3 de Outubro, 19h: “O Profundo Mar Azul”

DeepBlueSea-2Realização: Terence Davies

Intérpretes: Rachel Weisz, Tom Hiddleston, Ann Mitchell, Jolyon Coy

RU/EUA 2011, 98’, M/12

Londres, 1950. Hester Collyer (Rachel Weisz), a jovem esposa do juiz William Collyer (Simon Russell Beale), leva uma vida confortável. Apesar de tudo, o seu casamento há muito que perdeu a chama e ela sente-se infeliz e incompreendida. Até ao dia em que conhece Freddie Page (Tom Hiddleston), um atraente e impetuoso ex-piloto da força aérea britânica. A paixão por Freddie, assim como a relação erótica que nasce entre os dois, deixa-a emocionalmente dependente dele e, simultaneamente, isolada de todos os outros. Porém, apesar de consciente de que jamais sentirá o conforto e a estabilidade que antes sentia, regressar ao tédio da sua vida anterior é algo que já não imagina possível…

 

Terence Davies é um caso singular no cinema britânico das últimas décadas. Quanto mais não seja por ter vincado uma identidade de “autor” trabalhando sempre sobre modelos que, não negando um vínculo com a dominante corrente do “realismo britânico” (de onde vêm, e sempre estiveram, Ken Loach ou Mike Leigh), dela se afastam decisivamente. É por norma um cinema do artifício, do estúdio, com forte influência do musical (como espectáculo, teatral ou cinematográfico) e da música (como expressão popular, folk, no melhor, e quase etnográfico, sentido do termo), temperado por umas quantas persistências de raiz autobiográfica, como a cidade de Liverpool (terra natal de Davies) e os anos 50 da Grã-Bretanha (época em que Davies, que nasceu em 1945, cresceu). Não espanta que os seus melhores filmes sejam aqueles, feitos “em casa”, em que tudo isto se junta harmoniosamente: “Distant Voices, Still Lives”, que em finais dos anos 80 se aguentou semanas a fio no Quarteto, ou “The Long Day Closes”. Nem que os piores, ainda que eventualmente mais famosos (o mercado é o mercado), sejam os que foi fazer à América, “The Neon Bible” ou “House of Mirth”, que desfazendo o vínculo fundamental do cinema de Davies deixavam à vista o que ele tem de pior, a saber, uma queda para um academismo muito rígido (e muito “britânico”) e muito bem ornamentado.

Toda a singularidade de Davies, inclusive o que nela há de mais indigesto, está expressa em “O Profundo Mar Azul”. O filme adapta uma peça de Terence Rattigan, datada de 1952, e é uma espécie de “end of the affair”, até certo ponto bastante comparável com a conhecida história de Graham Greene que não há muitos anos Neil Jordan adaptou – a história do fim de um amor ilícito (quer dizer, adúltero) entre a mulher de um juiz (Rachel Weisz) e um antigo aviador da RAF (Tom Hiddleston), contada parcialmente num flashback lançado pela tentativa de suicídio da personagem de Weisz, que é por onde o filme começa.

Weisz e Hiddleston são muito bons, e até muito comoventes, e muito bons – muito “britânicos”, agora no bom sentido – são todos os actores secundários. A peça é perfeitamente integrada na sua época, a Inglaterra (Londres) do pós-guerra, reconstituída em estúdio: em estrutura circular, o filme abre e fecha com um movimento de câmara que sai (e no fim, volta) a uma casa em ruínas, mais do que provável ferida ainda não cicatrizada dos anos do Blitz. Mas é também a psicologia da época que está em causa, através da personagem do ex-aviador: FUBAR, descreve-se ele, recuperando um acrónimo do tempo da guerra (fucked up beyond all recognition) como justificação para a sua absoluta incapacidade de se comprometer emocionalmente – dessa incapacidade, desse estado de FUBAR, salta precisamente a implacável violência emocional do filme (e provável centro da peça de Rattigan), como radiografia psicológica da geração que combateu na guerra, se viciou em fear and excitement e nunca mais o encontrou depois de 1940, ano da Batalha de Inglaterra (“1940 foi o ano favorito dele”, como bem percebe Weisz). Muito justo, e muito convincente, tanto mais que Davies se serve da folk (as canções no pub, ou nos flashbacks no metropolitano durante os bombardeamentos do Blitz) não para “certificar” a época mas para ajudar a compor, muito para além dos clichés do stiff upper lip, um retrato da britishness muito pouco habitual… (Luis Miguel Oliveira, in Ipsilon)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s