12 de Setembro, 19h: “A Batalha de Tabatô”

Tabatô blogRealização: João Viana

Intérpretes: Mamadu Baio, Fatu Djebaté, Imutar Djebaté

Guiné-Bissau/Portugal 2012, 80’, M/12

Depois de anos a viver em Portugal, o pai de Fatu regressa a África para assistir ao casamento da filha com Idrissa Djebaté. Ela é professora universitária e o seu futuro marido é um músico conhecido. A festa de casamento é em Tabatô, um lugar extraordinário onde todos os seus habitantes são, há 500 anos, músicos djidius, cantores-poetas que narram contos e lendas representativos da vida africana. No caminho até lá, à medida que as recordações se avivam, o velho senhor começa a revelar traumas esquecidos da sua juventude, enquanto soldado mandinga na guerra colonial, décadas antes.
Filmado na Guiné- Bissau, é a primeira longa-metragem de ficção de João Viana, que foi distinguido com uma menção honrosa na edição de 2012 do Festival Internacional de Cinema de Berlim. PÚBLICO

 

Fantasmas que querem viver

A Batalha de Tabatô é uma viagem do realizador João Viana a uma terra escondida da Guiné-Bissau onde os vivos vivem lado a lado com os seus mortos. Lugar de cinema, portanto.

A Batalha de Tabatô foi um dos pontos altos do percurso internacional do cinema português deste ano: em Fevereiro, recebeu uma menção honrosa no Festival de Berlim que seria acompanhada da mesma honra, e no mesmo certame, para a curta Tabatô, também de João Viana (exibida no Curtas Vila do Conde). No entanto, Tabatô, a misteriosa terra africana, chegou aos ouvidos do realizador quase como um segredo. “Tinha acabado de trabalhar na montagem de Esta Noite [2008], de Werner Schroeter, na Alemanha, e conheci lá um jovem músico de formação clássica que me falou de uma aldeia na Guiné-Bissau – era um miúdo brilhante que sonhava ir para lá para aprender a sua música. Os meus pais falavam-me sempre dos “três B” da Alemanha – Brahms, Bach, e Beethoven. Mas isso fez-me um clique: lembrei-me de quando era criança em África.” A partir daí, “foi como se fosse o início de um rio, ou de uma nascente.” Depois de três curtas (A Piscina, 2004; A Verdade Inventada, 2008; e Alfama, 2009), e de várias colaborações (em filmes de Paulo Rocha, Manoel de Oliveira ou João César Monteiro), João Viana lançou-se na realização de A Batalha de Tabatô, primeira longa agora estreada em Lisboa (Nimas) e no Porto (Teatro Campo Alegre).

Depois do apelo inicial, o cineasta começou “a ligar para a Guiné e a tentar perceber que terra era essa”, explica ao Ípsilon. “Existiam duas: uma estava vazia e outra cheia de gente. A primeira chamava-se Bolama e era totalmente silenciosa. Tinha sido a capital da Guiné portuguesa [até 1941], uma cidade com monumentos oitocentistas, um cinema, uma assembleia num estilo neo-clássico, sem gente e com um céu de morcegos. Na outra aldeia, não se podia dormir à noite porque a música era permanente. Chamava-se Tabatô.”

Nesses sons, Viana encontrou a fonte de géneros musicais conhecidos dos nossos ouvidos. “É música tradicional afro-mandinga feita com instrumentos antigos que eles conservam. Alguns deles têm séculos, e a sua sonoridade dá origem ao que ouvimos hoje: o jazz, o reggae.” Os habitantes da aldeia, que dão corpo às personagens do filme, “são nómadas que estão sempre a viajar com a sua música”. “Mas há um ponto fixo que é estudado, há teses de doutoramento que estão a sair sobre Tabatô. Eu quis fazer um filme.”

Uma história de sangue

Nesse lugar, Tabatô, João Viana encontrou algo mais do que memórias musicais. Não por acaso, vive-se uma “batalha” na aldeia: um passado de guerra em luta permanente com o presente das famílias. Sobretudo, um pai que ainda vive na memória desse conflito anos depois de ele ter terminado, e cuja família se vê atingida pelos fantasmas que o rodeiam. “[O peso do passado na Guiné] é aflitivo, a escravatura e a guerra deixaram marcas terríveis em várias gerações”, diz o realizador. “A guerra é muito recente – todos os problemas têm uma origem histórica de 36 anos, em algo feito por nós [portugueses] há muito pouco tempo.”

Cabe ao cinema dar voz aos fantasmas que morreram nessa terra esquecida. “O cinema tem um lado fantasmal, sempre. Por alguma razão, o primeiro filme do [Carl] Dreyer chama-se Vampiro [1932]. Isso interessava-me porque Mutar, a personagem do filme, tem um lado fantasmal. Há uma altura em que ouvimos dizer “eles não se tocam”, porque não se pode tocar num fantasma.”

O regresso a África como território de fantasmas é um tema conhecido do público português, sobretudo por mérito de obras como Tabu (2012). Mas ao contrário do filme de Miguel Gomes, ancorado no imaginário cinematográfico sobre esse continente, João Viana optou por convocar vivos e mortos através da realidade que encontrou no presente. “Fui lá para fazer um documentário. No fundo, é como uma espécie de torneira ao contrário. Quando se ligam a câmara e os microfones, as coisas entram.” Na opinião do realizador, “já se contaram as histórias todas – é a realidade que nos dá coisas novas, não é a imaginação.”

Uma realidade que nos traz, no seu filme, o choque de duas culturas – a portuguesa e a guineense -, e reaviva um património que apenas pode ser assimilado pelos sentidos. “A língua [da região] não se encontra escrita, é um falar musical. Só a equipa africana é que percebia o que se estava a dizer. E o som é sempre muito libertador em África, é como um perfume acústico.” Música para os ouvidos, ou cinema para os olhos – para Viana, “os cineastas são músicos frustrados, e o cinema é a última forma de arte oral”. “Existe uma ligação com a música, ambos trabalham o tempo. A pantomina, que está na origem do cinema mudo, é algo que pede música, é quase um acorde musical.”

O cinema, defende Viana, pode viver sob várias formas e apontamentos, tanto num palco como noutros ecrãs. “É importante termos condições boas e uma grande sala – isso é maravilhoso e é completamente diferente ver cinema assim.” Mas, perante o afunilamento da distribuição, Viana diz que “já estamos como na Resistência francesa, em que as coisas entravam por outros lados – a mensagem que salvava a vida estava no pires de um café”. Indo directo ao assunto: “Interessava-me muito que certas pessoas que não vão ao cinema vissem o filme.” Ao filmar os que pereceram, talvez seja o cinema, hoje, a salvar vidas.(Francisco Valente, in Público – 12/07/2013)

 

 

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