19 de Abril, 19h: “Declaração de Guerra”

Realização: Valérie Donzelli

Interpretação: Valérie Donzelli, Jérémie Elkaïm, César Desseix

FRA, 2011, 100’, M/12

Roméo e Juliette (Jérémie Elkaïm e Valérie Donzelli) formavam um casal feliz. Amavam-se, faziam planos e sonhavam com um futuro sem contrariedades. E quando têm o bebé com que sempre sonharam, tudo lhes parece perfeito. Porém, à medida que Adam cresce, e por mais que ambos o queiram negar, torna-se evidente que algo se passa, e que a sua constante inquietação e choro sem motivo aparente têm uma razão de ser. E é assim que se deparam com a trágica notícia de que o filho carrega um tumor cerebral. Desesperados e com tudo à sua volta a entrar em colapso, apenas lhes resta um caminho: encontrar coragem, conhecer todas as formas de luta e declarar guerra à doença.

Fonte: Cinecartaz Público

 
A história semi-verdadeira de um casal que faz uma “declaração de guerra” à doença do filho é um filme pop celebratório que recusa o melodrama de puxar à lágrima
Se se disser que este é um filme sobre a luta tenaz e persistente de um jovem casal parisiense contra o tumor maligno do seu filho de dois anos, é provável que a primeira coisa que venha à cabeça seja a ideia de um melodrama de puxar à lágrima, cheio de cordas delicodoces, sofrimento digno, etc., etc. Ainda por cima, Valérie Donzelli e Jérémie Elkaïm, ambos actores e argumentistas, ela também realizadora, estão a ficcionar sobre a sua própria vida – o casal parisiense eram eles, o filho com um tumor era o filho deles, Gabriel. E depois, muito rapidamente, percebemos que, à imagem do seu título, não é absolutamente nada disso que “Declaração de Guerra” é, e ainda bem que não o é.

Valérie e Jérémie transfiguram-se em Roméo e Juliette, e nessa assunção dos nomes do casal de Shakespeare cujo amor declarou guerra à morte define-se a recusa terminante do melodrama lacrimejante por parte da dupla. “Porque é que isto nos aconteceu?”, perguntam a certa altura, e respondem “Porque somos capazes de ultrapassá-lo”. Sem pedir compaixão nem se armarem em duros, sem cair nos lugares-comuns do filme da doença, Donzelli e Elkaïm falam, mais do que da doença, do amor, do amor em luta, do modo como a provação que têm de atravessar juntos os une, como essa luta dá à vida e ao amor uma nova força, um novo objectivo. Filmando com uma urgência veloz e sôfrega, Valérie Donzelli assume uma dimensão de filme pop, intuitivo, celebratório, perseguindo a emoção de modo enxuto e sem se abandonar à comiseração, porque este é um filme sobre a recusa de baixar os braços e a vontade de afirmar cada momento da vida como se fosse o único. E fá-lo com uma energia vital de fazer inveja a muito boa gente.

Mas é complicado manter essa energia sempre ao mesmo nível durante hora e meia, e inevitavelmente ela começa a esgotar-se – porque mesmo uma luta contra o desespero acaba por se tornar uma rotina com o correr do tempo, como também se mostra – e quando isso acontece Donzelli não sabe muito bem como a substituir, o motor começa a abrandar, o filme começa a afundar-se num convencionalismo que não se esperaria nem se desejaria, como se a fadiga do combatente acabasse por contaminar o filme. Isso não anula o que de bom há em “Declaração de Guerra”, e sobretudo apenas reforça a sua admirável recusa de ser mais um filme sobre a doença. Mas torna-o num filme desequilibrado pela sua própria ambição, cuja recusa do pudor bem-comportado e desejo celebratório paredes meias com a exposição da intimidade corre demasiadas vezes o risco de ser simples energia a rodar em seco. (Jorge Mourinha, in Ipsilon)

 

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