21 de Junho, 19h: “O Artista”

Realização: Michel Hazanavicius

Interpretação: Jean Dujardin, Bérénice Bejo, John Goodman

FRA, 2011, 100’, M/12Q

Hollywood, 1927. George Valentin (Jean Dujardin) é a grande estrela da noite de estreia de “A Russian Affair”, o seu mais recente filme. Nesse evento, conhece Peppy Miller (Bérénice Bejo), uma jovem bailarina e actriz em início de carreira. Com apoio de Valentin, que depressa se torna seu mentor e amigo, ela vai sendo acarinhada no meio, conquistando pouco a pouco mais protagonismo. Porém, dois anos depois, com o aparecimento do som na indústria cinematográfica, inicia-se o fim do cinema mudo e, por consequência, da carreira de Valentin. Absolutamente crente de que o som não será mais do que uma moda que em breve cairá em desuso, mas sem ninguém que produza um filme seu, o galã decide investir toda a sua fortuna na produção de uma nova película, cujo fracasso acaba por o levar à ruína. Até que, desesperado e quase a atentar contra a própria vida, reencontra Peppy Miller, hoje transformada em grande diva do ecrã, que tem ainda presente algo fundamental: a gratidão para com alguém que esteve ao seu lado quando o sucesso pouco mais era do que uma simples miragem.
Escrito e realizado pelo francês Michel Hazanavicius, depois de estrear na penúltima edição do Festival de Cannes (2011), recebeu vários prémios por todo o mundo. Nomeado para dez Óscares, recebeu cinco, entre os quais o de melhor filme, realizador e actor principal.

Fonte: Público Cinecartaz e IMDB

 

O vencedor dos Óscares 2012 é o filme pós-moderno por excelência, e uma carta de amor à essência do cinema

Entre o momento em que primeiro se falou de “O Artista” (quando estreou a concurso em Cannes) e a sua estreia comercial entre nós, o filme de Michel Hazanavicius tornou-se num fenómeno, confirmado pela sua liderança nas nomeações para os Óscares (que já se adivinhavam, é verdade). Como de costume, os prémios (que o filme começou a coleccionar logo em Cannes) são uma cortina de fumo que tapa a verdadeira importância de “O Artista”: a de provar, numa altura em que toda a gente fala de 3D, efeitos visuais, “motion capture” e outras tecnologias sofisticadas, que a linguagem visual do cinema não precisa de nada disso. Bastam dois actores a representar face a uma câmara. E se outra razão não houvesse para o recomendar, esta memória de um cinema primordial, mais simples, menos frenético, apoiado na história e nos actores, seria suficiente.

Há, felizmente, muito mais, porque “O Artista” é o filme pós-moderno por excelência. É um filme mudo a preto e branco sobre a Hollywood da passagem do mudo para o sonoro, regurgitando sem problemas duas das mais célebres narrativas míticas de Hollywood. Uma, a passagem de testemunho entre duas gerações de actores, como contada em “Nasce uma Estrela” (1937), de William Wellman, e nas suas “remakes” posteriores com Judy Garland (1954) e Barbra Streisand (1976). Outra, a das carreiras criadas e destruídas pelas mudanças de paradigma, conforme explorado no lendário “Serenata à Chuva” (1952) de Stanley Donen e Gene Kelly, que se passava precisamente na passagem do mudo para o sonoro.

Hazanavicius combina ambos na história de um galã do mudo cuja carreira é ameaçada pela chegada do som e pela popularidade da jovem actriz que ajudou a descobrir. E fá-lo homenageando a ideia de Hollywood como “fábrica de sonhos” ao mesmo tempo que a reutilização de narrativas com provas dadas (algo em que o sistema americano se tornou perito) o inscreve nessa mesma linhagem. Ironia suprema: fá-lo à distância, pois esta é uma produção inteiramente francesa, que consegue ser mais Hollywood que Hollywood ela própria, que se refugia numa projecção nostálgica de um passado glorioso que talvez nunca tenha passado da ficção, sucumbindo à ilusão que ela próprio cria.

Mas a verdade é que as lições de “O Artista” estão noutro lado. Primeiro, no seu apelo sincero a não olhar para o passado do cinema como algo que ficou apenas lá atrás, mas como alguém que continua connosco, presente, actual. Depois, na convicção de que um filme só resulta genuinamente quando a emoção passa do écrã para a sala, quando há uma sintonia absoluta entre quem o faz e quem o vê. Sem falsas nostalgias, isso acontecia nos tempos do cinema clássico de um modo que já não pode existir hoje, porque os tempos mudaram. E é isso que “O Artista” quer, de modo arrebatado, que volte a acontecer, apesar dos tempos terem mudado. Por trás da fachada do filme mudo a preto e branco, esconde-se uma carta de amor ao cinema que recorda uma coisa de que muitas vezes nos esquecemos: a emoção precisa apenas de dois actores e uma câmara. É isso que, na maior parte do tempo, “O Artista” é. E não precisa de mais nada; o resto é fachada. (Jorge Mourinha, in Ipsilon)

 

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