6 de Junho, 19h: “Lola

Realização: Jacques Demy

Interpretação: Anouk Aimée, Marc Michel

FRA/ITA, 1961, 83’, M/16

Lola é dançarina num cabaré em Nantes e espera o regresso do grande amor da sua vida, e pai do seu filho, Michel. Entretanto tem uma ligação esporádica com um marinheiro americano, Frankie. Na rua, Lola encontra por acaso um amigo de infância, Roland Cassard. Este acaba de aceitar a missão de levar uma misteriosa mala até Joanesburgo. Roland diz a Lola que está apaixonado por ela, mas esta rejeita-o. Quando Roland vai buscar a mala que deve transportar, apercebe-se que a polícia acaba de prender o seu interlocutor, mas consegue sair ileso. Roland decide embarcar à mesma para a África do Sul. Michel reaparece, Lola atira-se nos seus braços e ambos deixam juntos a cidade.

Sem pertencer ao grupo da Nouvelle Vague propriamente dita, Jacques Demy foi companheiro de geração do grupo e sobretudo companheiro de viagem dos começos do cinema moderno, das novas vagas. LOLA, a sua primeira longa metragem, é para muitos a sua obra-prima absoluta. Alguns explicam esta opinião pelo facto de Demy ter querido realizar uma comédia musical à americana, sem dispôr dos meios necessários. É precisamente por ser uma quase comédia musical, por estar sempre prestes a explodir em canções, sem nunca o fazer, por estar no limiar de um género e de um tipo de cinema no qual não se integra totalmente, que LOLA seria superior a filmes mais convencionalmente musicais, como LES DEMOISELLES DE ROCHEFORT e PEAU D´ÂNE. A ideia é bela, e ainda que questões de gosto pessoal entrem inevitavelmente em conta, não parece discutível que LOLA é um dos pontos culminantes da arte de Demy. Menos discutível ainda é o facto de este filme ser a matriz de toda a sua obra futura, pois nele já surgem todos os seus temas, as suas fantasias pessoais, a sua geografia afectiva. Há inclusive a presença de dois personagens que voltarão a aparecer em outros filmes: a própria Lola, que reaparecerá em MODEL SHOP, em Los Angeles, numa posição não muito distante da call girl de luxo (mas o cabaret de LOLA é um idealizado bordel, análogo à Maison Tellier de LE PLAISIR de Ophuls) e Cassard, com quem a personagem de Catherine Deneuve se casará em LES PARAPLUIES DE CHERBOURG. Neste filme, Cassard canta “Outrora amei uma mulher que se chamava Lola/Ela não me amava/Outrora…”, sobre a melodia que o identifica e o acompanha em LOLA (o grande amor de Lola, Michel, também é identificado por um leit-motiv, um tema de Beethoven).

LOLA, cujo título é, entre outras coisas, uma alusão a Lola-Lola, a personagem de Marlene Dietrich em O ANJO AZUL, começa com uma dupla homenagem ao cinema: primeiro, o uso do scope a preto e branco, que causa uma sempre renovada surpresa ao espectador, já no plano de abertura, em que um luxuoso carro descapotável percorre uma cidade à beira-mar (no plano final vemos o mesmo carro indo na direcção oposta); depois a dedicatória a Max Ophuls, em cuja descendência Demy se situa e que é sublinhada pelo proverbio chinês que serve de epígrafe ao filme (“Ri quem quer, chora quem pode”). Ophuls é o cineasta dos amores agridoces, dos temas sérios sob a aparente frivolidade, dos encontros e desencontros, do que poderia ter sido e não foi, da felicidade sempre efémera e transitória (LIEBLEI, MADAME DE…, LE PLAISIR, LA RONDE, LETTER FROM AN UNKNOWN WOMAN). Demy também será o cineasta destes temas, destes encontros e desencontros amorosos, em LOLA, LES PARAPLUIES DE CHERBOURG, LES DEMOISELLES DE ROCHEFORT, MODEL SHOP, que formam o corpo principal da sua obra, um bloco central dos quais os filmes subsequentes serão variantes mais ou menos felizes.

Antes porém de contar uma história, LOLA define um espaço, o espaço da geografia afectiva de Demy, o cenário das suas mitologias, num perímetro demarcado por algumas tristes cidades do litoral atlântico francês, que o seu cinema transfigurará em espaços quase mágicos, a Cherburgo dos chapéus de chuva, a Rochefort das duas gémeas, a Nantes (cidade natal do cineasta) de LOLA e de UNE CHAMBRE EN VILLE. Apaixonado pela sua cidade natal, como todo provinciano, Demy imortalizará alguns dos seus espaços neste seu primeiro filme, as fachadas do teatro de ópera e do cinema Katorza, a cervejaria La Cigale (cenário do cabaret), a elaborada galeria comercial oitocentista que é a Passage Pommeraye, um espaço eminentemente cénico, que também é um dos espaços cruciais de LOLA, pois é aí que ela e Cssard se reencontram e é aí que começa a aventura ilícita de Cassard em direcção a terras distantes. Mas as cidades de província, mesmo amadas, são muitas vezes simples pontos de partida, são abandonadas por aqueles que vão em direcção a outras terras, por mar, quando se é marinheiro, ou quando se embarca para uma volta ao mundo, como Frankie ou Cassard, por terra, quando se “sobe” para Paris. E, quer busquem quer fujam, todos os protagonistas de LOLA partem: ela, o marinheiro, Cassard, Cécile e a sua mãe.

LOLA articula-se à volta de pares de personagens: Lola/Michel, Lola/Cassard, Lola/Frankie; Cécile/a sua mãe; a mãe de Cécile/Cassard; Cécile/Frankie. Deste modo, como nas DEMOISELLES DE ROCHEFORT, Demy expõe várias facetas da relação amorosa: a espera pelo amor ideal que se perdeu, o amor sem reciprocidade, a aventura sem amanhã, o regresso a um amor passado, a descoberta inesperada do primeiro amor. Teimosamente à espera do milagroso regresso de Michel, que acaba por se concretizar, Lola recusa Cassard e Frankie.; percebendo que não poderá ter Cassard (“o nosso primeiro jantar já é um jantar de despedida”), a mãe de Cécile resigna-se a voltar para o ex-amante, ao passo que Cécile, no dia em que faz 14 anos, apaixona-se sem o saber muito bem por um marinheiro americano (e o nome de baptismo de Lola é Cécile). Estes jogos de simetrias, tão tipicamente franceses, herdeiros das tradições do teatro clássico, mantém todas estas relações no plano da representação, um plano ideal, acima das vicissitudes humanas. Note-se o deliberado artifício do modo de falar das mulheres (Lola, Cécile, a sua mãe), num contraste com a sóbria naturalidade dos homens. Estes jogos de simetrias permitem elegância e sentido das proporções, mas não tolhem nunca a intensidade daquilo que é vivido. Por isto, não é assim tão absurdo evocar Mozart a propósito de Demy, como alguns o fizeram, pois Demy parece saber, como o Don Alfonso do Cosi fan Tutte, que quem “non può quel che voglie, vorrà quel che può”. Dos cinco protagonistas do filme, só Lola terá aquilo que quer, por um pequeno milagre. Os outros deverão querer aquilo que podem.

Resta a mise en scène, que também é um pequeno milagre. Demy acerta em cheio no seu primeiro filme, não hesita, nem procura: encontra de imediato o seu sistema de cinema, com uma elegância e uma fluidez, numa palavra, com uma perfeição indescritível. Cineasta moderno, Demy já nasceu clássico. Cineasta principiante, fez do seu primeiro filme uma obra-prima. (António Rodrigues, in As Folhas da Cinemateca).

Apoio do Institut Français du Portugal

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s