19 de Setembro, 19h: “Uma Família Respeitável”

Uma família respeitável blogRealização: Massoud Bakhshi

Intérpretes: Babak Hamidian, Mehrdad Sedighian e Mehran Ahmadi

Irão/França 2012, 90’, M/12

Arash é um jovem académico que vive no Ocidente. Regressa ao Irão para leccionar um curso em Shiraz, uma cidade longe de Teerão onde a mãe vive. Arrastado para uma série de dramas familiares e financeiros, enfrenta um país que agora lhe é estranho. Na sequência da morte do pai e ao descobrir aquilo em que a sua “família respeitável” se transformou, vê-se forçado a fazer escolhas.

Primeira longa-metragem do documentarista iraniano Massoud Bakhshi. Um drama familiar que é, segundo as suas próprias palavras, “a história da minha infância após a revolução de 1979, da minha adolescência durante a guerra e da minha experiência na Teerão dos dias de hoje.”

 

Uma Família Respeitável, um excelente thriller iraniano.

O realizador e documentarista iraniano Massoud Bakhshi, de 41 anos, estreou-se em cheio na Quinzena dos Realizadores de Cannes 2012, com a sua primeira longa-metragem de ficção, intitulada ironicamente ‘Uma Família Respeitável’. Trata-se de excelente thriller persa, que parece combinar o estilo da nova vaga de realizadores iranianos: o suspense e humanismo de Asghar Farhadi em ‘Uma Separação’ e a ousadia e rebeldia de Bahman Ghobadi em ‘Gatos Persas’. E para a sua primeira longa-metragem, Bakhshi bate forte: imagens de espancamentos na rua, as trafulhices de uma casta de oligarcas, protegidos pelo regime e a corrupção generalizada. Arash Saafi (extraordinária a interpretação de Babak Hamidian) é um jovem professor universitário, exilado em França desde os 15, que regressa ao Irão, após 22 anos de uma ausência quase forçada.

No entanto, o seu semestre como professor-convidado na Universidade de Shiraz, a mais de 500 Km de Teerão e onde vive agora a sua mãe, volta a confrontá-lo com as realidades e costumes aos quais escapou, tentou esquecer e deixou de compreender: as complicadas questões financeiras da sua família disfuncional, a corrupção, o constante desprezo pelos direitos humanos e civis, a burocracia kafkiana e as suas memórias pessoais e traumáticas de uma infância passada, durante a Guerra Irão-Iraque. Na sequência da morte do pai, durante a sua estadia, Arash vê-se no centro de uma conspiração familiar, motivada pelas partilhas de uma fortuna feita de forma sinistra e descobre aquilo em que a sua ‘família respeitável’ se transformou nestes últimos anos de regime.

Como ponto de partida desta simples história familiar, Bakhshi filma a complexidade do Irão, um país asfixiado pelo fundamentalismo a todos os níveis, que aliena o povo através do terror e da violência histórica, psicológica e social. Apesar de toda a intransigência política com que o filma o seu país, recusa-se mesmo assim a abandonar a esperança de liberdade. Para contextualizar, usa imagens de arquivo nos flashback do início dos anos 80, quando estalou a guerra, (que marcou toda uma geração de filhos da revolução Khomeini) e imagens da actualidade, quando decorre o filme em plena Revolução Verde. O filme de facto capta habilmente as incongruências de um país onde a linha entre o privado e o público parece irremediavelmente embaraçada, num capitalismo de estado, na elite dos negócios, que estão protegidos pela capa da religião. E por outro lado, suportados pela brutalidade da polícia do regime e pelos fantasmas da revolução e do fundamentalismo islâmico. Esta abundância de temas é compensada por uma raiva e um espírito de insubordinação avassalador, num notável thriller existencial e político que faz lembrar ainda os filmes dos italianos Marco Bellocchio ou Francesco Rosi. ‘Uma Família Respeitável’ é um filme cínico que perfura cirurgicamente todos os tabus de um país sempre a ferro e fogo. (José Vieira Mendes, in Final Cut)

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