10 de Maio, 19h: “Cópia Certificada”

Realização: Abbas Kiarostami

Interpretação: Juliette Binoche, William Shimell, Jean-Claude Carrière

FRA/ITA/BEL, 2010, 106’, M/12

Ele (o barítono William Shimell) é um escritor inglês em busca de um significado para a vida. Ela (Juliette Binoche) é uma galerista francesa em busca de originalidade. Quando, depois de uma conferência dele, se conhecem, decidem passear por uma pequena cidade no sul da Toscana, onde embarcam num jogo: durante todo aquele dia vão fingir ser um casal. Contudo, a forma como inventam essa relação é de tal modo convincente que acabam por se tornar de facto um, criando assim a sua própria história de amor.
Último filme do realizador iraniano Abbas Kiarostami (“O Sabor da Cereja “, “Através das Oliveiras” “O Vento Levar-nos-á”, “Shirin”) esteve em competição na edição de 2010 do Festival de Cannes, valendo a Juliette Binoche o prémio de melhor actriz. (Fonte: Cinecartaz Público)

A movie review by James Berardinelli

For roughly the first 50 minutes of its running time, Certified Copy progresses like a straightforward drama with romantic inclinations. Two characters, a well-known British author named James Miller (William Shimell) and an unnamed woman (Juliette Binoche) who is a fan, spend an afternoon together in her antiques shop, taking a road trip in her car, and wandering the streets of a little town in Tuscany. They discuss philosophy, often returning to his assertion that, in art, a copy can be as good as the original. To bolster his argument, he points out that the Mona Lisa isn’t an original – it’s Leonardo Da Vinci’s copy of a real woman’s face. And when a copy is more beautiful than its source, why should it be denigrated? These are issues that writer/director Abbas Kiarostami lays out for the audience during the movie’s first half. Is there a payoff? Perhaps. It depends on individual interpretation of what happens beyond the mid-way point.

While in the village, James and the woman visit a coffee shop. He steps outside to take a phone call while she remains within, chatting with the lady who owns the place. The proprietress mistakes her customers for a married couple and remarks that James is a wonderful husband. This “mistaken identity” allows the woman to reveal a catalogue of deficiencies attributable to her “husband.” When James returns, she tells him of the proprietress’ assumption and he decides to “play along.” For the rest of the movie, they interact and argue like a married couple whose fifteenth anniversary has recently passed. She’s annoyed with his rarely being home, with his cold demeanor, and with his having left her to raise their son on her own. A viewer who starts watching Certified Copy around the mid-point will experience nothing more radical than a simple story of a man and a woman assessing the state of their marriage.

The central puzzle is, of course, how to reconcile the two halves – something that can be done, but not seamlessly. One interpretation is that the first 50 minutes represents role-playing on the part of the husband and wife – a way to spice up their marriage. Another interpretation is that the final 50 minute segment is when the role-playing takes place – these two are strangers but the woman is using the man as a stand-in for her husband, and he is a willing participant. The evidence – such as the reaction of the teenage son – weigh in favor of the latter, although not overwhelmingly so. And perhaps the title offers a clue. Consider: could it be that the “marriage” between James and the woman is not real but a “copy” of her actual marriage?

It’s possible that neither interpretation is correct. Kiarostami has left this intentionally obtuse, almost maddeningly so. Perhaps the best way to watch Certified Copy is to simply accept the disconnect and focus on the particulars of the conversation at any time – including the dialogue, the filming technique, and the superb performances. The level of artifice is high – it’s impossible to lose oneself in the story because the framing tugs at the viewer, reminding him that the “reality” of the film’s world is not consistent. The basic plot – a man and a woman traveling and talking – is reminiscent of Richard Linklater’s Before Sunrise/Before Sunset films, but the way in which Certified Copy calls into question the nature of reality is more akin to Inception.

Juliette Binoche, who is an international star, and William Shimell, who is not, are effective foils for one another. Binoche’s performance resonates forcefully because her character is on an emotional roller coaster. If there’s an arc, it’s for her character, not his. She begins as a star-struck fan then passes through a gradual phase of disillusionment as James doesn’t live up to her expectations. Then she’s the aggrieved wife who has been left alone while he travels around the world putting work on a higher pedestal than his family. The audience sees things more through her eyes than his, which lends credence to the possibility that, in the second half, he has become a stand-in for her husband, not the real thing. At any rate, both performances are strong; in spite of how the script contorts their world, we care about them.

Kiarostami, the acclaimed Iranian director whose canvas has moved beyond his native country, directs with a slow, unhurried pace. He favors long, unbroken takes and close-ups. Often, he will use unexpected angles, such as when his camera focuses not on the person speaking but on someone peripherally involved in the scene. Kiarostami’s approach intensifies intimacy but, in a movie of this sort, it also creates a deeper sense of unease.

Certified Copy doesn’t offer easy answers, although it asks plenty of questions. In some ways, it’s a simple character drama, but the central conundrum disallows an uncomplicated interpretation. I was never bored. The first half is just long enough to get us to know the characters and, after that, my mind was working overtime rationalizing what was happening. Ultimately, understanding is not the most important thing about Certified Copy; making the effort to understand is.
Abbas Kiarostami viajou para Itália. Estamos habituados a vê-lo viajar pelo Irão, entre a cidade e o campo mais remoto, naqueles percursos de automóvel que se tornaram uma das mais reconhecíveis “trademarks” dos seus filmes. Vê-lo a filmar no estrangeiro é uma raridade. “Cópia Certificada”/”Copie Conforme”, rodado na Toscana, é apenas a sua segunda longa feita fora do Irão, depois de um documentário, “ABC Africa”, realizado em 2001 a convite das Nações Unidas. Mais do que apenas um filme feito no estrangeiro, “Cópia Certificada” é um filme estrangeiro, com produção francesa (a MK2 de Marin Karmitz), actores “internacionais” (Juliette Binoche e o cantor de ópera William Shimmel, um “não-actor”, certo, mas por todas as razões um “não-actor profissional”), e nenhuma relação directa com qualquer contexto iraniano (nenhuma relação directa, mas as relações “obliquas” dariam pano para mangas). No meio de tanta novidade, constitui, por paradoxal que pareça, algo como um regresso: é o mais “clássico” dos filmes de Kiarostami desde o já longínquo “O Vento Levar-nos-á” (1999), seja no modo de fazer seja na linearidade da estrutura narrativa.

É “Cópia Certificada” uma cópia conforme, “made in Italy”, do cinema de Kiarostami? O tema da “cópia”, e do lugar da cópia na “arte” e na “vida”, percorre o filme de diversas maneiras, desde o mote (uma conferência de um historiador de arte, a personagem de Shimmel, sobre cópias e plágios na arte ocidental) à conclusão, quando, idealmente, o espectador já não sabe distinguir se é a “arte” que copia a “vida” se é ao contrário. Portanto, nessa medida, sim, diríamos que Kiarostami se dispõe a jogar o jogo da estranheza e do reconhecimento, preservando traços do seu cinema (“copiando-se”, portanto), como os travellings de automóvel com longas cenas de diálogo, no meio de tudo o que é novo e estranho. Até mais do que isso, não é descabido ver em “Cópia Certificada” um daqueles filmes de “impasse” e auto-reflexão que os grandes cineastas têm tendência a fazer – e há pelo menos uma frase dita pela personagem de Shimmel, “ser simples não tem nada de simples”, que podia ser assinada pelo próprio Kiarostami (e de resto, é ele quem a assina: o argumento e os diálogos são dele).

Na relação com as personagens e com as situações o desdobramento entre “cópias” e “originais” adensa-se. Shimmel e Binoche começam o filme como dois desconhecidos, ela é uma galerista admiradora dos livros dele mas isso parece ser tudo. Nas horas que se seguem, em passeios por aldeias e igrejas toscanas, a proximidade acaba por cruzar uma fronteira qualquer, como se em pouco tempo Shimmel e Binoche deixassem de ser desconhecidos para passarem a ser um casal com uma longa história. Inútil tentar explicar a natureza dessa transformação: ela é o fulcro do filme, como se através dum “raccourci” temporal Kiarostami quisesse filmar um arco de anos na vida de um casal, sem tornar precisa a linha entre a “representação” (a “cópia”: duas personagens que “imitam” um casal?) e a “genuinidade” da sua condição. Esse mistério, acrescido à situação e ao cenário italiano, tem levado muita gente a falar de “Cópia Certificada” como uma “homenagem” à “Viagem à Itália” de Rossellini. Com certeza que Kiarostami faz a sua vénia, e que a conjugalidade nunca ocupou assim o espaço dos seus filmes iranianos; mas está longe de ser um “remake”. Não mais “remake”, nesse caso, do que outros filmes de Kiarostami: se pensarmos naquela célebre tirada que Rivette escreveu, à época, sobre o filme de Rossellini (que “abria uma brecha pela qual todo o cinema moderno devia forçosamente passar”), torna-se evidente que todo o cinema de Kiarostami passou pela “brecha” aberta pela “Viagem” (até no uso dos automóveis…), e que a ser alguma coisa do género, este filme será sobretudo o reconhecimento “conforme” de uma dívida.

A outra questão interessante – e “oblíqua” – do filme está no facto de ele não mergulhar apenas num universo artístico mas também num universo religioso, numa relação (arte/religião, arte de inspiração religiosa) que em parte define muito daquilo que entendemos por cultura europeia clássica. Kiarostami sai do Irão para se ir instalar no coração do Renascimento: se há coincidência e só coincidência nisto, acredite quem quiser. Porque o que ele evoca é um mundo em que a Arte se equiparou à Religião enquanto linguagem e expressão de uma relação com o mundo e com os seus mistérios. (Luís Miguel Oliveira, in Ypsilon)

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