Cinema e Banda Desenhada Francesa

BD

O AZUL É UMA COR CINEMATOGRÁFICA

Depois de uma primeira parte que começou com a recuperação de um clássico da ficção científica, que foi a primeira superprodução internacional baseada numa BD (“Barbarella”), prosseguiu com a estreia de Marjane Satrapi na direcção de actores (entre os quais a portuguesa Maria de Medeiros), numa história que mergulha nas memórias familiares da autora de “Persépolis” (“Galinha com Ameixas”) e que terminou com adaptação de uma das menos conhecidas, mas nem por isso menos interessante, criação de Renée Goscinny (“O Menino Nicolau”) o Ciclo de Banda Desenhada e Cinema organizado pelo Cineclube de Tomar, chega ao fim em tons de azul.

Com efeito, é azul a cor dos cabelos das personagens principais dos dois filmes que passarão nas sessões nocturnas de quinta e sexta-feira: Jill Bioskop, a “mulher armadilha” de “Imortal” de Enki Bilal, e Emma, a rapariga que vai levar Adele a descobrir a sua verdadeira sexualidade em “A Vida de Adele”, de Abdellatif Kechiche. Daí que se possa dizer com propriedade que, nesta segunda parte do ciclo, o azul é uma cor cinematográfica.

A abrir está segunda semana do ciclo temos “Imortal”, de 2004, a terceira longa metragem de Enki Bilal, nome maior da Banda Desenhada europeia. Nascido em Belgrado em 1951, filho de uma mãe checa e de um pai Bósnio, Bilal mudou-se com a sua família para Paris em 1961, onde descobriu a BD e o cinema, as duas formas artísticas a que dedicaria a sua vida. Tendo iniciado a sua carreira na BD na revista “Pilote” em 1972, é nas páginas dessa mesma revista que inicia a sua colaboração com o escritor Pierre Christin, de que sairiam trabalhos como “As Falanges da Ordem Negra” e, sobretudo, “A Caçada”, obras marcadas por uma forte componente política, a que o traço barroco de Bilal dava uma dimensão mais inquietante e surreal.

Iniciada em 1980, com “A Feira dos Imortais”, numa fase em que a colaboração com Christin ainda estava bem activa e prestes a dar os seus melhores frutos (o notável “A Caçada”) a “Trilogia Nikopol” veio provar que Enki Bilal também era capaz de criar as suas próprias histórias, escolhendo como cenário um futuro próximo, tão sombrio como as cores que o seu autor utiliza habitualmente. E, se os treze anos que separam a realização dos três álbuns permitem verificar a evolução do traço de Bilal e a forma brilhante como passa do sistema de trabalho clássico para uma fabulosa cor directa, também é interessante verificar como o autor se vai afastando da narrativa tradicional da BD, através da introdução de elementos como recortes de jornais (no caso de “Mulher Armadilha”, o segundo álbum, é mesmo um suplemento do jornal “Liberation”, datado de 1993, mas com textos de 2025), que fornecem informação complementar sobre  o futuro distópico imaginado por Bilal.

Centrada em três personagens, o deus Egípcio renegado Horus,  a jornalista Jill Bioskop, a mulher armadilha de cabelo azul e pele branca, e o astronauta Alcides Nikopol, cujo corpo vai servir de abrigo a Horus, a “Trilogia Nikopol” é o trabalho mais conceituado do seu autor, tendo o último volume, “Frio Equador” sido considerado pela revista “Lire” como o melhor livro do ano em 1993, em todas as categorias literárias, não apenas na área da BD. Mas o reconhecimento dos seus pares e da crítica literária francesa não foi suficiente para Bilal, que se tornou também realizador de cinema. A paixão de Bilal pelo cinema esteve sempre presente  na sua obra (não por acaso, o apelido da Mulher Armadilha, Bioskop, significa cinema em russo e o personagem Nikopol tem as feições de Bruno Ganz) e, depois de ter trabalhado com Alan Resnais, primeiro ilustrando o cartaz de “Mon Oncle d’Amerique” e depois pintando os cenários de “La Vie est un Roman”, Bilal estreou-se na realização em 1989, com “Bunker Palace Hotel”, um filme escrito por Christin que transpõe  para o grande ecrã com fidelidade o universo de papel de Bilal.

Seguiu-se “Thyko Moon”, em 1997, filme que passou completamente despercebido e foi um fracasso comercial, o que não diminuiu a vontade de Bilal de fazer cinema. Uma vontade satisfeita finalmente em 2004, com a estreia de “imortal”, uma revisitação, mais do que uma adaptação da Trilogia Nikopol, centrada na sua personagem mais emblemática, Jill Bioskop, a “mulher armadilha”. Para além da mudança da acção de Paris para Nova Iorque, há várias diferenças naturais em relação às BDs originais o que não impede que o todo seja facilmente reconhecível – apesar de alguns feitos digitais menos conseguidos, que faz com que falte a algumas imagens a patine oxidada tão característica do desenhador – como sendo inequivocamente de Bilal. Como o próprio autor refere “os meus filmes parecem-se com as minhas BDs e vice-versa. E nem uns nem outros são tradicionais. Daí que os puristas de qualquer uma das linguagens tenham dificuldade em se reconhecer neles.”

Seguem-se nas sessões de sexta dirigidas ao público infantil, dois filmes de animação em que os próprios autores adaptam para o cinema as suas mais famosas criações. É o caso de Zep, com o seu Titeuf, que depois de uma série de animação que já passou na televisão portuguesa, protagoniza agora uma longa metragem e de Joann Sfar, que depois da inspirada biografia do cantor Serge Gainsbourg (“Gainsbourg, Vie Heroique”) adapta ao cinema a sua série mais popular, num filme de animação tradicional, que consegue preservar todo o humor e poesia da BD original.

O mais aguardado filme deste ciclo, recém galardoado com a Palma de Ouro no último Festival de Cannes, chega na sexta-feira à noite. “A Vida de  Adele. Capítulos 1e 2”, de Abdellatif Kechiche, que adapta livremente a novela gráfica “Le Bleu est une Couleur Chaude” de Juile Maroh. Obra de estreia da autora, premiada com o Prémio do Público no Festival de Angouléme de 2001, “Le Bleu…” é uma história trágica de amor, marcada pela homossexualidade, com contornos autobiográficos e que serviu de ponto de partida ao filme de Kechiche, mas não de ponto de chegada. A mudança é evidente, até no nome das personagens, com a Clementine da BD, a dar lugar a Adele que, não por acaso, é o nome da extraordinária actriz que Kechiche filma de forma vampírica. Essa alteração, introduzida no decorrer das filmagens, é sintomática da relação que o realizador estabeleceu com a sua actriz e que faz com que o filme se afaste da BD que lhe serviu de base. Esqueçamos as acusações das actrizes e da equipa de produção em relação ao carácter tirânico de Kechiche, ou as queixas de Maroh de que o realizador a ignorou completamente, antes e depois do filme estrear. O que interessa é o resultado. Um filme extraordinário que, como sabiamente conclui Julie Maroh “é uma outra versão/ visão/ realidade de uma mesma história”. Uma história que nasceu nas páginas de uma Banda Desenhada.

Para encerrar o ciclo temos, no sábado, “Astérix e Cleópatra”, a mais inspirada das adaptações ao cinema das aventuras do popular gaulês criado por Goscinny e Uderzo. Dirigido por Alain Chabat, este é o filme que melhor soube captar o humor intemporal de Goscinny, feito de trocadilhos deliciosos e de anacronismos que permitem fazer um paralelo com a realidade actual. Chabat, que anos mais tarde levou também ao cinema outro célebre personagem da BD franco-belga, o Marsupilami, criado por Franquin para as aventuras de Spirou, tem experiência como argumentista de Banda Desenhada, tendo escrito o argumento do terceiro álbum de “Ranxerox”, a série de culto criada por Tamburini e Liberatore. O mesmo Liberatore que trabalhou como conselheiro visual neste filme, tendo desenhado, entre outras coisas, os vestidos que fazem de Mónica Belucci um Cleópatra ainda mais inesquecível. Curiosamente, este é o filme de Astérix de que  o Uderzo menos gosta. Tendo em conta a qualidade média dos argumentos que Uderzo escreveu para a série, até nem admira…

João Miguel Lameiras

 

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