7 de Fevereiro, 19h: “20,13”

20,13 posterRealização: Joaquim Leitão

Intérpretes: Marco d’Almeida, Adriano Carvalho, Carla Chambel, Ivo Canelas, Angélico Vieira

POR 2006, 114’, M/16Q

Guerra do Ultramar, Norte de Moçambique, 24 de Dezembro de 1969. Uma patrulha percorre a picada, de regresso ao aquartelamento, trazendo um prisioneiro. Estão cansados, avançam sob um calor sufocante, estão desejosos por chegar e têm um dos seus ferido. Avizinham-se também as festividades, para matar por umas horas a saudade e iludir a tristeza de estar longe, da guerra. Contam que terão uma noite em paz, sem tiros, dado o costume da trégua tácita em noite e dia de Natal. Mas não será uma noite tranquila. A mulher do capitão vem passar o Natal, e é visível o mal-estar entre os dois. O prisioneiro aparece morto durante a noite e um dos soldados também. E sem se saber porquê, começam a ser bombardeados por todos os lados. Uma noite em que a violência da guerra se sobrepõe à violência das paixões e um alferes, que tem de defender uma guerra na qual não acredita, tenta encontrar fios de lógica e desvendar os segredos dos inexplicáveis acontecimentos da noite. Último filme de Joaquim Leitão, “20,13” vai buscar o título a um versículo da Bíblia que estará na origem de um dos mistérios da história. É protagonizado por Marco d’Almeida, Adriano Carvalho, Carla Chambel, Maya Booth, Ivo Canelas e Angélico Vieira.

O filme será apresentado com legendas em inglês, pois teremos a assistir um grupo de estudantes do programa Erasmus que têm estado em Tomar nas últimas semanas.

NOITE ESCURA
Segunda parte de uma trilogia dedicada à guerra colonial (a primeira foi “Inferno”, de 1999), “20,13” decorre na véspera de Natal de 1969, num quartel de Moçambique, e centra-se nos acontecimentos de uma noite determinante para todos os soldados e restantes presentes no local.

À semelhança da maioria dos títulos da sua filmografia, Joaquim Leitão apresenta aqui uma obra que, contrariamente a algum cinema nacional, é feita a pensar no grande público, mas não deixa por isso de ser uma proposta que responde aos graus de exigência necessários para que se encontre aqui uma interessante experiência cinematográfica.

Interligando uma história marcada por algum suspense (há um assassinato cujo responsável só é revelado no final) e conturbadas relações amorosas com um olhar sobre o quotidiano dos recrutas da base militar, “20,13” oferece uma eficaz reflexão sobre a vida e convivência num quartel, assim como dos sacrifícios que os que aí se encontram estão dispostos – ou são obrigados – a fazer, onde persiste um forte sentimento de perda aliado a traços de esperança que se insinuam a espaços.

Do meio deste retrato de grupo emergem algumas figuras mais determinantes para a narrativa, casos do capitão Costa e do alferes Gaio, pólos opostos (ou, como o filme vai revelando, talvez nem tanto) devido às diferenças de posicionamento perante a guerra. O primeiro, austero e empenhado, defende os propósitos e interesses do regime sem hesitações; já o segundo adopta uma postura mais ambígua, cumprindo a sua missão sem falhas mas mantendo sempre reservas quanto ao conflito em que está envolvido.
A posição respeitável e sem manchas do capitão ameaça, no entanto, ficar comprometida devido à sua relação (naturalmente secreta) com um enfermeiro mais novo, sobretudo quando a sua esposa faz uma visita-surpresa ao quartel e, mais ainda, depois do jovem ser encontrado morto, vítima de homicídio.

Joaquim Leitão oferece uma obra sóbria, alternando com segurança cenas de acção com momentos mais apaziguados onde o combate é então verbal, em particular nas cenas de discussão conjugal.
O realismo surge como elemento sempre presente, auxiliado por um elenco coeso (Marco d’Almeida, no papel de Gaio, é exemplar e magnético) e por uma reconstituição histórica igualmente fulcral para que as peripécias sejam verosímeis. Não menos relevante é a banda-sonora, com destaque para as canções de José Afonso (“Menina dos Olhos Tristes”) e Madalena Iglésias (“Ele e Ela”), ambas cantadas durante uma festa mas despoletando ressonâncias emocionais bem díspares em algumas personagens.

Nem tudo resulta, contudo, já que o mistério policial (de contornos bíblicos, tanto que o número de um dos versículos e capítulos até originou o título do filme) é mais previsível do que intrigante, sendo a última cena dispensável, uma vez que apenas reforça uma certeza que sequências anteriores já haviam confirmado.
Certas personagens ganhariam com um maior desenvolvimento (pelo menos as do médico e esposa), mas o retrato colectivo é bem conseguido e, mesmo nunca sendo genial, há que reconhecer que “20,13” é uma obra séria, inteligente e escorreita, características que poucos filmes portugueses estreados em 2006 podem orgulhar-se de possuir. Razões mais do que suficientes, então, para não deixar passar esta boa proposta, talvez a melhor de Joaquim Leitão.

Gonçalo Sá (http://gonn1000.blogspot.pt/2007/01/noite-escura.html)

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