12 de Dezembro, 19h: “Photo”

PHoto blogRealização: Carlos Saboga

Intérpretes: Anna Mouglalis, Simão Cayatte, Johan Leysen, Rui Morrison, Ana Padrão

POR 2012, 85’, M/12

Após a trágica morte da mãe, Elisa descobre que o homem que a criou como filha não é o seu verdadeiro pai. Com um sentimento de perda e desamparo, tenta encontrar respostas nas imensas fotos deixadas pela progenitora. Nessa busca de si mesma, decide deixar Paris rumo a Lisboa, ao encontro do passado da mãe e de um pai desconhecido que talvez tenha as respostas por que anseia.
Produzido por Paulo Branco, marca a estreia na realização de Carlos Saboga, conhecido pelos argumentos de filmes como “O Lugar do Morto” (António-Pedro Vasconcelos), “Matar Saudades” (Fernando Lopes), “O Milagre segundo Salomé” e “Amor de Perdição” (Mário Barroso), “Os Mistérios de Lisboa” (Raul Rouiz) ou “As Linhas de Wellington” (Valéria Sarmento). No elenco, Anna Mouglalis, Rui Morrison, Simão Cayatte, Marisa Paredes, John Leyesen e Ana Padrão, entre outros. PÚBLICO

Muitas vezes apontado como o melhor argumentista português, Carlos Saboga, a morar fora de Portugal desde os 20 anos, passou agora aos 76 para trás de uma câmara de filmar e realizou o seu primeiro filme. Photo (estreado em Portugal na semana passada), protagonizado por Anna Mouglalis, faz um flashback ficcionado aos últimos anos da ditadura fascista que levou o jovem Saboga a atravessar a fronteira a salto e a inconformar-se com o país.

Carlos Saboga é o premiado argumentista de Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, de Linhas de Wellington, pensado para Ruiz mas realizado pela sua viúva, Valeria Sarmiento, e de filmes de quase todos os realizadores portugueses da sua geração. Para António-Pedro Vasconcelos escreveu O Lugar do Morto, Jaime, Aqui d’ El Rei; para Mário Barroso, Amor de Perdição e o Milagre Segundo Salomé; para Fernando Lopes, “o pior filme dele”, Matar Saudades.

A sua relação com Portugal foi decorrendo à distância. Saiu do país, em 1965, com uma equipa de filmagem francesa com a qual trabalhava como assistente de realização, atravessando a fronteira a pé e clandestino para só voltar dias depois da revolução. “A 27 de Abril apanhei um avião de Roma para Lisboa”. Veio ver mas não quis ficar. Não só porque estava casado com uma italiana, e tinha “a vida toda lá”, mas também porque “na altura ainda tinha uma relação muito conflituosa com Portugal, um país onde tinha sofrido muito e onde parecia insuportável viver”, conta.

O pai, um operário vidreiro, militante do Partido Comunista, passou ao todo 15 anos preso. A mãe também fora presa, o que levou o jovem Carlos a passar muito tempo entregue aos cuidados da avó e a ver a mãe a ter que sustentar sozinha os quatro filhos. “Foram uma infância e juventude dificílimas. Via o meu pai preso ou na clandestinidade, não pude estudar porque não havia dinheiro e tive de ir trabalhar para uma fábrica”. Os problemas com o regime não se limitaram aos pais. “Como a minha família era perseguida, acabei por ser preso duas vezes, uma por três meses, outra durante seis meses”. Parecia-lhe não haver outro futuro e o passaporte era-lhe recusado. “Decidi que fugir era a única solução”.

Uma pátria em Paris

França foi o primeiro país de acolhimento. A partir de 1968 viveu em Roma, tendo viajado com documentos falsos. Acabou por obter um visto de residência do Estado italiano: “Os países democráticos percebiam a situação e autorizavam a permanência de exilados”. Em Itália foi assistente de realização, tradutor e correspondente da Cinéfilo, a revista dirigida em Lisboa por Fernando Lopes, que tinha como chefe de redacção António-Pedro Vasconcelos.

Correu ainda outra das capelinhas míticas dos exilados do regime. Viveu durante um ano em Argel, a fazer trabalhos para televisão, onde avistou Manuel Alegre e conheceu mais de perto Fernando Piteira Santos, opositor ao regime e um dos fundadores da Frente Patriótica de Libertação Nacional.

A liberdade em Lisboa permitiu-lhe finalmente “ter papéis” e instalar-se em Paris, “a cidade onde sempre quis viver”. E onde volta sempre: “Casei com uma francesa, o meu filho nasceu lá, tudo isso criou laços”.

Voltou recentemente. Durante sete anos vivera numa pequena cidade da Normandia, a uma hora de distância do centro de Paris, para onde fora à procura de uma casa capaz de albergar a sua vasta biblioteca. O senhorio de Paris quis vender a casa e os preços de arrendamento na capital eram incompatíveis com a sua necessidade de armazenamento. “Na Normandia tinha uma casa muito bonita, de 250 m2. Cabia lá tudo. Mas cansei-me porque a televisão matou a vida social em França”. Nada que fazer à noite, restaurantes fechados ao pôr-do-sol e o único cinema – “que tinha uma óptima programação, quase de cineclube” – fechado “porque toda a gente ficava em casa”.

Na mudança há dois anos, desfez-se de parte dos volumes da biblioteca mas, diz, “como todos os autodidactas tenho muita dificuldade em libertar-me dos livros. Os livros são a minha universidade”.

A conquista de uma instrução feita sem professores vinha de família. “O meu pai, que começou a trabalhar com oito anos, tinha, tal como os operários de então e os militantes do PC, uma grande aspiração à cultura. Lia muito, tinha uma biblioteca e ensinou-me a ler antes de eu ir para a escola, e ensinou-me francês”. Depois do reduto familiar, foi-se cultivando no ambiente cinéfilo e no convívio com namoradas universitárias e amigos letrados. “Marcou-me o Guerra e Paz, que li em miúdo, Os Miseráveis, a literatura portuguesa da altura”. Como argumentista seguiu o mesmo processo: “Comecei por informar-me como se fazem os argumentos e aprendi sistemas que depois fui abandonando porque não me convinham e a partir daí elaborei uma técnica pessoal”.

Um Wellington à medida

Além da sua longa carreira como argumentista de filmes, trabalhou durante anos para canais franceses de televisão, mas foi o trabalho premiado com Raúl Ruiz que lhe deu projecção internacional. “Não o conhecia, nos primeiros tempos ele telefonava-me do Chile”. E embora houvesse uma miscelânea de origens envolvida no trabalho de adaptar os Mistérios de Lisboa, de Camilo Castelo Branco, Carlos Saboga diz que foi um trabalho fácil: “O Camilo estranhamente cai sempre no lado bom. O problema era reduzir 800 páginas a um argumento”. Em relação ao realizador chileno falecido em 2011, recorda: “Trabalhar com ele foi extraordinário, porque tinha uma erudição incrível. Passava horas a falar de autores que eu não conhecia”. Em As Linhas de Wellington, o filme que se seguiu, igualmente produzido por Paulo Branco, Carlos Saboga foi acrescentando peças ao argumento para incluir os actores que queriam prestar homenagem ao realizador que entretanto tinha morrido. “O general Wellington era para ser quase só um vulto na paisagem, mas quando o John Malkovich quis entrar no filme, pareceu-me que ele só podia ser o Wellington e que tinha de desenvolver a personagem”.

Actualmente a preparar o seu próximo filme, passado em Lisboa durante a II Guerra Mundial (e de novo produzido por Paulo Branco), Saboga está também a escrever um argumento para Mário Barroso (amigo, compadre e visita de casa em Paris) e a responder a encomendas de produtores.

Embora viva em França, é do cinema independente norte-americano que gosta, desde o Paul Thomas Anderson de Magnólia aos irmãos Coen. “Fui marcado pela Nouvelle Vague, mas o cinema francês de agora não me diz grande coisa. Não tenho um espírito nacionalista. Também mais depressa leio o Don DeLillo que um escritor português”. (Telma Miguel, in Sol)

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