25 de Julho, 19h: “O Mentor”

The MasterRealização: P. T. Anderson

Intérpretes: Philip Seymour Hoffman, Joaquin Phoenix, Amy Adams

EUA 2012, 144’, M/16

Freddie Quell (Joaquin Phoenix) é um veterano da Marinha norte-americana que regressa à Califórnia depois de anos a lutar no Pacífico, durante o período da II Guerra Mundial. Com marcas psicológicas profundas, que alteraram o seu temperamento, é um alcoólico viciado em sexo e com enormes dificuldades em conter um génio imprevisível e violento. Mas o fim da guerra traz também a esperança e a vontade de acreditar numa oportunidade para refazer a vida. Assim, depois de alguns esforços de adaptação a esta nova sociedade, conhece Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), o carismático líder de um movimento filosófico que se auto-intitula “A Causa”. Dodd toma-o sob a sua protecção, e entre ambos acaba por nascer uma relação muito próxima, complexa e difícil que se desenrolará durante quase uma década.

 

The Master – O Mentor, por Tiago Ramos

Quando o filme começa com aquele plano sobre a água agitada e partimos depois para conhecer uma personagem tão bizarra quanto o Freddie, facilmente nos apercebemos que The Master – O Mentor parte dos mesmos princípios de agitação. Aquela música, desconcertante e perturbadora, um som constante, um batuque cortado com o som do violoncelo, uma espécie de desafinação sonora que incomoda tanto quanto as imagens que se nos apresentam. E o espectador começa a perceber que o caminho de Paul Thomas Anderson é também ele uma agitação, uma espécie de percurso sem rumo, numa América pós-Guerra, numa desorientação social e pessoal. E a nós resta reagir de uma de duas formas: ou negarmos essa perturbação ou aproveitarmos essa desorientação incómoda para nos deixarmos levar por uma narrativa que não sabe onde nos leva, especialmente porque também não é isso que almeja. Aqui temos um trabalho obsessivo e desorientado que deambula por um caminho perturbador para o espectador que esperava uma estrutura de narrativa clássica (e que aqui é completamente oposta ao seu anterior e maravilhoso trabalho, There Will Be Blood). E isso pode ser tão incómodo quanto refrescante, num filme que é tão pouco são quanto o protagonista e quanto a história que revela. The Master não é tanto sobre um culto religioso (a que não faltam comparações com a Cientologia), como é sobre personagens desorientadas, em busca de uma definição e sobre o controlo e dependência do Homem sobre outros.

Paul Thomas Anderson continua obsessivo no nível de detalhe, na forma irrepreensível com que a sua câmara aproveita o contexto de uma época (tecnicamente perfeito, desde a montagem, à fotografia de Mihai Malaimare Jr., passando pelo design de produção, até à banda sonora de Jonny Greenwood), mas dando espaço e foco aos seus actores e personagens. The Master é sobre elas, o seu percurso ou falta dele, a busca pela orientação. O filme é aquele conjunto de actores que brilha mais que qualquer outro este ano. Sobre aquela dinâmica dependente e tempestuosa entre as personagens de Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman (provavelmente os seus melhores trabalhos) que se ofuscam continuamente, mas que também trabalham harmoniosamente em conjunto (maravilhosa cena aquela do questionário), num misto de tensão, solidão, criatividade e loucura. É através deles que a câmara do cineasta norte-americano deambula por um dos seus mais divergentes e incertos trabalhos, incrivelmente contraditório e perturbador, incómodo e marcante. Amy Adams incrível na sua subtileza controlada, com uma Laura Dern a marcar ainda a narrativa com uns meros dez minutos de presença, mas a definir tão bem o rumo que a história toma e a merecer certamente mais crédito por aí.

The Master é por isso também o caminho de um dos grandes cineastas vivos, sem medo de dar ao cinema mais do que entretenimento. Sem dar espaço a concessões e por isso também que menos se importa em desorientar o espectador. É afinal isso que quer, porque também ele vive assim, uma angústia e solidão, com temas familiares tão marcantes, uma divergência de pensamento. E é por isso que, a acompanhar a narrativa, temos aquela música perturbadora e constante. Irritante, às vezes. Que nos deixa indispostos. Porque a sua intenção é não ter caminho e objectivo visível, mas sim a de vislumbrar uma sociedade ansiosa, desgastada e perturbada. Talvez tão louca quanto Freddie Quell, aquela loucura controlada que todos nós temos, mas ansiamos esconder. E talvez vivamos todos assim tão à beira do precipício.
Ler mais: http://splitscreen-blog.blogspot.com/2013/02/the-master-o-mentor-por-tiago-ramos.html#ixzz2ZuSrb8oI

 

 

 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s