27 de Junho, 19h: “Não”

Não blogRealização: Pablo Larraín

Interpretação: Gael García Bernal, Alfredo Castro, Antonia Zegers

CHILE 2012, 118’, M/12

Chile, 1988. Devido a várias pressões internacionais, o general Augusto Pinochet (1915 – 2006), chegado ao poder através do golpe militar que derrubou o governo eleito de Salvador Allende, é forçado a convocar um referendo sobre a sua presidência. Os cidadãos votarão “SIM” ou “NÃO”, o que determinará o seu direito de governar durante mais 8 anos. É então que os líderes da oposição persuadem René Saavedra (Gael García Bernal), um jovem publicitário, a liderar a sua campanha pelo “NÃO”. Assim, contra todas as expectativas, Saavedra e a sua equipa de homens corajosos conseguem ganhar e libertar o Chile de uma ditadura de 17 anos.

A personagem de René Saavedra não é real, mas sim uma amálgama dos dois publicitários chilenos, Eugenio García e José Manuel Salcedo, que organizaram a campanha do “Não”.

 

Um grandíssimo filme político que fala do passado com os olhos postos hoje.
Let the Sunshine In, célebre canção do musical Hair, exortava o povo a “deixar entrar o sol” e é isso que o chileno Pablo Larraín faz ao seu cinema com “Não”. Depois de dois notabilíssimos filmes de quase-terror, claustrofóbicos e sufocantes, sobre o Chile da era Pinochet (Tony Manero, 2008, e Post Mortem, 2010), Não conta a história do momento em que o referendo de 1988 terminou de vez com a ditadura do general e abriu caminho à democracia, em que as nuvens (para continuar com a metáfora meteorológica) se começaram a dissipar.

Na prática, não há muita diferença no dispositivo – tal como em Tony Manero e Post Mortem, tudo se foca numa “pequena história” que funciona como micro-cosmos da “grande História”, e no modo como a política pública se reflecte num espaço privado. Só que, aqui, é uma história verídica: a de René Saavedra, publicitário que ajudou a vender o sonho de uma classe média sofisticada nos últimos anos do regime, que aceita ser consultor na campanha do “não” a Pinochet e, ao fazê-lo, acaba por assumir uma consciência política até aí adormecida. E a exploração interligada do público e do pessoal vai bem mais longe, apontando o momento da história do Chile em que a política transbordou da área exclusivamente cívica e moral para se tornar em disciplina de marketing, mensagem articulada de acordo com um contexto social e feita à medida de um país que está finalmente preparado para a receber. René Saavedra vende o “não” como quem vende refrigerantes ou telenovelas, mas o cinismo mercantil que tal postura daria a entender acaba por pôr o publicitário a provar do seu próprio “veneno” e a começar a compreender que a sua mensagem de alegria e esperança é mais do que apenas um slogan orelhudo.

Adaptado da peça teatral sobre o referendo de Antonio Skármeta (autor da obra que deu origem ao monumental sucesso que foi O Carteiro de Pablo Neruda), Não define-se como o encerrar de uma trilogia que Larraín dedicou à memória do Chile, olhando para o papel dos operários na sombra do regime, mas substituindo a banalidade sinistra do grande Alfredo Castro pela desenvoltura cosmopolita de Gael García Bernal. E convirá não esquecer a ideia engenhosa de rodar com câmaras de video U-matic da altura, formato hoje obsoleto que dá a patine de época e, nas mãos do director de fotografia Sergio Armstrong, opera um trabalho simultâneo de saturação e arrasto que parece ideal para esta história dos últimos dias de um regime cinzento e dos primeiros dias de um futuro aberto. Ou como a democracia foi possibilitada pela linguagem dos detergentes. Todos sabemos no que isso foi dar, mas as ilações são posteriores aos factos.  (Jorge Mourinha, in Ipsilon)

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