20 de Maio, 21.30h: “O Lobo de Wall Street”

O Lobo?Realização: Martin Scorcese

Montagem: Thelma Schoonmaker

Intérpretes: Leonardo DiCaprio, P.J. Byrne, Jon Favreau, Matthew McConaughey, Spike Jonze, Rob Reiner

EUA, 2013, 180’, M/16 Anos

Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) é um jovem que procura em Nova Iorque a concretização do seu sonho de sucesso. Consegue trabalho numa empresa cotada em bolsa, mas o “crash” da “segunda-feira negra” fá-lo perder o emprego e obriga-o a reajustar os planos… Juntamente com um amigo, decide abrir a sua própria firma, a Stratton Oakmont, que vai funcionar como plataforma para a sua ambição tão desmedida quanto certeira. O alvo? Os investidores de Wall Street. Rodeado de uma “matilha” sedenta, o carismático e persuasivo corretor envereda por todo o tipo de esquemas, legais ou não, que alimentem a sôfrega espiral de poder, dinheiro, droga, ganância, sexo, corrupção e excessos em que se transforma a sua vida. Por mais milhões que acumule, nunca são suficientes. Belfort quer sempre mais. É insaciável. É por isso que é conhecido como “o lobo”. Mas até um predador astuto pode ser apanhado…
Realizado por Martin Scorsese (“Taxi Driver”, “Tudo Bons Rapazes”, “Gangs de Nova Iorque”, “Entre Inimigos”), e com argumento de Terence Winter (responsável pelas séries “Os Sopranos” e “Boardwalk Empire”), o filme baseia-se na história verídica de Jordan Belfort, um corretor nova-iorquino que, na década de 90, construiu um império milionário à custa de fraudes de investimento e de lavagem de dinheiro. Acabaria por ser condenado, tendo cumprido 22 meses de pena. Além de Leonardo DiCaprio (que se associa a Scorsese pela quinta vez), o elenco inclui Matthew McConaughey, Jon Favreau, Spike Jonze, Rob Reiner e Jean Dujardin. PÚBLICO

 

A comédia e a tragédia do dinheiro
João Lopes, Cinemax

É a quinta vez que Leonardo DiCaprio trabalha sob a direcção de Martin Scorsese: revisitando a personagem verídica de Jordan Belfort, corretor da bolsa de Nova Iorque, “O Lobo de Wall Street” constrói o espantoso retrato da ânsia pela acumulação do dinheiro.

Não poucas vezes, por influência das linguagens televisivas dominantes, somos levados a entender a “reconstituição histórica” como um valor meramente cenográfico dos filmes. Assim, um filme em que a cenografia de interiores ou as cenas de rua exibam marcas mais ou menos “evidentes” de outra época tende a ser classificado como uma “fiel” reconstituição…

De facto, no seu simplismo “sociológico”, tal concepção ignora que nenhuma reconstituição é um banal trabalho de coincidência. Bem pelo contrário: reconstituir um determinado contexto é, antes do mais, expor a complexidade das vivências das respectivas personagens também através de cenários, adereços e guarda-roupa… Nesta perspectiva, o caso de “O Lobo de Wall Street”, de Martin Scorsese, é tanto mais espantoso quanto, de facto, ao revisitar as actividades ilegais de Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio), ao longo da década de 1990, o cineasta está a remeter-nos para um tempo que sentimos como necessariamente próximo e mais ou menos transparente.

Que acontece, então? Uma vertigem em que tudo, mas mesmo tudo, tende a ser instrumentalizado por aquilo que é o objectivo único de Belfort: acumular dinheiro através da sua actividade de corretor da bolsa de Nova Iorque. Assim, os cenários em que tudo decorre constituem menos um “pano de fundo” (visual ou simbólico) da acção de Belfort e mais um palco, no sentido eminentemente teatral da palavra, do seu desejo radical e insensato de conquistar o mundo — no limite, Scorsese constrói uma paisagem cinematográfica que se adequa, ponto por ponto, ao olhar do próprio Belfort.

Compreende-se, assim, que “O Lobo de Wall Street” seja um objecto de uma vertigem sem nome, difícil de classificar a partir das categorias tradicionais. É, por certo, uma comédia muito negra sobre o poder cruel do dinheiro e, através dele, a instrumentalização dos seres humanos. Mas tende também para o assombramento da tragédia, uma vez que observamos a trajectória de Belfort, cada vez mais dependente do dinheiro (e de outras substâncias igualmente tóxicas), como uma descida ao inferno que ele nunca imaginou existir dentro de si.

O tema da circulação do dinheiro está longe de ser estranho à obra de Scorsese. Bastará recordar esse filme, igualmente prodigioso, que é “Casino” (1995), viagem feérica pelas salas de jogo de Las Vegas controladas pela Mafia. Apetece dizer, por isso mesmo, que “O Lobo de Wall Street” constitui uma espécie de “Casino – parte 2”, voltando a descobrir o valor do dinheiro como o instrumento perverso de uma metódica desvalorização de tudo o resto — a começar pela verdade mais íntima de qualquer relação humana.

Mais uma vez, a estrutura monumental de um filme de Scorsese passa pelo labor específico da montagem, ainda e sempre entregue à sua fiel colaboradora Thelma Schoonmaker. Dir-se-ia que, através do seu trabalho com o cineasta (montou todos os seus filmes desde “Touro Enraivecido”, em 1980), Schoonmaker tem conseguido gerar os mais diversos climas narrativos em que, por assim dizer, descobrimos o relativismo do tempo e, em última instância, a sua resistência à vontade humana. Assim como, por exemplo, “Shutter Island” (2010) era um filme sobre a decomposição interior do próprio tempo, “O Lobo de Wall Street” talvez possa ser definido como o retrato de alguém que vive a acumulação de riqueza (e drogas) como se o tempo não existisse fora da sua própria ansiedade.

Será preciso relembrar que nada disto é estranho ao facto de Scorsese continuar a ser um genial director de actores? É a quinta vez que Leonardo DiCaprio trabalha sob a sua direcção, depois de “Gangs de Nova Iorque” (2002), “O Aviador” (2004), “The Departed – Entre Inimigos” (2006) e o já referido “Shutter Island”. E o menos que se pode dizer é que, através desses filmes, vamos assistindo à (re)afirmação de um actor invulgar que não tem receio de regressar à clássica dimensão psicológica das personagens. Trata-se, por certo, de um atitude assumida em cumplicidade com o próprio Scorsese, ele que, sendo um militante defensor do património cinematográfico, sempre valorizou os clássicos como núcleo da sua formação e do seu amor pelo cinema.

 

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