2 de Maio, 21h: “Amor”

AmourRealização: Michael Haneke

Intérpretes: Emmanuelle Riva, Jean-Louis Trintignant, Isabelle Huppert, Rita Blanco

FRA/AUS/ALE, 2012, 127, M/16

Georges e Anne são dois professores de música reformados que já passaram dos oitenta. Vivem comodamente num belo apartamento de Paris, têm uma vida cultural activa e sentem-se felizes e realizados. Até Anne ter um acidente cardiovascular. Saída do hospital, paralisada de um braço e impedida de voltar a tocar, torna-se totalmente dependente dos outros. Os dias vão passando até que todos se apercebem que a doença também lhe afecta o cérebro e que ela caminha para uma demência progressiva. E é assim que, a braços com uma situação sem retorno, eles vão ter de aprender a lidar com o medo e com a consciencialização do fim que inexoravelmente se aproxima.
Um filme dramático sobre o amor e a velhice, realizado pelo aclamado realizador austríaco Michael Haneke. O filme, aplaudido pelo público e pela crítica no Festival de Cannes de 2012, valeu a Haneke a segunda Palma de Ouro (depois de “O Laço Branco” em 2009) e foi o vencedor da 25.ª edição dos Prémios do Cinema Europeu, conquistando as quatro categorias principais: melhores filme, realizador, actor (Jean-Louis Trintignant, depois de uma ausência de mais de uma década) e actriz (Emmanuelle Riva). PÚBLICO

 

Amor, por Tiago Ramos

Há, ao início, uma sensação de libertação. Não sabemos ainda que tipo de libertação é, mas arrombam-se portas, abrem-se janelas, cortinas esvoaçam e o espectador sente-se subitamente livre. Mas pouco a pouco, o espectador apercebe-se que essa libertação não é a sua, porque o plano corta e, em breve, as portas daquela casa onde nos encontramos fechar-se-ão. A partir daí a câmara de Michael Haneke não nos deixa sair ficamos aprisionados naquela casa, com aquelas personagens e cada vez mais presos. Há personagens que entram, mas rapidamente saem ou são convidadas a sair. Há um pombo que entra, mas acaba por sair. E enquanto isso acontece, o espectador fica sempre ali. A câmara não o deixa sair. Talvez o deixe vislumbrar a rua pela janela. Brevemente, tal como a protagonista. E o espectador é tão íntimo daquelas personagens quanto elas mesmas. Haneke é manipulador e clínico, como sempre e nós deixamos. Mas ao mesmo tempo em Amour está um dos seus trabalhos mais (cruelmente) ternos de sempre. Aquilo que o seu argumento faz é colocar-nos perante um dos mais abnegados exemplos de amor e convivência conjunta, à medida que ambos definham perante a velhice, doença e a dor. É cruel e ao mesmo tempo tão incrivelmente terno e afectuoso, porque a crueldade nunca é daquelas personagens, – há apenas um desejo de ser livre, de ambos os lados – a crueldade vem da inevitabilidade da nossa natureza. Essa natureza tão incrivelmente genuína nunca poderia ser possível sem duas das melhores interpretações dos últimos anos. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva trabalham em conjunto de uma forma tão harmoniosa e absolutamente naturalista, evidente perante os seus gestos e expressões aparentemente tão rotineiros como assistir a um concerto, preparar uma refeição, vestir-se ou olhar-se. O olhar daquelas duas personagens é tão incrivelmente sentido, carinhoso e tão humanamente sensível que chega a ser impressionante a forma como transformam esses mecanismos ritmados em mais do que meras acções. São eles que conectam o processo de Haneke em nos manipular perante o sofrimento (e simultâneo amor) daquelas personagens. São eles que perante a óbvia rigidez formal do cineasta, ligam a essência da história.

Amour é um retrato da intimidade de um casal, um retrato clínico da verdadeira essência humana daquelas personagens, à medida que naturalmente definhem e sucumbem à crueldade da vida. Uma obra-prima humana e simplesmente devastadora que nos é revelada  pela visão habitualmente austera do cineasta austríaco. À medida que avançamos para o fim da narrativa, a sensação de libertação (a mesma com que nos confrontamos no início) começa a sentir-se. Há personagens que saem. Há quem se torne de facto livre. Há quem se liberte. Mas da mesma forma que aquela porta se abre e se sente a libertação, ao espectador não lhe é dada essa oportunidade. A porta tranca-se e com ela ficamos nós, fechados naquela salas (a câmara severa não nos deixa sair), naquelas paredes e a nós, voyeuristas forçados e intrometidos, não nos é dada oportunidade de libertação. E agradecemos, porque fomos expostos a um dos filmes mais cruelmente belos do Cinema.
Ler mais: http://splitscreen-blog.blogspot.com/2012/12/amor-por-tiago-ramos.html#ixzz2RU4kLEyH

EXCEPCIONALMENTE A SESSÃO É ÀS 21H

 

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