim, ela apenas pode tentar convencer toda a gente de que o seu filho é um homem de bem e que tudo não passou de um terrível infortúnio do destino…
Vencedor do Urso de Ouro na edição de 2013 do Festival de Berlim, um filme escrito e realizado por Calin Peter Netzer (“Maria”, “Medalia de Onoare”) que, ao mesmo tempo que retrata a corrupção e o tráfico de influências da classe alta da Roménia dos dias de hoje, reflecte também sobre a fronteira entre o amor e a manipulação nas relações humanas. PÚBLICO

 

Uma mãe tirana que não abre mão do seu filho

Urso de Ouro em 2013, ‘Mãe e Filho’ é um drama familiar sobre a ténue fronteira entre cuidado e excesso de zelo controlador.

Num dos poemas de O Profeta, Khalil Gibran diz: “Os vossos filhos não são os vossos filhos:/ são filhos e filhas da ânsia da vida por si mesma./ Vêm através de vós, mas não de vós,/ e embora vivam convosco, não vos pertencem.” Estes versos poderiam constituir a epígrafe de Mãe e Filho, de Calin Peter Netzer, um drama familiar romeno sobre uma mãe que não consegue abrir mão do filho adulto. Vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim 2013, Mãe e Filho é mais um nobre descendente da chamada renascença do cinema romeno.

O filme centra-se na relação disfuncional entre uma mãe e um filho. Quando Barbu (Bogdan Dumitrache), um homem na casa dos 30, atropela mortalmente um rapaz numa autoestrada nos arredores de Bucareste, talvez em excesso de velocidade, Cornelia Keneres (Luminita Gheorghiu), uma arquiteta bem relacionada e mãe superprotetora, desmultiplica-se em esforços para salvar o filho da cadeia. O problema é que Cornelia praticamente se substitui ao filho nesse afã, num excesso de zelo e voluntarismo inadequados perante alguém que tem idade para ser autónomo e resolver a sua vida. Mas a índole passiva de Barbu não facilita essa libertação. Cornelia é possessiva em relação a ele, como se sentisse que este é propriedade sua, apenas “alugada” ao mundo. Daí que os seus esforços para tomar o controlo sobre a vida do filho sejam também uma forma abusiva de não respeitar o seu direito à autodeterminação, à independência e à emancipação. Cornelia é afinal, a seu modo, uma mãe tirana.

Na verdade, se o acidente de Barbu constitui uma oportunidade para a mãe “reaver” nostalgicamente o ascendente perdido sobre o filho, por outro lado vem facilitar a eclosão de um psicodrama familiar latente em que parece imperar um perverso conflito edipiano. A psicologia explicaria provavelmente esta relação à luz do conceito de duplo vínculo, em que a mãe enviaria inconscientemente a mensagem “podes aventurar-te fora da nossa família mas nunca estarás tão bem como connosco”. O que é uma outra forma de dizer que Cornelia quer uma relação de exclusividade com o filho, sem “intromissão” de mais ninguém, ela que, por sinal, se intromete demasiado na sua vida, obtendo dele uma natural reação de fuga. Mas a verdade é que amar um filho é também, a certa altura, deixá-lo ir e viver liberto da ilusão omnipotente e obsessiva de controlo.

O título inglês de Mãe e Filho, Child”s Pose, refere-se a uma posição de descanso do ioga. Como se, esgotado pela dominação materna, Barbu se remetesse a uma passividade para acalmar a sua ansiedade, embora correndo riscos nesse quietismo. Com argumento de Razvan Radulescu (responsável pelos guiões de 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu, e de A Morte do Sr. Lazarescu, de Cristi Puiu), Mãe e Filho é um drama psicológico de um realismo impressionante, com uma interpretação contida mas pujante de Luminita Gheorghiu. E a cena final, quando Barbu, dentro do carro à porta da casa da família enlutada, diz à mãe “por favor, solta-me” (pedindo-lhe para abrir as portas), é devastadora de força simbólica. (Nuno Carvalho, in DN Artes)

 

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