11 de Abril, 19h: “Reality”

Reality blog2_Realização: Matteo Garrone

Intérpretes: Aniello Arena, Loredana Simioli, Nando Paone

ITA/FRA 2012, 116’, M/12

Luciano (Aniello Arena) é um peixeiro napolitano, cuja disposição franca e alegre contagia todos à sua volta. Certo dia, pressionado pela família, decide concorrer ao Grande Fratello (versão italiana do reality show Big Brother), um dos mais célebres programas da televisão italiana. Porém o sonho de se tornar uma celebridade é de tal modo obsessivo que vai transformar toda a percepção que tem de si mesmo e de todos à sua volta…
Uma comédia dramática inspirada num facto real, realizada pelo italiano Matteo Garrone, depois do sucesso internacional de “Gomorra”, em 2008. Este filme, em competição na edição de 2012 do Festival de Cannes, valeu ao realizador o Prémio do Júri. PÚBLICO

Podia ser uma fábula – era uma vez o peixeiro napolitano que sonhava em aparecer na TV – mas, se o é, é uma fábula invertida que se torna em pesadelo, onde o desejo de fama e aceitação chama uma espiral infernal que desfaz a vida de Luciano. Reality é uma desmontagem lúcida e impiedosa, mas nunca gratuitamente cruel, da moderna cultura dos famosos, e um olhar sem complacências sobre um homem que se desfaz por aspirar a um mundo onde não pode entrar. Podia ser um filme inglês no modo como vê as coisas pelo prisma social, mas tem muito mais da tradição do grande cinema italiano, com o seu quê de Fellini na parada de grotescos que nos vai deixando um travo amargo na boca; porque esta Itália berlusconizada que Garrone pinta com humanidade é mesmo aqui ao lado.(Jorge Mourinha, in Ipsilon)

Reality, por Tiago Ramos

Aquele plano-sequência inicial, aéreo, de Reality é tão belo quanto importante, já que é a partir dele que se estabelece o tom meio irreal, quase surrealista, que o filme vai assumir. É aquela festa de casamento, aquele espectáculo de carruagens, cavalos brancos, pombas, dourados, com direito a convidados de honra e um artista drag queen, que funciona como ponto de partida para este espectáculo da vida real. É também por isso não menos marcante, aquela sequência pós-casamento, em que naquele pequeno e aterrador aglomerado de casas, um travelling vai revelando a rotina das personagens, enquanto estas mudam de fatos de festa para roupa de dormir ou se desmaquilham. Acabou, é o fim do espectáculo, da festa. E aí começa a estabelecer-se uma fusão entre a realidade e a fantasia, com os dois planos a tornarem-se de certo modo indistinguíveis e confusos. Daí que a extraordinária banda sonora de Alexandre Desplat funcione muito bem a estabelecer o tom fantástico que o filme vai assumindo, assim como a câmara de Matteo Garrone e a direcção de fotografia por vezes meio difusas, aos tremeliques, meio confusas também, tal como o protagonista. À medida que a confusão do protagonista cresce, o tom cómico, meio burlesco, meio kitsch, vai diminuindo e evoluindo para um tom caricato, mas não menos trágico. Mais que uma mera intenção primária de acusar a busca pela fama através dos reality shows, nomeadamente o Grande Fratello (aqui entre nós conhecido como Big Brother) – essa intenção está lá, sim – Reality assume-se principalmente pela forma como discute o choque da realidade e do aprisionamento da vida quotidiano versus o aprisionamento à ideia da fantasia de uma vida melhor. Aliás, essa ideia está lá na forma como aquela família vive não só do seu trabalho normal naquela banca de peixe, mas também de um esquema com robôs de cozinha, que mais não é também de uma tentativa iludida de burlar a realidade, com vista à fantasia.
O protagonista, Aniello Arena, surpreende pela forma obcecada e natural com que assume esta personagem tão sui generis, mas não desconhecida para o espectador mais atento à realidade que o rodeia (basta ligar a televisão de vez em quando). Mas o que surpreende, vem dos bastidores, já que na realidade é um presidiário condenado a pena perpétua e aqui convidado a protagonizar o filme, sob a condição de regressar diariamente aos verdadeiros grilhões da prisão onde cumpre a pena. Curioso porque também viverá ele ali entre os limites da real prisão e a fantasia ilusória da representação. A sua personagem transcende os limites da imaginação e entra no domínio do surreal, absurdo, fantástico, numa espiral que se revela descendente e cada vez mais estranha ao espectador que se vê, também ele, na linha quase indistinguível da realidade e da fantasia. Não será por isso de estranhar que, curiosamente, o título do filme apareça no fim. Reality. Como que a estabelecer o domínio entre o que foi fantasia e o que virá a ser a realidade.

 

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